segunda-feira, 19 de junho de 2017

Tu és revolução





Preciso de partilhar uma ideia que me anda a ocupar o pensamento há já algum tempo. Muitos falam do calor, das trovoadas, de sardinhadas felizes, de sangrias geladas a transbordar no copo, das redes sociais e de como as pessoas se expõem de forma inconsciente, sem medir as consequências das fotos e das palavras que publicam. Ainda que anacronicamente, pois não lembra a ninguém falar de uma coisa destas nesta altura do ano, é sobre o 25 de Abril que quero conversar com vocês. Sobre a Revolução que nos trouxe a liberdade de expressão e de pensamento e, com estas, todas as liberdades que hoje respiramos, assim que acordamos de manhã.
Foi em 1974, há 43 anos. Marcou a nossa vida, mudou o país e trouxe-nos dos maiores benefícios que jamais podíamos imaginar. Sabemos, porém, que nem todos estiveram ao lado da Revolução. Na altura, a maioria não quis perceber porquê. Mas o que é certo é que quem não era pela Revolução, era contra a Revolução e não lhe era dada qualquer oportunidade de defender o seu ponto de vista. Eram a chamada minoria silenciosa, os anti-liberdade.
Os que pouco ou nada tinham, os que ganhavam mal e passavam necessidades, os que iam implorar trabalho aos donos dos meios de produção, gritaram felizes quando se avizinhou uma manhã mais clara e transparente, ao som das vozes imortais de Zeca Afonso e de Paulo de Carvalho. Os que, através das leis que saíam em catadupa para que todo o país marchasse de forma igual e aplaudisse de forma igual a libertação das grilhetas, perderam propriedades e outros bens, em nome dessa Revolução, da igualdade e da fraternidade, não puderam estar de acordo com o processo utilizado nesse caminho de democratização do nosso sistema legal, social e político. Eu, no lugar deles, também não estaria. Se visse as minhas propriedades ocupadas, sem que me fosse permitida uma palavra, uma opção ou uma ideia, também não veria com os olhos da tolerância, não a Revolução, mas os efeitos que ela iria ter na minha vida, no meu património e na vida dos meus filhos e dos meus netos.
Temos de admitir sem medo nem vergonha: o 25 de Abril implantou-se, não apenas com os punhos no ar de quem exigia trabalho, salários justos e comida para os filhos, mas também com o silêncio e a resignação dos que viram desrespeitado o que era seu.
Hoje, o 25 de Abril teria tido outro rumo, creio. Com menos brechas na sociedade, com menos radicalismo, com mais tolerância de ambos os lados da barricada. Com menos feridas, ainda abertas após tantos anos. A insistência constante na sua memória parece-me, por vezes, redundante e, por isso, desnecessária. Quando passeio pela minha cidade, tenho a sensação de que se torna quase obrigatório, nos edifícios públicos, nos cartazes ou em qualquer manifestação político-partidária a que assistimos, gritar continuamente vivas ao 25 de Abril, ou inscrever laudas à Revolução, como se fôssemos uma Cuba Fidelista ou qualquer outro país socialista soviético da América do Sul, orientado anacronicamente pela cartilha marxista-leninista, cheio de dívidas eternas para com as revoluções que por lá vão acontecendo, para sempre penhorados a um grupo de homens que decidiram, e bem, mudar o rumo do país.
Obrigado, capitães de Abril. Quem viveu a Revolução nunca a esqueceu, e quem nasceu já neste terceiro milénio não precisa que lhe recordem uma coisa da qual não se lembram. É altura de sermos políticamente maduros e partidariamente saudáveis. Não precisamos de que, continuamente, nos obriguem, quatro décadas depois, a gritar vivas à Revolução. E não. O 25 de Abril não pode ficar refém de qualquer partido ou organização. Não pode ser o trunfo de uns contra outros. Ele é, afinal, de todos nós. Com tudo de bom e com tudo de mau que nos trouxe e há-de trazer.

E há uma verdade indesmentível e categórica: neste momento, somos nós que conduzimos a revolução, independentes e autónomos. Já não devemos nada a ninguém.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Junho de 2017

Distraídos crónicos...

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