Estamos a umas escassas duas semanas das autárquicas, momento para muitos considerado crucial, já que o dia 1 de Outubro pode vir ser o primeiro dia de um novo ciclo político e administrativo para o concelho. Por outro lado, se a vitória continuar a sorrir à CDU, no poder há 40 anos, e desta vez sem João Amaro Marques, o melhor dos seus vereadores, estes resistentes vão ser obrigados a estudar e a aplicar novas estratégias e a tomar decisões mais práticas e mais abertas em relação a muitas das questões que não conseguiram resolver no passado. E, naturalmente, terão de levar em consideração as que têm vindo a ser apontadas pela Oposição, no decorrer desta campanha. Para além deste exercício de revisão, nada fácil mas possível de pôr em prática, terão também de fazer contas à vida, porque o dia 1 de Outubro pode vir a ser para eles o primeiro dia do seu último mandato.
Ideias velhas, recicladas a bem do ambiente intelectual português. (E algumas intimidades partilháveis)
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
domingo, 17 de setembro de 2017
Seattle
O Planeta está cada vez mais revoltado com os maus tratos que os homens lhe têm infligido ao longo de décadas. Os abalos sísmicos, as chuvas torrenciais, os furacões, os incêndios, os tsunamis, a seca prolongada, a fome, a morte... são as manifestações e as reacções naturais deste grande território, cada vez mais doente, devido a um contínuo desleixo, a um gritante desrespeito e a uma ganância sem limites com que temos habitado o nosso mundo.
Há muito tempo que as organizações ecologistas nos têm vindo a alertar para estas questões e para os dramas que hoje vivemos em grande parte do Planeta. Donald Trump é a imagem cinzenta e o símbolo triste desse desinteresse arrogante pelo bem estar de todos nós, num contraste espantoso com o testemunho do Chefe Seattle, dos índios Suquamish, do Estado de Washington, enviado numa carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pearce, em 1855: “Tudo o que fere a terra, fere também os filhos da terra. (...) Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco (...) continua a sujar a sua própria cama e há-de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejectos.”
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Cloreto de Sódio
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9/17/2017 02:14:00 da tarde
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Verão
Com o início do ano lectivo, a cidade recupera algum movimento habitual, depois da relativa vitalidade que o Verão nos trouxe. Assistiu-se a algumas manifestações culturais e desportivas que, de enaltecer, levaram até si os que, ficando de férias em Montemor, nada mais tinha que fazer nessas noites quentes. No entanto, tenho de colocar esta pergunta: alguns dos meus 12 leitores foi ao cinema até ao Parque Urbano ou ao Largo da Câmara? Pois eu fui uma vez apenas e... muito bem acompanhado. Levámos (nós e os sete espectadores estóicos e firmes) uma seca tal de José Mário Branco que adormeci, que nem um bebé, no ombro da minha fofa. Depois de ter sido acordado suavemente por ela, fomos para casa ver um filme na Fox.
Pois é, caros amigos! Neste Verão nem sequer se levou a cabo uma programação de cinema que captasse audiências: os documentários/filmes foram do mais aborrecido que se pode imaginar e, acredito, que só alguns dos espectadores puderam atingir o âmago de tais mensagens. Cheguei a perguntar-me: “Quem terá sido o iluminado que programou o cinema para as noites deste Verão?” Deve ser primo do Antonionni, do Manuel de Oliveira, do João César Monteiro, do Visconti ou do... Fellini. Tudo tipos que faziam pensar muito e gozar pouco. Pois eu acho que, com a experiência de programação que os serviços da autarquia possuem, estes têm a obrigação de trazer à cidade uma mão cheia de filmes que abrangesse mais público do que só aquele (e, mesmo assim, muito pouco) que gosta de cinema de elite.
Em relação aos outros acontecimentos, há mais cultura para além dos coros, das bandas e dos ranchos. É o que me transmitem os jovens com quem converso e que assumem rever-se, na sua grande maioria, noutro tipo de espectáculos e festivais, mais ao sabor das novas ondas musicais e, por que não, de outros géneros mais alternativos.
De regresso às aulas, muitos adolescentes vão certamente comentar os festivais, os concertos, os filmes exibidos num Centro Comercial longe de si, iniciativas levadas a efeito a alguns quilómetros de distância e às quais nem todos tiveram acesso. Ou, então, vão passar os intervalos a recordar o Festival de Lavre que foi, mais uma vez, a Honrosa Excepção.
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Almansor agonizante
(Foto José Rasquinho)
Salvem
o rio. É este o meu apelo aos autarcas que mandam e aos que hão-de vir a
mandar.
Salvem o rio.
É um grito que tem eco nas memórias de todos os que não conseguem
dispensar o Velho Almansor das suas vivências e dos seus olhares de
gaiatos-marinheiros-pescadores-exploradores-nadadores sempre em
liberdade. Hoje poderão encontrar-se outras funções nesta linha de
água em vias de extinção. Temos técnicos com capacidade para nos
devolverem este rio que foi dos nossos pais e avós e que é nosso
por direito e herança. Haja vontade política e haverá sempre uma
candidatura à espera de quem queira fazer daquele, hoje pobre
caudal, um espaço de encontro entre a cidade e o seu passado feliz.
Salvem o rio.
João Luís Nabo
In O Montemorense, Julho 2017
João Luís Nabo
In O Montemorense, Julho 2017
terça-feira, 18 de julho de 2017
TNAs! TNAs! TNAs!
Antes de a rapaziada
ir definitivamente de férias,
renovo aqui a minha posição a favor dos TNAs (Trabalhos na Aula) em
detrimento dos TPCs (Trabalhos para Casa). Porquê? Porque quando eu,
professor, me preparo para, no remanso do lar, corrigir esses tais
TPCs, nunca sei a quem atribuir a classificação: se ao aluno, se ao
explicador, se à mãe ou ao pai ou se à extraordinária e
sapientíssima Internet,
ferramenta
para todo e qualquer serviço quando a emergência é maior que o
saber. Digamos que o
melhor seria não atribuir nota nenhuma e fazer o que se fazia
dantes: convidar o aluno a defender o seu trabalho na aula, sem a
participação dos seus inúmeros e nem sempre credenciados mind
coaches (treinadores
da mente). Só assim mostraria o que vale. Ou o que não vale.
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Cloreto de Sódio
à(s)
7/18/2017 12:29:00 da tarde
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segunda-feira, 17 de julho de 2017
A Importância de não ser Ernesto *
Escrever
nas redes sociais sob anonimato com
a intenção de denegrir a imagem, a vida, a integridade e o trabalho
de outrem não pode ser merecedor do nosso desprezo. Tal como o meu
saudoso Pai me dizia, não raras vezes, devemos cultivar alguma
proximidade com os que não gostam de nós, porque os outros, esses,
são de confiança. Por isso, não nos podemos dar ao luxo de
desprezar as figurinhas que, nada fazendo por este concelho, destroem
com prévia intenção, os que, após o voto do povo, podem ou não
assumir cargos de peso no organograma autárquico. Mas o que é
verdade é que a lista da CDU começa a ser atacada de forma
ofensiva, demagógica e cobarde muito antes das autárquicas. E, pelo
que conheço dos candidatos da Oposição, nenhum deles, tenho a
certeza, concorda com esta forma de fazer política, condenando a
atitude vil e o nível pobre de argumentação que por aí anda
livremente a circular sobre um alegado futuro elemento da lista
comunista. É por isso que, tal como o leitor, que é, tenho a
certeza, um cidadão intelectualmente honesto, me recuso a acreditar
em quem, no escuro da noite, não respeita quem poderá um dia
ser-lhe útil. Se não for a si próprio, pessoalmente, será decerto
à terra onde tais figurinhas absurdas tão estupidamente fazem, como
os burros, sombra e peso no chão.
* Trocadilho com o título da famosa peça de Oscar Wilde The Importance of Being Earnest (estreada em 1895)
João Luís Nabo
In O Montemorense, Julho 2017
domingo, 16 de julho de 2017
A arte de bem descascar uma batata
Seis
meses quase passaram desde o
primeiro dia deste ano, fértil em tantas coisas e, a ver bem, em
coisa nenhuma em especial. Não vou fazer o balancete deste período
(para isso, há jornalistas credenciados), até porque seria logo
alvo de propostas de alteração ou até de uma ou outra blasfémica
ofensa por parte de um ou outro leitor menos bem disposto por causa
deste calor que nos invade a paz de espírito. Por isso, esqueçamos
o que passou e brindemos ao que há-de vir, às promessas eleitorais,
às pinturas de muros e paredes, aos arranjos nas ruas e nos largos,
às fotos da Oposição, muitas fotos da Oposição, com jogos do
antes e do depois, e à vontade, muita vontade, por parte de toda a
gente (acho eu) de tornar este Monte ainda Maior. Mas, para isso, é
preciso arte, jeito e vontade genuína de ensinar e aprender com
todos os envolvidos no processo. Cativar o eleitorado não é fácil
e, como dizia alguém muito sábio, mais vale cair em graça do que
ser-se engraçado. E, sobretudo, não ter medo de manifestar a sua
opinião, ainda que, por tal, se torne alvo de epítetos que nada têm
a ver com a essência daquilo que opina.
É
por isso que a arte de bem descascar uma batata não
é para todos. Retirar o invólucro a um tubérculo arredondado nas
formas e liso na textura é fácil e todos o podem experienciar.
Agora, retirar a casca a uma batata torta, sinuosa, produto de alguns
espasmos da natureza, não se torna fácil, principalmente quando o
cozinheiro só aprendeu, por diversas vias, e por deformação
ideológica, a descascar batatas só de um determinado lote ou a
utilizar, apenas e só, um determinado tipo de faca. É por isso que,
quando alguém decide descascar aquela batata que ninguém ousara
descascar antes, acaba por ficar sujeito a apreciações que, no
mínimo, reflectem tanto a importância da sua ousadia como a
incapacidade de discussão de temas difíceis e fracturantes por
parte dos que vivem ainda a admirar ídolos de pés de barro.
Se o concelho merece a atenção de todos os que se envolvem
político-partidariamente na luta legítima e genuína pelo poder, há
que ouvir atentamente os que, não tendo qualquer filiação
partidária, pretendem apresentar ideias, soluções, apontar
caminhos para que todos, mesmo os que não aprenderam ainda a
descascar a tal batata tão cheia de polémicas calosidades, mostrem,
sem demagogia nem ligações a ideias feitas, a sua verdadeira paixão
por Montemor. A sua paixão por todos nós.
João Luís Nabo
In O Montemorense, Julho de 2017
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Cloreto de Sódio
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7/16/2017 03:19:00 da tarde
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
Tu és revolução
Preciso de partilhar uma
ideia que me anda a ocupar o pensamento há já algum tempo. Muitos
falam do calor, das trovoadas, de sardinhadas felizes, de sangrias
geladas a transbordar no copo, das redes sociais e de como as pessoas
se expõem de forma inconsciente, sem medir as consequências das
fotos e das palavras que publicam. Ainda que anacronicamente, pois
não lembra a ninguém falar de uma coisa destas nesta altura do ano,
é sobre o 25 de Abril que quero conversar com vocês. Sobre a
Revolução que nos trouxe a liberdade de expressão e de pensamento
e, com estas, todas as liberdades que hoje respiramos, assim que
acordamos de manhã.
Foi em 1974, há 43
anos. Marcou a nossa vida, mudou o país e trouxe-nos dos maiores
benefícios que jamais podíamos imaginar. Sabemos, porém, que nem
todos estiveram ao lado da Revolução. Na altura, a maioria não
quis perceber porquê. Mas o que é certo é que quem não era pela
Revolução, era contra a Revolução e não lhe era dada qualquer
oportunidade de defender o seu ponto de vista. Eram a chamada minoria
silenciosa, os anti-liberdade.
Os que pouco ou nada
tinham, os que ganhavam mal e passavam necessidades, os que iam
implorar trabalho aos donos dos meios de produção, gritaram felizes
quando se avizinhou uma manhã mais clara e transparente, ao som das
vozes imortais de Zeca Afonso e de Paulo de Carvalho. Os que, através
das leis que saíam em catadupa para que todo o país marchasse de
forma igual e aplaudisse de forma igual a libertação das grilhetas,
perderam propriedades e outros bens, em nome dessa Revolução, da
igualdade e da fraternidade, não puderam
estar de acordo com o processo utilizado nesse caminho de
democratização do nosso sistema legal, social e político. Eu, no
lugar deles, também não estaria. Se visse as minhas propriedades
ocupadas, sem que me fosse permitida uma palavra, uma opção ou uma
ideia, também não veria com os olhos da tolerância, não a
Revolução, mas os efeitos que ela iria ter na minha vida, no meu
património e na vida dos meus filhos e dos meus netos.
Temos de admitir sem
medo nem vergonha: o 25 de Abril implantou-se, não apenas com os
punhos no ar de quem exigia trabalho, salários justos e comida para
os filhos, mas também com o silêncio e a resignação dos que viram
desrespeitado o que era seu.
Hoje, o 25 de Abril
teria tido outro rumo, creio. Com menos brechas na sociedade, com
menos radicalismo, com mais tolerância de ambos os lados da
barricada. Com menos feridas, ainda abertas após tantos anos. A
insistência constante na sua memória
parece-me, por vezes, redundante e, por isso, desnecessária. Quando
passeio pela minha cidade, tenho a sensação de que se torna quase
obrigatório, nos edifícios públicos, nos cartazes ou em qualquer
manifestação político-partidária a que assistimos, gritar
continuamente vivas ao 25 de Abril, ou inscrever laudas à Revolução,
como se fôssemos uma Cuba Fidelista ou qualquer outro
país socialista soviético da América do Sul, orientado
anacronicamente pela cartilha marxista-leninista, cheio de
dívidas eternas para com as revoluções que por lá vão
acontecendo, para sempre penhorados a um grupo de homens que
decidiram, e bem, mudar o rumo do país.
Obrigado, capitães de
Abril. Quem viveu a Revolução nunca a esqueceu, e quem nasceu já
neste terceiro milénio não precisa que lhe recordem uma coisa da
qual não se lembram. É altura de sermos políticamente maduros e
partidariamente saudáveis. Não precisamos de
que, continuamente, nos obriguem, quatro décadas depois, a
gritar vivas à Revolução. E não. O 25 de Abril não pode ficar
refém de qualquer partido ou organização. Não pode ser o trunfo
de uns contra outros. Ele é, afinal, de todos nós. Com tudo de bom
e com tudo de mau que nos trouxe e há-de
trazer.
E há uma verdade
indesmentível e categórica: neste momento, somos nós que
conduzimos a revolução, independentes e autónomos. Já não
devemos nada a ninguém.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Junho de 2017
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Junho de 2017
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Só para inglês ver
Começaram a mexer. Os políticos da terrinha já apresentaram
os candidatos, estes, por sua vez, irão apresentar a sua equipa de
trabalho para, depois, se submeterem ao escrutínio dos munícipes.
Independentemente do vencedor, o importante é que Montemor saia a
vencer. Que não se façam promessas agora para que o seu cumprimento
seja atirado para as calendas gregas. Que não se prometa o que não
se pode cumprir.
Há uma realidade incontornável e com ela me vou, de credo na boca,
a pensar no meu votozinho: Montemor precisa de incentivos ao comércio
e à indústria. Montemor precisa de mais incentivos ao comércio e à
indústria. Montemor precisa de muito mais incentivos ao comércio e
à indústria. Comunistas, Social-Democratas, Socialistas,
Centristas, olhem para a vossa terra com olhos de ver. Criem.
Proponham. Colaborem. Cooperem. Cumpram.
Respeitem-se.
João Luís Nabo, in "O Montemorense", 20 de Maio de 2017
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Eu acredito
Já se falou tudo o que havia a falar sobre o Papa
Francisco e a sua vinda-relâmpago a
Fátima, sobre o Salvador e a sua rápida ascensão ao estrelato por via da sua
vitória no Eurofestival, e sobre o desempenho do Benfica após a conquista de
quatro campeonatos nacionais in a row.
Podemos dizer que regressámos a um passado não muito distante, em que o Estado também
se curvava e beijava a mão à Igreja e em que o povo se deleitava com os fados
de Amália e vibrava cegamente com o Futebol de Eusébio.
Há, contudo, que
perceber a enorme distância, em termos de mentalidades, que vai entre o outrora
e o agora. Outrora, Portugal abraçava Fátima, a Canção Nacional e o Futebol,
porque a conjuntura socio-política o forçava a isso: não havia outras hipóteses
de escolha. Agora, a caminho da terceira década do século XXI, podemos optar e
optamos. Sem constrangimentos e sem medos. Se, por um lado, não somos iguais no
pensamento e nas atitudes dos nossos antepassados dos anos 50 e 60, também os
protagonistas da nossa História Actual são seres humanos diferentes, menos
apertados pelo “sistema”, de espírito mais aberto e de olhar bastante mais lúcido.
Francisco é um
homem inteligente, sensível e bom. Salvador é um jovem inteligente, sensível e
“fora da caixa”, e o Futebol é, afinal, o nosso orgulho de campeões europeus.
As pressões que estes “heróis” sofrem por parte dos seus admiradores, dos seus
pares ou das hierarquias em que se encontram “encaixados” acabarão por servir tão
somente de atenuante para algum erro que possam cometer enquanto vão caminhando
por este cada vez mais interessante Passeio da Fama que é, e todos os sabemos,
muito mais do que isso.
Entretanto, a
auto-estima dos portugueses subiu em flecha. Através da religião, da música e
do desporto, a grande maioria de nós já começou a pensar no lema de Barack
Obama que o levou à presidência dos Estados Unidos, no já longínquo Janeiro de
2009 de boa memória: “Yes, we can!”.
Sim, nós somos capazes. Por causa do Papa Francisco, do Salvador e do Rui
Vitória, outros caminhos irão ser desbravados. Eu acredito.
João Luís Nabo, in "O Montemorense", 20 de Maio de 2017
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Portugal português
O actual sistema de ensino tem tentado levar alunos de 16 e 17
anos a ler alguns autores-chave da literatura portuguesa: Camões,
Vieira, Garrett, Camilo, Pessoa, Eça, Saramago, Sttau Monteiro. O
actual sistema de ensino quer que os alunos explorem as obras e os
autores, de modo a ficarem preparados para os exames finais, onde os
examinandos deverão espremer, em duas horas de intenso stress,
o que conseguiram aprender desses escritores e das narrativas que os
tornaram célebres.
O actual sistema de ensino não pode querer uma coisa impossível de
querer. Para atingir esse desiderato da tutela, os alunos deveriam
ser possuidores de profundos conhecimentos sobre a História, a
Cultura (erudita e popular) a Política e a Religião do seu próprio
país, porque foi este país que deu aos escritores em estudo o
repositório de onde estes retiraram a matéria dos seus sonhos,
para, depois, atirarem para o papel as suas melhores “invenções”.
E os alunos, pelo menos a grande maioria, reconhecem que lhes falta
uma base cultural consistente para poderem dominar parte dos
conceitos, das temáticas e de um sem-número de referências
históricas explícitas, e não menos vezes implícitas, nos
romances, nas peças de teatro e na poética desses porta-vozes da
nossa vida e do nosso pensamento colectivo. Os estudantes do ensino
secundário não devem olhar para um Eça, para um Pessoa ou para um
Saramago como indivíduos distantes, estrangeiros e que só estão
ali para lhes causar dores de cabeça. A eles e aos professores. Não.
Esses e outros autores são tão portugueses como qualquer de nós e
viveram no mesmo país que hoje procura, a todo o custo, conquistar
uma nova perspectiva do Homem e do Mundo.
Assim, possuindo eles essas “ferramentas” estruturais, fortes e
benfazejas, iriam tirar muito mais proveito das leituras que fazem,
ou que fingem que fazem, e o próprio gesto de ler tornava-se, ele
próprio, agora numa perspectiva de verdadeiros leitores com
conhecimentos e pensamento crítico, num prazer maior, de verdadeiro
diálogo transtemporal entre o aluno e o escritor.
E depois, não é só o Papa Francisco, o Salvador e o Éder que
fazem vibrar multidões. Todos os autores dos programas de Português
do Ensino Secundário foram uma pedra no sapato de alguém, uma
pedrada no charco lamacento do sistema, seres humanos muito à frente
do seu tempo.
João Luís Nabo, in "O Montemorense", Maio de 2017
segunda-feira, 24 de abril de 2017
Tempo de Querer
Montemor
vai, à imagem dos outros municípios portugueses,
viver mais um ano de autárquicas. E, mais uma vez, os rituais da
política vão cumprir-se com poucas ou nenhumas alterações. Ainda
que saibamos como é difícil assumir e desempenhar cargos públicos
desta dimensão, isso não nos coíbe de manifestar a nossa
preocupação, quando pensamos na nossa cidade e no nosso concelho
como património político, histórico, social, económico e
religioso que queremos deixar aos nossos filhos e netos, isto se eles
conseguirem emprego e casa por estas bandas.
A leitura que faço de algum relaxamento visível na governação local terá por base não a incompetência nem a falta de conhecimento ou de honestidade dos políticos que nos governam desde há quase meio século. O que vislumbro, quando comparo os tempos actuais com outros bem mais interessantes, é, curiosamente, uma atitude com uma tripla face: por um lado, uma gestão que denota cansaço, desgaste e pouca emoção nas palavras e nas obras; por outro, a certeza confortável por parte da Maioria de que há, por enquanto, uma possiblidade, que se pode sempre questionar, de ganhar as próximas eleições sem muito esforço. Finalmente, o terceiro lado da moeda, o terem criado, ao longo de tantos anos, hábitos, rotinas, raciocínios que precisavam de ter evoluido, tal como tudo evolui, com penalizações para quem vai ficando pelo caminho. Isto para não falar na fidelidade que os autarcas mantém ao partido que os elegeu, sempre atento e implacável.
E a Oposição? Fui sempre crítico em relação à forma como a Oposição faz política. A visão que tanto esta como a Maioria têm da cidade e do concelho tem sido, desde os idos anos 70, diferente, ainda que todos sejam montemorenses e que todos gostem da terra que governam. É esse passado e as mágoas que dele restam que não permite, ainda, uma plataforma de entendimento entre todos os que pretendem, de facto, pôr Montemor na senda do progresso e da prosperidade.
Um dia, quando nenhum de nós estiver entre os vivos, os nossos netos e bisnetos vão perguntar-se por que motivo os obrigámos a percorrer uma estrada pedregosa, cheia de perigos, sem luz, em direcção ao deserto...
João Luís Nabo
In "O Montemorense", 20 de Abril de 2017
quinta-feira, 13 de abril de 2017
O Tempo da Paz
O tempo da Páscoa
será o mais dramático
e, paradoxalmente, o maior motivo da alegria dos cristãos. A Morte
perde o seu sentido mais literal e adquire uma nova dimensão, quando
Cristo, crucificado e morto segundo a lei daquele tempo, renasce,
inteiro e poderoso, ainda que de forma inexplicável para quem
abandonou a fé a favor de um espírito mais científico, focado na
lógica e na razão. O que se pretende sublinhar nesta pequena reflexão não é a defesa de quem acredita, muito menos o aplauso aos que se dizem ateus ou mesmo agnósticos. Porque a mensagem fulcral que, desde sempre, me tem enfeitiçado não é a Ressurreição tal como os crentes a assumem.
O exemplo que retiro deste tempo é a imagem de um Cristo Extraordinário que, renascido, mantém de forma coerente o pensamento e as acções que o tinham transformado num fora-da-lei. Mais do que um regresso à Vida, é um regresso de olhar sereno e espírito tranquilo, é um voltar sem desejos de vingança, de desforra ou de reparação.
Cristo reaparece pacífico, apaziguador, de mão estendida aos que o mataram. Fora perseguido porque se afirmava diferente. Fora condenado por revelar-se consciente das glórias e misérias do mundo. Fora crucificado por manifestar publicamente a sua defesa pelos mais fracos e a sua tolerância para com os que não pensavam como Ele. Mesmo assim, regressou em paz.
É esta, para mim, a grande força da Páscoa.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Abril de 2017
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Abril de 2017
terça-feira, 21 de março de 2017
Alface e a fineza dos livros
Também não entendo
por que motivo os alunos andam a transportar diariamente vários
quilos de livros para a escola, se alguns deles nem sequer chegam a
ser abertos no decorrer das aulas. Gastam-se centenas de euros (eu
cheguei a despender, cada Setembro, 600 euros em livros e em
materiais escolares no tempo em que os meus três filhos eram alunos)
para transformar as crianças em carregadoras de saberes profundos
sem, por vezes, fazerem ideia do que andam a transportar. O problema
é que não é responsabilidade das escolas e dos professores dar a
volta à questão. Há interesses extraordinários metidos na coisa
que continuarão a fazer com que as editoras e o ministério, os
autores de manuais e as editoras, o ministério e os autores de
manuais queiram manter esta estrutura que vai acabar por esgotar as
já parcas bolsas da maioria dos pais que, ainda por cima, estão
assim a colaborar para que os filhos possam vir a ter problemas de
saúde ao nível da coluna vertebral… que é onde assenta o crânio
(que tem dentro um cérebro.)
Alface, pela
espessura dos livros que nos deixou, havia de concordar comigo.
Tamanho não é sinónimo de qualidade e este escritor montemorense,
falecido há 10 anos e homenageado no passado dia 8 de Março nos
Paços do Concelho da sua terra, conseguiu provar com os seus textos
narrativos que basta uma única frase, escrita com saber e
inteligência, como só ele sabia, para pesar mais do que os cinco ou
seis manuais escolares que os miúdos levam hoje, diariamente, para a
escola.
Tenho
a certeza de que para este escultor da palavra, mordaz, satírico,
contundente e literariamente livre, bastaria uma leve sebenta,
dobrada ao meio e enfiada no bolso de trás das calças para poder
ser o mais sábio dos alunos e ser hoje o mais descontraído dos
mestres.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março de 2017
quinta-feira, 16 de março de 2017
TPCs? Nem sempre, obrigado
Todos os meses são bons para discutir o tema que se tem avolumado
em cima das secretárias dos professores e sobre as mesas de trabalho na casa de
cada aluno. Os trabalhos de casa andam na ordem do dia. Se concordo com os tão
célebres e badalados TPC’s? Concordaria se prevalecesse o bom senso e houvesse
uma articulação entre os docentes, de modo a não prolongarem os longos dias que
os alunos passam na escola em mais duas, três ou quatro horas de ocupação
intelectual, em casa, envolvendo pais, tios, avós e explicadores.
É por isso que eu, no exercício da minha profissão, muito raramente (quase nunca) mando trabalhos para casa. Porquê? Porque os alunos têm de gozar momentos de pausa e descontracção, quer sozinhos, quer com os amigos e com a família e porque nunca sei quem é que vou ter de avaliar nestas circunstâncias: se o aluno, se o pai, se a mãe, se ambos, se a avó ou até mesmo se o primo afastado, poeta de longo curso, acabadinho de regressar de Espanha, depois de umas férias merecidas em Benidorm.
João Luís Nabo (In "O Montemorense", Março de 2017)
quarta-feira, 15 de março de 2017
Ai, Março, Março!
O mês de Março é,
aparentemente, um mês morto. É assim uma espécie de “toma lá
calma e não te enerves, que isto há-de passar”, um mês de fazer
favor que nos deixa mergulhados numa espera e num ansiar por outros
dias com mais luz. Março, outrora dedicado ao deus romano da guerra
e da agricultura, é hoje apenas o terceiro mês deste calendário
que nos obriga a um intervalo entre a noite e o dia, entre a sombra e
a luz, que nos arrasta nestas horas que não são invernosas nem
primaveris, num limbo demasiado longo onde as almas aguardam, nem
sempre serenamente, a libertação.
Essa
virá com os dias que se avizinham, uns de Paixão e Morte, outros de
Ressurreição e Esperança, outros sem coisa nenhuma que se pareça,
mas, ainda assim, cumpridores do calendário dos homens e da
natureza. Poupa-se luz, poupa-se gás, poupa-se a alma e o pensamento
e os psiquiatras ficam mais libertos para irem à pesca. É por isso
que gosto muito mais do que vem depois.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março, 2017
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Celebrações II
Cada
um de nós vai tendo, com o decorrer dos anos, dias certos de
celebração ou de saudade. Cada um saberá dos seus e conhecerá a
melhor forma de invocar memórias e de elevar um pouco mais o
pensamento em direcção a um espaço que não se descreve e que se
situa exactamente dentro de nós. Recordar amores passados, com um
sorriso nostálgico mas não saudosista; pensar nos que partiram
antes de nós, gravando no nosso ADN o Dia e a Hora da despedida;
recuperar, com sofreguidão, os verões da nossa juventude, onde tudo
era simples, claro e natural; recuar até à infância, lugar eterno
onde os nossos pais nunca envelheciam e os nossos avós ficavam
cristalizados nas nossas carícias e nos nossos abraços.
Acreditar,
enfim, que as celebrações mais importantes não são as que dão
lucro ou as que nos permitem ostentar materialmente o nosso poder
perante o nosso semelhante. E há tantas, a maioria “decretadas”
pelo Estado ou pela(s) Igreja(s)… Contudo, as intocáveis, as
incorruptíveis, as mais sagradas são as nossas, as que não
partilhamos abertamente porque impossíveis de exibir, as que nos
permitem ficar, recatadamente, um pouco mais próximos do verdadeiro
sentido da existência. Porque todos temos um passado. E porque
ninguém é uma ilha.
João Luís Nabo
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Fevereiro de 2017
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Valentim
Começo
estes rabiscos exactamente à meia-noite e um minuto do dia 14 de
Fevereiro. E nem por um segundo senti qualquer diferença. Dizem que
é o Dia dos Namorados. Nada contra. Nem contra este dia nem contra
todos os outros que se celebram, uns a propósito, outros a esmo, sem
fundamento nem mais-valias. Mas é bonito fazer-se uma festa, seja
por que motivo for.
O
que me aborrece com esta e outras celebrações é que muitas entram
em campos tão vastos que nós nunca sabemos se devemos ou não
celebrar aquilo que alguém nos “obriga” a celebrar. Não sei se
todos os casais de namorados vão celebrar este dia da mesma maneira:
com flores, bombons, beijinhos e um jantar diferente, protegido que
está o seu amor por São Valentim, que recordam à luz de uma vela
para a ocasião. Ou se alguns desses casais preferem comemorar a sua
relação de forma coerente, com mais uns empurrões, umas bofetadas
e uns nomes menos românticos à mistura, tal como fazem no decorrer
do resto do ano.
Seria
bom acabar com esta comemoração? Não. Isso seria afundar negócios
de milhões um pouco por todo o mundo, criando ainda mais desemprego
e instabilidade. O ideal é que não fosse preciso um dia para
comemorarmos o que nos move todos os dias – o amor.
In "O Montemorense", Fevereiro de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
A trave e o argueiro
Os anos começam bem para uns e mal para outros. Ainda no tempo das cavernas, altura em que
S. Gregório não tinha nascido, os homens e as mulheres não tinham a mesma noção
de tempo do que nós, mas também teriam dias melhores e dias piores. Com mais
caça ou menos caça. Com melhores ou piores colheitas. Com vidas conjugais
calmas ou agitadas. Com mais guerrilhas ou menos guerrilhas pela posse das
terras e de alguma gruta assim tipo T5.
Nada mudou, apesar de tudo. Esses tempos eram, também eles, injustos.
2017 é agora
mais um momento (breve, muito breve) que se quer sempre renovado, melhorado e,
sobretudo, justo. Mas sabemos que não é assim. A vida, desde o tal tempo dos
nossos pré-históricos avós, continua a não ser sempre justa e nem sempre temos
aquilo que merecemos. No entanto, “navegar é preciso”, como dizia o poeta, e
todos, quer tenham fé num Deus, em vários, em nenhum ou apenas em si próprios,
têm o direito a uma vida digna e sem sobressaltos. Para isso, basta, às vezes e
apenas, que o outro seja respeitado nas suas opções, nas suas diferenças, nas
suas limitações ou nas suas capacidades. A nossa maior limitação é, de facto,
não vermos como todos, de uma forma ou de outra, somos, tantas vezes, tão
limitados.
Citando um autor
famoso chamado Mateus, São Mateus, que eu leio de vez em quando, “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então
verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.” (7:5)
Bom Ano Novo.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2017
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Sejamos Sábios
Embora sensível à função estética de qualquer obra de arte ou
performativa, não terei conhecimentos suficientes para analisar a
questão em termos técnicos ou artísticos, e não foram essas as
questões que motivaram este texto. No entanto, não fiquei
insensível nem ao genérico da novela, nem aos exteriores, centrados
em magníficas imagens do Castelo, da Cidade e de outros pontos
conhecidos (Barragem dos Minutos, Herdade da Comenda do Coelho,
Cromeleque dos Almendres) que nos deixam sempre com um aperto na
garganta.
Mas não é esse o maior gozo de todos: o maior gozo de todos é
quando ouço as personagens a falarem de Montemor como se fossem
mesmo de cá, como se estivessem, tal como nós, profundamente
apaixonados (ou não) por todos os encantos desta terra. É, muitas
vezes, esta magia que a literatura e o cinema têm que é o de
poderem misturar a realidade com a ficção, ficando nós, quantas
vezes, sem sabermos onde começa uma e acaba a outra. E, na nossa
imaginação, sempre a mil, ainda pensamos ser possível darmos de
caras com o recém-regressado Pedro Homem, com
o bondoso Tio Jacinto, a Sofia, confusa e à procura do seu rumo, ou
o Raúl e a Cremilde da sede dos pescadores.
Então, há que aproveitar esta oportunidade, única e sem
precedentes, de termos Montemor-o-Novo a ser visto quase diariamente
no mundo inteiro. Torna-se urgente tirar partido da força e do poder
da televisão e, agarrados a esta obra de ficção, procurar atrair
gente à cidade e ao concelho, porque precisamos de mais movimento,
de mais gente, de mais turistas, de mais habitantes, de mais capital,
de mais compras e de mais vendas.
Por isso, quero ter a certeza de que, muito em breve, o executivo
camarário vai iniciar (se não o fez já) uma série de acções
estratégicas, concertadas não só com as agências de viagens,
companhias turísticas, marcas de produtos e serviços, entre outros
eventuais interessados, mas também, e sobretudo, com empresas,
restaurantes, pastelarias, hotéis, pensões, associações culturais
e desportivas da cidade e do concelho. Podemos deixar de ser um local
de passagem para nos transformarmos num espaço que, dado a conhecer
pela caixa mágica, se transformará num polo atractivo, com muita
gente a querer passar por cá e visitar as maravilhas que nós cá
temos e que tantos e tantos desconhecem. E quem vem demora-se, come,
dorme, faz compras. E pode até decidir cá viver. Não podemos ter
medo de quem nos pode dar a mão em termos económicos e humanos. Não
podemos fechar Montemor ao mundo. Aproveitemos a oportunidade. É
agora ou nunca.
Obrigado RTP. Obrigado Câmara Municipal. Obrigado Rui Chapa. Sem ti,
o protagonista teria morrido e a novela não teria qualquer sentido.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2017
Publicada por
Cloreto de Sódio
à(s)
1/06/2017 02:15:00 da tarde
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