domingo, 19 de maio de 2019

(Ainda não) é a hora




            Nem sempre estamos preparados para escrever sobre determinados temas. Nem sempre temos uma visão clara das várias possibilidades de interpretação dos acontecimentos que nos caem em cima todos os dias. Nem sempre queremos ver o lado da razão. A voragem do tempo (onde é que eu já li isto?) deixa-nos cegos, porque a velocidade com que somos obrigados a reagir nem sempre nos deixa pensar nas palavras certas para nos sentirmos, nós próprios, esclarecidos sobre aquilo de que temos dúvidas. Mas não é por isso que muitos dos nossos concidadãos se coíbem de espalhar aos quatro ventos a sua opinião. E têm-na sobre todos os temas, desde o futebol ao fado, da religião às culturas forrageiras, do fenómeno Osiriano à forma como se devem comer uvas sem bagas ou mesmo pastéis de Belém com dois pufes de canela.

Eu, cá por mim, sempre gostei de dar a minha opinião e, por vezes, devo assumi-lo, falo até sobre coisas que não são a minha praia. Contudo, fico sempre a saber mais quando me engano, quando exagero nos comentários, quando não consigo convencer muitos de que tenho alguma dose de razão ao dizer o que esses não gostam de ouvir, sobretudo se ocupam cargos públicos, dos quais dependem o nosso bem-estar e o nosso futuro. E quando afirmo que Montemor está a viver uma das piores fases das últimas décadas em termos de imagem e de organização de alguns serviços públicos, acabo sempre por receber alguns esclarecimentos, nem sempre isentos partidariamente, e nem sempre dirigidos aos factos que aponto ou descrevo. Porque há que defender a todo o custo os erros que dão trabalho a corrigir. E porque, no palco da política, os actores procuram sempre, como é óbvio, que o público não se aperceba dos movimentos nos bastidores.
           
Foi muito falado na altura, há menos de um mês, o célebre almoço oferecido pela autarquia aos seus trabalhadores, no dia 24 de Abril, como celebração do dia seguinte, que marcava os 45 anos daquela revolução que me permite escrever estas coisas. Levantaram-se vozes críticas, e, na minha opinião, certeiras, quando se verificou o transtorno que tal almoço veio provocar na dinâmica de determinados serviços relacionados com algumas escolas do concelho. Ainda que uma verdade indesmentível, não houve por parte dos responsáveis, pelo menos que eu tenha sabido, uma justificação cabal e lógica para tal procedimento. Almoço merecido, sem dúvida. Mas no momento errado. Por isso, deverá haver a necessária abertura e a humildade correspondente para a sua correcção em momentos futuros. Nada mais simples.
           
Continua a ser um verdadeiro calcanhar de Aquiles a obra que envolve o Jardim, a Rua 5 de Outubro, a Rua das Escadinhas, o Largo da República e a Rua de Avis. Os políticos passam por lá com frequência, em passeio ou em funções, e apercebem-se, tanto quanto os moradores e comerciantes daquelas zonas, da situação caótica em que todos se viram mergulhados, com ruas esburacadas, inundadas com as águas da chuva, ficando os transeuntes e os que ali vivem e trabalham num verdadeiro estado de nervos. Podemos reclamar, naturalmente que sim, marcar bem o nosso desagrado, publicar petardos nas redes sociais, mas temos de ser rigorosos, lógicos e intelectualmente honestos. Por muito que todos tenham razão, a autarquia e os responsáveis que lá vivem não têm, na minha opinião, de ser responsabilizados pela chuva, pela lama, pelo pó, pelos buracos ou pela aparente demora das obras. Para que toda aquela zona tenha um novo aspecto, provavelmente mais prático e esteticamente mais agradável, todo este movimento inestético, abusivo e prejudicial às nossas rotinas e ao sustento de alguns de nós é necessário e indispensável.

Mas se, por outro lado, os políticos da terra, de todos os quadrantes, pretendem utilizar esta questão como arma política para começar a discutir antecipadamente as próximas eleições autárquicas, julgo que não será esse o melhor caminho. Se, porventura, a inauguração deste espaço renovado coincidir com as vésperas dessa ida às urnas (lá para 2021), tal não será de admirar, pois o mesmo aconteceria com qualquer outro partido que governasse a câmara. (É a política, meus senhores!) E temos essa perfeita noção quando, em termos nacionais, assistimos às andanças de António Costa e demais familiares nestes tempos de eleições europeias e nacionais. As obras, essas, são absolutamente inocentes em relação a tudo isso e o executivo que as mandou fazer não tem de ser penalizado nas urnas pelos atrasos ou pelos avanços, pela chuva ou pela seca, que vão acompanhando todo o processo. A discussão para as autárquicas e a penalização nas urnas, se a houver, tem de ter outra base de diálogo. Deve discutir-se, isso sim, a necessidade de um urgente progresso económico do concelho e a consequente fixação de jovens à terra que os viu nascer ou onde decidiram viver a sua vida; deve ser implementada a aplicação de benefícios fiscais para quem, corajosamente, investe na cidade e no concelho, contra todas as marés e todos os velhos do restelo; é inadiável o investimento na desburocratização da nossa vida diária e na imperiosa necessidade de uma maior justiça no apoio às associações, em particular, e à cultura, em geral.
É por isso que esses debates devem passar, em primeiríssimo lugar, pela aceitação das opiniões de todos e pela vontade manifesta de uma abertura total em relação ao ajuste e à correcção do que deve ser melhorado. Para tal, há opções que devem ser feitas. Uma delas, fundamental na minha perspectiva, passa, obviamente, por uma maior libertação das orientações partidárias e pelo assumir, sem constrangimentos, que o autarca está em primeiro lugar e sempre ao serviço da população que o elegeu e não do partido que o lançou como candidato.

Sem querer fazer futurologia, acredito que, se não se operar uma mudança nos seus estatutos internos e nas suas ideologias antiquadas e “direccionistas”, os partidos têm os dias contados. Poderá ser apenas daqui a duas ou três décadas, mas os movimentos de cidadãos “livres” acabarão por ser a solução que marcará a diferença no nosso panorama autárquico. Porque também eles são conhecedores dos concelhos e dos aparelhos autárquicos que os governam e porque também eles mostram ter consciência das carências dos munícipes e da urgência de progresso nas suas terras. A marcar a diferença está a sua acrescida vontade ilimitada de construir uma comunidade mais unida, mais amiga e mais interessada nos seus vizinhos, independentemente das suas origens sociais e das suas ideologias políticas ou religiosas.
Estamos a viver no futuro. O passado já foi.

Sei que ainda não é a hora. Mas a hora soará.

João Luís Nabo

In O Montemorense, Maio 2019

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Abril para todos

   

  Abril para todos A importância da Revolução de Abril, concretizada na madrugada do dia 25 desse mês, do ano de 1974, será sempre encarada como um marco que transformou radicalmente as vidas dos nossos pais, as nossas e as dos nossos filhos, resultado, sobretudo, de um profundo desejo de mudança, atravessado, após 48 anos de ditadura, nas gargantas e nas mentalidades dos portugueses. Mais de quatro décadas após essa data, quero continuar a acreditar que todos os sectores da sociedade e da política portuguesa a encaram como uma mais-valia para um futuro que se construiu para todos, sobre um passado cinzento, de miséria, de medo e de perseguições políticas.  Levarei comigo, quando me for embora definitivamente, a imponência das chaimites vindas de Estremoz, carregadas de soldados, descendo a avenida Gago Coutinho da então Vila Notável, nessa manhã clara e de esperança. Salgueiro Maia já as esperava em Lisboa. Essa imagem de determinação e vontade marcou de forma irreparável o rapazola de 13 anos que se dirigia para casa, aconselhado pela professora de Matemática, a minha querida amiga Jesuína Raposo, porque não estavam garantidas condições para o prosseguimento das aulas. Quando cheguei junto de minha Mãe, esta já ocupada na preparação do almoço, encontrei-a na cozinha, com o aparelho de rádio ligado, de onde saíam vozes de homens, entrecortadas por músicas militares e cantigas de Zeca Afonso. De quem eu nunca tinha ouvido falar. Tinha os olhos maiores e o sorriso mais aberto, misturado com a insegurança, a desconfiança que a caracterizava e o hábito de muitas décadas de silêncio e algum medo. O meu Pai chegou depois e mostrou-se igualmente receoso: “Vamos ter calma, que isto ainda pode voltar para trás.” Todas estas palavras foram, nesse momento, muito vagas para mim. Mas o que podia voltar para trás não voltou. Aos poucos e com o passar do tempo, comecei a enquadrar a Revolução num cenário lógico, com vozes, agora sonoras e destemidas, que tinham acabado de atravessar uma longa noite de silêncios e sobressaltos. Quando, no longínquo mês de Julho de 1970, no dia 27, a minha Mãe segredou ao meu Pai, após um noticiário da Emissora Nacional, “O homem já morreu”, eu, de ouvido alerta, perguntei-lhes: “Quem é que morreu?” O olhar aflito da minha Mãe confundiu-me. Pensei que tivesse sido alguém da minha família. A voz dela ainda me deixou mais sem rumo: “Não são contas do teu rosário. Não fales disto a ninguém. Vai brincar”. Evitar pronunciar com todas as sílabas o nome de Salazar, a ausência de liberdade, o temer pelo futuro, a guerra colonial estúpida e sem sentido (como se alguma guerra tivesse sentido), tudo isso foi revogado e assinado com cravos nas metralhadoras e gritos de alívio e de desabafo e de euforia. 

……………………………………………


     Quarenta e quatro anos mais tarde, ao rapazola já crescido apetece-lhe escrever sobre alguma da desilusão que hoje o acompanha. Não em relação aos princípios e aos valores de Abril. Esses são intocáveis e estão bem arrumados na sua cabeça. Mas em relação à apropriação que alguns partidos, sobretudo os mais à esquerda, parecem fazer desse movimento e dessa Revolução.  Se bem que a clandestinidade e as lutas contra o regime ditatorial de Salazar e Caetano fossem, na sua maioria, protagonizadas por portugueses ligados ao Partido Comunista Português ou próximos dele e por simpatizantes ou militantes de outras forças de esquerda, a Revolução, com R maiúsculo, com todos os seus frutos, todas as suas consequências, boas e más, é de todos nós: dos de esquerda, dos de centro, dos de direita e dos que não se encaixam em nenhuma das opções anteriores. Já era, pois, tempo de não se transformar uma celebração nacional e colectiva num comício político-partidário, onde o protagonismo de alguns se transforma no desconforto de outros. Assim, acredito eu, muito dificilmente será possível habitarmos livres “a substância do tempo” após aquele “dia inicial inteiro e limpo”.  
     Inicial inteiro e limpo.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Abril de 2018
In Cloreto de Sódio, 2019

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Stabat Mater




            A cruz pesava-lhe no ombro, mas já não tanto como no início. O corpo coberto de pústulas de sangue e suor misturadas com o pó seco do caminho, dando origem a uma espessa camada de lama avermelhada, começava a estar dormente, afastado do seu pensamento.
O sangue quente e vivo escorria-lhe da cabeça, e a coroa de espinhos continuava fortemente enterrada no crânio, parecendo ter nascido ali, com origem nos cabelos suados, castanhos e lodosos. O Sol a pino cegava-o e ele quase não conseguia ver para onde atirava os pés doridos, que as sandálias já não conseguiam proteger. O caminho era íngreme, pedregoso, difícil. Como difícil tinha sido a sua vida e a sua luta pela fé.
Jerusalém estava cheia de gente, por altura da Páscoa. Muitos tinham vindo de longe só para verem, com os próprios olhos, a condenação e a morte de um homem que diziam ser o rei dos Judeus. A multidão cercava-o selvaticamente, gritando, urrando, fugindo às investidas dos soldados e dos cavalos, acicatando alguns cães que se misturavam com a turba em êxtase. Ele ouvia todo aquele barulho ensurdecedor, mas não conseguia distinguir as vozes. Esforçava-se, desesperadamente, por escutar, de entre a confusão de palavras, a voz gentil de Maria, sua mãe, que estivera sempre consigo, que o amava incondicionalmente, que sempre respeitara a sua vontade e as suas opções, que queria morrer por ele, se a deixassem. E Maria de Magdala, com o seu conforto e os seus olhos de avelã, doces e tristes, e João, o seu melhor amigo, o seu irmão, a sua paz. Mas o peso da cruz tirava-lhe a concentração, e desistiu. Sabia que estariam ali, a acompanhar o seu caminho derradeiro até ao Gólgota.
Sentiu que as forças lhe fugiam. Caiu mais uma vez. Mais uma vez os soldados romanos o levantaram a toque de lanças e de palavras sujas. Ergueu-se, as pernas a tremer e a garganta seca, seca, como as dunas do deserto. Dobrou-se para abraçar a cruz e pô-la de novo sobre os ombros, já em carne viva. Não foi capaz. O corpo não obedecia ao cérebro cansado. O estômago ardia-lhe e o coração parecia querer sair-lhe do peito. Apercebeu-se de que alguém lhe punha a mão na face. Por entre o sangue quase em crosta e o suor enlameado, abriu mais os olhos para ver quem era. Não era a mãe. Não era João. Nem Maria de Magdala.
“Chamo-me Simão. Vou ajudar-te”. E empurrado pelos soldados, após um brusco aceno de cabeça do centurião, o homem, já idoso, natural de Cirene, carregou a cruz durante uns bons metros. Os suficientes para aliviar um pouco o condenado. Este aproveitou para semicerrar os olhos e tentar ver, pela centésima vez, onde estavam os amigos. Escondidos, decerto. Amedrontados, como seria de esperar. A protegerem a própria vida.
Quando, com um esgar de sofrimento, se preparava para aceitar a cruz de volta, das mãos do Cireneu, viu uns olhos muito azuis, muito abertos, rasos de lágrimas, incrustados num rosto claro de tanta luz e triste de tanta dor. Era a mãe. Era a sua mãe que lhe estendia a mão frágil, como se com aquele gesto pudesse carregar também aquela cruz ensanguentada. Inspirado pelo olhar incomparável daquela mãe, incomparável como o de todas as mães, o condenado mostrou-se mais vigoroso, mais preparado para o resto do caminho em direcção ao monte.
 Agarrou na cruz, e nem as dores dos espinhos, nem os golpes das vergastadas lhe ardiam. Nada o segurou ou impediu de cumprir o fim da mais difícil oração da sua vida. Muito menos as memórias do que tinha sofrido havia poucas horas. Pelo seu olhar perpassou o manto cor de púrpura e os risos dos que, no Sinédrio, gozavam com ele, a cana a servir de ceptro, o seu rosto cansado, cuspido pelos soldados, as injúrias e os impropérios, a libertação de Barrabás, os gritos do povo enlouquecido, “Crucifica-o, crucifica-o!”, as mãos de Pilatos mergulhadas na bacia e, depois, pingando para o chão a água da indiferença…
            Olhou em frente e viu o monte. O Gólgota. O Monte da Caveira. Onde eram crucificados os que punham em causa o que não podia ser posto em causa. Seria ali, dentro de poucas horas, o lugar da sua morte. E ele sabia-o. Desde o tempo dos profetas que tudo isto se sabia. Nada era novidade para ele. Então, nada havia a fazer para contrariar a vontade dos homens que o tinham condenado, o desinteresse dos homens que não o defenderam e a frieza do Pai, que iria aparentemente abandoná-lo no momento mais extraordinariamente difícil da sua vida. E também sabia que as suas roupas iriam ser jogadas à sorte entre os soldados e que lhe iria ser dado vinho e fel, pelos mesmos que lhe iriam perfurar o lado para se certificarem da sua morte. Todas estas provações seriam muito mais difíceis de aceitar se a mãe não estivesse com ele, quando tudo terminasse. Essa era a sua grande certeza: a mãe iria recebê-lo nos braços, junto ao coração, num aperto derradeiro, único e doloroso. E lá estaria também a irmã dela. E João. E Maria de Magdala.
            Assim se cumpriu.
Depois da hora nona, as trevas invadiram a Terra. O condenado, à beira do fim (ou do princípio?), invocou o nome do Pai e, em paz, depois de tudo estar consumado, entregou o espírito.
O Sol eclipsou-se, o véu do templo rasgou-se em dois e a Terra tremeu, tal como tinha sido narrado pelos profetas.

…………………………..

Aos pés da Cruz, o regaço de Maria recebeu, finalmente, este Menino de Sua Mãe, exangue, coberto de chagas, retalhado, sujo, semi-nu, abandonado, morto, mas vivo para toda a eternidade.          


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Páscoa de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

De fio a pavio - parte 3




Os ataques criminosos contra pessoas e bens, tanto no nosso país como no estrangeiro, revelam a “era da paranóia” (Oh, Teresa Brennan, de vez em quando, ando a falar nisto, o que não é bom sinal) em que nos obrigam a viver. Obrigam os políticos, as religiões e o vazio que preenche a vida e o cérebro de tanta gente. Não tens nada para fazer logo à tarde? Tiveste uma infância infeliz? Viveste uma adolescência tardia? A escola não é do teu agrado? A tua namorada deixou-te porque lhe deste duas bofetadas? Então, pega numa arma e começa a despachar pessoal, de fio a pavio, como se não houvesse amanhã. Depois, algum causídico há-de arranjar forma de passares por maluquinho e vítima do sistema que te consumiu.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março 2019


domingo, 17 de março de 2019

De fio a pavio - parte 2



A Fofa continua sensível ao que a rodeia e hiper-super-mega atenta às minhas tentativas de escrever mais umas coisas, não vá eu ofender algumas virgens, tão virgens como eu em determinados assuntos e em determinadas práticas. Deixou-me de boquinha aberta, há bem pouco tempo, esta Fofa de uma figa. Disse-me ela, com ar pensativo, num destes dias ao serão, depois de enfiado o pijama e ajeitadas as pantufinhas: “O menino acha que me posso candidatar às próximas legislativas, para poder vir a ser primeira-ministra como a D. Assunção?” Sem acreditar no que estava a ouvir, respondi-lhe, animado, mas sério: “Claro que podes. Arranjas-me um cargo fixe, uma direcção-geral, uma secretaria de estado, um ministério, só para eu fazer uns projectos e umas cenas e assim?” Houve um momento pesado, de silêncio pesado, mesmo. Levantou o sobrolho, escancarou-me os olhos e respondeu: “Ficas com o cargo de Primeiro Damo.”
Já nem acabei de ver a novela. Cama com ele. (Ainda hoje não lhe dirijo palavra.)


João Luís Nabo

In  "O Montemorense", Março de 2019

sábado, 16 de março de 2019

De fio a pavio - parte 1






           O Grupo Coral Fora d’Oras, com quem já trabalhei em vários concertos, foi escolhido como Embaixador do Concelho de Montemor-o-Novo. A autarquia não imaginava o presente envenenado que estava a entregar a este grupo de excelentes cantores e cultivadores do Cante Alentejano, Património Imaterial da Humanidade. Choveram as críticas, sobretudo em relação aos critérios que determinaram esta escolha. Eu próprio fiquei admirado e teria outras sugestões a fazer e que não passariam por nenhum grupo aqui residente. Mas a decisão foi, sem dúvida, política e, independentemente da associação ou do grupo escolhido, as críticas acabariam sempre por aparecer. Estas nomeações nunca são pacíficas, muito menos numa terra cheia de associações que têm, nas mais variadas áreas culturais e desportivas, levado o nome de Montemor até muito longe.  Portanto, esta opção (como aconteceria com outra qualquer) deu polémica. Só tinha de dar.
Quem não pediu para ser nomeado foi o Grupo Fora d’Oras, que vai continuar a fazer aquilo que gosta: cantar. Quer concordemos, quer não, a atribuição já foi oficializada e, por isso, só resta desejar que cumpram o melhor que souberem a missão que lhes foi confiada. Estaremos com eles, naturalmente. Sempre. Porque são de Montemor e nós também.


João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março de 2019

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Love you, babies…



O dia 14 dos namorados aconteceu há pouco. Perguntei a um amigo mais jovem o que tinha oferecido à namorada. Disse-me que tinha sempre um grave problema neste dia de São Valentim e que não sabia como resolvê-lo. As namoradas, sim, no plural, quatro ao todo, eram exigentes em relação às prendas comemorativas deste dia e que, por isso, a fazer a vontade a todas elas, lá se ia a mesada completa e teria ainda de fazer um crédito bancário. Assim, esperou discretamente, e à pesca nos Minutos, que o dia se esgotasse e, a 15, marcou um cafezinho com uma de cada vez, para se desculpar do terrível esquecimento. Sempre lhe saiu mais barato.
O corajoso Valentim, preso e condenado à morte pelo imperador Cláudio (segundo reza a lenda) por realizar casamentos em segredo e contra a lei, nunca imaginou os problemas que ainda iria causar a este jovem, 18 séculos depois. E quando as quatro raparigas descobrirem o que têm em comum… vai sobrar para o pobre moço. Ora, se vai.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Fevereiro de 2019

domingo, 13 de janeiro de 2019

Ano Novo, Ano Novo, Ano Novo!



 (Foto: Nuno Photography)

“Come as 12 passas e cala-te”, mastigou a Fofa, em pleno pico de stress, tentando fazer tudo a que tinha direito na noite da Passagem de Ano. Eu, que nunca fui muito de comer passas à pressa e formular desejos ao mesmo tempo, fingi que mastigava, enquanto ela se atirava para cima de um banco, com um copo (desculpem, mas não temos flutes) de champanhe na mão. Logo a seguir, mesmo antes de me desejar Bom Ano Novo, lançou-se em direcção ao telemóvel e desatou a telefonar aos filhos e às amigas a desejar tudo de bom no tempo que estava para vir. E ali fiquei eu, paciente (é todos os anos a mesma coisa) encostado à lareira, à espera do meu beijo de Boas Festas. Lá veio ele, já perto da uma da manhã, lânguido e apaixonado. Olhámos um para um outro e desatámos a rir.
Não era preciso verbalizar os votos que nos animavam naquele momento. Sabíamos intimamente, adivinhávamos sem hesitação, líamos apaixonadamente o que nos ia no coração e os bons desejos que tínhamos um para o outro, para os nosso filhos, para a nossa família, para os amigos e para os filhos dos nossos amigos. Voltámos a encostar os copos um no outro, voltámos a encostar levemente os lábios e ficámos no sofá num exercício de adivinhação sobre o que nos iria acontecer no ano acabado de nascer. E o que formulámos posso perfeitamente revelá-lo, sem qualquer receio, porque os nossos desideratos são, mais coisa menos coisa, iguais aos de toda a gente.
Queremos entrar em 2019 com o pé direito, porque é assim que se deve fazer. Se, depois, o passo se troca, por descuido nosso, ou por causa de um ou outro empurrão de alguém menos cuidadoso, isso será resolvido a tempo e com as pessoas certas. Para já, posso revelar que pensámos na família, primeiro, nos que partiram e, depois, nos que ficaram; na harmonia sempre necessária para avançarmos no tempo e progredirmos no modo como tentamos percorrer as nossas estradas; tomámos nas mãos o desejo de uma contínua tolerância para que todos se sintam confortáveis e encorajados nas suas ideias, nos seus desejos e nas suas conquistas, sem críticas nem palavras nascidas no preconceito e na inveja; quisemos acreditar que todos os familiares e amigos iriam ter sucesso nos seus projectos, nas rotas que viessem a traçar, de forma pessoal ou colectiva, nos seus empregos e nos seus tempos de lazer; olhei-a nos olhos e vi lá reflectidos os nossos filhos, cada um percorrendo o seu caminho sempre com vontade de avançar, de melhorar, de saber mais e melhor sobre o mundo e a vida, procurando, serenos, vencer os obstáculos, com coragem e honestidade, sem pisar ninguém, sem usar ninguém, sem odiar ninguém; e desejámos o mesmo para os seus amigos, merecedores também dos maiores sucessos; pensámos, com força, nos mais pequenos da família, na Carminho, na Mariana e no Duarte e, tal como duas fadas madrinhas, desejámos-lhes o melhor deste mundo e de todos os mundos que possam existir para além deste, com saúde e força para os pais e também para os avós, que são, como todos sabemos, a grande base de apoio e de conforto dos recém-casados e dos recém-nascidos; direccionámos o nosso pensamento aos amigos e amigas, sobretudo àqueles que neste momento atravessam momentos mais complicados e que viram o seu caminho interrompido por factores de vária ordem. Queremos que tudo volte ao normal e queremos que saibam que estamos cá para o que for preciso.
Passaríamos a noite inteira a formular votos sem fim, se à memória nos viessem todos aqueles que fazem parte dos nossos dias, no nosso emprego, nos nossos tempos livres, todos os que encontramos nas ruas da cidade e que para nós têm sempre uma palavra amiga sobre nós e sobre os nossos. Estaríamos durante este novo ano, todo inteiro, de fio a pavio, a desejar a paz e a justiça para todos os que fogem da guerra, da doença, da fome e da intolerância; a imaginar como seria bom se todos tivessem uma casa decente, emprego todos os dias, saúde, pão na mesa e um livro que os fizesse sonhar, na mesinha de cabeceira; pensámos como tudo seria mais fácil se os corruptos pagassem na justiça o dinheiro e a dignidade que nos roubam diariamente, e devolvessem com juros tudo o que nos tiraram neste duros últimos anos da nossa existência; como tudo seria bem melhor se quem nos governa olhasse para nós como seres humanos, com um nome próprio e um apelido, e não como um simples número de contribuinte ou da segurança social.
Adormecemos no sofá no meio de tantos desejos, tantos que não tinham fim. Com a lareira já apagada e a sentir o frio que tinha regressado à sala, decidimos ir para o quarto, para nos restabelecermos, de modo a estarmos prontos a enfrentar o ano recém-nascido. Antes de cair nos braços do Morfeu, ainda a ouvi murmurar: “Não te esqueças de que vamos ter um compromisso importante em Fevereiro.”Vamos?”, perguntei já meio perdido. “Sim. Vamos lançar o Cloreto de Sódio no dia 2, na Biblioteca Municipal. Temos de tratar dos convites.” “Temos”, concordei, atabalhoadamente, já muito longe, quase, quase a iniciar a viagem que me iria levar até ao novo ano. 
E aqui estamos. E por aqui vamos continuar.
Bom Ano!



João Luís Nabo

In "O Montemorense", Janeiro de 2019

Distraídos crónicos...

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