
Ideias velhas, recicladas a bem do ambiente intelectual português. (E algumas intimidades partilháveis)
sexta-feira, 25 de abril de 2008
quarta-feira, 23 de abril de 2008
"Sei que não vou por aí"
No dia 25 de Abril de 1974, na ingenuidade dos meus treze anos, logo que os tanques desceram a nossa avenida Gago Coutinho, vindos de Estremoz, em direcção a Lisboa para dar apoio ao Capitão Salgueiro Maia (ninguém fazia a menor ideia quem era), entendi que algo ia mudar. A professora de Matemática mandou-nos para casa nessa quinta-feira, ficando o teste escrito adiado sine die. Tão ou mais badalado do que o feriado foi o facto de a professora Jesuína nos ter dito: “Vão-se embora, meninos. Hoje não há mais aulas.” Teste de Matemática adiado? Então a coisa era mesmo séria.
E era.
Nessa tarde de folga, em conversa lá em casa, fiquei com a certeza de que os meus pais sabiam mais de política do que eu jamais tinha imaginado. E explicaram-me o que estava a acontecer. O governo de Marcello Caetano tinha sido derrubado, Américo Tomás, ou o corta-fitas como eu os ouvia chamar-lhe de vez em quando, também não tinha condições para continuar no cargo e o povo andava na rua, livremente, sem nada nem ninguém que o segurasse.
Tinha chegado a Liberdade.
As facturas que temos vindo, aos poucos, a pagar por ela, com essas ninguém fez conta, tal era o entusiasmo e a fartura de meio século de ditadura e do consequente silêncio, dos maus tratos e da censura, das prisões e das torturas, das mortes e dos exílios e da miséria em que vivia a maioria do povo deste país. Impressionado pelas narrativas de muitos presos políticos, quer na televisão, quer em livros e jornais, fiquei com um fascínio, sem aparente justificação, pelo Forte de Peniche que eu vira pela primeira vez, a preto e branco, na televisão, quando libertaram os presos, um ou dois dias depois da revolução. É de tal ordem esta atracção, que todos os anos faço uma peregrinação até à velha fortaleza. Já lhe conheço os cantos, mas ainda não cansei o olhar nem a vontade de me passear por entre aquelas paredes onde muitos morreram para que eu hoje pudesse escrever estas linhas. Estas e outras. E levo comigo os meus filhos e conto-lhes as histórias que sei sobre aquele local. Algumas delas que o João do Machado me contou, serenamente, quase sem mágoa, com a pureza dos verdadeiros resistentes, como se falasse de algo acontecido há muitos séculos, sem se aperceber que também, a ele, lhe devemos a liberdade. Fazem-me perguntas, os gaiatos. E eu respondo-lhes. Mas não escondo que nessa revolução de Abril também houve, como em todas as revoluções, pessoas boas e pessoas menos boas, portugueses puros e portugueses com menos pureza de intenções. E falo-lhes dos exageros, das injustiças, das zangas entre pessoas da mesma família, do corte de relações entre amigos. Por causa da política, dos partidos, da revolução. Em nome de um país que renascia das cinzas, sem rumo certo ainda. (“Não sei por onde vou, / não sei para onde vou, / sei que não vou por aí!”).
Está mais do que provado: se acontecem revoluções é porque o próprio estado das coisas exige mudança. Uma revolução é, mal comparada, como um assassinato – o eliminar de um passado que se quer definitivamente afastado: para tal tem de haver oportunidade, motivo, arma e executante. E havia tudo isto. Mas nem todas as situações foram acauteladas. Porque não se sabe, porque não se tem experiência de fazer revoluções, ou porque se confia demasiado nos revolucionários. Sobretudo, porque uma revolução não se agarra depois de solta.
Trinta e quatro anos depois, já sem palavras de ordem escritas nas paredes, sem as sedes de alguns partidos incendiadas, sem ataques bombistas legitimados pela palavra revolução, com o pó já a repousar nas estradas deste país, com os ânimos menos exaltados e algumas pazes já feitas entre moradores da mesma rua, e analisados os factos, mesmo por alto, sabemos (sentimos) que o saldo foi positivo. Hoje sabemos que a liberdade tem um preço e, embora haja feridas por sarar, longe vão os dias de medo e insegurança vividos no Alentejo e em Montemor, mesmo depois da madrugada revolucionária que entrou nas nossas vidas, impregnada de um romantismo que, aos poucos, se desfez.
A terminar este apontamento, recordo-me do ano em que Salazar morreu: 1970. O dia fui confirmá-lo há pouco: 27 de Julho. Consequência da histórica queda de uma cadeira, tombo que arrastaria consigo, aos poucos, o regime já meio apodrecido e em lenta implosão. Pois nesse dia, assim que o meu pai chegou a casa para almoçar, a minha mãe foi logo ter com ele e disse-lhe em voz baixa, parecendo aparentar um certo alívio: “Acabou de dar na Emissora. O homem já morreu.”. “Quem?”, perguntei eu do alto dos meus nove anos. Já não sei precisar a exactidão da resposta que a minha mãe me deu, mas lembro-me que se virou para mim e, com uns olhos que não admitiam desobediências, sentenciou mais ou menos assim: “Não se fala deste assunto com ninguém”.
Só anos mais tarde vim a perceber o porquê da preocupação estampada naquele olhar.
E era.
Nessa tarde de folga, em conversa lá em casa, fiquei com a certeza de que os meus pais sabiam mais de política do que eu jamais tinha imaginado. E explicaram-me o que estava a acontecer. O governo de Marcello Caetano tinha sido derrubado, Américo Tomás, ou o corta-fitas como eu os ouvia chamar-lhe de vez em quando, também não tinha condições para continuar no cargo e o povo andava na rua, livremente, sem nada nem ninguém que o segurasse.
Tinha chegado a Liberdade.
As facturas que temos vindo, aos poucos, a pagar por ela, com essas ninguém fez conta, tal era o entusiasmo e a fartura de meio século de ditadura e do consequente silêncio, dos maus tratos e da censura, das prisões e das torturas, das mortes e dos exílios e da miséria em que vivia a maioria do povo deste país. Impressionado pelas narrativas de muitos presos políticos, quer na televisão, quer em livros e jornais, fiquei com um fascínio, sem aparente justificação, pelo Forte de Peniche que eu vira pela primeira vez, a preto e branco, na televisão, quando libertaram os presos, um ou dois dias depois da revolução. É de tal ordem esta atracção, que todos os anos faço uma peregrinação até à velha fortaleza. Já lhe conheço os cantos, mas ainda não cansei o olhar nem a vontade de me passear por entre aquelas paredes onde muitos morreram para que eu hoje pudesse escrever estas linhas. Estas e outras. E levo comigo os meus filhos e conto-lhes as histórias que sei sobre aquele local. Algumas delas que o João do Machado me contou, serenamente, quase sem mágoa, com a pureza dos verdadeiros resistentes, como se falasse de algo acontecido há muitos séculos, sem se aperceber que também, a ele, lhe devemos a liberdade. Fazem-me perguntas, os gaiatos. E eu respondo-lhes. Mas não escondo que nessa revolução de Abril também houve, como em todas as revoluções, pessoas boas e pessoas menos boas, portugueses puros e portugueses com menos pureza de intenções. E falo-lhes dos exageros, das injustiças, das zangas entre pessoas da mesma família, do corte de relações entre amigos. Por causa da política, dos partidos, da revolução. Em nome de um país que renascia das cinzas, sem rumo certo ainda. (“Não sei por onde vou, / não sei para onde vou, / sei que não vou por aí!”).
Está mais do que provado: se acontecem revoluções é porque o próprio estado das coisas exige mudança. Uma revolução é, mal comparada, como um assassinato – o eliminar de um passado que se quer definitivamente afastado: para tal tem de haver oportunidade, motivo, arma e executante. E havia tudo isto. Mas nem todas as situações foram acauteladas. Porque não se sabe, porque não se tem experiência de fazer revoluções, ou porque se confia demasiado nos revolucionários. Sobretudo, porque uma revolução não se agarra depois de solta.
Trinta e quatro anos depois, já sem palavras de ordem escritas nas paredes, sem as sedes de alguns partidos incendiadas, sem ataques bombistas legitimados pela palavra revolução, com o pó já a repousar nas estradas deste país, com os ânimos menos exaltados e algumas pazes já feitas entre moradores da mesma rua, e analisados os factos, mesmo por alto, sabemos (sentimos) que o saldo foi positivo. Hoje sabemos que a liberdade tem um preço e, embora haja feridas por sarar, longe vão os dias de medo e insegurança vividos no Alentejo e em Montemor, mesmo depois da madrugada revolucionária que entrou nas nossas vidas, impregnada de um romantismo que, aos poucos, se desfez.
A terminar este apontamento, recordo-me do ano em que Salazar morreu: 1970. O dia fui confirmá-lo há pouco: 27 de Julho. Consequência da histórica queda de uma cadeira, tombo que arrastaria consigo, aos poucos, o regime já meio apodrecido e em lenta implosão. Pois nesse dia, assim que o meu pai chegou a casa para almoçar, a minha mãe foi logo ter com ele e disse-lhe em voz baixa, parecendo aparentar um certo alívio: “Acabou de dar na Emissora. O homem já morreu.”. “Quem?”, perguntei eu do alto dos meus nove anos. Já não sei precisar a exactidão da resposta que a minha mãe me deu, mas lembro-me que se virou para mim e, com uns olhos que não admitiam desobediências, sentenciou mais ou menos assim: “Não se fala deste assunto com ninguém”.
Só anos mais tarde vim a perceber o porquê da preocupação estampada naquele olhar.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Útil, este Antigo Testamento...
"And what if it pours for more than 5 minutes in a row?", perguntou o rato às ratinhas."You shall all perish like f* dogs." - cortou uma das girafas, piscando o olho às amiguinhas.
Noé, notando a preocupação dos animais, e vendo que o sistema de escoamento da sua cidade não era lá muito de confiança, decidiu que iria começar a construir um barco nessa mesma noite. Assim que acabasse a novela da TVI.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Já não se fazem cadeiras como antigamente

Há 34 anos, um grupo de militares saiu de Santarém e tomou Lisboa de assalto. O povo acorreu às ruas e viu que o país estava à beira da mudança. Tinha chegado ao fim o regime totalitarista iniciado com o golpe de 28 de Maio de 1926 e que se havia de manter até ao dia 24 de Abril de 1974. Portugal salazarista parecia ter chegado ao fim. Portugal salazarento havia de perpetuar-se porque as mentalidades não mudam com uma revolução. Por muitos cravos que se ponham nas espingardas.
Os presos políticos saíram das cadeias, a censura foi abolida, foi (re)instituída a liberdade de expressão, de reunião e de opção partidária. O estatuto de “orgulhosamente sós” deixou de fazer sentido e fomos matriculados numa escola europeia onde aprendemos que para receber é necessário dar. Fomos ficando menos ignorantes, escreveram-se novos livros, novas canções, novos poemas. Os que tinham vivido no exílio regressaram ao país em festa. O povo andava feliz e disse em alta voz que nunca mais queria saborear as delícias de uma ditadura, que nunca mais queria ser oprimido e obrigado a viver abaixo dos limites da pobreza. Gritou durante dias e meses, até ficar tudo bem claro, não à censura, não à violência policial, não à discriminação, sim à educação para todos, sim ao respeito por quem trabalha, à alfabetização, à igualdade de oportunidades, à justiça social. Manifestou uma confiança cega nos governantes que, com o voto do povo, geriram os seus destinos, porque os políticos haviam de saber o que era melhor para o seu povo, amordaçado havia quase meio século. Pois.
Há muitos anos, o britânico George Orwell escreveu um livrinho chamado Animal Farm e que se encontra publicado em português com o título O Triunfo dos Porcos. Ao relê-lo não consigo deixar de admirar cada vez mais a visão e a sensibilidade daquele escritor britânico. Se eu não soubesse que aquela história revolucionária passada na Quinta do Sr. Jones tinha sido escrita em 1945, era levado a acreditar que o autor tinha vivido em Portugal nos últimos 34 anos.
No livro só falta entrar uma cadeira que, pela sua fragilidade, ajudou a derrubar um regime, mas que depressa foi substituída por uma poltrona de veludo com oito pernas, não vá o diabo (ou o povo) tecê-las.
Os presos políticos saíram das cadeias, a censura foi abolida, foi (re)instituída a liberdade de expressão, de reunião e de opção partidária. O estatuto de “orgulhosamente sós” deixou de fazer sentido e fomos matriculados numa escola europeia onde aprendemos que para receber é necessário dar. Fomos ficando menos ignorantes, escreveram-se novos livros, novas canções, novos poemas. Os que tinham vivido no exílio regressaram ao país em festa. O povo andava feliz e disse em alta voz que nunca mais queria saborear as delícias de uma ditadura, que nunca mais queria ser oprimido e obrigado a viver abaixo dos limites da pobreza. Gritou durante dias e meses, até ficar tudo bem claro, não à censura, não à violência policial, não à discriminação, sim à educação para todos, sim ao respeito por quem trabalha, à alfabetização, à igualdade de oportunidades, à justiça social. Manifestou uma confiança cega nos governantes que, com o voto do povo, geriram os seus destinos, porque os políticos haviam de saber o que era melhor para o seu povo, amordaçado havia quase meio século. Pois.
Há muitos anos, o britânico George Orwell escreveu um livrinho chamado Animal Farm e que se encontra publicado em português com o título O Triunfo dos Porcos. Ao relê-lo não consigo deixar de admirar cada vez mais a visão e a sensibilidade daquele escritor britânico. Se eu não soubesse que aquela história revolucionária passada na Quinta do Sr. Jones tinha sido escrita em 1945, era levado a acreditar que o autor tinha vivido em Portugal nos últimos 34 anos.
No livro só falta entrar uma cadeira que, pela sua fragilidade, ajudou a derrubar um regime, mas que depressa foi substituída por uma poltrona de veludo com oito pernas, não vá o diabo (ou o povo) tecê-las.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Precipitaçãozinha

A história do telemóvel já enjoa. A aluna foi transferida, o operador de câmara foi transferido e a professora ficou doente. Depois da divulgação na Net e nas televisões, já se andava a gritar por aí que as escolas do país estavam entregues à bicharada. Cá para mim, a televisão e o resto da comunicação social ajudam a estupidificar o povo que, sem qualquer ajuda, já não anda muito católico. Os sindicatos também dão a sua mãozinha e, quando falam do caso, até parece que foi a Ministra da Educação que mandou a aluna desatar aos berros feita histérica e malcriada.
Penso que devem ficar esclarecidos, de vez, alguns pontos ainda meio desfocados. Primeiro, aquela professora não representa os professores do país (era o que mais faltava); segundo, aquela aluna não representa os alunos do país (nem eles queriam); terceiro, a Escola Carolina Michaëlis não representa as escolas do país (estaríamos todos nos psiquiatras – pais e professores); quarto, os pais que educam aquela filha com tanto esmero não representam os pais do país (safa!).
Depois, é fundamental apurar as responsabilidades. Primeiro, a aluna não devia ter o telemóvel ligado na aula; segundo, a professora não deveria ter-lhe tirado o dito; terceiro, o puto que filmou não devia ter filmado; quarto, os outros alunos deveriam ter adoptado um comportamento diferente do de um bando de bestas quadradas, de baba aos cantos da boca, a gritar por sangue.
Ora bem, se a aluna tem 15 anos e poderia não atingir as consequências deste acto (é jovem, e tal…), já a professora, quase à beira da reforma, deveria ter tido um pouco mais de sangue-frio (mais juízo, em linguagem que se entenda) e jamais deveria ter-se permitido entrar em confronto físico com a rapariga. Se a aluna se recusava a entregar-lhe o aparelho, a professora só tinha de fazer uso do que a lei lhe permite: expulsar a aluna da sala, com marcação de falta e participação por escrito ao Director de Turma. Se a aluna se recusasse a sair, saía a professora alegando falta de condições para continuar o seu trabalho. Uma confusão de empurrões e agarranços, dá cá o telemóvel, não dou (num tom duas oitavas acima do dó central) foi a solução menos inteligente.
E quanto às transferências... Acho que houve ali uma precipitaçãozinha por parte dos órgãos directivos da Carolina Michaëlis. Na minha perspectiva, há sempre uns canteiros na escola que precisam de ser cuidados, salas que precisam de ser varridas, há sempre trabalho a fazer no bar, na cozinha ou na cantina. Serviço cívico durante um ou dois meses. Para as duas. Para a professora e para a aluna. As duas em perfeito trabalho de equipa. E o realizador de cinema? Esse ia fazer estágio para a TVI e seria obrigado a fazer filmagens das sessões do Parlamento durante o resto desta legislatura.
Penso que devem ficar esclarecidos, de vez, alguns pontos ainda meio desfocados. Primeiro, aquela professora não representa os professores do país (era o que mais faltava); segundo, aquela aluna não representa os alunos do país (nem eles queriam); terceiro, a Escola Carolina Michaëlis não representa as escolas do país (estaríamos todos nos psiquiatras – pais e professores); quarto, os pais que educam aquela filha com tanto esmero não representam os pais do país (safa!).
Depois, é fundamental apurar as responsabilidades. Primeiro, a aluna não devia ter o telemóvel ligado na aula; segundo, a professora não deveria ter-lhe tirado o dito; terceiro, o puto que filmou não devia ter filmado; quarto, os outros alunos deveriam ter adoptado um comportamento diferente do de um bando de bestas quadradas, de baba aos cantos da boca, a gritar por sangue.
Ora bem, se a aluna tem 15 anos e poderia não atingir as consequências deste acto (é jovem, e tal…), já a professora, quase à beira da reforma, deveria ter tido um pouco mais de sangue-frio (mais juízo, em linguagem que se entenda) e jamais deveria ter-se permitido entrar em confronto físico com a rapariga. Se a aluna se recusava a entregar-lhe o aparelho, a professora só tinha de fazer uso do que a lei lhe permite: expulsar a aluna da sala, com marcação de falta e participação por escrito ao Director de Turma. Se a aluna se recusasse a sair, saía a professora alegando falta de condições para continuar o seu trabalho. Uma confusão de empurrões e agarranços, dá cá o telemóvel, não dou (num tom duas oitavas acima do dó central) foi a solução menos inteligente.
E quanto às transferências... Acho que houve ali uma precipitaçãozinha por parte dos órgãos directivos da Carolina Michaëlis. Na minha perspectiva, há sempre uns canteiros na escola que precisam de ser cuidados, salas que precisam de ser varridas, há sempre trabalho a fazer no bar, na cozinha ou na cantina. Serviço cívico durante um ou dois meses. Para as duas. Para a professora e para a aluna. As duas em perfeito trabalho de equipa. E o realizador de cinema? Esse ia fazer estágio para a TVI e seria obrigado a fazer filmagens das sessões do Parlamento durante o resto desta legislatura.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Ciúmes

Deixei de fumar vai para 13 anos. Tornei-me, de um dia para o outro, na inveja de muitos amigos fumadores inveterados que, por tudo e por nada, andavam de tocha acesa - porque estavam nervosos, porque estavam descontraídos, porque já tinham jantado, porque era a hora do café, porque ainda não tinham almoçado, porque lhe ofereceram, porque cravaram, porque sim. Eu também era assim. Era, mas já não sou. Vai para 13 anos.
E como consegui esta proeza que muitos tentam com toda a gana, acabando por claudicar nos primeiros dias? Deixei de fumar por ciúmes. Exactamente: por ci-ú-mes!
Leiam, então, atentos e de respiração suspensa (mas sem exagerar) o raciocínio que me levou a tomar uma das decisões mais importantes da minha vida: se os que fumam morrem mais cedo do que os que não fumam (as excepções não contam), então eu, que fumo que nem uma besta, arrisco-me seriamente a morrer muito antes da hora prevista (lá para os noventa e tal, segundo as minhas contas). Se eu sucumbir dentro de meia-dúzia de anos, vítima de uma das muitas doenças provocadas pelo tabaco, a minha fofa, que ainda é uma rapariga nova e bonita, acabará, quatro ou cinco breves lágrimas depois, por recasar. Tenho, pois, de adiar o mais possível a vinda desse tipo (que eu não conheço, mas que já odeio) cá para casa. Onde quer que eu estivesse, não iria aguentar.
(Não há fantasia mais perversa ou pensamento mais arrepiante do que imaginar um desconhecido - ou mesmo conhecido - sentado no meu sofá, a ler os livros que fui coleccionando ao longo de 40 anos, a folhear a minhas partituras, a ouvir os meus vinis ou a maltratar o meu velho piano, companheiro fiel de muitos momentos de introspecção.)
E como consegui esta proeza que muitos tentam com toda a gana, acabando por claudicar nos primeiros dias? Deixei de fumar por ciúmes. Exactamente: por ci-ú-mes!
Leiam, então, atentos e de respiração suspensa (mas sem exagerar) o raciocínio que me levou a tomar uma das decisões mais importantes da minha vida: se os que fumam morrem mais cedo do que os que não fumam (as excepções não contam), então eu, que fumo que nem uma besta, arrisco-me seriamente a morrer muito antes da hora prevista (lá para os noventa e tal, segundo as minhas contas). Se eu sucumbir dentro de meia-dúzia de anos, vítima de uma das muitas doenças provocadas pelo tabaco, a minha fofa, que ainda é uma rapariga nova e bonita, acabará, quatro ou cinco breves lágrimas depois, por recasar. Tenho, pois, de adiar o mais possível a vinda desse tipo (que eu não conheço, mas que já odeio) cá para casa. Onde quer que eu estivesse, não iria aguentar.
(Não há fantasia mais perversa ou pensamento mais arrepiante do que imaginar um desconhecido - ou mesmo conhecido - sentado no meu sofá, a ler os livros que fui coleccionando ao longo de 40 anos, a folhear a minhas partituras, a ouvir os meus vinis ou a maltratar o meu velho piano, companheiro fiel de muitos momentos de introspecção.)
domingo, 30 de março de 2008
"Os filhos não vêm com manual de instruções"

A frase não é minha. Por isso é que está devidamente ‘asperizada’. Foi escrita por alguém (não me lembro quem) que pretende alertar os pais, e adultos em geral, para o facto de cada criança ser um universo que deve ser respeitado em todas as vertentes. E que o que serve para uns não serve para outros, e mánasêquê… Não concordo. E em vez de estar para aqui com grandes lérias, passo a contar o que aconteceu recentemente cá em casa:
“Domingo vamos TODOS almoçar a casa de um amigo”, anunciei democraticamente, num destes dias, a toda a família. “E vai ser prolongado, como eu gosto”. “Eu não posso”, disse-me o João Miguel. “Tenho de estudar História.” (Deves! - pensei) “Eu também não”, avançou o Pedro. “Tenho de ir ter com o Fabinho para jogarmos Pleisteixón”.(‘Tá bem, abelha!- resmordi) “E eu tenho o almoço de anos da Gabi”, concluiu a Joana. (P’ró ano - murmurei.)
Perante estas manifestações igualmente democráticas por parte da filharada, que eu amo e respeito, olhei para a mãe deles à procura de solidariedade, aclarei a garganta e esclareci: “Eu não PERGUNTEI se queriam ir almoçar à casa de um amigo. Eu ANUNCIEI que íamos TODOS almoçar à casa de um amigo. É substancialmente diferente.”
Os sorrisos amarelos sucederam-se. As bochechas descaíram, flácidas, contrariadas, e a minha fofa, sempre atenta às minhas diatribes, apologista da união familiar, principalmente à hora das refeições – que para ela é sagrada - , abanou a cabeça em sinal de desaprovação. E segredou-me: “Tens de ser mais tolerante, coitadinhas das crianças”.
Os filhos, na verdade, não precisam de manual de instruções. A gente vai-lhas dando aos poucos. As mulheres, sim. Em 10 volumes. E com actualização mensal.
quarta-feira, 26 de março de 2008
Os bebés são uma seca *

Pois são. Emitem sons irritantes e sem significado, que me confundem de sobremaneira. Miam, grunhem, berram, guincham, como se tivessem de pagar impostos todos os dias. Por exemplo, como traduzir Brrr! Lááááá! Hiiiiiiiii! Ôhhhhhh! Máaaaa! Páaaaa! Túuuu! Môooooo! Impossível, não é? Cada uma das expressões (?) é mais enigmática que a anterior. Ninguém devia conseguir entendê-los.
Se têm calor, choram, se têm frio, choram, se têm sono, choram, se têm fome, choram, se estão felizes chilreiam vocábulos incompreensíveis, que só a mãe e as avós entendem. E respondem-lhes, convencidas de que estão a travar uma conversa decente e equilibrada. Tenho pessoas na família (e vocês também, caros leitores) que conseguem falar durante mais de 30 segundos com um bebé de 15 dias!! Estonteante, não acham? Já observaram um adulto a falar com um bebé de 15 dias? Fica com ar mais idiota que o do próprio bebé, que só quer sopas e descanso: “Olá! Tá bom, mê quido? Góta da tia, góta? Góta da mamã e da vovó? Góta, góta! Quem é o lindo da mamã, quem é? Qué vi ó colinho da tia gôda, qué?”
Digam-me lá se não é triste? É. Triste. Penoso. Obtuso. O que pensará o bebé sobre a tia “gôda”? Que, para além de ter uma verruga enorme por cima do buço, é “gôda” e… estúpida, claro. Desculpem, mas nunca fui capaz de papéis assim.
Meio preocupado com esta minha recusa natural, tento perceber por que não dizem eles palavras ar-ti-cu-la-das. Então, se os psicólogos (vou ser vítima de violência doméstica) dizem que o bebé faz uso da sua capacidade auditiva quando está no útero materno, se sabe que o mundo existe, por que é que não há-de aprender a falar? Se fica nervoso quando a mãe stressa, se fica deprimido quando o pai se exalta, se fica calmo quando a mãe põe um CD do Tony Carreira, por que é que não toma atenção aos actos de fala e não sai lá de dentro com conversa de gente?
Ah, e há outro pormenor que também me aborrece um bocadinho e que me leva a recusar disfarçadamente o convívio com bebés. Os bebés cheiram mal. Sim. De três em três horas, cheiram mal. O que me parece ser bastante desagradável. Detesto pessoas a cheirarem mal ao pé de mim e os bebés não são excepção.
E, depois, há ainda outra questão relacionada com os bebés que me deixa inquieto: por que é que, ainda na maternidade, toda a gente desata a tirar parecenças, observando o recém-nascido como se fosse um animalzinho no zoo? Quando os meus filhos nasceram, as avós e a Condessa de Arraiolos, que é muito cá de casa, transformaram os pobres recém-chegados nuns autênticos monstros de Frankenstein, tal foi a manta de retalhos em que os transformaram: “Têm as orelhas da avó, e o nariz do avô, e as mãos de pianista da trisavó que Deus tem, e as sobrancelhas da prima do Brasil e os olhos são tal e qual os da tia Lucinda do Barreiro… E as bochechas são as do primo Ludgero.” (Quem é esse primo Ludgero?, perguntei à minha fofa, também ela sem saber quem era a tia do Barreiro). Fiquei alarmado: nem uma parecença comigo ou com a mãe. Estive quase para telefonar para a maternidade. Aqueles seriam mesmo os nossos filhos?
Perguntam os meus nove leitores (dez, com a Condessa de Arraiolos): será que ele não gosta dos filhos, dos sobrinhos ou dos primos e primas? Mas que malvado! Como é possível ter um ar tão simpático e inteligente (sobretudo, inteligente) e não gostar das pessoas do seu próprio sangue? Sonso é o que ele é!
Claro que gosto. Esses meus familiares vão crescendo, felizmente. Hoje, alguns deles já adultos, já falam como gente, já me ensinam a fazer crepes aos Sábados, ao fim da tarde, já passamos férias juntos, já se sentam à mesa comigo, já discutimos religião, política, cinema checo e bailado contemporâneo e já emborcamos, de vez em quando, umas belas imperiais.
E têm outra característica que os favorece: já não guincham constantemente, nem cheiram mal de três em três horas. Então, por que é que não havia de gostar deles?
* Há uma vovó que não vai concordar comigo. Um dia, estarei eu de acordo com ela. ;)
domingo, 23 de março de 2008
Estou em pancas
Qualquer dia, tenho a ASAE cá em casa a investigar o fogão, os armários da cozinha e o tamanho da escova de piaçaba. Acredito que, após denúncia, numa rusga bem planeada, venham investigar também se o meu piano está afinado (estou à espera do Ulf Ding!!!) e com as cordas-padrão da Comunidade Europeia. “Não, não”, dirá o Inspector de diapasão em punho, “este fá bordão tem de ser já confiscado. Está desafinado e incomoda o vizinho do lado.” E até temos um inspector-poeta que rima com mestria, enquanto cumpre a sua inefável missão.Qualquer dia (qualquer noite), lá terei um inspector da ASAE no meu quarto, recém-pintado de azul-império, em silhueta na contra-luz da janela ou sentado aos pés da cama, a dizer-me como e com que intensidade é que eu devo abraçar a minha fofa.
Já faltou mais.
sábado, 22 de março de 2008
...E ninguém faz nada? Parte 2
Pronto:1-A professora apresentou queixa;
2-O novo estatuto do aluno diz que, nestes casos, a aluna deve ser transferida de escola (isto é, transfere-se o problema mas não se acaba com ele);
3-Espero que ela não seja transferida para uma escola que eu cá sei; é capaz de ser muito longe...
4-O Conselho Executivo da escola onde a professora foi agredida diz que ainda não tem o regulamento interno actualizado e que, portanto, o novo estatuto do aluno ainda não faz parte da coisa;
Em suma: nada vai acontecer.
Afinal, o telemóvel até era da aluna... que, pelo que me foi dado a ver, até tinha ar de anjo.
Alface revisitado

A saudade leva-nos a estes encontros. A palavra foi o pretexto para, no dia 15, falar do João Alface. Ou teria sido o João Alface o pretexto para falar da palavra? Não importa, porque ele também não se importaria. Foi uma tarde de memórias, de música e de literatura. O Theatron organizou e outros amigos juntaram-se a eles, na Carlista, para este momento especialíssimo que foi uma visita ao futuro e uma festa à vida. Porque há homens que quanto mais longe… mais perto.
sexta-feira, 21 de março de 2008
De Montemor para o Mundo

No Dia Mundial da Poesia, um Poema para uma Sexta-feira (dita) Santa:
CRISTO
Trazia nos pés
O cansaço
Duma vida penhorada!
No olhar
A incerteza de uma garrafa
Vazia!
Respirava no silêncio
A asma, afome,
A azia!
Subitamente,
Ao olhá-lo,
Sucedeu o imprevisto:
Vi naquela criatura
Um homem igual aos outros...
Mas mais parecido
Com Cristo!
Manuel Justino Ferreira (1928-2002), in Poeta que parte... Poemas que ficam (2004)
CRISTO
Trazia nos pés
O cansaço
Duma vida penhorada!
No olhar
A incerteza de uma garrafa
Vazia!
Respirava no silêncio
A asma, afome,
A azia!
Subitamente,
Ao olhá-lo,
Sucedeu o imprevisto:
Vi naquela criatura
Um homem igual aos outros...
Mas mais parecido
Com Cristo!
Manuel Justino Ferreira (1928-2002), in Poeta que parte... Poemas que ficam (2004)
quinta-feira, 20 de março de 2008
...E ninguém faz nada?
Uma professora foi humilhada, insultada e agredida no decorrer de uma aula, numa escola secundária do Porto. Não há mecanismos que ponham alunos daquele calibre na ordem. Simplesmente não há... porque podem ficar traumatizados, coitadinhos.
Relato dos acontecimentos (e alguns comentários, se calhando, desnecessários):
1-A aluna usou o telemóvel numa aula: era proibido.
2-A professora usou de contacto físico: primeira estupidez absoluta.
3-A aluna e os colegas da turma tiveram um comportamento de verdadeiros animais: os alunos deveriam ser suspensos e os paizinhos chamados a contas, inclusivamente aquele rapaz da associação de pais que anda a mandar umas bocas oleosas contra os profs.
4-A professora não apresentou queixa: segunda estupidez absoluta.
5-A aluna não foi suspensa: cobardia de quem manda na escola.
Se o Ministério da Educação lançou uma Reforma para o Ensino, em que artigo da coisa é que estas situações estão previstas? Em nenhum. Terceira estupidez absoluta.
Conclusão: A Prof.ª Maria de Lurdes Rodrigues nunca deu aulas na Carolina Michaëllis, no Porto.
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Cloreto de Sódio
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3/20/2008 11:16:00 da tarde
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Os números são irrelevantes?

Nunca fui muito de manifestações, de braços no ar, de gritos, de palavras de ordem… Mas não me foi possível, nem aos restantes 99.999 professores, ficar em casa no Sábado, dia 8. Não barafustei muito, porque não é do meu feitio esse tipo de desabafos em público, mas estive lá, na Praça do Comércio, com a minha fofa (que até estava doentinha) e com uma amiga, essa sim, muito revolucionária e berlingueira, que não se calou nem um minuto, a viver agora o seu 25 de Abril.
De regresso a casa, vim a dar no pedal para chegar a tempo de ver os telejornais. Liguei as televisões todas, cada uma em seu canal, e fiquei completamente abismado com o facto de os titulares da pasta da Educação dizerem que os números não eram significativos e que o que importava era a aplicação da lei e não a discussão de alternativas. Fiquei estúpido.
Quando a Prof.ª Maria de Lurdes Rodrigues verificar que é humanamente impossível pôr em funcionamento o que nos pede, então talvez dê razão a quem, nas escolas, sabe as linhas com que isto se cose. Quando o ministério chegar à conclusão que passaremos a formar crianças com conhecimentos cada vez mais periclitantes, e que nos estão a obrigar a dar mais importância aos números (aqui, sim, os números são significativos para a Prof.ª Maria de Lurdes), esquecendo o ensino de matérias propriamente dito, então talvez já tenhamos dado à luz a primeira geração de analfabetos com a escolaridade obrigatória e, aí, talvez seja tarde para recuar.
Ainda assim, nunca deixei de estar a favor da Prof.ª Maria de Lurdes Rodrigues no que se refere a um ponto que é, para mim, importante. Em 33 anos de democracia e de reformas, conseguiu a senhora Professora o que nunca nenhum político ou sindicalista tinham conseguido antes: unir os professores e conceder-lhes o estatuto de classe profissional.
Já o senhor Rangel, numa sua crónica publicada no Correio da Manhã do dia 8, refere a vergonha que sente “destes pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e [se] transformaram em soldados do Partido Comunista”. Eu também sinto vergonha, mas é de o senhor Rangel ser Português como eu. Cá para mim, com tantos elogios ao Governo e tanto ódio aos professores, deve estar à espera de algum tacho.
O Rangel é um habilidoso!
O Rangel veste-se mal!
O Rangel usa ceroulas de malha!
Se o Rangel é Português eu quero ser Espanhol!
O Rangel é Emídio. Pim!
Era uma vez um ministro chamado Carlos Borrego que, em 1993, foi substituído de uma hora para a outra depois de ter contado uma anedota sobre a morte de doentes hemodializados que tinham falecido, no hospital de Évora, havia pouco tempo. Bastou uma anedota para que fosse rapidamente despachado. De muito mau gosto, é certo. Mas era apenas uma anedota
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Cloreto de Sódio
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3/20/2008 04:05:00 da tarde
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domingo, 24 de fevereiro de 2008
A Farsa de São Pascoal

Bernardino Samina, seria impensável começar este breve apontamento de outra forma, criou no dia 23 de Fevereiro, no Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor, uma personagem de difícil interpretação. Talvez a mais complexa da sua carreira de actor amador. Um risco que durou 90 minutos, resultado de um incomparável acto de coragem (e de consciência artística) e que teve o apoio, em palco, do restante elenco do THEATRON.
O preso/idiota/espertalhão PASCOAL, a personagem principal da comédia Farsa em São Bonifácio, um texto de autor anónimo adaptado por Maria João Crespo para esta produção do Theatron, veio recuperar, de certa forma, a tradição que vem do teatro vicentino, na figura do bobo, trazendo-me também à memória a personagem do jester, tão fascinante quanto perturbadora, figura fundamental em muitas peças de Shakespeare. Às duas figuras tudo era permitido pelo simples facto de serem, digamos assim, os idiotas de serviço.
Foi neste paradoxo que residiu todo o desenvolvimento da trama a que assistiu uma sala quase cheia: a figura com mais poder, o detentor de todos os segredos era, afinal, o mais humilde dos homens, o aparentemente menos brilhante em termos intelectuais, o sem-família e sem-tecto, o… parvinho da aldeia. Contudo, Pascoal, consciente das suas necessidades, observador e intérprete atento dos vícios e das misérias dos outros, fez da sua condição de marginal a origem dessa esperteza. Conseguiu, assim, usando de estratagemas que nos fazem lembrar os das personagens vividas pelo saudoso actor António Silva, dominar todos os outros elementos daquele grupo, atormentados com defeitos e vivências passadas que não queriam ver regressar. O idiota de serviço transformou-se, graças à sua inteligência, e à natureza humana, na voz da consciência de cada um.
Todo o elenco merece o nosso aplauso. Mas Bernardino Samina esteve incomparável: na géstica, na voz, nos apartes e, sobretudo, na componente trágica que conseguiu manter de forma constante na interpretação da sua personagem, mesmo quando arrancava do público as gargalhadas mais espontâneas.
O preso/idiota/espertalhão PASCOAL, a personagem principal da comédia Farsa em São Bonifácio, um texto de autor anónimo adaptado por Maria João Crespo para esta produção do Theatron, veio recuperar, de certa forma, a tradição que vem do teatro vicentino, na figura do bobo, trazendo-me também à memória a personagem do jester, tão fascinante quanto perturbadora, figura fundamental em muitas peças de Shakespeare. Às duas figuras tudo era permitido pelo simples facto de serem, digamos assim, os idiotas de serviço.
Foi neste paradoxo que residiu todo o desenvolvimento da trama a que assistiu uma sala quase cheia: a figura com mais poder, o detentor de todos os segredos era, afinal, o mais humilde dos homens, o aparentemente menos brilhante em termos intelectuais, o sem-família e sem-tecto, o… parvinho da aldeia. Contudo, Pascoal, consciente das suas necessidades, observador e intérprete atento dos vícios e das misérias dos outros, fez da sua condição de marginal a origem dessa esperteza. Conseguiu, assim, usando de estratagemas que nos fazem lembrar os das personagens vividas pelo saudoso actor António Silva, dominar todos os outros elementos daquele grupo, atormentados com defeitos e vivências passadas que não queriam ver regressar. O idiota de serviço transformou-se, graças à sua inteligência, e à natureza humana, na voz da consciência de cada um.
Todo o elenco merece o nosso aplauso. Mas Bernardino Samina esteve incomparável: na géstica, na voz, nos apartes e, sobretudo, na componente trágica que conseguiu manter de forma constante na interpretação da sua personagem, mesmo quando arrancava do público as gargalhadas mais espontâneas.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Estou triste

Tive um sonho mau e que me parece premonitório: sonhei que se tinham acabado nas tascas deste país as perninhas de rã, o carapauzinho de escabeche com dois dias de exposição e as iscas com muito alho e louro a gosto. Que tinham passado a contrabando os copo de vidro de 3 e de 5 e que os traçadinhos eram vendidos às escondidas. Que se tinham finado os croquetes de bacalhau à antiga portuguesa, as tiras de choco e a orelha de porco de coentrada. Que passaria tudo a ser confeccionado, embalado e entregue ao domicílio por empresas especialistas, tudo sem micróbios, sem bactérias, sem sabor.
O que se acabou mesmo foi o CD pirata, o filme corsário e o frango com pó de feira. Acabou-se o cigarrinho fumado com prazer, com os amigos, à mesa do café, depois de uma bifana no prato, de uma mariscada ou, simplesmente, depois do cigarro fumado antes. Portugal castiço está a sucumbir às mãos desse exército anti-Portugal à maneira, que nos vai deixar a todos embalados, limpos, desinfectados e… tristes.
O que se acabou mesmo foi o CD pirata, o filme corsário e o frango com pó de feira. Acabou-se o cigarrinho fumado com prazer, com os amigos, à mesa do café, depois de uma bifana no prato, de uma mariscada ou, simplesmente, depois do cigarro fumado antes. Portugal castiço está a sucumbir às mãos desse exército anti-Portugal à maneira, que nos vai deixar a todos embalados, limpos, desinfectados e… tristes.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Estou incrédulo *

Contaram-me que vai ser proibido usar engodo e isco nas pescarias. Consta que os pescadores de água doce, em cuja classe me integro com muito orgulho, vão passar a utilizar o telemóvel para, qual Santo António modernaço, contactarem os peixinhos: “Olá, senhor Barbo, eu sou o Jonny e quero pescá-lo. Não o posso encharcar de engodo, nem usar aquelas larvas das moscas varejeiras por causa da ASAE que não quer que lancemos detritos para dentro das albufeiras. Quer vir dar uma mordidelazinha no meu anzol? Obrigado. Eu espero!.. Ai, agora não pode ser? A sua mulher está a desovar… pronto, fica para a próxima. Ouça, pode dar-me o número da D. Carpa Inglesa que deve andar por aí? ’Brigadinha!”
* Este é, provavelmente, o texto mais idiota que escrevi. "Não sejas tão optimista", dirão vocês. "O 'provavelmente' não faz lá falta nenhuma."
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Estou com um enorme ataque de riso

Os ministros da Saúde e da Cultura saíram sem honra nem glória, deixando atrás de si um passado de asneiras infindáveis, com despedimentos, encerramentos e até momentos dramáticos pelo meio. Foram embora. É a história das moscas. Umas saem, outras entram. Mas há sempre qualquer coisa que se mantém. É a velha história.
Quem será a próxima a sair? Quem? Quem? Ná… Não vamos ter essa sorte.
Quem será a próxima a sair? Quem? Quem? Ná… Não vamos ter essa sorte.
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Cloreto de Sódio
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2/10/2008 09:05:00 da manhã
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sábado, 9 de fevereiro de 2008
Estou com um ataque de riso
Nos idos anos 80, o Eng. Sócrates assinou uns projectos de umas casas manhosas, tristes, sem graça nenhuma, o que não abona muito em seu proveito. Se calhar, os recém-licenciados deviam só arranjar emprego quando tivessem aquele diploma das Novas Oportunidades, que é quando já têm alguma experiência de vida. São feios aqueles prédios e não parecem muito de confiança em termos de robustez. Estão como o país. Mas eu não acredito em coincidências. O técnico é o mesmo.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
"Estou sim? Daqui é a Pamela!"

Foi assim, como se lê no título, que começou a nossa conversa telefónica. Como não conheço nenhuma Pamela que me fale ao telefone com a voz sensual daquela Pamela… desconfiei.
Queria fazer-me um teste de cultura geral. Mas, antes, perguntou-me o nome completo, a idade, a profissão, o estado civil, o meu ordenado, o endereço, as minhas aptidões em vários campos. Fez-me perguntas a que qualquer miúdo da pré-primária responderia e, depois, disse-me: “Parabéns!!! Você foi o único que, até agora, respondeu a todas as questões! Amanhã vão aí a casa dois senhores, devidamente credenciados, entregar-lhe o seu merecido prémio e para conversarem um pouco com o senhor por causa de um apartamento no Algarve”. Respondi que sim, que estaria lá com o meu Rottweiler (que comeu uma orelha à pobre Laika, faz hoje uma semana), uma espingarda de canos serrados e mais dois soldados da GNR para os receber.
Ninguém apareceu. Pergunto-me porquê.
E a Pamela, a marota que ao telefone me achou tão simpático e atraente (só mesmo ao telefone), nunca mais telefonou. Eu que até a tinha convidado para um lanche romântico, ao cair de uma destas tardes, na exótica esplanada da Sociedade Recreativa cá do burgo…
Queria fazer-me um teste de cultura geral. Mas, antes, perguntou-me o nome completo, a idade, a profissão, o estado civil, o meu ordenado, o endereço, as minhas aptidões em vários campos. Fez-me perguntas a que qualquer miúdo da pré-primária responderia e, depois, disse-me: “Parabéns!!! Você foi o único que, até agora, respondeu a todas as questões! Amanhã vão aí a casa dois senhores, devidamente credenciados, entregar-lhe o seu merecido prémio e para conversarem um pouco com o senhor por causa de um apartamento no Algarve”. Respondi que sim, que estaria lá com o meu Rottweiler (que comeu uma orelha à pobre Laika, faz hoje uma semana), uma espingarda de canos serrados e mais dois soldados da GNR para os receber.
Ninguém apareceu. Pergunto-me porquê.
E a Pamela, a marota que ao telefone me achou tão simpático e atraente (só mesmo ao telefone), nunca mais telefonou. Eu que até a tinha convidado para um lanche romântico, ao cair de uma destas tardes, na exótica esplanada da Sociedade Recreativa cá do burgo…
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Cloreto de Sódio
à(s)
2/02/2008 11:34:00 da manhã
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