quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Para a minha Mãe (in memoriam)


Do tempo e das vozes

     Fervilhar.
É o verbo que se passeia pela memória dos dias quando me olho, através do tempo, a atravessar o jardim com a minha mão esquerda, pequenina, embrulhada na da minha e. Cinco anos de quotidianos felizes a ansiar pelos sábados de manhã para agarrar no cesto e partir à descoberta neste templo onde as estações do ano comandam as modas e os paladares de quem lá entra.
       Fervilhar.
É som que o é som. É um sentimento que começa ainda o dia não passa de duas, talvez três, pinceladas de madrugada. Primeiro, vozes soltas, meio sozinhas ainda, neste espaço vazio, gemendo, impando, dando ordens… Depois, mais vibrantes, frescas, timbres em contraponto dos vendedores que, num aumento gradual, ali misturam os duros dias ao sol, à chuva, ao frio, no campo, na lota, no matadouro, com as dores e os caprichos das donas de casa, as exigências das avós que vão à hortaliça para a sopa dos netos, os pedidos das criadas que não querem ouvir ralhar as patroas…
É um labirinto de cores, um caleidoscópio de caras. De novidades iguais e diferentes. De sorrisos, de esgares, da vida de todos os dias. Onde me perdia vezes sem conta, porque um quadrado confunde toda a gente, mesmo que se visite amiúde e se conheça cada erva que nasce por entre as lajes de granito pisado mil vezes. Estranho este labirinto, que não tem nem corredores, nem passagens secretas, espaço aberto onde todos sabem de todos, porque todos ouvem todos. Mas onde me perdia constantemente… Acabando por sair sempre pela porta por onde não entrara…
Talvez o lago, ao centro uma taça de rmore, com uma coluna ao meio a equilibrar uma bola fantástica a apontar para o azul, quando o ―, fosse responsável por tal perda de referência. A perseguição aos peixes vermelhos, que se bandeavam nas águas claras e frias, era sempre o primeiro e único exercício físico possível naquele lugar. Depois de umas quantas voltas, ora para um lado, ora para o outro, para não entontecer, eis que acabava perdido, sem saber onde tinha pousado o cesto, sem saber da minha e, sempre atenta no olhar e nas palavras, entretida a falar com a D. Carlota do Julinho dos presépios, dos comboios eléctricos e dos balões coloridos, mal pairavam os primeiros acordes do Natal.
E, quando, a troco de um tostão, os vendedores me enchiam o pequeno cesto com duas ou três cenouras, três ou quatro vagens de feijão-verde, um molho de salsa e outro de hortelã, que deixavam um rasto de sabores adivinhados, eu sentia-me o petiz mais importante do planeta, talvez o mais feliz do universo.
Agarro com força estas memórias, como se fossem a o da minha e, porque me sinto protegido, aconchegado, fascinado com o tal barulho das vozes que continuam a misturar-se em contracantos, salmodias e pregões. Sem nesse tempo perceber porquê, sentia que aquelas melodias iam fazer parte da minha vida e que se prolongariam muito mais do que durante aquela breve meia hora matinal. depois vim a entender o poder daquelas vozes, mais puras, mais belas, mais sinceras e convincentes do que muitas que mais tarde, por gosto ou missão, viria a escutar nas mais divulgadas oratórias, nas mais sublimes árias, em tantas óperas, densas e dramáticas, e no esplendor das cantatas de um tal senhor Bach.
A minha mãe continua fiel às orações da manhã:
Quanto é este molho de espinafres?
E o carapau do alto? pergunta ainda, de banca em banca, porque a tradição vive naqueles olhos e naquela vontade sábia de continuar simples, a gostar das coisas simples. Sei que ainda me a o, como se eu, homem feito, diminuísse de tamanho todos os dias, pegasse no cesto que ela me dera e, de moeda em punho, fosse eu o responsável pelas ervas de aroma que ainda hoje lhe enchem a casa de cheiros e de sonhos…

Nabo, João Luís, Outros Contos de Vila Nova. Editorial Tágide, Lisboa, 2010





segunda-feira, 28 de julho de 2014

GUS forever!



A bola é uma cena que não me assiste. Roubei a moldura da expressão a um tipo que se tornou fugaz e estupidamente famoso por andar de forma irresponsável de skate numa estrada com carros e tudo. 

A bola, o futebol, foi, para mim, Grupo União Sport, quando ia com o meu Pai aos desafios do GUS, no tempo do senhor Joaquim Algarvio, o homem que, apesar de baixinho, era, para nós, putos, o “dono” do campo pelado onde, aos Domingos, o plantel alvinegro defrontava com mestria as equipas mais complicadas. Ainda sei de cor o nome dos jogadores daquele tempo, anunciados na corneta sonora de quinze em quinze dias sempre com campo cheio. 

A bola foi, para mim, a equipa onde muitos amigos meus jogaram mas que, depois, com o tempo e a idade, pararam sem, contudo, nunca abdicarem da sua condição de unionistas.
A bola é essa tal cena que não me assiste porque não. Mas há desafios que não se recusam e há livros que têm, obrigatoriamente, de fazer parte da nossa “biblioteca”. Um deles acabou de ser escrito por um amigo meu, do GUS, de Montemor e do concelho. Grupo União Sport – uma década rumo ao centenário (1994-2004) é um grande livro, em tamanho e em classe, que o Manuel Roque tem vindo a escrever há algum tempo a esta parte.

Mas estamos numa época de crise e, como calculam, não é fácil levar a cabo um projeto desta dimensão sem haver a certeza de que haja interessados suficientes para que se justifique o investimento a fazer pelo autor. Assim, é fundamental a manifestação do interesse de todos os que querem ficar com a história pormenorizada dos últimos dez anos da vida do Grupo União Sport. E há uma forma de mostrarem o vosso interesse. Basta usarem o email do Manuel Roque (manueljroque@gmail.com) e escreverem, simplesmente, “Reserva um exemplar para mim”. E, imaginem só, o autor foi escolher para prefaciar este livro sobre futebol o tipo que menos sabe de futebol do concelho (do distrito?): eu. Já poderão calcular o texto que poderá sair! 

Pois, a bola é mesmo uma cena que não me assiste. Mas o GUS não é bola. Pelo menos no conceito em que muitos iluminados a entende. O GUS é o GUS e ficará para a história, preto no branco, com esta obra notável do Manel.
Quando começaram a ler este texto, pensavam que eu ia falar do… Campeonato Mundial de Futebol? Não. Não valia a pena. A nossa seleção passou por lá com tal velocidade que até parece que nem lá esteve…  

sábado, 26 de julho de 2014

Aprender forever


Ainda mal terminou o ano letivo e já começámos a preparar o próximo. Proporcionar aos alunos das nossas escolas, do nosso Agrupamento, o maior número de possibilidades para poderem fomentar a sua construção como alunos e seres completos, integrado na comunidade e, mais universalmente, na aldeia global onde vivemos, é uma das nossas maiores preocupações e objetivos. 
Para isso, o empenho dos docentes e de todos os seus apoios (humanos e logísticos) não são suficientes. É fundamental o interesse de todos os alunos que ousam pôr o pé numa sala de aula, independentemente da disciplina ou do professor que têm à sua espera. O aluno é também, e deverá sê-lo, responsavelmente, professor. Porque, hoje, o professor já não é aquela figura inalcançável e sábia, cujos conceitos são copiados das sebentas bolorentas de décadas anteriores, mas sim um ser que, com os alunos, reaprende diariamente e revitaliza os seus conhecimentos em contacto com gente nova que possui, indubitavelmente, conhecimentos muito superiores do que ele noutras áreas. Ensinar, hoje, é cada vez mais uma troca constante de conhecimentos. É entrar numa sala de aula e ter a certeza de que, tanto professores como alunos, devem sair de lá diferentes de quando lá entraram noventa minutos antes. 
Se ser professor foi sempre um desafio para quem gosta de ensinar é, cada vez mais, uma aventura brutalmente saborosa e compensadora, quando se torna um sinónimo, cada mais indiscutível, de aprender. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

MÃE


O teu ventre foi o meu primeiro berço. 
A tua mão a minha primeira âncora. 
A tua força a minha última esperança. 
Adeus, Mãe. Até breve. 
Um forte, forte abraço ao Pai.

terça-feira, 24 de junho de 2014

A Eurodisney


 
 
Ah, futebol, e tal, Campeonato do Mundo, Ronaldo, o maior, e tal, e está lesionado, e já não está lesionado, e vamos ganhar aquilo tudo e má-na-sê-quê. Os noticiários abrem todos a falar da mesma coisa com um entusiasmo tal que até parece que Cristo desceu à terra. Sei que a maioria dos portugueses, meus compatriotas e tão patriotas como eu, querem é pagode e vitórias e grandes jogos, com fintas a sério, defesas monumentais, remates irrepetíveis e grandes penalidades a nosso favor, nem que para isso se parta o perónio a um jogador luso. Acho lindo este sentimento de união. Acho fofo tantos abracinhos, tantos gritinhos, tantos cachecolinhos com as cores da nação, tantas pinturinhas na fronha com as quinas de Portugal.

No entanto, para que esse entusiasmo fosse legítimo, para que essa alegria se tornasse num hino de esperança e de glória, qual festim a comemorar a chegada de D. Álvares Cabral ao Brasil, a equipa de Portugal, formada, dizem os entendidos, pelos melhores jogadores do país, deviam jogar futebol a sério e preocupar-se menos com a imagem, com as selfies, com o penteado, com a cueca da moda, a conta num banco não sei quantos, assim tipo ronaldices e meireldices. Não queremos modelos de passerelle. Queremos profissionais que justifiquem os milhões que ganham por mês, e que são uma afronta a qualquer português, que, honesta e abnegadamente, tenta pôr o quotidiano pão na mesa onde come com a mulher e os filhos. Por isso, não me venham com tretas. Mas ganho o mesmo com este pedido. Já sei que, se perdermos os jogos, vai ser por causa do clima, por causa do árbitro, por causa do penteado do Paulo Bento, por causa das boazonas que circulam por ali e que distraem os másculos e muito homens jogadores da nossa querida selecção.

Portanto, meus amigos: tenham vergonha e joguem. É só isso que têm de fazer. Se não são capazes… então ponham os fatinhos Armani e os pitons xpto nas valises Louis Vuitton e voltem para Portugal. Há sempre uma ou outra vaga na construção civil que vos pode vir a dar jeito.

Ir ao Mundial não é, repito, não é a mesma coisa do que ir à Eurodisney!  Deixem de ser um bluff nacional. Já temos que chegue.


In "O Montemorense", de 20 de Junho de 2014
 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Dino, Paulo e... teatro do bom



Ah, teatro, e tal, Montemor tem tradição, e tal, e o Theatron é já um ponto de referência a nível nacional… Pois é mesmo. E, se ainda não o fosse, passava a sê-lo depois da sua última produção “O Coração de um Pugilista” do dramaturgo alemão Lutz Hubner, nascido em 1964.

Escrever sobre as capacidades camaleónicas de Bernardino Samina, o pugilista, é chover no molhado, porque ele consegue ser sempre cada personagem que interpreta. Assenta-lhe na perfeição a pele do velho pugilista reformado, saudoso dos tempos áureos da sua carreira e que conhece, por acaso do destino, um jovem “delinquente” a cumprir, por determinação do tribunal, um período de serviço social no Lar onde aquele vive, só e em delírio com as suas memórias.

O papel do protagonista acaba por viver, de forma indelével, da extraordinária contracena com um jovem actor, sobre quem já escrevi e de quem também sou amigo. O Paulo Quedas, que interpreta o jovem a cumprir o serviço social, cria, neste diálogo (a peça é um “simples” diálogo entre duas pessoas de gerações diferentes), uma personagem notável, sensível, rebelde, descontraída mas consciente do mundo que o rodeia e ameaça. Posso dizer que não poderia ter sido escolhido o par de actores mais adequado para a representação deste drama actual, com constantes alusões à solidão, ao desinteresse dos jovens pelos mais velhos, mas que também é um hino à esperança e à vida. Tanto um como outro são perfeitamente enquadráveis nas galerias das grandes personagens do novo teatro alemão.

Passámos ali por uma hora de aprendizagem. As personagens aprendem que, embora “retidas” pelos seus “crimes”, podem criar laços perduráveis e que não encontram barreiras nem na idade, nem no sexo, nem na morte eminente de um ou na longa vida do outro. E depois, para além do texto magnífico e brutalmente bem interpretado, tenho de falar no que não se costuma falar muito nestas ocasiões. Nos tempos. Nas pausas. Nos olhares. Esta trilogia “técnica” foi uma das tónicas da representação que veio acentuar, mais ainda, o profissionalismo dos actores, da encenadora Catarina Caetano, da assistente de encenação Sónia Setúbal e do luminotécnico/sonoplasta Nuno Borda D’Água. Uma equipa a não mexer.

Falta escrever que foi levada à cena nos dias 13, 14 e 15 de Junho, na black box do Cine-teatro Curvo Semedo, na minha cidade de Montemor-o-Novo, e que, se fosse eu que mandasse, partiria já amanhã em tournée até ao fim do Mundo.

In "O Montemorense" de 20 de Junho de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

Os filhos não vêm com manual de instruções (mas deviam)



Esta cronicazinha foi escrita e publicada nos idos de 2008, quando os meus filhos estavam em plena adolescência. Os tempos passaram mas o texto é como se tivesse sido escrito ontem. Aqui fica ele com votos de bom Domingo.



A frase do título foi escrita por alguém (não me lembro quem) que pretende alertar os pais, e adultos em geral, para o facto de cada criança ser um universo que deve ser respeitado em todas as vertentes. E que o que serve para uns não serve para outros, e mánasêquê… Não concordo. E em vez de estar para aqui com grandes lérias, passo a contar o que aconteceu recentemente cá em casa:
“Domingo vamos TODOS almoçar a casa de um amigo”, anunciei democraticamente, num destes dias, a toda a família. “E vai ser prolongado, como eu gosto”. “Eu não posso”, disse-me o João Miguel. “Tenho de estudar História.” (Deves! - pensei) “Eu também não”, avançou o Pedro. “Tenho de ir ter com o Fabinho para jogarmos Pleisteixón”.(‘Tá bem, abelha!- resmordi) “E eu tenho o almoço de anos da Gabi”, concluiu a Joana. (P’ró ano - murmurei.)
Perante estas manifestações igualmente democráticas por parte da filharada, que eu amo e respeito, olhei para a mãe deles à procura de solidariedade, aclarei a garganta e esclareci: “Eu não PERGUNTEI se queriam ir almoçar à casa de um amigo. Eu ANUNCIEI que íamos TODOS almoçar à casa de um amigo. É substancialmente diferente.”
Os sorrisos amarelos sucederam-se. As bochechas descaíram, flácidas, contrariadas, e a minha fofa, sempre atenta às minhas diatribes, apologista da união familiar, principalmente à hora das refeições – que para ela é sagrada - , abanou a cabeça em sinal de desaprovação. E segredou-me: “Tens de ser mais tolerante, coitadinhas das crianças”.
Os filhos, na verdade, não precisam de manual de instruções. A gente vai-lhas dando aos poucos. As mulheres, sim. Em 10 volumes. E com actualização mensal.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Sol do nosso descontentamento


 


O Sol voltou mas foi só no azul do céu, porque, de resto, continuamos com um longo Inverno a atravessar as nossas vidas, o Inverno do nosso descontentamento, como disse um famoso rei inglês que Shakespeare fez questão de arrastar para o palco.

Continuamos, portanto, a aguardar eternamente, como borregos mansos e felizes, que nos sejam devolvidos os nossos direitos como cidadãos e trabalhadores. O Governo de Passos Coelho continua, portanto, nitidamente, a omitir verdades, a esconder sabe-se lá o quê, com o apoio da sua noiva de conveniência que continua a querer ser Minister no lugar do Minister. Continuamos, portanto, à espera que nos respeitem como portugueses, como pais, como filhos, como operários deste país quase em ruínas.

Podes esperar sentado”, disse-me a fofa, desta vez pessimista e rezingona. E eu, que confio nela, não me sentei. Deitei-me.


In "O Montemorense", de 20 de Maio 2014

domingo, 25 de maio de 2014

Saltos no escuro



       Vamos em breve iniciar as avaliações dos nossos alunos. Todas elas importantes, são sobretudo as dos alunos em anos terminais as que mais nos preocupam. Os alunos que se vão lançar, quer no mundo do trabalho, quer nas universidades na nação, estes para conquistarem um canudo e tentar também seguir em frente com a vida, o que não vai ser fácil para uma grande parte deles. Sair de Montemor, alugar um quarto, pagar propinas, livros, fotocópias, passes sociais, alimentação, luz, gás, água vão transformar por completo a vida dos pais, (e, muitas vezes, as dos avós) obrigando a um recalcular de toda uma dinâmica e de uma política económica e familiar que, há meia-dúzia de anos, não era, de forma alguma, impeditiva para um jovem avançar no seu futuro. 
Há agora grandes, enormes impedimentos. Agora há um Governo que impede que milhares de jovens encontrem emprego no final da escolaridade obrigatória. Agora há um Governo que impede que muitos continuem os seus estudos e não tenham outra alternativa senão emigrar. Continuo sem saber por que continua a haver esta política, visivelmente propositada, de empobrecimento cultural. 
“Então não vês que é muito mais fácil manipular, conduzir e convencer um povo ignorante e culturalmente censurado?” A minha fofa hoje está imparável e eu vou acabar já com a escrita antes que ela me envergonhe mais.

In "O Montemorense" de 20 de Maio de 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

MorBase - para memória presente


Finalmente, Montemor tem garantido o registo do seu património material e imaterial numa base de dados disponível online que tem o nome de MorBase. O projecto, apoiado pela Câmara Municipal, foi lançado recentemente e é da autoria dos arqueólogos montemorenses, “donos” da Cromeleque, Lda., Carlos Carpetudo e Sira Camacho, bem como de uma equipa de gente igualmente competente que, de forma inovadora, ofereceram, e vão continuar a oferecer, um produto de qualidade onde Montemor, os montemorenses e o resto do mundo poderão ficar a saber com que linhas se cose a nossa identidade.   Curiosamente, apenas vi lá, no Arquivo Municipal, os representantes da Câmara e da Megajunta do Bispo, Vila e Silveiras. Não me apercebi de mais ninguém. “Então não vês que não é tempo de eleições autárquicas...?”, esclareceu-me a fofa, sempre atenta e sem papas na língua. 

In "O Montemorense" de 20 de Maio de 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Os anjos de Etelvina


 
 
          Os Anjos não têm asas é o primeiro livro publicado de Etelvina Santos, montemorense dos sete costados e que me cativou com o seu texto pouco depois de ter sido escrito. É o resultado de uma experiência forte, inesquecível, e que ela decidiu partilhar, primeiro com a família, depois com os amigos e, finalmente, com um grupo mais alargado. Poderia escrever mil coisas sobre o que a Vina viveu, sobre como eu vivi o texto que ela escreveu, mas vou limitar-me a reproduzir a sinopse que a autora me convidou a escrever para a contracapa desta memorável crónica de viagens. Antes, agradeço publicamente à Vina pela partilha, pelo convite que me fez para apresentar a sua obra de estreia, e pela confiança:

          “Há viagens que não se descrevem. Que fazem parte do canto mais escondido do nosso ser. São património do indizível, tal não é a mistura de sentimentos que borbulham no espírito de quem as faz.

          A protagonista desta aventura, sem saber onde localizar a sua fé, pôs-se a caminho, como se diz por aqui. E, com as palavras escritas por ela, caminhámos nós, com coragem, em espanto, em dor, em desalento, mas também em harmonia com a natureza, com os seus tempos e os seus silêncios. E a viagem torna-se, inevitavelmente, espelho da própria vida, com dias de sucesso e outros de verdadeiro desânimo. Os motivos, esses são menos importantes do que os factos em si.

          Há viagens que não se descrevem. Muito menos as que se fazem pelos nossos próprios pés. Porque só quem viaja assim chega ao fundo do seu ser, ao âmago do seu existir, medindo a fé que os move, a coragem e o êxtase em que se transforma uma peregrinação a Santiago de Compostela.

          E pelos Caminhos de Santiago tudo é possível, sobretudo, o Amor. Mas os encontros, tantas vezes misteriosos, podem transformar-se, pelas razões que a vida não explica, em desencontros, definitivos ou temporários. É esse também o mistério de uma grande parte desta narrativa. E há o chegar, o vencer e o voltar a casa (porque se volta sempre a casa) renascida.”

 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Por Abril



Abril é, tradicionalmente, desde há 40 anos, o mês da Liberdade, dos Cravos Vermelhos e do Grito que se fez ouvir nas ruas de Lisboa, por um país livre, justo e sem opressão. Lembro-me, na altura com treze anos, dos tanques que, no dia 25, vindos de Estremoz, desciam a nossa avenida, carregados de soldados e de anseios, em direcção a Lisboa, para auxiliarem Salgueiro Maia. Lembro-me de se ensaiar, nesse dia, o primeiro dia da Liberdade, feriado para todos os alunos, que receberam ordens dos professores para regressarem a casa. Como éramos ingénuos…

Abril é este ano mais um mês de comemoração. E devia sê-lo em consciência. Devia ser muito mais do que um dia de discursos, cada vez mais bolorentos, das Maiorias e das Oposições, meros conjuntos de interesseiros e incapacitados para merecerem o nosso respeito e confiança. Não devia ser um dia. Devia ser o Dia. O Dia do tal Grito, novamente a precisar de ser solto, e que, nos últimos anos, se acumulou na garganta dos portugueses, cada vez mais sufocados, envoltos numa tristeza sem esperança, sem trabalho e sem comida para os filhos.

Somos todos, quase, quase todos, portugueses desprezados pelos políticos que nos governam, postos de parte pelo país onde trabalhamos e onde ajudámos, cada um à sua maneira, a fazer crescer a democracia. Humilhados por um sistema de justiça que prende um padeiro por este ter, alegadamente, furtado 70 cêntimos e que deixa à solta perigosos meliantes que se abotoaram durante anos com o suor do trabalho dos outros. Estes sim, criminosos que continuam a safar-se graças a leis feitas a seu favor e contra, sempre contra, quem ganha o seu dinheiro honestamente.

Mesmo assim, apesar de continuamente desrespeitados na sua essência, como cidadãos e seres humanos, muitos de nós recusam-se a ir às urnas em dias de eleições, ora porque é Verão, ora porque é Inverno, esquecendo todos aqueles que, um dia, foram torturados, chegando a dar a vida para que hoje pudéssemos votar em liberdade. Não teremos os governantes que merecemos?

Como estou a passar o limite da indignação, vou terminar. Por isso, depois disto tudo, sabem o que lhes digo, caros leitores… sabem? Como diria o meu velho e saudoso Pai: “Pois, olhem! Não lhes digo nada!”


domingo, 13 de abril de 2014

Em Abril



Abril é, tradicionalmente, o mês da Páscoa, o tempo de renovação da Natureza (se os ciclos se mantivessem como antigamente), o momento certo para recordar com mais intensidade um homem que continua a ser um exemplo para os homens de todos os tempos, de todas as ideologias políticas e religiosas. Ser consensual a este ponto não é fácil nos tempos que correm nem o foi no seu próprio tempo. É preciso ser bom. É preciso talento. Pois ele é das figuras históricas e religiosas mais analisadas, mais estudadas e que, no entanto, nos deixa sempre margem para o mistério, nos permite um espaço, maior ou menor, de incompletabilidade. 
Depois de mil leituras sobre esta figura fascinante que me acompanha desde a mais tenra idade, continuo maravilhado com as questões que, tantos anos depois, ainda se me colocam, sem por isso diminuir essa admiração e a vontade de ter sido seu amigo. Quem foi, afinal? Como conseguiu com o seu exemplo e com a sua palavra pôr em risco um império? Que carisma é preciso possuir para, como ele, ter arrastado, e arrastar ainda, multidões? Realizou milagres? Não sei, nem acho isso importante. Amou uma mulher? Se proclamava o amor, seria justo e lógico dar o exemplo. Queria nivelar a sociedade em termos de riqueza e de oportunidades? Estava, decerto, muito à frente do seu tempo. Mexeu nos ninhos de cobras dos ricos e poderosos? Mexeu… e de que maneira.
O mais irónico é que, se tivesse nascido há 33 anos, ali, num estábulo perto da nossa cidade, muito provavelmente estaria igualmente prestes a ser crucificado no monte mais alto aqui da região. Talvez no Castelo ou ao lado da Ermida da Senhora da Visitação, sua Mãe. Entre ladrões e malfeitores. Entre drogados e prostitutas. Entre os que ele mais amou e defendeu. E, mais uma vez, não recusaria a morte. Porque sabia que o seu nome iria continuar acima de todos os nomes, porque defendera os fracos, os oprimidos, os humildes, os doentes, os abandonados, os injustiçados, as vítimas de toda e qualquer intolerância.
Porque iria ser o consolo de quem n’Ele acredita. Porque Ele sabia que iria ser o Irmão mais velho que todos gostaríamos de ter.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Emílio





Começo este texto com uma profunda ansiedade. "O seu artigo é o primeiro que leio", disse-me uma senhora amiga que nem eu sabia que tinha paciência para as minha diatribes. Assim, começo a escrita deste mês ansioso porque sei que há, pelo menos, uma pessoa que me lê (não contando com a minha mãe). E essa ansiedade, desta vez, é maior porque há tanto sobre que escrever que acabo por engasgar o teclado com as ideias, os desabafos e as críticas que me escorrem das pontas dos dedos. Por isso, para não haver tragédias narrativas, o tema é só um. E luminoso.


Ora leiam:

O Emílio Umaña Rodriguez é meu aluno. Seria um aluno como todas as outras centenas de jovens que já se sentaram à minha frente na sala de aula, cada um, naturalmente, com as suas vidas, gostos, capacidades e outras idiossincrasias que condicionam sempre a sua relação com o professor, a escola, as matérias e a vida. Porém, o Emílio é um aluno que chegou à Escola Secundária (já não se chama bem assim, mas estou a borrifar-me) vindo, imaginem, de uma cidade que fica a 8 mil quilómetros de Montemor – Morelia, no México.

Chegou em Setembro e, passados estes poucos meses, fala um português quase, quase correcto, integrou-se numa turma de 11.º ano (com visitas frequentes a outras turmas, por questões curriculares) fez amigos e ligou-se a uma família de Montemor, que o recebeu como se mais um filho fosse. Juntamente com a directora de turma, fiquei como um dos responsáveis pela integração do Emílio na Escola e… no espaço montemorense. Claro que, terminada cada aula, este aluno especial passa a maior parte do tempo com colegas da turma B, do 11.º ano, um grupo generoso, inteligente e arejado das ideias. Também eles tiveram um papel fundamental na integração e no bem-estar deste seu novíssimo amigo. Merecem, por isso, o nosso reconhecimento e a nossa admiração.

Quando pensamos na responsabilidade em que se transforma a vinda de um aluno estrangeiro para a nossa Escola, longe da sua cidade, da sua família e dos seus amigos, em suma, a 8 mil quilómetros da sua zona de conforto, fazemos um esforço suplementar para lhe oferecer as melhores condições de aprendizagem, um ambiente confortável, simpático e honesto. Queremos, no fundo, que ele se sinta como todos os outros nossos alunos, ou seja, como se tivesse frequentado a nossa escola… desde sempre. E creio que o temos conseguido.

Sabemos que o ensino em Portugal está na ordem do dia. Os professores também. Mas não pensem que a forma como temos vindo a ser tratados nos faz alterar o nosso sentido de responsabilidade e rigor profissional. Muito menos, quando temos um adolescente que, em Junho, vai regressa a Morelia, no México, para continuar a sua vida.

Pois eu acredito que o ano lectivo que o Emílio está a viver entre nós não será apenas inesquecível, como irá ser o grande ano de toda a sua vida. E nós, professores, família de acolhimento e novos amigos, também não iremos esquecer o rosto do jovem mexicano, a forma afável como aceitava as nossas decisões sobre a sua vida pessoal e escolar, a sua simpatia, intelecto, educação e integridade.

"Porque será que está a partilhar connosco esta questão?", perguntará a tal amiga e fiel leitora. Porque esta foi a primeira experiência do género em 30 anos de serviço. E porque, quando pensamos que sabemos muito, há sempre um puto mexicano a ensinar-nos mais qualquer coisa.

Por isto e por muito mais, o Emílio já não é mexicano e também não chegou a ser português. Com 16 anos, é já um Cidadão do Mundo.

In jornal "O Montemorense", de 20 de Março, 2014


 

terça-feira, 11 de março de 2014

Os colégios de João Ferreira

João Ferreira escreveu, hoje, no Público online, referindo-se ao Colégio Militar e ao extinto Instituto de Odivelas:


"Num Portugal trucidado pela baixa política e pela corrupção, ferido gravemente na sua soberania e desfibrado de carácter, ...a afirmação de tal colégio (de tais colégios!) é uma centelha de esperança no porvir da nação."

Peço desculpa, João Ferreira, mas tenho de acrescentar umas ideias ao seu texto: acredito que os rapazes e as raparigas saiam meninos bem comportados desses colégios. Mas nem sempre, lá dentro, se comportam assim tão bem. Que saem de lá preparados para a vida activa, diz o articulista. Também na escola pública, onde e para a qual trabalho há mais de trinta anos, procuramos que todos os alunos saiam com ferramentas úteis para singrarem na vida. Os professores que trabalham na escola pública trabalham para TODOS e com TODOS sem excepção e não para uma minoria que teve a sorte (ou não) de descender de uma família que pode sustentar todas as despesas inerentes à sua educação nesses lugares tão especiais.

Não sou contra os colégios, mas continuo a acreditar e a lutar por uma escola pública cada vez melhor. Ah, e não gostaria de trabalhar nesses colégios. Não me dava pica.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um país de amnésicos

                                             



Depois de uns dias de confusão, de informação e de contra-informação já não se fala muito dos quadros do pintor surrealista catalão Juan Miró. Calou-se a leiloeira Christie’s, calou-se o Governo Português e pronto, o povo aceita que está tudo bem. Vício que nos vêm do tempo da ditadura, quando os portugueses eram obrigados a aceitar a coisa ou, então… iam fazer uma visita, por vezes que durava anos, a Caxias ou a Peniche.
Já quase se esqueceu o grave alegado acidente na Praia do Meco que ceifou a vida a seis jovens universitários. Mas já era de esperar. Tal como foram relegados para o total esquecimento as pressões ao Tribunal Constitucional, bem como todos os roubos, as falcatruas, os amiguismos e outros ismos a que tivemos acesso nos últimos três anos. Freeport… por onde andas? Caso BPN… qual é o ponto da situação? Caso(s) Duarte Lima… como é que é? E quem matou Francisco Sá Carneiro e seus acompanhantes, na tenebrosa noite de 4 de Dezembro de 1980? E quem foi responsabilizado pela morte de António Casquinha e José Caravela, aqui bem perto, na Herdade de Vale de Nobre, no longínquo ano de 1979?
Ninguém.
Portugal tornou-se no paraíso onde os criminosos saem impunes. Onde se pode, em nome da lei e do elevado interesse nacional, destruir famílias, matar idosos, escavacar um país a precisar de outros planos que não estes que o têm afundado. E se alguns vão dentro é por um grande, enorme azar, ou porque os respectivos advogados de defesa não conseguiram esmiuçar a lei de forma a torná-la favorável para os seus clientes.

Quando era mais novo, jamais me passou pela ideia de, um dia, sentir vergonha dos governantes do meu país e de começar a acreditar, qual Fernando Pessoa, num Quinto Império que, no plano do sonho e do impossível, governado por um Encoberto ansiado, seja sinónimo de esperança e de resgate definitivo. Que a manhã de nevoeiro surja em breve… porque ainda “falta cumprir Portugal.”


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Praxes, para que servem?



Não queria voltar tocar neste tema. Mas continua na ordem do dia. Por muito que muitos não queiram. Tornou-se um tema mais sensível do que era hábito e quem se manifesta contra as praxes apercebe-se logo das reacções, muitas vezes exageradas, dos seus defensores. O meu amor pelas praxes é muito relativo. Se há cerimónias e actividades que concorrem para uma verdadeira integração dos novos alunos, não posso concorda com a estupidez que me é dada a assistir anualmente, com a malta nova a ser “integrada” através de sessões de verdadeira violência e humilhação, onde a prepotência, o absurdo e a falta da educação mais básica se sucedem sem que haja rigorosamente nada de positivo nessas “actividades de recepção ao caloiro”.

A minha filha Joana foi caloira recentemente. Viveu mais de um mês de cerimoniais que, na minha opinião, não serviram rigorosamente para nada, a não ser para provocar um profundo cansaço e uma enorme ansiedade de que tudo terminasse rapidamente para que pudesse começar a fazer aquilo que a levou à universidade: estudar. Mas nunca se queixou. Aguentou estoicamente (e voluntariamente, é bom que se diga) tudo o que os senhores estudantes a levaram a fazer. Mas, na minha opinião, não era necessária tanta parvoíce.

Também fui universitário. Há muito anos. No meu tempo, o alívio mais ansiado que poderíamos vivenciar seria descobrir que o professor da cadeira de Cultura Inglesa, que nos entregou uma lista de 150 livros para lermos até à semana seguinte, não era mais do que um aluno de 4.º ano que, com a conivência do professor da cadeira, veio assustar, de facto, uma turma de caloiros, muitos deles acabados de chegar da província. Se a tragédia do Meco foi resultado de uma praxe? Não me parece. Julgo que tudo não passou de uma infeliz conjugação de factores que resultaram num estúpido acidente. No entanto, continuo a estranhar que a investigação tenha começado apenas um mês depois.

Distraídos crónicos...

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