domingo, 19 de maio de 2019

(Ainda não) é a hora




            Nem sempre estamos preparados para escrever sobre determinados temas. Nem sempre temos uma visão clara das várias possibilidades de interpretação dos acontecimentos que nos caem em cima todos os dias. Nem sempre queremos ver o lado da razão. A voragem do tempo (onde é que eu já li isto?) deixa-nos cegos, porque a velocidade com que somos obrigados a reagir nem sempre nos deixa pensar nas palavras certas para nos sentirmos, nós próprios, esclarecidos sobre aquilo de que temos dúvidas. Mas não é por isso que muitos dos nossos concidadãos se coíbem de espalhar aos quatro ventos a sua opinião. E têm-na sobre todos os temas, desde o futebol ao fado, da religião às culturas forrageiras, do fenómeno Osiriano à forma como se devem comer uvas sem bagas ou mesmo pastéis de Belém com dois pufes de canela.

Eu, cá por mim, sempre gostei de dar a minha opinião e, por vezes, devo assumi-lo, falo até sobre coisas que não são a minha praia. Contudo, fico sempre a saber mais quando me engano, quando exagero nos comentários, quando não consigo convencer muitos de que tenho alguma dose de razão ao dizer o que esses não gostam de ouvir, sobretudo se ocupam cargos públicos, dos quais dependem o nosso bem-estar e o nosso futuro. E quando afirmo que Montemor está a viver uma das piores fases das últimas décadas em termos de imagem e de organização de alguns serviços públicos, acabo sempre por receber alguns esclarecimentos, nem sempre isentos partidariamente, e nem sempre dirigidos aos factos que aponto ou descrevo. Porque há que defender a todo o custo os erros que dão trabalho a corrigir. E porque, no palco da política, os actores procuram sempre, como é óbvio, que o público não se aperceba dos movimentos nos bastidores.
           
Foi muito falado na altura, há menos de um mês, o célebre almoço oferecido pela autarquia aos seus trabalhadores, no dia 24 de Abril, como celebração do dia seguinte, que marcava os 45 anos daquela revolução que me permite escrever estas coisas. Levantaram-se vozes críticas, e, na minha opinião, certeiras, quando se verificou o transtorno que tal almoço veio provocar na dinâmica de determinados serviços relacionados com algumas escolas do concelho. Ainda que uma verdade indesmentível, não houve por parte dos responsáveis, pelo menos que eu tenha sabido, uma justificação cabal e lógica para tal procedimento. Almoço merecido, sem dúvida. Mas no momento errado. Por isso, deverá haver a necessária abertura e a humildade correspondente para a sua correcção em momentos futuros. Nada mais simples.
           
Continua a ser um verdadeiro calcanhar de Aquiles a obra que envolve o Jardim, a Rua 5 de Outubro, a Rua das Escadinhas, o Largo da República e a Rua de Avis. Os políticos passam por lá com frequência, em passeio ou em funções, e apercebem-se, tanto quanto os moradores e comerciantes daquelas zonas, da situação caótica em que todos se viram mergulhados, com ruas esburacadas, inundadas com as águas da chuva, ficando os transeuntes e os que ali vivem e trabalham num verdadeiro estado de nervos. Podemos reclamar, naturalmente que sim, marcar bem o nosso desagrado, publicar petardos nas redes sociais, mas temos de ser rigorosos, lógicos e intelectualmente honestos. Por muito que todos tenham razão, a autarquia e os responsáveis que lá vivem não têm, na minha opinião, de ser responsabilizados pela chuva, pela lama, pelo pó, pelos buracos ou pela aparente demora das obras. Para que toda aquela zona tenha um novo aspecto, provavelmente mais prático e esteticamente mais agradável, todo este movimento inestético, abusivo e prejudicial às nossas rotinas e ao sustento de alguns de nós é necessário e indispensável.

Mas se, por outro lado, os políticos da terra, de todos os quadrantes, pretendem utilizar esta questão como arma política para começar a discutir antecipadamente as próximas eleições autárquicas, julgo que não será esse o melhor caminho. Se, porventura, a inauguração deste espaço renovado coincidir com as vésperas dessa ida às urnas (lá para 2021), tal não será de admirar, pois o mesmo aconteceria com qualquer outro partido que governasse a câmara. (É a política, meus senhores!) E temos essa perfeita noção quando, em termos nacionais, assistimos às andanças de António Costa e demais familiares nestes tempos de eleições europeias e nacionais. As obras, essas, são absolutamente inocentes em relação a tudo isso e o executivo que as mandou fazer não tem de ser penalizado nas urnas pelos atrasos ou pelos avanços, pela chuva ou pela seca, que vão acompanhando todo o processo. A discussão para as autárquicas e a penalização nas urnas, se a houver, tem de ter outra base de diálogo. Deve discutir-se, isso sim, a necessidade de um urgente progresso económico do concelho e a consequente fixação de jovens à terra que os viu nascer ou onde decidiram viver a sua vida; deve ser implementada a aplicação de benefícios fiscais para quem, corajosamente, investe na cidade e no concelho, contra todas as marés e todos os velhos do restelo; é inadiável o investimento na desburocratização da nossa vida diária e na imperiosa necessidade de uma maior justiça no apoio às associações, em particular, e à cultura, em geral.
É por isso que esses debates devem passar, em primeiríssimo lugar, pela aceitação das opiniões de todos e pela vontade manifesta de uma abertura total em relação ao ajuste e à correcção do que deve ser melhorado. Para tal, há opções que devem ser feitas. Uma delas, fundamental na minha perspectiva, passa, obviamente, por uma maior libertação das orientações partidárias e pelo assumir, sem constrangimentos, que o autarca está em primeiro lugar e sempre ao serviço da população que o elegeu e não do partido que o lançou como candidato.

Sem querer fazer futurologia, acredito que, se não se operar uma mudança nos seus estatutos internos e nas suas ideologias antiquadas e “direccionistas”, os partidos têm os dias contados. Poderá ser apenas daqui a duas ou três décadas, mas os movimentos de cidadãos “livres” acabarão por ser a solução que marcará a diferença no nosso panorama autárquico. Porque também eles são conhecedores dos concelhos e dos aparelhos autárquicos que os governam e porque também eles mostram ter consciência das carências dos munícipes e da urgência de progresso nas suas terras. A marcar a diferença está a sua acrescida vontade ilimitada de construir uma comunidade mais unida, mais amiga e mais interessada nos seus vizinhos, independentemente das suas origens sociais e das suas ideologias políticas ou religiosas.
Estamos a viver no futuro. O passado já foi.

Sei que ainda não é a hora. Mas a hora soará.

João Luís Nabo

In O Montemorense, Maio 2019

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