sexta-feira, 15 de maio de 2020

Cinco pequenos aborrecimentos



Primeiro aborrecimento

Estou a ficar muito aborrecido com esta pandemia. Como dizia um senhor, há uns anos, “Não gosto de ficar sequestrado, pá! Não gosto!” Mas esta minha apoquentação não é pelo vírus em si, que já provou por esse mundo fora ser mesmo mauzinho e que até mata muitas pessoas, e tudo. São, lá está, as pessoas, em si, que me aborrecem.
Passei este tempo todo fechado em casa (mas sempre de fato e gravata, não fosse haver ordem repentina para fazermos concertos), no sentido de colaborar com aquelas senhoras com ar já muito cansado que nos entram em casa a toda a hora a falar de mortos, de recuperados, de infectados e má-na-sê-quê. Eis senão quando, nas redes sociais, começam a aparecer publicações de manos e manas que se fartam de passear o cão, de lavar o carro, de conviver com os vizinhos, dizendo até que com vizinhos não faz mal nenhum que é tudo gente séria e de confiança. Gostava de entender isto.


Segundo aborrecimento

Agora, um dos passatempos da televisão destes últimos tempos (vejo muita televisão, já se sabe!) é ir até aos funerais fazer umas imagens descontraídas para mostrar ao pessoal que fica em casa… e que não pode ir aos funerais. E o que é que nós vemos? Pessoal a chorar baba e ranho (há canais que fazem grande planos destas secreções naturais), abraçado a toda a gente, aproveitando assim a onda do abracinho comovido para sentir alguma proximidade, porque depois regressam a casa e, por vezes, ficam sem ninguém para abraçar.


Terceiro aborrecimento

Outra coisa que me incomodou nestes dias tristes, e muito, foi aquela briga assaz curiosa e engraçada entre o Primeiro Ministro e o Ministro das Finanças por causa de um comentário que aquele senhor que ainda pensa que está na TVI fez. Ora, Marcelo já devia ter fechado o megafone há muito tempo, só que ninguém tem coragem para lho dizer. Por vezes, (quase nunca) ninguém lhe pede a opinião e ele acaba por dá-la, dividida em vários pontos (quase sempre dois) e de borla. Fiz alguma investigação e descobri, vejam lá só, que esta pequeníssima desavença foi tirada, sem tirar nem pôr, de uma cena de uma novela venezuelana em que ele, todo machão, diz, ela, muito sorrateira, desdiz, e depois vem a bisbilhoteira da vizinha meter o nariz onde não é chamada. Acabam todos à pancada, mas depois de um encontro romântico (sem a vizinha, que é chata!!!), o casal continua junto, com renovadas juras de amor. Pelo menos, até Junho.


Quarto aborrecimento

Isto hoje são só desabafos. Eu não saio de casa, mas sei de tudo o que se passa por aí. Porquê? Porque, nos intervalos dos treinos físicos que agora se fazem a dar com um pau, a malta vai dar umas voltas para espairecer e desata a tirar fotos e a mandar informação. Pois, uma coisa que me aborreceu profundamente é a falta de sensibilidade de algumas pessoas anónimas que não gostam de fazer as coisas às claras. Então não é que houve uns jardineiros amadores que foram arrancar as plantas das floreiras da renovada rua de Aviz? Isso não é forma de manifestar o seu desagrado em relação ao ar inestético das floreiras, até porque as flores não têm culpa nenhuma. A falta de honestidade passa, isso sim, por outra questão: se foi o género de flor que desagradou ao sensível energúmeno, este, para ser intelectual e esteticamente honesto, só deveria ter tido o cuidado de lá ter plantado outra a seu gosto. Eu sei que corria o risco de outro pateta não concordar e arrancar os seus malmequeres e trocá-los por miosótis ou por um alho francês, por exemplo. Mas isso era uma questão que se ia resolvendo nas noites seguintes.


Quinto aborrecimento

Vou terminar, avançando com uma inconfidência que me pode valer as malas à porta (já esteve mais longe de acontecer): um dia destes, a Fofa começou a fazer exercício físico com mais intensidade do que o habitual e eu perguntei-lhe qual o motivo de tanto esforço. Sorriu (cá em casa não usamos máscara e eu vi-lhe o sorriso maroto) e respondeu: “Assim que aquecer o tempo, vamos à praia.” “À praia?”, admirei-me. “Vai ser uma enchente e vamos ter de ficar presos naquelas gaiolas art-déco de acrílico (parecemos uns periquitos da China)!!” Ela respondeu-me, com a respiração entrecortada: “Vamos cedinho, tipo três, quatro da manhã, chegamos lá, tiramos a senha verde para irmos para o areal, a senha azul para o duche, a senha vermelha para o restaurante, a senha branca para as bolas de Berlim e a senha amarela para passear à beira-mar. Anima-te e faz uns exercícios também. Vais ver que, por volta das onze da noite, já estamos em casa.”
E eu não tive outro remédio.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Covid 1, 2, 3 e 4



(Fonte: Washington Post)

Covid-1

Começa a ser um lugar comum, a cheirar a mofo, até, dizer-se ou escrever-se que nunca tínhamos experienciado uma situação como esta a que o Coronavírus nos obrigou a viver. E é quase sempre daqueles que ficam confortavelmente em suas casas à espera que a coisa passe, que nasce grande parte das reclamações efusivas e dramáticas, como se eles fossem enfermeiros ou bombeiros em risco de vida. Estes e outros profissionais que andam na linha da frente a combater a doença e os comportamentos idiotas, fúteis e de animais irracionais de alguns de nós nem têm tempo para se queixar.
Os dois milhões de mortos, ao tempo de hoje, em todo o planeta são um sério aviso à navegação mundial. O que nos deixa desconfortáveis, e quiçá irritados, é que este número de vítimas poderia ser muito menor se, durante os genéricos iniciais deste filme, não se tivesse desvalorizado a gravidade da situação e se tivesse perdido tempo com conselhos inúteis. E apesar do que está à vista do planeta inteiro, ainda hoje há trumps e bolsonaros que, de forma absolutamente terrorista, gritam aos mil ventos que tudo o que se está a passar não é mais do que “uma gripezinha”, outros ainda afirmando com assumida propriedade que isto não passa de um castigo de Deus para com os homossexuais. Declarações do género vão abrindo caminho na mente de idiotas como eles, que acabam por viver o dia-a-dia sob o risco de serem contaminados e com grandes probabilidades de contaminarem outros.


Covid-2

No nosso país passou-se algo parecido, embora com contornos diferentes. Contudo, o grau de inconsciência julgo que andou perto. Recordo quando ainda não havia casos declarados em Portugal e ouvi a Directora-geral da Saúde afirmar que seria suficiente resfriarmos os nossos contactos sociais, que “não era preciso andarmos sempre aos beijinhos e aos abraços”. Depois foi o tempo de uma eternidade até o Governo de António Costa decidir fechar as fronteiras com Espanha (mas só aos turistas). Ou seja, se o vírus viesse na bochecha de um condutor de um transporte de mercadorias, poderia passar porque vinha em trabalho. Se viesse na mucosa nasal de um turista, então, porque vinha em lazer, já não poderia atravessar a fronteira. A acrescentar a estes disparates, só muito mais tarde é que foram encerrados os aeroportos. Pois foi assim, caros leitores e caras leitoras, que, com calma e simpatia, escancarámos o nosso querido Portugalzito à pandemia, expusemos os idosos e os igualmente mais vulneráveis, de modo a que o vírus fizesse o que entendesse, com toda a liberdade e com todo o tempo do mundo.
E agora é aguentar, com o Serviço Nacional de Saúde a dar o berro, com 18.000 infectados e com 600 mortos. E agora é aguentar o milhão de portugueses em lay-off com sessenta e seis por cento de vencimento, é aguentar o desemprego e as aulas pela televisão e pelo célebre e amado Teams, uma plataforma digital assim tipo central de comunicações 24 sobre 24. E agora é aturar a mulher, o marido, a sogra, o sogro, o pai, a mãe, os filhos, o cão e o sacana do canário que não se cala, um dia inteiro, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, uma semana inteira, sete sobre sete dias, um mês todinho (para já) do princípio ao fim. Ouvi há pouco da parte das autoridades de saúde que vai ser declarado obrigatório o uso da máscara em espaços públicos. Espero que seja obrigatório também dentro de casa, porque eu cá já não consigo encarar diariamente a família com olhos de bom cristão. Nem ela a mim. Assim, com a máscara, colocada logo de manhã após o duche, a coisa ainda dava para suportar mais ou menos.


Covid-3

O que nos salva são as comunicações com o exterior. Criam-se novos grupos no WhatsApp e noutras cenas do género, liberais e à maneira, e o pessoal convive, almoça, toma café e até dorme sestas improváveis com quem nunca imaginaria que tal desse certo. Reforçam-se os laços de amizade, apesar da distância, e fica-se sem tempo para pensar em tragédias. Há até quem pratique piano mais do que o habitual, estude partituras para coro, escreva artigos para jornais e, até, imaginem a ousadia, tenha pensado numa história em forma de romance.


Covid-4

E o melhor do mundo continuam a ser as crianças, complementando o verso do tal que a gente sabe. Pois continuam. E agora estão na mó de cima, a rirem-se de nós como se não houvesse amanhã. Um jovem aluno, em conversa animada comigo através de um desses processos modernos e apelativos, disse, e com toda razão do seu lado: “Nunca imaginei que os meus pais me estivessem sempre a dizer agora para ir para o computador e para o telemóvel, quando, há umas semanas me diziam exactamente o contrário, chegando ao ponto de me proibirem tal prática, por causa das notas baixas na escola… Afinal, se não fosse a nossa prática, adquirida em anos, em lidar com estas novas tecnologias, como é que a gente se iria desenvencilhar com estes métodos de ensino à distância e orientar professores menos talentosos? Eram os cotas que nos iam ensinar?”
E tem toda razão, o puto. Toda mesmo. Dá-lhe, miúdo!


João Luís Nabo

In O Montemorense, Abril 2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

Estamos tramados



Penso que já se disse tudo sobre o Novo Coronavírus. E já se escreveu o que se tinha a escrever. Tudo o que se acrescentar a partir de agora deverá trazer novidades e propostas de solução. (Por esse motivo, e porque não tenho soluções para apresentar, eu devia parar já de bater com os dedinhos no teclado do computador. Mas aí, seria despedido do jornal e não teria forma de pagar o carro novo – estou a brincar.) E há questões que não vale a pena voltar a aflorar. Situações absurdas que nos surpreenderam todos os dias, quando pensávamos que vivíamos num país evoluído e progressista. E não me venham dizer que a estupidez humana em geral e a estupidez dos portugueses em particular são ainda herança da longa noite do fascismo. Isso foi chão que já deu uvas, e os tristes que se desculpam com esses 48 anos de escuridão (que já lá vão quase há meio século) deviam pensar melhor no que dizem e no que fazem.          
Enquanto assistíamos ao colapsar da Itália e ao alastrar da epidemia noutros países da Europa, continuámos a fazer a nossa vidinha como se nada estivesse a acontecer e, pior ainda, como se Portugal se localizasse numa redoma de vidro que o tornava intocável e imune a todo e qualquer vírus. Numa primeira fase, quando parecia que o problema se encontrava “apenas” do outro lado do mundo, a velha expressão “isso só acontece aos outros” continuava de boca em boca, quando nos encontrávamos com os amigos nos cafés, nos restaurantes, nas discotecas, nos teatros e cinemas, nos recintos desportivos, nos ginásios, nos balneários, nas escolas, nas missas, nos ensaios dos coros e das bandas, nos escuteiros, nas visitas de estudo, nos projectos Erasmus, nas viagens ao estrangeiro… em plena pandemia.
            Numa segunda fase, se algum de nós, mais consciente ou mais temeroso, referisse a necessidade de uma mudança urgente de comportamentos e políticas, os doutores e engenheiros da nossa praça atiravam-nos logo com artigos de jornais e de revistas sobre a Gripe Espanhola… que matou mais de 100 mil (nunca percebi como é que isto serve de argumento para defender seja o que for ou para contrapor as opiniões dos mais atentos). Outros, licenciados em Medicina de um dia para o outro e especialistas em Saúde Pública na Universidade da Vida, atiravam com um doutoral e inabalável, “mas a gripe comum mata muito mais e ninguém fala nisso.” Alguns ainda, com a mania que salvam o planeta da fome, mas que vão para a praia quando as escolas e as universidades são encerradas, vociferavam: “Morrem mais crianças à fome do que as vítimas do Corona e ninguém se importa com isso…” Enfim, para cada borrego a sua borreguice. E não valia a pena referir que os casos apontados nada tinham a ver uns com os outros e que agora se tratava de um vírus mutável, perigoso, e de rápida propagação. Não. Os que se preocupam é que são estúpidos e os que compram umas mercearias a mais nos supermercados é que são uns egoístas açambarcadores e má-na-sê-quê.
            Numa terceira fase, agora que grande parte dos edifícios e das instituições públicas e privadas se encontram encerrados, não sabemos quais serão as verdadeiras e terríveis consequências de todo este processo alucinante. E não me refiro apenas à qualidade de vida, à saúde e à necessidade imperiosa de sobrevivência. Sabemos que não estamos a viver um filme de terror. Foi a nossa vida que se transformou numa existência de incerteza e de medo, tal como vimos em muitas narrativas cinematográficas e literárias, tal como Stephen King profetizou em tantos dos seus romances, ou como Dean Koontz imaginou no seu livro The Eyes of Darkness, publicado em 1981, em que a cidade de Whuan se torna no berço do vírus, ou ainda como a escritora, também norte-americana, anuncia uma pandemia irreversível “lá para o ano 2020”, no seu livro End of Days: Predictions and Prophecies About the End of the World. Assustador? Sim. São apenas livros? São. E de qualidade literária questionável, segundo alguns críticos. Mas a verdade é que já começámos a viver o que ambos imaginaram na ficção, há já algumas décadas.
            Numa reflexão um pouco mais fantasiosa e correndo o risco de parecermos paranóicos, não seria estranho se um cientista desequilibrado, após ter lido os livros, tivesse decidido fazer exactamente o que lá vem descrito. Koontz e Browne tornar-se-iam profetas e o cientista louco terminaria os seus dias num manicómio a assistir ao colapsar do planeta, qual Nero diante de Roma em chamas, sem poder gastar os milhões de dólares que um qualquer governo, igualmente louco e terrorista, lhe teria pago para cometer este crime maior contra a humanidade.
Regressando à nossa realidade e resumindo as aventuras dos últimos dias, passámos de uma despreocupação absolutamente patética para uma fase de invasão dos supermercados e farmácias. Do abraço efusivo e do beijo lambuzado à vénia e ao toque de cotovelo. Agora, não cumprimentamos ninguém como devíamos (por vezes, até dá jeito) e apodera-se de nós um receio atípico quando temos de aceitar o pão do padeiro que, fiel às suas obrigações, nos vem bater à porta todas as manhãs.
Se a estupidez não tem cura, o que me deixa aliviado é que esta questão do vírus vai acabar, mais tarde ou mais cedo, por ficar resolvida. Já a questão da estupidez... essa ficará em stand-by à espera de uma nova epidemia. Não sei quando terminará este período de caos. Não sei se ainda cá estarei nessa altura, mas, para já, vão para casa e não me aborreçam mais com as vossas doutorices da mula russa e os vossos exageros liliputianos.
Portugal é, e vai continuar a ser, um Portugal dos Pequeninos. Mas isso já todos sabemos.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2020

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Carlos Cebola: presente!



Não me agrada escrever textos sobre amigos que partiram. Penso sempre que os deveria ter escrito (ou dito) com eles à minha frente, olhos nos olhos, a dizer-lhes o bem que penso deles, como os admiro e amo. Com o Professor Carlos Cebola deveria ter sido assim. Só que há o embaraço da escolha das palavras, o tempo que nunca chega para estarmos juntos, o momento que nos foge, sempre in extremis.
Partiu Carlos Cebola. Partiu o Homem. Ficou a obra do Poeta, do Ensaísta, do Dramaturgo, do Contista, do Melómano. As nossas primeiras palavras foram trocadas por volta de 1992, quando Carlos Cebola, a convite de Manuel Filipe Viera, hoje um dos grandes conhecedores de toda a sua obra, começa a colaborar no jornal “Folha de Montemor” com um conjunto de poemas – “Romagem a Montemor” –, primeiro passo de muitos que daria, depois, ao lado do jornal e, porque seria inevitável, ao lado do grupo de cantores que começou a admirar - o Coral de São Domingos.
No Natal passado, já o professor se encontrava fragilizado, Filipe Fernandes, Vítor Guita e Bernardino Samina, na minha opinião, declamadores maiores da obra poética de Carlos Cebola, disseram, na Igreja da Misericórdia, em jeito de homenagem, dois dos seus poemas de Natal, inéditos, escritos para os Cantares ao Menino em anos anteriores. Porque em 2019 já não tivemos o prazer inenarrável de ter nas nossas mãos mais um original que iria fazer parte da colecção de poemas, escritos especificamente para o Coral.
Vítor Guita, um dos nossos amigos comuns, costuma dizer amiúde que a melhor forma de homenagear um autor é ler-lhe a obra. Lembrei-me destas suas palavras tão certas, que ele insiste em repetir sempre que pode, e fui ao meu arquivo para trazer de lá esta pequena crítica à última peça de teatro escrita pelo professor para o Theatron e que nos revelou, de facto, o verdadeiro espírito de Carlos Cebola, enquanto contador de estórias e criador de sonhos: todos os seus textos partem da natureza humana e a ela regressam, após sérias reflexões sobre a vida, a morte e o prazer e a dor que se retiram da existência.
Fiquem, então, com este artigo, escrito a 30 de Maio de 2009, já em casa, após uma monumental bebedeira de grande teatro:

“Se Bertolt Brecht tivesse passado o serão de ontem no Cine-teatro Curvo Semedo, sentir-se-ia vítima da sua própria receita e teria dito: “Este Carlos Cebola é um jovem criador que sabe do ofício.” Se Roland Barthes tivesse igualmente dado uma volta por lá, era capaz de ter concordado com esse mestre do teatro moderno alemão, falecido em 1956. Se outros autores e teóricos da literatura e do drama pudessem ter visto e ouvido o mais recente texto para teatro de Carlos Cebola – In(e)vasões –, iriam querer tirar dividendos das múltiplas influências que afirmariam ter tido na escrita do autor.
Se o texto literário, tal como refere Barthes, é um entretecer de inúmeros textos, palimpsestos impossíveis de distinguir, produto de uma sobreposição de culturas e de conhecimentos, o autor da peça ultrapassou essas teorias e colocou actores e texto a um nível dramatúrgico que, aparentemente de difícil execução, resultou numa perfeita lição de teatro. E nada mais modernista do que pôr o texto a falar dele próprio, os actores a comunicarem como seres humanos e não como seres de papel decalcados num cenário, com a encenação a ajudar, dando esta ênfase a um equilibrado misturar de tempos, de épocas e de ritmos. Assistiu-se ao teatro a prestar uma homenagem a si próprio, piscando o olho direito ao público, que se entregou ao jogo desde o primeiro momento, e o esquerdo a Brecht (desculpem a insistência), um dos primeiros a escrever e a encenar um tipo de representação teatral que, de quando em vez, tornasse o espectador consciente de que o que via não era mais do que uma representação.
Mas a peça, logo definida de início com um “exercício”, vai muito longe, muito para além desse humilde desiderato. O carácter metaliterário e provocador de In(e)vasões torna-se visível de imediato quando, perversamente, as personagens se tratam pelo nome próprio dos actores, situação improvável num texto clássico. Sabemos que o transtornado Hamlet nunca se chamou em palco Laurence Olivier ou Kenneth Branagh, nem a calculista Lady Macbeth responderia pelo nome de Sarah Bernhardt.
Que o Theatron tivesse sabido dar vida às palavras de Carlos Cebola, já eu calculava que era possível. Que Vítor Guita, a respirar o pó do palco uma vida inteira, seja um especialista nas encenações daquele autor de Niza, naturalizado montemorense, também foi uma constatação. Que Maria João Crespo manifeste perfeito conhecimento das capacidades e limites dos seus colegas actores da Associação Theatron, foi igualmente fácil de perceber. O que me deixou profundamente fascinado foi Carlos Cebola, com mais de sete décadas de vida, ter concebido um texto com uma estrutura que parece ter saído da mais moderna escola europeia (ou americana) de guionistas, mostrando de forma inteligente, como aliás é hábito, o seu espírito rebelde e desafiador das normas para, imaginem, enganar o público, fingindo dizer a verdade, fazendo lembrar, ao de leve, um certo texto de Almeida Garrett.
Avisado pelos actores-personagens, por mais do que uma vez, que não iria assistir à representação de uma peça de teatro, pois não viu o público outra coisa, com os nomes das personagens a confundirem-se maliciosamente com os dos actores, com Montemor ao fundo, em imagens, ouvindo referência aos nomes dos sítios e das ruas no decorrer da “narrativa”. Um “simples exercício” não pode ter a profundidade que o texto foi revelando aos poucos, em crescendo e com um fantástico e propositadamente ofensivo anti-climax. O recheio, fundo e espesso, do qual a caneta (agora o teclado) de Carlos Cebola nunca abdicou nestas largas décadas de escrita, esteve lá, mais uma vez mostrando o Homem como o centro da intriga, mas simultaneamente como o último reduto da esperança, o lugar derradeiro onde pode haver solução para os seus problemas, uns mais metafísicos, outros de pura condição humana.
E a lição que tirámos desta vez é a continuação do que já sentimos em alguns dos seus textos dos anos 50/60 (Três Tardes de Três Outonos, A Cigarra e a Formiga, A Acácia no Quintal ou Quinto Mandamento) e noutros mais recentes (João Cidade e Tamar): para o dramaturgo, nada é completamente branco, nada é completamente preto. Há sempre que dar lugar ao cinzento. Ou a outra cor qualquer. É isto, para além daquilo que já escrevi e do muito que fica por dizer, que faz de Carlos Cebola um autor modernista, tendo-o já começado a ser, avant la lettre, há mais de meio século.”

Quero acreditar que, mais tarde ou mais cedo, se fará a divulgação da extensa e multifacetada obra de Carlos Cebola, para que ela possa vir a ser estudada e interpretada nas escolas e universidades deste nosso país.
Até um dia, Professor Carlos.
Um abraço.
Apertado.



João Luís Nabo
In "O Montemorense", Fevereiro de 2020 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Deprimido, sim!







Andamos preocupados com o tempo. Com as secas e as inundações. Com o calor extremo e o frio exagerado. Com os incêndios e os vulcões furiosos. Com a subida do nível das águas e com a extinção de milhares de espécies animais e vegetais. Muitos de nós admiram e aplaudem as acções de sensibilização da jovem Greta Thunberg, outros criticam-na e acusam-na de estar ao serviço de lobbies poderosos e de outros interesses obscuros. Mas que ela veio agitar as consciências, disso ninguém tem dúvidas. Espantamo-nos com o desprezo e a ignorância com que Bolsonaro (Urgh!!!) e Donald John Trump (duplo urgh!!!) mostram ao (des)preocupar-se com as questões do ambiente. Estes e outros poderosos, que por inerência poderiam ajudar a resolver parte do problema, recusam-se pornograficamente a fazê-lo. E talvez tenham razão. Porque talvez não valha a pena. O planeta em agonia remete-me para a metáfora do cofre, outrora cheio de dinheiro e que, agora, está vazio, depois de despesas desnecessárias e exageradas efectuadas por todos nós. De momento, a recuperação do capital, mal gasto durante décadas, de forma inconsciente e leviana, é indiscutivelmente impossível. Porque é impossível interromper, nem que fosse por seis meses (obrigado, Manuela Ferreira Leite), o sistema capitalista que abraçou o planeta em forma de estufa asfixiante e de longa duração.
Sinto, pois, que nos encontramos em absoluta falência ambiental. E para este tipo de crise, acreditem os meus oito leitores, não há FMI que nos valha.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro 2020

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Shame on you, Mr. Trump!




É incontornável, logo no início do ano, aquela parvoíce do senhor Trump que, aparentemente, ia pondo metade do globo em guerra. Não sei o que se passa naquela cabecinha oca, tão cheia de oxímoros estúpidos e sem sentido, só porque sim, só porque não. A Fofa não percebe por que ainda não o destituíram, e eu gostava de saber, mesmo de verdade, se o cargo que ocupa não foi consequência de uma fraude eleitoral, que ainda vai deixar um amargo de boca (se for só isso!) a esta civilização do século XXI. “Se foi fraude, tem de ser despedido…”, sublinha a Fofa sempre preocupada com a política internacional.
Cá para mim, que nada percebo de política, e muito menos de política internacional, o que há aqui é um interesse aceso dos senhores da guerra, que querem manter em alta as fábricas de armamento e todo o lucro que isso lhes dá. Independentemente das vítimas, da destruição e da dor.
Não sei qual será a solução para tais actos praticados por alguém verdadeiramente louco. (Parece que a História, a mais recente e a mais distante, é rica em personagens com esta falha cognitiva grave). No entanto, e esta ideia já não é nova, aqui vai a sugestão: reúnam o Trump com os outros trumpezinhos como ele, numa sala fechada, e resolvam, de vez, os diferendos sem que inocentes sejam envolvidos. Eu sei que, depois de uma longa sessão de batatada, alguém teria de recolher as sobras e limpar a sala. Mas isso seria uma questão de peso relativo.   

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2020



terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O último resistente?



Não podemos avançar na escrita desta crónica sem sublinhar a importância de António Gervásio para a consolidação da consciência de classe dos trabalhadores montemorenses, em particular, e da democracia portuguesa, de forma mais abrangente. Faleceu a 10 de Janeiro, após, ao longo de grande parte da sua vida de lutador antifascista, ter sentido na pele as agruras de um regime ditatorial que lhe tentou calar a voz e a vontade sem, contudo, jamais o ter conseguido. António Gervásio acreditava profundamente nos ideais comunistas e foi por eles que se entregou, em toda a sua plenitude, com todas as suas forças, à luta por um Portugal melhor, livre e sem medo, quando a omnipresença de Salazar queria, à viva força (literalmente), silenciar os que acreditavam num futuro diferente.
Fui com a minha mulher dizer-lhe, em silêncio, o muito que o admiramos, e que ele, bem como outros companheiros – o João do Machado, por exemplo – iriam ficar para sempre na nossa memória. E na memória dos nossos filhos, porque é uma questão da qual não abdicamos. Foi por causa deles (e de muitos outros, do mesmo ou de outros quadrantes políticos) que, hoje, a minha mulher, eu e a prole que de nós nasceu respiramos todos os dias, de manhã à noite, o ar puro da liberdade.
Contudo, e porque nunca tenho a certeza de nada, dei comigo a perguntar a mim próprio: “E hoje? Os comunistas de hoje? Seriam capazes, nos tempos actuais (num contexto visivelmente diferente, é certo), de sacrificar a própria vida por uma causa tão nobre como a que levou os seus antecessores à prisão, à tortura e à morte nos calabouços da hedionda PIDE?”  
Gostava de acreditar que sim. Que os ideais continuam vivos, em espírito e em letra, e que, de punho erguido, ofereceriam, sem hesitar, a própria vida, para que outros pudessem, anos depois, beneficiar de uma verdadeira democracia e viver num país onde a justiça social e a política, transparente e séria, não passassem de palavras bem esgalhadas, fantásticas e extraordinariamente oportunas, para terminar este parágrafo.  



João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2020

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