quinta-feira, 15 de maio de 2014

Os anjos de Etelvina


 
 
          Os Anjos não têm asas é o primeiro livro publicado de Etelvina Santos, montemorense dos sete costados e que me cativou com o seu texto pouco depois de ter sido escrito. É o resultado de uma experiência forte, inesquecível, e que ela decidiu partilhar, primeiro com a família, depois com os amigos e, finalmente, com um grupo mais alargado. Poderia escrever mil coisas sobre o que a Vina viveu, sobre como eu vivi o texto que ela escreveu, mas vou limitar-me a reproduzir a sinopse que a autora me convidou a escrever para a contracapa desta memorável crónica de viagens. Antes, agradeço publicamente à Vina pela partilha, pelo convite que me fez para apresentar a sua obra de estreia, e pela confiança:

          “Há viagens que não se descrevem. Que fazem parte do canto mais escondido do nosso ser. São património do indizível, tal não é a mistura de sentimentos que borbulham no espírito de quem as faz.

          A protagonista desta aventura, sem saber onde localizar a sua fé, pôs-se a caminho, como se diz por aqui. E, com as palavras escritas por ela, caminhámos nós, com coragem, em espanto, em dor, em desalento, mas também em harmonia com a natureza, com os seus tempos e os seus silêncios. E a viagem torna-se, inevitavelmente, espelho da própria vida, com dias de sucesso e outros de verdadeiro desânimo. Os motivos, esses são menos importantes do que os factos em si.

          Há viagens que não se descrevem. Muito menos as que se fazem pelos nossos próprios pés. Porque só quem viaja assim chega ao fundo do seu ser, ao âmago do seu existir, medindo a fé que os move, a coragem e o êxtase em que se transforma uma peregrinação a Santiago de Compostela.

          E pelos Caminhos de Santiago tudo é possível, sobretudo, o Amor. Mas os encontros, tantas vezes misteriosos, podem transformar-se, pelas razões que a vida não explica, em desencontros, definitivos ou temporários. É esse também o mistério de uma grande parte desta narrativa. E há o chegar, o vencer e o voltar a casa (porque se volta sempre a casa) renascida.”

 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Por Abril



Abril é, tradicionalmente, desde há 40 anos, o mês da Liberdade, dos Cravos Vermelhos e do Grito que se fez ouvir nas ruas de Lisboa, por um país livre, justo e sem opressão. Lembro-me, na altura com treze anos, dos tanques que, no dia 25, vindos de Estremoz, desciam a nossa avenida, carregados de soldados e de anseios, em direcção a Lisboa, para auxiliarem Salgueiro Maia. Lembro-me de se ensaiar, nesse dia, o primeiro dia da Liberdade, feriado para todos os alunos, que receberam ordens dos professores para regressarem a casa. Como éramos ingénuos…

Abril é este ano mais um mês de comemoração. E devia sê-lo em consciência. Devia ser muito mais do que um dia de discursos, cada vez mais bolorentos, das Maiorias e das Oposições, meros conjuntos de interesseiros e incapacitados para merecerem o nosso respeito e confiança. Não devia ser um dia. Devia ser o Dia. O Dia do tal Grito, novamente a precisar de ser solto, e que, nos últimos anos, se acumulou na garganta dos portugueses, cada vez mais sufocados, envoltos numa tristeza sem esperança, sem trabalho e sem comida para os filhos.

Somos todos, quase, quase todos, portugueses desprezados pelos políticos que nos governam, postos de parte pelo país onde trabalhamos e onde ajudámos, cada um à sua maneira, a fazer crescer a democracia. Humilhados por um sistema de justiça que prende um padeiro por este ter, alegadamente, furtado 70 cêntimos e que deixa à solta perigosos meliantes que se abotoaram durante anos com o suor do trabalho dos outros. Estes sim, criminosos que continuam a safar-se graças a leis feitas a seu favor e contra, sempre contra, quem ganha o seu dinheiro honestamente.

Mesmo assim, apesar de continuamente desrespeitados na sua essência, como cidadãos e seres humanos, muitos de nós recusam-se a ir às urnas em dias de eleições, ora porque é Verão, ora porque é Inverno, esquecendo todos aqueles que, um dia, foram torturados, chegando a dar a vida para que hoje pudéssemos votar em liberdade. Não teremos os governantes que merecemos?

Como estou a passar o limite da indignação, vou terminar. Por isso, depois disto tudo, sabem o que lhes digo, caros leitores… sabem? Como diria o meu velho e saudoso Pai: “Pois, olhem! Não lhes digo nada!”


domingo, 13 de abril de 2014

Em Abril



Abril é, tradicionalmente, o mês da Páscoa, o tempo de renovação da Natureza (se os ciclos se mantivessem como antigamente), o momento certo para recordar com mais intensidade um homem que continua a ser um exemplo para os homens de todos os tempos, de todas as ideologias políticas e religiosas. Ser consensual a este ponto não é fácil nos tempos que correm nem o foi no seu próprio tempo. É preciso ser bom. É preciso talento. Pois ele é das figuras históricas e religiosas mais analisadas, mais estudadas e que, no entanto, nos deixa sempre margem para o mistério, nos permite um espaço, maior ou menor, de incompletabilidade. 
Depois de mil leituras sobre esta figura fascinante que me acompanha desde a mais tenra idade, continuo maravilhado com as questões que, tantos anos depois, ainda se me colocam, sem por isso diminuir essa admiração e a vontade de ter sido seu amigo. Quem foi, afinal? Como conseguiu com o seu exemplo e com a sua palavra pôr em risco um império? Que carisma é preciso possuir para, como ele, ter arrastado, e arrastar ainda, multidões? Realizou milagres? Não sei, nem acho isso importante. Amou uma mulher? Se proclamava o amor, seria justo e lógico dar o exemplo. Queria nivelar a sociedade em termos de riqueza e de oportunidades? Estava, decerto, muito à frente do seu tempo. Mexeu nos ninhos de cobras dos ricos e poderosos? Mexeu… e de que maneira.
O mais irónico é que, se tivesse nascido há 33 anos, ali, num estábulo perto da nossa cidade, muito provavelmente estaria igualmente prestes a ser crucificado no monte mais alto aqui da região. Talvez no Castelo ou ao lado da Ermida da Senhora da Visitação, sua Mãe. Entre ladrões e malfeitores. Entre drogados e prostitutas. Entre os que ele mais amou e defendeu. E, mais uma vez, não recusaria a morte. Porque sabia que o seu nome iria continuar acima de todos os nomes, porque defendera os fracos, os oprimidos, os humildes, os doentes, os abandonados, os injustiçados, as vítimas de toda e qualquer intolerância.
Porque iria ser o consolo de quem n’Ele acredita. Porque Ele sabia que iria ser o Irmão mais velho que todos gostaríamos de ter.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Emílio





Começo este texto com uma profunda ansiedade. "O seu artigo é o primeiro que leio", disse-me uma senhora amiga que nem eu sabia que tinha paciência para as minha diatribes. Assim, começo a escrita deste mês ansioso porque sei que há, pelo menos, uma pessoa que me lê (não contando com a minha mãe). E essa ansiedade, desta vez, é maior porque há tanto sobre que escrever que acabo por engasgar o teclado com as ideias, os desabafos e as críticas que me escorrem das pontas dos dedos. Por isso, para não haver tragédias narrativas, o tema é só um. E luminoso.


Ora leiam:

O Emílio Umaña Rodriguez é meu aluno. Seria um aluno como todas as outras centenas de jovens que já se sentaram à minha frente na sala de aula, cada um, naturalmente, com as suas vidas, gostos, capacidades e outras idiossincrasias que condicionam sempre a sua relação com o professor, a escola, as matérias e a vida. Porém, o Emílio é um aluno que chegou à Escola Secundária (já não se chama bem assim, mas estou a borrifar-me) vindo, imaginem, de uma cidade que fica a 8 mil quilómetros de Montemor – Morelia, no México.

Chegou em Setembro e, passados estes poucos meses, fala um português quase, quase correcto, integrou-se numa turma de 11.º ano (com visitas frequentes a outras turmas, por questões curriculares) fez amigos e ligou-se a uma família de Montemor, que o recebeu como se mais um filho fosse. Juntamente com a directora de turma, fiquei como um dos responsáveis pela integração do Emílio na Escola e… no espaço montemorense. Claro que, terminada cada aula, este aluno especial passa a maior parte do tempo com colegas da turma B, do 11.º ano, um grupo generoso, inteligente e arejado das ideias. Também eles tiveram um papel fundamental na integração e no bem-estar deste seu novíssimo amigo. Merecem, por isso, o nosso reconhecimento e a nossa admiração.

Quando pensamos na responsabilidade em que se transforma a vinda de um aluno estrangeiro para a nossa Escola, longe da sua cidade, da sua família e dos seus amigos, em suma, a 8 mil quilómetros da sua zona de conforto, fazemos um esforço suplementar para lhe oferecer as melhores condições de aprendizagem, um ambiente confortável, simpático e honesto. Queremos, no fundo, que ele se sinta como todos os outros nossos alunos, ou seja, como se tivesse frequentado a nossa escola… desde sempre. E creio que o temos conseguido.

Sabemos que o ensino em Portugal está na ordem do dia. Os professores também. Mas não pensem que a forma como temos vindo a ser tratados nos faz alterar o nosso sentido de responsabilidade e rigor profissional. Muito menos, quando temos um adolescente que, em Junho, vai regressa a Morelia, no México, para continuar a sua vida.

Pois eu acredito que o ano lectivo que o Emílio está a viver entre nós não será apenas inesquecível, como irá ser o grande ano de toda a sua vida. E nós, professores, família de acolhimento e novos amigos, também não iremos esquecer o rosto do jovem mexicano, a forma afável como aceitava as nossas decisões sobre a sua vida pessoal e escolar, a sua simpatia, intelecto, educação e integridade.

"Porque será que está a partilhar connosco esta questão?", perguntará a tal amiga e fiel leitora. Porque esta foi a primeira experiência do género em 30 anos de serviço. E porque, quando pensamos que sabemos muito, há sempre um puto mexicano a ensinar-nos mais qualquer coisa.

Por isto e por muito mais, o Emílio já não é mexicano e também não chegou a ser português. Com 16 anos, é já um Cidadão do Mundo.

In jornal "O Montemorense", de 20 de Março, 2014


 

terça-feira, 11 de março de 2014

Os colégios de João Ferreira

João Ferreira escreveu, hoje, no Público online, referindo-se ao Colégio Militar e ao extinto Instituto de Odivelas:


"Num Portugal trucidado pela baixa política e pela corrupção, ferido gravemente na sua soberania e desfibrado de carácter, ...a afirmação de tal colégio (de tais colégios!) é uma centelha de esperança no porvir da nação."

Peço desculpa, João Ferreira, mas tenho de acrescentar umas ideias ao seu texto: acredito que os rapazes e as raparigas saiam meninos bem comportados desses colégios. Mas nem sempre, lá dentro, se comportam assim tão bem. Que saem de lá preparados para a vida activa, diz o articulista. Também na escola pública, onde e para a qual trabalho há mais de trinta anos, procuramos que todos os alunos saiam com ferramentas úteis para singrarem na vida. Os professores que trabalham na escola pública trabalham para TODOS e com TODOS sem excepção e não para uma minoria que teve a sorte (ou não) de descender de uma família que pode sustentar todas as despesas inerentes à sua educação nesses lugares tão especiais.

Não sou contra os colégios, mas continuo a acreditar e a lutar por uma escola pública cada vez melhor. Ah, e não gostaria de trabalhar nesses colégios. Não me dava pica.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um país de amnésicos

                                             



Depois de uns dias de confusão, de informação e de contra-informação já não se fala muito dos quadros do pintor surrealista catalão Juan Miró. Calou-se a leiloeira Christie’s, calou-se o Governo Português e pronto, o povo aceita que está tudo bem. Vício que nos vêm do tempo da ditadura, quando os portugueses eram obrigados a aceitar a coisa ou, então… iam fazer uma visita, por vezes que durava anos, a Caxias ou a Peniche.
Já quase se esqueceu o grave alegado acidente na Praia do Meco que ceifou a vida a seis jovens universitários. Mas já era de esperar. Tal como foram relegados para o total esquecimento as pressões ao Tribunal Constitucional, bem como todos os roubos, as falcatruas, os amiguismos e outros ismos a que tivemos acesso nos últimos três anos. Freeport… por onde andas? Caso BPN… qual é o ponto da situação? Caso(s) Duarte Lima… como é que é? E quem matou Francisco Sá Carneiro e seus acompanhantes, na tenebrosa noite de 4 de Dezembro de 1980? E quem foi responsabilizado pela morte de António Casquinha e José Caravela, aqui bem perto, na Herdade de Vale de Nobre, no longínquo ano de 1979?
Ninguém.
Portugal tornou-se no paraíso onde os criminosos saem impunes. Onde se pode, em nome da lei e do elevado interesse nacional, destruir famílias, matar idosos, escavacar um país a precisar de outros planos que não estes que o têm afundado. E se alguns vão dentro é por um grande, enorme azar, ou porque os respectivos advogados de defesa não conseguiram esmiuçar a lei de forma a torná-la favorável para os seus clientes.

Quando era mais novo, jamais me passou pela ideia de, um dia, sentir vergonha dos governantes do meu país e de começar a acreditar, qual Fernando Pessoa, num Quinto Império que, no plano do sonho e do impossível, governado por um Encoberto ansiado, seja sinónimo de esperança e de resgate definitivo. Que a manhã de nevoeiro surja em breve… porque ainda “falta cumprir Portugal.”


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Praxes, para que servem?



Não queria voltar tocar neste tema. Mas continua na ordem do dia. Por muito que muitos não queiram. Tornou-se um tema mais sensível do que era hábito e quem se manifesta contra as praxes apercebe-se logo das reacções, muitas vezes exageradas, dos seus defensores. O meu amor pelas praxes é muito relativo. Se há cerimónias e actividades que concorrem para uma verdadeira integração dos novos alunos, não posso concorda com a estupidez que me é dada a assistir anualmente, com a malta nova a ser “integrada” através de sessões de verdadeira violência e humilhação, onde a prepotência, o absurdo e a falta da educação mais básica se sucedem sem que haja rigorosamente nada de positivo nessas “actividades de recepção ao caloiro”.

A minha filha Joana foi caloira recentemente. Viveu mais de um mês de cerimoniais que, na minha opinião, não serviram rigorosamente para nada, a não ser para provocar um profundo cansaço e uma enorme ansiedade de que tudo terminasse rapidamente para que pudesse começar a fazer aquilo que a levou à universidade: estudar. Mas nunca se queixou. Aguentou estoicamente (e voluntariamente, é bom que se diga) tudo o que os senhores estudantes a levaram a fazer. Mas, na minha opinião, não era necessária tanta parvoíce.

Também fui universitário. Há muito anos. No meu tempo, o alívio mais ansiado que poderíamos vivenciar seria descobrir que o professor da cadeira de Cultura Inglesa, que nos entregou uma lista de 150 livros para lermos até à semana seguinte, não era mais do que um aluno de 4.º ano que, com a conivência do professor da cadeira, veio assustar, de facto, uma turma de caloiros, muitos deles acabados de chegar da província. Se a tragédia do Meco foi resultado de uma praxe? Não me parece. Julgo que tudo não passou de uma infeliz conjugação de factores que resultaram num estúpido acidente. No entanto, continuo a estranhar que a investigação tenha começado apenas um mês depois.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ainda o Eusébio





Falar deste jogador recém-desaparecido é falar de alguém que merece todo o nosso respeito e admiração. É já um símbolo do país a juntar a tantos outros, das mais diversas áreas, que se distinguiram dos demais. Assisti com respeito, e alguma emoção, às manifestações dos adeptos. Mas também assisti, contrariado, à dor da mulher e da família que não foi respeitada nem pelos adeptos, nem pela comunicação social. É graças sobretudo às televisões que temos que a memória que me fica de todos esses rituais de despedida não é a volta do herói morto ao Estádio da Luz. É a cova fria, aberta, rodeada de gente que perdeu um ídolo mas que não soube manter a distância necessária para garantir o respeito pela dor e o sofrimento de uma família que perdera um marido e um pai.
Já que falei em heróis… Amália e Eusébio são duas imagens que se confundem com a bandeira da nação e que levaram o nome de Portugal até muito longe. Então e os outros? Julgo que, por este caminho, vão ter de abrir-se mais vagas no Panteão Nacional.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

António




Chegou um novo ano. Desejar um bom 2014 a todos é o mesmo que desejar um bom dia em manhã de tormenta. Será apenas mais um ano como os anteriores, que nos vai obrigar a puxar pela imaginação para irmos resolvendo as questões que se vão levantado dia após dia.
Lembro-me de o meu Pai me dizer, com frequência, que a vida sem problemas não teria graça nenhuma. E ele foi prova do que dizia. Todos os dias tinha desassossegos e desafios na sua profissão. E não foi por isso que eu o vi mais desanimado, revoltado com a vida ou zangado consigo próprio. Respondia-lhe muitas vezes, durante estas conversas, que uma vida sem problemas seria a vida ideal, porque assim teríamos tempo para nos dedicarmos apenas ao que gostaríamos, sem perder tempo a inventar soluções, quase sempre diárias, para atirar para o lado as pedras que se iam levantando no nosso caminho. “As pedras desviam-se para o lado, aos poucos, conforme a força que vamos tendo”, respondia-me.
Hoje, mais velho, a viver num país em crise, e a viver os meus dias de crise também, porque ninguém escapa às consequências destas políticas desastrosas de quem pensa que sabe o que anda a fazer, acredito todos os dias que o meu Pai tinha razão. De facto, quando há um dia sem problemas para resolver, até parece que a vida perde sabor e que não merece a nossa existência.
Por isso, e apesar de tudo, um Bom Ano Novo para os meus 10 leitores.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Francisco



Ainda que demorem a concretizar algumas das actualizações a que a Igreja Católica se deveria submeter para, na minha opinião, se situar ainda mais perto dos seus fiéis, em particular, e dos cristãos de uma forma geral, só o comportamento do novo Papa é, por si só, revelador de que algo diferente começou a surgir no horizonte. Depois da última anunciação “Habemus Papam”, todos, católicos e não católicos, estavam à espera que o novo hóspede do Vaticano viesse dar continuidade ao ar formal de Ratzinger e a tudo o que este Papa simbolizava. Mas não. Assistimos à ascensão de um líder espiritual e político mas que não se esquece que é um homem que, tal como os outros homens, está neste mundo com uma missão. A sua já se tornou visível. Se João Paulo II foi o Papa Peregrino (e o que, até então, mais seguidores tinha), Francisco será, para mim, o Papa Sem Medo, o Papa Social, o Papa Descontraído, protector dos mais pobres, dos mais tristes, dos mais abandonados pelos seus próprios semelhantes. A sua figura, o seu sorriso, as suas constantes fugas ao rígido protocolo, as suas intervenções, quase à revelia do exigido, são factores que têm conquistado a simpatia e a admiração de crentes, agnósticos e ateus e que, tenho a certeza, aos poucos, vão impondo algumas novas regras, desconcertantes é certo, nos até agora frios corredores do Vaticano.

Creio que podemos começar a afirmar, sem receio de errar, que no Vaticano a tradição já não é o que era. E essa mudança tem um rosto e um nome: Jorge Mario Bergolio. Francisco para os amigos.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Jingon Bels! Jingon Bels! Nã, nã, nã nã, nããããããã!!!


 
Eu e o meu amigo Prof. Carlos Cebola, nos Cantares de há três anos
 
Isto é que vai ser um sacrifício escrever o Cloreto de Dezembro!

Não pelo jornal "O Montemorense" e colegas, que me merecem o maior respeito. Muito menos, pelos meus 10 leitores que me cumprimentam com entusiasmo sempre que me encontram, dizendo que o mês já não lhes corre bem se não lerem as minhas diatribes, quantas delas sem qualquer sentido. O sacrifício é mesmo por causa da época que atravessamos. É que o Natal é, para mim, a mais chata, a mais hipócrita e a menos verdadeira de todas as festividades religiosas ou civis que somos, praticamente, obrigados a celebrar.

Eu passo a explicar e depois calo-me porque, caso contrário, aquele cheque gordalhucho que a minha sogra me prometeu de presentinho é capaz de ser rasgado antes do dia 24 à meia- noite, como retaliação. E com a sogra não se brinca.

Ora bem. Em primeiro lugar, o Menino Jesus não nasceu no dia 25 de Dezembro; depois, não sabemos se havia lá vaquinhas e burrinhos na gruta do presépio (o Papa emérito Bento XVI anulou a vaca, lembram-se?). Também não está garantido, a cem por cento, que havia pastores e ovelhinhas a pastarem por ali, num sítio onde nem ervinhas havia; por fim, aquela cena do anjo a cantar “Glória a Deus nas Alturas…” também me parece uma situação de encomenda e coisas de encomenda é cena que não me assiste.

 Esta é só a primeira parte.

 Em segundo lugar, quando me dizem que o Natal é a Festa da Família, durante a qual todos devem estar unidos e amigos, à volta da mesa, a comerem um peru, que, coitado, nem culpa teve do nascimento de Cristo, ou a malhar umas couves e umas batatas só porque os pais, os avós, os bisavós, os trisavós, já o faziam…. É uma cerimónia que me irrita. E quem não gostar de bacalhau, como o meu vizinho de cima? E quem não gostar de couves, como o meu filho Pedro? São excluídos da família neste período festivo? Já não podem celebrar o Natal?

E ainda mais… A cena das prendas. Então, se na família gostam tanto uns dos outros, por que é que só oferecem presentinhos agora, nesta altura do ano? E, ainda por cima, eu tenho o azar de receber sempre a mesma coisa. Em vez de um belo cheque ou de umas obrigações do tesouro, toda a gente decide oferecer-me peúgas, boxers e até uma cueca fio dental. Não há paciência.

             E, finalmente, para terminar em beleza, há a questão da família. Por que é que há pessoas que são obrigados a sorrir, a cumprimentar, a receber, a estar à mesa com pessoas da família que não têm por elas a menor consideração? Não acham isto uma estupidez da maior que há? Por acaso, cá no condomínio, não é o caso, porque todos me adoram, amam e veneram… mas há por aí com cada cena fingida que é de um tipo desatar a chorar!

Pronto. Já disse o que queria dizer. A única coisa, mas a única mesmo, que eu gosto no Natal é dos Cantares ao Menino e do poema inédito que o professor Carlos Cebola escreve todos os anos para a iniciativa. De resto, para mim, é Natal todos os dias, porque todos os dias há pessoas que precisam de mim e eu preciso delas.
            E assim se passa o ano todo, num “Jingon Bells, Jingon Bells” quotidiano.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Galinhas Mentecaptas


Acabei de saber o motivo pelo qual a soprano montemorense Vera Guita, radicada na Suécia, foi IMPEDIDA pela Federação Portuguesa de Futebol de ter cantado o Hino Nacional antes do jogo Suécia-Portugal: SUPERSTIÇÃO. 
Em 2002, a Marisa cantou "A Portuguesa" e Portugal perdeu com a Coreia. Esta informação, recebida há minutos, só veio confirmar que, quem dirige o futebol desta espécie de país, é simplesmente um grupo de galinhas mentecaptas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Vera Guita impedida de cantar o Hino Nacional no Suécia-Portugal




Vera Guita, portuguesa, natural de Montemor-o-Novo, professora e dona de uma voz excepcional, radicada na Suécia há dois anos, recebeu o convite da Embaixada de Portugal naquele país para cantar "A Portuguesa" no estádio de Sola, no dia 19, antes do jogo Suécia-Portugal.
Aceitou, preparou-se e, já no estádio, não é autorizada pela Federação Portuguesa de Futebol a cantar o Hino Português. Segundo as mentes brilhantes da FPF... não é hábito "A Portuguesa" ser cantada 'a cappella' e a solo. 
A Federação Portuguesa de Futebol é gerida por uma cambada de incompetentes, incultos, grunhos e vaidosos de merda! Rua com eles!

sábado, 16 de novembro de 2013

As escolas das tias são as melhores, tá a ver…?!!!





Quando leio os já tristemente célebres rankings, onde se posicionam as escolas do país, da melhor até à pior de todas, fico três dias a rir, mas de estupidificante tristeza, por perceber que os jornalistas levam muito a sério notícias destas, que são obrigados a veicular, e por verificar que a maioria dos portugueses acredita que aquilo é uma verdade verdadeira, uma realidade real e indesmentível.
Ora reparem lá, se fazem favor: então as escolas privadas, os colégios finos, cheios de nove-horas e má-na-sê-quê, onde andam os filhos e os sobrinhos das tias e dos tios, que têm massa de sobra, onde não faltam livros, nem papel para fotocópias, nem papel higiénico, não hão-de ficar à frente das escolas públicas? Nesses colégios só entra quem tem dinheiro para pagar as mensalidades. Esses colégios só são frequentados por alunos, cujo ambiente familiar é, de longe, diferente dos ambientes familiares de muitos dos alunos que frequentam as escolas públicas.
Não entendo a lata dos que fazem essas pesquisas e chegam a tais conclusões, assim, sem mais nem menos. Afinal, entendo. É porque não sabem rigorosamente nada do que se passa nas escolas públicas. Mas eu explico: nas escolas públicas, pagas com os nossos dinheiros, há alunos com bom ambiente em casa, com livros, com Internet, com pequeno-almoço todos os dias, a tempo e horas, com almoço e jantar, com pais e mães preocupados. Mas também há alunos com necessidades educativas especiais que não podem, nem têm, de fazer exames nacionais. Também há alunos de famílias desagregadas, alunos que não tomam o pequeno-almoço em casa porque, simplesmente, não têm o que tomar ao pequeno-almoço. As nossas escolas públicas também são frequentadas por alunos que não têm livros, porque o sistema económico familiar não o permite. Porque ou o pai ou mãe se encontram em situação de desemprego. Porque a escola ainda é o único lugar onde podem tomar uma refeição quente diária. (E não é preciso sair de Montemor para constatar este tipo de situações). E, depois, vêm-me esses gajos das estatísticas mostrar as notas dos alunos sem revelar, de facto, honestamente, o que pode originar esses resultados? E se fossem à fava? 
E há mais uma coisa. Uma investigação de um canal de televisão descobriu que, afinal, há colégios privados a receberem dinheiros do Estado, isto é, dinheiro meu e seu que, em vez de ser gasto naquilo que os nossos filhos precisam nas suas escolas, anda a ser gasto nas finesses da rapaziada dos privados. Desculpem, mas isto não se aguenta. Não admito que, na minha escola, comece a haver racionamento de materiais por falta de verba, quando essa verba é canalizada pelos mecanismos do Estado, pelos caminhos mais estranhos e ínvios, para as escolas das tias. Não admito. E estou a borrifar-me para quem discorde. Só posso concluir que este país e este Governo continuam a ser o que sempre foram desde há uma década a esta parte: uma vergonha sem regresso.

Não foi por acaso que Guterres, Durão Barroso e José Sócrates fugiram como o diabo foge da cruz.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Coral de São Domingos em Concerto na Mãe d'Água, em Lisboa



(Fotos Enric Vives-Rubio)


No dia 1 de Outubro, o Coral de São Domingos apresentou-se em concerto na Mãe d´Água das Amoreiras, para celebrar o Dia Nacional da Água, o Dia Mundial da Música e o 26.º aniversário do Museu da Água. 
Obrigado à organização pelo convite e pela forma espectacular como nos receberam.

sábado, 12 de outubro de 2013

Gosto do “jornalismo de proximidade”




          Não sei se vou ferir susceptibilidades. Se assim for, nem sequer lamento, porque esta coluna é, por enquanto, de reflexão em liberdade. Sou um observador atento e implacável da comunicação social local, embora pouco me manifeste sobre esse assunto. E, quer acreditem, quer não, Montemor precisa de uma comunicação social local renovada.
Fazer jornalismo de proximidade é uma actividade difícil, que requer, sobretudo, sensibilidade em relação ao público-alvo das notícias que se publicam. Vivemos em Montemor, conhecemos toda a gente, somos amigos de políticos e de directores de instituições públicas e privadas, e este tipo de relacionamento leva-nos, quantas vezes, a pensar duramente antes de publicarmos qualquer notícia. Não deveria ser assim.
Enquanto trabalhei como jornalista, numa equipa que me acompanhou durante 14 anos, cometi erros, fizemos algumas inimizades, algumas amizades, envolvíamo-nos diariamente, muitas horas por dia, na vida da comunidade e nunca deixámos de promover Montemor, os seus valores, independentemente das suas origens e porta-vozes. Provocámos a discussão sobre o que estava errado, sem nunca nos comprometermos politico-partidariamente com qualquer força da região. Desbravámos caminhos e fizemos perguntas incómodas. Fomos ameaçados, várias vezes, com o espectro do processo criminal e dos tribunais. Nunca cedemos. Nunca demos guarida a partidos ou religiões. Todos e todas tiveram o mesmo peso, quando as notícias que nos veiculavam eram de interesse público.
Mas não fizemos apenas jornalismo. Tentámos intervir na sociedade montemorense, ainda que contra ventos e marés, criando uma bolsa de estudo para o ensino universitário, auxiliando com peditórios públicos quem a nós se dirigia, com problemas graves e aparentemente sem solução. Segundo me é dado a observar, pouco ou nada se tem feito nessa área, agora que as necessidades são de maior monta. Quando terminámos a nossa missão, e se esgotou o nosso tempo, regressámos a casa mas não de consciência tranquila. Simplesmente porque, um dia que ela esteja tranquila, não vale a pena continuar a viver.
O jornalismo de proximidade que se faz hoje em Montemor tem de ser muito mais do que falar das intenções do Papa, dos problemas da Europa ou do que se passa do outro lado do mundo. Para isso, temos os jornais nacionais, as televisões, as rádios. O jornalismo de proximidade é outra coisa: é falar do buraco na rua, do atraso na construção dos esgotos, nos atrasos dos pagamentos das bolsas às famílias necessitadas. É elogiar o que é de elogiar e criticar o que é de criticar. É dar voz a quem não a tem. É, sobretudo, dar tratamento igual a todos, sem excepção, e sem pôr de parte os que não pertencem ao mesmo grupo de ideias. E isso, muitas vezes, foge um pouco aos compromissos editoriais da comunicação social local.
Recordo o jornalista Pedro Coelho, quando afirma o seguinte na sua dissertação de mestrado[i]: “O pacto de proximidade deve reflectir a identidade local e essa identidade nunca se molda num mundo perfeito. No caso do Alentejo, essa identidade é fruto de um passado de privação, de uma submissão silenciosa e contida, de uma clivagem social acentuada.”
Talvez o jornalismo de proximidade que hoje se faz em Montemor, ou noutra qualquer cidade de província, ainda viva com esse estigma que lhe impede uma total liberdade e a verdadeira proximidade na sua mais profunda essência.  
Fica a questão. Pensem nela, se quiserem.


[i] Coelho, Pedro, A TV de Proximidade e os Desafios do Espaço Público, Lisboa, Livros Horizonte, 2005

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