quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Hospitais públicos? Sim, obrigado





Os tempos estão diferentes, sem dúvida. Tenho uma relação de amizade com uma jovem enfermeira, amiga cá de casa, com quem falamos sobre as suas práticas profissionais. Quando pensava que as suas narrativas poderiam não ser bem assim quando vividas no local de trabalho e que ainda poderia ali haver muito humanismo aprendido nos livros e não na prática, os deuses decidiram que eu teria de ir ver por mim o que aquela jovem, recém-licenciada, a fazer uns trabalhos antes de abraçar definitivamente a carreira, me tinha transmitido.
Ao ser encaminhado para uma urgência do Hospital de Évora, pensei o que é hábito pensar-se e o que a grande maioria pensa nestas circunstâncias: "Estou feito!” Uma equipa de jovens médicas, de ainda mais jovens enfermeiras e de auxiliares cuidaram do seu paciente com um gigantesco profissionalismo e um desvelo que eu julgava fora do comum. Mas não. Numa troca de impressões com pessoas amigas que viveram situações do mesmo tipo, concluímos que esta nova geração de profissionais começou a ver o doente com outros olhos. Não é por acaso que também o Juramento de Hipócrates foi alterado. Uma coisa levou a outra ou...vice-versa.
Regressado a casa, quase restabelecido, continuo a acreditar que não terei sido a honrosa excepção a essa assustadora regra, produto do senso comum, e que dizia, até há bem pouco tempo: “O doente que entrar num hospital público em Portugal... está feito ao bife.”


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Novembro 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Face, ó que rico Face...





Já vou quase com um mês de afastamento desta invenção tão extraordinária como perniciosa chamada Facebook, decisão que provocou nos amigos e nos “amigos” alguma perplexidade. Senti-me, ao fim do segundo dia de jejum, um viciado a necessitar de acompanhamento profissional, pois mal abria os olhos de manhãzinha, o primeiro gesto, automático e cego, era para ligar o PC e deliciar-me com os gostos às minhas publicações, ou irritar-me com os comentários que eu considerava despropositados às minhas provocações e afins. Mas essa ajuda nunca chegou a ser verdadeiramente necessária. Comecei a usar uma terapia de substituição: tirei partido do tempo livre que começava a ter e, sobretudo, da paz que, durante alguns anos, tinha sido interrompida diariamente por gente que se envolvia comigo sem que eu, muitas vezes, lhe tivesse dado liberdade para tal. Gente parva, portanto.
Ao cancelar a minha Conta, acabei por cancelar, de igual modo, muitos motivos de incómodo e irritação. Vamos ver o que perdi: dezenas de deliciosas e eficazes correntes milagrosas, rezas, terços, imagens de santos e de santas; homens e mulheres, habitualmente discretos no que concerne à sua vida privada e familiar, a anunciar aos sete ventos que sofrem de doenças complicadas, que têm filhos maravilhosos na escola, que viajam com a pessoa amada por tudo quanto é paraíso à face da terra, que encontraram um lagarto no jardim, que têm um filho que já tem um ligeiro buço, maior do que o da filha do vizinho, que atropelou um cão e que fugiu para as Ilhas Fiji com a namorada, uma desenvergonhada. Que se zangaram com a mulher, com a amante, com o marido, com o padre da freguesia; que foram despedidos do emprego, por terem chegado constantemente atrasados durante 10 meses (o patrão é um intolerante fascizóide), que foram à pesca, que não foram à pesca, que estão com prisão de ventre, que vomitaram o jantar todo, coitadinhos, e que estão a tomar Kompensan... Que está muito calor, que está um frio de rachar, que hoje é Domingo e que amanhã é Segunda... Que gosto muito de ti, meu amor, mas se não me pedires em casamento em directo no Face, nunca mais quero olhar para a tua fronha. (E diz à tua mãe que ela é uma bruxa desdentada.)
Isto, caros leitores, sendo apenas uma amostra do que para lá vai, é suficiente para comprovar a existência de um ambiente poluído, a roçar o grotesco e o despudorado. Há situações, momentos, pensamentos e desejos que, pela sua natureza, nunca deveriam passar da porta da rua para fora. Porém, a maioria dos facebookianos pensa o contrário, pretendendo ter diariamente os seus cinco minutos de fama à custa sabe-se lá do quê.
Mas, para já, acreditem que esta foi a melhor decisão que tomei, sem contar quando decidi deixar de fumar há bem mais de vinte anos. (Fumar um cigarro é, sem sombra de dúvida, muito mais saudável do que andar agarrado a essa coisa chamada FB.)
E não regressas? Não vens por aqui?, perguntam-me alguns com os olhos doces, estendendo-me os braços. E eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)* e respondo: “Quem sabe? Quem sabe?”

* Obrigado, José Régio

N. A. : Este regresso, aparentemente contrariando a tese apresentada no texto, foi necessário pelos motivos à vista. Será, provavelmente, temporário.



João Luís Nabo, in "O Montemorense", Novembro, 2017

Distraídos crónicos...

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