quinta-feira, 26 de julho de 2018

Do Tempo e das Vozes






(À minha Mãe, in memoriam)

Fervilhar.
É o verbo que se passeia pela memória dos dias quando me olho, através do tempo, a atravessar o jardim com a minha mão esquerda, pequenina, embrulhada na da minha mãe. Cinco anos de quotidianos felizes a ansiar pelos sábados de manhã para agarrar no cesto e partir à descoberta neste templo onde as estações do ano comandam as modas e os paladares de quem lá entra.

Fervilhar.
É som que não é som. É um sentimento que começa ainda o dia não passa de duas, talvez três, pinceladas de madrugada. Primeiro, vozes soltas, meio sozinhas ainda, neste espaço vazio, gemendo, impando, dando ordens… Depois, mais vibrantes, frescas, timbres em contraponto dos vendedores que, num aumento gradual, ali misturam os duros dias ao sol, à chuva, ao frio, no campo, na lota, no matadouro, com as dores e os caprichos das donas de casa, as exigências das avós que vão à hortaliça para a sopa dos netos, os pedidos das criadas que não querem ouvir ralhar as patroas…

É um labirinto de cores, um caleidoscópio de caras. De novidades iguais e diferentes. De sorrisos, de esgares, da vida de todos os dias. Onde me perdia vezes sem conta, porque um quadrado confunde toda a gente, mesmo que se visite amiúde e se conheça cada erva que nasce por entre as lajes de granito pisado mil vezes. Estranho este labirinto, que não tem nem corredores, nem passagens secretas, espaço aberto onde todos sabem de todos, porque todos ouvem todos. Mas onde me perdia constantemente… Acabando por sair sempre pela porta por onde não entrara…

Talvez o lago, ao centro ― uma taça de mármore, com uma coluna ao meio a equilibrar uma bola fantástica a apontar para o azul, quando o há ―, fosse responsável por tal perda de referência. A perseguição aos peixes vermelhos, que se bandeavam nas águas claras e frias, era sempre o primeiro e único exercício físico possível naquele lugar. Depois de umas quantas voltas, ora para um lado, ora para o outro, para não entontecer, eis que acabava perdido, sem saber onde tinha pousado o cesto, sem saber da minha mãe, sempre atenta no olhar e nas palavras, entretida a falar com a D. Carlota do Julinho dos presépios, dos comboios eléctricos e dos balões coloridos, mal pairavam os primeiros acordes do Natal.

E, quando, a troco de um tostão, os vendedores me enchiam o pequeno cesto com duas ou três cenouras, três ou quatro vagens de feijão-verde, um molho de salsa e outro de hortelã, que deixavam um rasto de sabores adivinhados, eu sentia-me o petiz mais importante do planeta, talvez o mais feliz do universo.

Agarro com força estas memórias, como se fossem a mão da minha mãe, porque me sinto protegido, aconchegado, fascinado com o tal barulho das vozes que continuam a misturar-se em contracantos, salmodias e pregões. Sem nesse tempo perceber porquê, sentia que aquelas melodias iam fazer parte da minha vida e que se prolongariam muito mais do que durante aquela breve meia hora matinal. Só depois vim a entender o poder daquelas vozes, mais puras, mais belas, mais sinceras e convincentes do que muitas que mais tarde, por gosto ou missão, viria a escutar nas mais divulgadas oratórias, nas mais sublimes árias, em tantas óperas, densas e dramáticas, e no esplendor das cantatas de um tal senhor Bach.

A minha mãe continua fiel às orações da manhã:
― Quanto é este molho de espinafres?
― E o carapau do alto? – pergunta ainda, de banca em banca, porque a tradição vive naqueles olhos e naquela vontade sábia de continuar simples, a gostar das coisas simples. Sei que ainda me dá a mão, como se eu, homem feito, diminuísse de tamanho todos os dias, pegasse no cesto que ela me dera e, de moeda em punho, fosse eu o responsável pelas ervas de aroma que ainda hoje lhe enchem a casa de cheiros e de sonhos…

João Luís Nabo, Outros Contos de Vila Nova,                  
            (Editorial Tágide, Lisboa, 2010)

(Foto: Boa cama boa mesa)

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Torre


Foto: MANUEL ROQUE

          O calendário é implacável e não há deuses que o façam parar nesta sua vertiginosa viagem que nos arrasta e intimida. E lá vamos nós para mais umas semanas de férias, porque foi um ano complicado e todos merecemos um período de descanso. Todos?  Não me parece, mas também não me sinto motivado, neste momento de despedida, para desenvolver o assunto.
         Interrompemos as nossas actividades e marcámos uns dias com a patroa, com os pirralhos ou com os amigos e amigas, num local afastado do nosso domicílio habitual, da nossa rua e dos vizinhos de todos os dias. Temos de ver caras novas, pessoas diferentes, cenários alternativos aos que nos são oferecidos durante todo o ano na nossa cidade, na nossa vila ou na nossa aldeia. É importante visitar o país, dando preferência a novos locais (spots, como se diz agora), uns cheios de tradição a nível de eventos e de património histórico e arquitectónico, outros verdadeiros paraísos de férias, onde residentes e turistas se sentem confortáveis e confiantes até no ar que respiram. Localidades onde é um prazer viver uns dias em ambientes saudáveis, com gente arejada, onde podemos conversar sobre o que nos apetecer sem que apareçam os habituais defensores da moral e dos magníficos e intocáveis costumes a defenderem, tantas vezes, o que não é defensável. Por outro lado, há quem prefira voar para outros destinos, para a velha Europa, ainda a refazer-se das mudanças geo-políticas que tem vindo a enfrentar (e a assumir) nos últimas décadas; ou para o novo continente, onde tudo é grande, desde o vazio no cérebro do grande líder, passando pelas reservas dos tristes Nativos Americanos, até ao Empire State Building e ao deserto do Arizona, tão árido como o cérebro de muita gente que conhecemos.

          Contudo, há uma questão que tem de ser aflorada, ainda que ao de leve: o pessoal parte à conquista desse Portugal e desse Mundo, porque há necessidade de mudança e, mais importante ainda, sede de enriquecimento cultural, ou os seus objectivos são reduzidos única e exclusivamente ao desejo perverso de, através das redes sociais, mostrar aos amigos (e, principalmente, aos inimigos) onde estão/foram? E lá vêm colecções de selfies no FB ou no Instagram, para esfregar na cara de algumas gaivotas o nosso estatuto, a nossa carteira e, até, porque não?, o nosso bom gosto. Sabemos que há excepções, muitas excepções a esta regra estúpida, mas elas acabam por confirmar o que se vai observando por aí.

             Depois do passeio cá dentro ou lá fora, ou da estada na praia ou na montanha, há o regresso e o doloroso mergulhar na realidade do trabalho, no dia-a-dia das relações nem sempre assertivas. E, assim, voltamos a ter de calar algumas opiniões, ideias ou sugestões, porque a sensibilidade dos que não concordam connosco engorda com o passar dos dias. Lá seremos, durante mais onze meses, escravos do relógio, dos horários, da legislação e dos caprichos de alguns inefáveis iluminados que sentem inveja de não serem como nós e, ao mesmo tempo, medo de serem como nós. E pronto, é assim que tudo vai caminhando em direcção ao buraco final onde, aí, já ninguém terá razão sobre coisa nenhuma.

             Não terminem a leitura destas reflexões com um travo amargo de boca. Não quero levar isso na consciência quando partir para a Comporta ou para a Barragem dos Minutos, onde vou dedicar alguns segundos às Belas Artes da Pesca e algumas horas à Belíssima Arte de Bem Dormir a Sesta. Fiquem a saber, caros dez (onze?) leitores que a nossa terra é como se fosse a nossa Mãe. Se dela nos afastamos para respirar mais livremente outros ares, nem sempre são os oceanos, os lagos, as cidades, os monumentos, as praias ou as ilhas paradisíacas que nos atraem o verdadeiro objectivo das nossas férias. Reparem no meu caso, por exemplo: o que me leva, por vezes, a sair da minha cidade, nem sempre é essa tal vontade de ver e de viver temporariamente noutros cenários. É o prazer do regresso e, perante a visão sempre épica da minha Torre do Relógio, o sabor da indescritível sensação de pertença, de lar e de identidade feliz.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Julho de 2018

Distraídos crónicos...

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