sexta-feira, 15 de julho de 2022

Antes de férias

 




Antes de férias

I

 Os fogos que se fazem sentir na nossa terra e que assolam violentamente o país tiram-nos o sono e dão-nos matéria para pensar por que motivo todos os anos a tragédia se repete, sem apelo nem agravo, para depois, no rescaldo, escutarmos os políticos a propagarem soluções que, afinal, não foram aplicadas em seu devido tempo. Esses políticos devem pensar que somos todos uns totós.

Cada Verão com incêndios é um desrespeito total pelos bombeiros deste país, pelas suas famílias, é um brincar com os bens de cada cidadão que, de um momento para o outro, se vê privado de tudo o que conquistou com o seu suor e com o seu trabalho, isto quando não perde para sempre familiares e amigos.

Todos nós temos amigos, familiares e conhecidos por esse Portugal fora e é por isso que nos agarramos à televisão quase obsessivamente para estarmos a par do evoluir dos acontecimentos. Entretanto, vamos sabendo que apanharam um ou outro incendiário que, apesar de terem destruído vidas e bens, continuam a ser tratados por… alegados incendiários.

Este é um país de palhaços e de branda justiça. Não se entendem as penas levíssimas que se aplicam a esses criminosos, sem, muitas vezes, se proceder a uma investigação completa, de modo a saber-se quem são os verdadeiramente responsáveis que mandam esses inconscientes, sedentos de dinheiro, proceder à criminosa ignição a troco de meia-dúzia de tostões. É de pasmar, e isso é que nos tira do sério, quando o incendiário, já condenado, é libertado pouco tempo depois, para voltar, no ano seguinte, a cometer o mesmo crime. É o país que temos. São estes os tribunais que regulamentam a nossa vida e são estes os políticos que elegemos, e que, diga-se a verdade, já não sabem como lidar com tantas crises ao mesmo tempo.

Quem deve estar completamente passado com tudo isto é Marcelo. Mas Marcelo tem de manter a postura de Estado e não poderá jamais mandar Costa à fava, ainda que o acto fosse precedido de uma vénia e de uma… selfie.

  

II

 A partida precoce de colegas, vizinhos e amigos atinge-nos sempre como um murro no estômago. E aí pensamos que não vale a pena tantas brigas, tantas rivalidades, tantas invejas e malquerenças por tudo e por nada. Mas é só aí. Passados uns dias, o nosso modo de vida volta ao normal, a nossa alma bondosa fica novamente sem tino e damos por nós a querer atropelar velhinhas nas passadeiras só porque elas andam muito de-va-ga-ri-nho…

A partida de gente boa deixa-nos um vazio no coração, pensava eu até agora. Na despedida de uma amiga, um jovem padre, que eu muito admiro, numa breve homilia, simples mas eficaz, como eu nunca tinha ouvido a padre nenhum antes (e eu tenho ouvido muitos padres, acreditem), falou do coração de quem fica e não referiu esse espaço como um lugar esvaziado pelo desgosto. Falou dele como o espaço onde guardaremos as memórias dos momentos que passámos com quem partiu. Não, o coração ficará sempre preenchido por tudo o que, na vida, já não se torna possível fazer. E tem razão o jovem padre. E tinha razão a Carla, que amava cada momento e cada pessoa como se fossem únicos.

É a partida dessas pessoas boas que nos dá vontade de voltar atrás e de dizermos mais vezes o quanto gostávamos delas. Mas, agora, já é tarde para isso. Usemos, pois, o coração. Mas não será tarde para os outros que continuam connosco. Dizermos que gostamos uns dos outros, e dar-lhes sempre o melhor de nós, devia ser uma regra a cumprir antes que seja tarde demais


III

Recomeçámos o ginásio porque vêm aí os dias de praia e a nossa vaidadezinha de pormos as nossas banhas com menos volume é mais forte do que a vontade de beber uma mini. Ou duas. E lá vão elas e eles suar que nem uns malucos, como se o calor que nos ataca diariamente não fosse suficiente para nos espremer até à última gota. Enfim, lá ficamos mais equilibrados em termos estéticos, a nossa saúde melhora consideravelmente e, na praia ou na piscina do hotel, não há ninguém que não nos siga com o olhar, cheio de inveja dos nossos abdominais, dos bíceps bem definidos e dos gémeos bronzeados e brilhantes. Quem não teve tempo de ir gastar as suas energias e as suas calorias-extra no ginásio mais próximo, pode sempre fazer como eu. Quando atravesso o areal, antes do belo mergulho, inspiro e aguento a respiração até estar completamente tapado de água. Aí, os meus abdominais definidos transformam-se num flácido one-pack, que terei de voltar a disfarçar quando regressar à toalha onde a Fofa me espera cheia de orgulho no meu físico e na minha estratégia para enganar velhinhas reformadas.

IV

As férias grandes vêm aí, já toda a gente percebeu. A malta nova já não combina pescarias no Pego do Poço, nem concursos de natação na Pintada. As distracções são outras, até porque o Pego do Poço e a Pintada, e outros lugares (agora diz-se spots) do nosso rio já praticamente não existem como nós os conhecemos.

Saídas à noite, temporadas nas piscinas da terra (ou nas piscinas dos amigos), passeios até ao Algarve ou ao Norte, onde, à partida, estaria mais fresco, são formas de passar estes longos dias que se aproximam. E, claro, sempre ligados às redes sociais, porque é fundamental irmos publicando minuto a minuto o que fazemos, o que comemos, com quem saímos, onde estamos e onde vamos estar. Nem que seja para fazermos inveja a alguém em particular.

Já agora, e à laia de despedida, pois só vamos regressar em Setembro, se estivermos ainda por cá, distraiam-se e… leiam uns livros. Bons autores, boas histórias, universos únicos, inventados para nos reencontrarmos connosco e com o Outro, para podermos ser, nem que seja na ficção, amados e felizes.

JOÃO LUÍS NABO

In "O Montemorense", Julho de 2022

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Balanços

 

       


 

        Já se escreveu muita asneira sobre a pandemia, sobre os cuidados a ter, sobre as cadeias de transmissão, os contágios, as vacinas, as urgências em ruptura, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares em exaustão profunda. Tenho a sensação de que poderá tudo começar outra vez, com o levantamento das medidas. Talvez não. Teremos, segundo alguns analistas, de aprender a viver com o vírus e andar com a vida para a frente.  Quero acreditar que assim é. Porque também estou farto de tantos medos e de tantos afastamentos. Quem me tira um abraço, um xôxo repenicado, uma almoçarada descontraída, um concerto vivido ao extremo, uma aula sem máscaras e sem gel… tira-me tudo. Ainda assim, o horizonte não se me afigura muito seguro.

 

            Estamos a encerrar o ano lectivo, mais um ano lectivo, fazendo o balanço dos pontos altos e dos pontos baixos desta maratona de nove meses. Querem saber o que eu acho mesmo? Acho que uma parte dos alunos anda demasiado envolvida em projectos de vária ordem e mal tem tempo e concentração para se dedicar aos estudos das matérias, essenciais para um prosseguimento académico seguro e sem sobressaltos. Claro que as actividades extra-curriculares são importantíssimas no desenvolvimento dos jovens e das suas capacidades intelectuais, sociais e humanas!  No entanto, há que restabelecer um certo equilíbrio para que as actividades fora da sala de aula sejam complemento das matérias e das vivências intramuros. Se não houver essa aquisição de conhecimento, as actividades fora da escola não poderão complementar seja o que for.

 

            A guerra na Ucrânia passou de muito dramática a dramática, de dramática a coisa comum, que irá decorrer até ao fim do ano (dizem). A frieza com que, aos poucos, começámos a encarar os números de mortos, feridos, estropiados, desalojados, o olhar acrítico que dirigimos às imagens e às notícias que continuam a chegar-nos todos os dias a casa assusta-me tanto como a própria guerra. Indigna-me mais do que a impotência manifesta da União Europeia perante este verdadeiro genocídio.

 

Temos um Presidente da República fala-barato. Não é novidade e até achamos alguma piada quando ele, sempre muito desbocado, conta coisas ao país que António Costa não quer que se saibam. Mas ele é assim: professor, comunicador, pedagogo e… fala-barato. Muitos ministros deverão, com certeza, dirigir-se a ele para tomarem conhecimento de assuntos dos seus próprios ministérios…

Cá em casa, e perante estes meus desabafos, a Fofa respondeu-me que o objectivo do Professor Marcelo é compensar o prolongado tempo de silêncio em que vivia mergulhado o Professor Aníbal, que nunca comentava nada, que nunca sabia de nada, que nunca dizia nada. “Agora que devia estar calado”, acrescentou ela enquanto fazia uma festinha ao Balú, “é que aparece, vindo de outro mundo, a espalhar veneno sem dó nem piedade!

 

No momento de produção deste pequeno conjunto de textos, uma das notícias que enche os telejornais é a falta de médicos obstetras nos hospitais da Região de Lisboa. Se me dissessem que esta situação se passava no interior do país, aceitava melhor, ainda que contrariado. Agora, em Lisboa? Na capital do Reino? O que anda o Ministério da Saúde a fazer? E o resto do Governo? Ainda não perceberam que morreu um bebé recém-nascido, vítima desta situação inaceitável e absolutamente terceiro-mundista?

 

 

No passado dia 30 de Maio encerrou as suas portas uma das mais icónicas Casas da cidade. Tão icónica, que o Largo da República, onde se situa, passou a ser conhecido em toda a parte por Largo do Almansor – do Café Almansor. Fui cliente desde a minha tenra adolescência e foi lá, à volta de petiscos extraordinários, que reforcei laços de amizade e criei outros que duraram a vida inteira.

Pois no dia 30 fui ao Café Almansor pela última vez, despedir-me do Evaristo e do Zé Maria e das suas companheiras de uma vida. Deixei ficar dois exemplares do “Sertório”, história em que ambos têm uma breve participação, logo no segundo capítulo: “Pois o Zé Maria e o Evaristo, actuais proprietários do histórico Café, porque não tinham ninguém para servir, e porque as grandes novidades vinham do exterior, estavam à porta, quase em bicos dos pés, tentando descortinar os pormenores do terrível acontecimento, ocorrido mesmo à frente, no alto da escadaria, à porta da Sociedade Filarmónica. Os carros estacionados no parque diante do estabelecimento não se viam, de tal modo estavam cobertos de gente.”[1]

 Bom descanso para todos. A gente vai-se encontrando por aí.

 

Está calor. Sempre esteve calor no Alentejo nesta época do ano. Não havia era telemóveis para registar as temperaturas anunciadas pelos termómetros dos carros do pessoal e nem Facebook e Instagram e Twitter e má-na-sê-quê para fazer a respectiva publicaçãozinha.  Mas não são só as temperaturas altas. São também as baixas. Esperem por Dezembro e logo vêem… Mas o que mais me atormenta não é bem isto. Percebo que as pessoas queiram narrar ao minuto toda a sua vida, sobretudo quando fazem viagens exóticas, que é para irritarem os amigos. Compreendo, com uma enorme margem de tolerância, que ponham nas redes sociais os almoços, os jantares, as homenagens às mulheres, às noivas, aos noivos, às ex-, aos ex-, os concertos, as primeiras comunhões, os casamentos, as vendas dos trapinhos, as idas à pesca e à caça… Há influencers de fim-de-semana que publicam o que queremos e até o que não queremos ver. Qualquer dia, ainda assistimos ao filme da sua lua-de-mel e depois queixam-se de que foram vítimas de phishing ou lá como é que diz.

Mas ainda não é isto que me atormenta. O que me causa grande embechação, o que me tira o soninho e a vontade de existir é quando os autores das publicações põe um Gosto na própria publicação. E às vezes até numa foto tirada depois de almoço. Isto é que me tira do sério. De resto… nada a dizer.

 

 João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2022



[1] In “Sertório, uma história de Vila Nova”, Edições Colibri, Lisboa 2021

domingo, 8 de maio de 2022

3 coisas importantes e 1 relativamente

 

(Foto: Vidas ao Minuto)

I         

            Sentados confortavelmente nos nossos sofás, continuamos a assistir ao massacre do povo ucraniano sem conseguirmos vislumbrar um fim para este conflito, que tem tanto de absurdo como de tenebroso. O ser humano continua a surpreender-nos pela negativa, e quando pensávamos, tranquilamente, que as atrocidades cometidas por Hitler durante os seis anos da Segunda Grande Guerra jamais se iriam repetir nos tempos mais próximos na Europa, eis que um novo senhor da guerra surge das estepes russas e desafia cinicamente e sem hesitações uma Europa actualmente pacífica e em permanente construção.

            Também não poderíamos pensar que o velho e bolorento conceito do “orgulhosamente sós”, ostentado por Salazar quando se referia à ofensiva portuguesa nas colónias de África, quando o resto dos países colonizadores tinham já iniciado a desocupação dos territórios de além-mar, voltasse a estar em duradouro vigor, no momento em que o PCP se recusou a aceitar a presença, ainda que virtual, do presidente Zelensky na Assembleia da República, ou quando, fazendo eco das  palavras de Putin, designam a invasão criminosa da Ucrânia pelos russos como uma “operação militar especial”.  

Pois estão cada vez mais orgulhosamente sós os seguidores de Jerónimo de Sousa, sem perceberem que o mundo é muito diferente do que era há cem anos, e que Marx e Engels seriam provavelmente os primeiros a lutar por uma Ucrânia livre, onde nenhuma criança, nenhuma mulher, nenhum trabalhador ficasse sem lar ou morresse às mãos de tropas invasoras. Não se compreende, por isso, a pacífica posição dos militantes do PCP, que só poderão sê-lo porque não se abstraem das linhas duras que os conduzem e limitam e que não os deixam colocar-se no lugar dos que ficaram com as suas vidas reduzidas a cinzas.

 

II 

Sem querer antecipar os resultados escolares dos alunos das nossas escolas, que estão prestes a terminar o ano lectivo, acho fundamental e urgente a realização de um estudo que nos mostre as consequências desastrosas que a pandemia teve sobre os seus estudos feitos em casa, sobre o valor real das aulas online, sobre a seriedade com que os testes de avaliação foram realizados (todos sabemos) com o mais variado tipo de auxílios. Creio que essa análise poderia dar origem a uma discussão oportuna sobre os benefícios (muito poucos) e os malefícios (muitíssimos) desse regime a que fomos todos obrigados a obedecer, tendo sido, na minha perspectiva, desastroso, quer para os professores, quer para os alunos.

Quando regressámos à escola, em Setembro de 2021, notámos quase de imediato a falta de conhecimentos de grande parte dos alunos em relação às matérias dos anos anteriores. Não ficámos surpreendidos (até porque pouca coisa nos surpreende já) porque também nós demos aulas online durante o(s) período(s) de pandemia, e sabemos como tudo decorreu.  O que é preocupante é saber de antemão que uma casa sem alicerces fortes e bem sustentados raramente se aguenta muito tempo de pé. O meu saudoso sogro, Valério Casadinho, dizia-me muitas vezes para me arreliar, já nos idos anos 90 do século passado: “Agora, como está o ensino, o melhor é parar antes de atravessar de carro uma ponte qualquer. Pára o carro, sai e bate duas ou três vezes com um dos pés no início do tabuleiro. Se a ponte se aguentar… passe. É que os engenheiros de hoje não são os mesmos de outros tempos.” E é nisto mesmo em que dou comigo a pensar. Nas futuras pontes e nas suas estruturas desenhadas e concebidas por engenheiros que tiveram aulas online por causa de uma estranha pandemia que quase deu connosco em loucos.

 

III 

            Parece que Portugal tem uma fama que vai longe, muito longe. Depois de Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, ter passado o primeiro cheque a Portugal no valor de mais de dois mil milhões de euros, no âmbito da tal Bazuca Europeia, parece que já há uns espertalhões preparadíssimos para se amanharem com uma parte da verba.

Quando António Costa levantou a primeira parte da esmola (seremos sempre um país dependente!!), alguns lobos escondidos começaram a salivar, prontos para o ataque. Senti vergonha quando o jornalista adiantou que parte do dinheiro iria ser alvo de fraude, havendo até possibilidade de serem atribuídos subsídios a duplicar às mesmas entidades. Parece que já está a ser formada uma comissão de fiscalização para detectar todos os tipos de roubalheira que alguns cristãos de carácter discutível decidam, por bem, levar a efeito.

Este país de santos e heróis deixa assim passar uma imagem absolutamente vergonhosa, espaço onde a ladroagem continua a ter algum sucesso. Os mais recentes foram a julgamento, mas a coisa parece que continua empatada com as cenas dos recursos e má-na-sê-quê. É o que há. E nós, que fazemos parte do imenso grupo dos mexilhões, ainda vamos ter uma palavra a dizer sobre o assunto. Mas só depois de o Costa, ele próprio, nos roubar as nossas poupanças para pagar o que roubaram os ladrões-mor deste país de tristes e acomodados.   

 

IV

O parto de um livro assemelha-se ao nascimento de um filho. Há que fazê-lo e há que pari-lo. Com todas as dores, com a família à volta, com os amigos mais próximos, com os leitores, com a editora, a melhor de todas, que dá liberdade ao pai para que o filho nasça quando, onde e como ele quiser. Ciclo Lunar, a minha mais recente caminhada no mundo da ficção, abençoada pelas Edições Colibri, é uma obra especial. Porque é completamente diferente do romance Sertório, lançado no ano passado, e porque também é sobre Vila Nova, a nossa “vila” desenhada na escuridão medieval, com narrativas que não lembrariam ao próprio diabo.

Vamos lançá-lo às feras no dia 18. Há-de haver uma notícia sobre isso nesta edição de “O Montemorense”.  Depois… estou ao dispor para consolar as almas dos leitores mais sensíveis.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Maio de 2022

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Três notas breves

 



I         

Portugal já recebeu, no momento em que este texto está a ser produzido, mais de dez mil refugiados que tentam salvar a vida e a vida dos seus, vítimas de uma guerra absolutamente sem sentido, tal como são todas as guerras. Ainda que as imagens de horror nos cheguem diariamente a casa, de forma insistente e contínua, elas não poderão ser banalizadas e esquecidas, nem os rostos dos velhos e das crianças em fuga, nem as mãos crispadas da mulher que olha para as ruínas da sua casa. Não sei, continuo a não saber, como se pode permitir uma situação destas. Regredimos no tempo mais uma vez e demos espaço para que esta tragédia humanitária pudesse acontecer. Um dia, decerto, estaremos a viver em cavernas e a reinventar o fogo e a roda.

            Muitos jovens ucranianos, recém-chegados a Portugal, alguns a Montemor, tentam continuar os seus estudos nos nossos estabelecimentos de ensino, sem saberem uma palavra de português e, mais importante do que isto, sem fazerem ideia de como estão os seus familiares e amigos que ainda se encontram na Ucrânia, e pensando com angústia num futuro abruptamente interrompido pelas bestas da guerra. Todos sabemos que muitos deles, um dia, quando regressarem, não terão as suas casas, nem as suas escolas, nem as igrejas, nem os estádios de futebol, nem os pavilhões desportivos, nem os parques, nem os largos, nem as ruas, nem nada. Só ruína e cinza. E essa perspectiva é, por si só, aterradora.

A barreira da língua, esse monstro que nos assusta a todos, vai, aos poucos, sendo ultrapassada. Professores e alunos, unidos como nunca, procuram por todos os meios possíveis aliviar as dores a esses jovens e às famílias, também sem saberem como tudo irá terminar. As matérias vão sendo leccionadas, com recursos aos tradutores automáticos, mas sem qualquer objectivo concreto de avaliação. Para esses jovens ucranianos, o mais importante, neste momento, são as turmas que os recebem, que os integram, que os incluem, fazendo com que esqueçam, por momentos, o seu país que vai sendo, aos poucos, reduzido a escombros.

Tendo em conta todo o peso da tragédia em que os jovens refugiados se encontram involuntariamente envolvidos, os testes, as avaliações e tudo o resto que faz mover os alunos ao encontro dos seus objectivos são para aqueles, neste momento, pormenores sem importância. E para mim também.

 II 

Vou começar à bruta: acho que o presidente Marcelo devia deixar o primeiro-ministro Costa governar sozinho. Só para ver se ele é capaz. O carácter opinativo do Presidente da República faz com que todos fiquem à espera do seu veredicto ou do seu parecer sobre tudo o que acontece no país, e Costa acaba, eventualmente, por sentir-se condicionado, levando, no entanto, a peito e defendendo com estertor a relação harmoniosa entre Belém e São Bento.

Marcelo mete-se em demasia nos assuntos do executivo. Sabe que Costa estará sempre à espera do seu comentário que, se não servir desta vez por tardio, acabará por fazer jurisprudência e funcionar para a próxima por antecipação. É uma relação interessante: não discutem, não se zangam, não confrontam pontos de vista. Parecem aquelas melhores amigas adolescentes que não fazem nada uma sem a outra, tendo, por vezes, até, namorados em comum… Quanto ao par em apreço, ambos fazem questão de remar sempre para o mesmo lado, esquecidos, talvez, que a lua de mel já acabou há algum tempo.

 III

O Coral de São Domingos vai celebrar 35 anos de existência. O seu primeiro (e tímido) ensaio foi no dia 7 de Janeiro de 1987, numa das salas do Convento de São Domingos, sede do Grupo dos Amigos de Montemor que, em boa hora, acolheu os cantores e os seus projectos. Por lá ficaram dois anos. Depois, o grupo amadureceu, criou asas e voou, regressando pontualmente ao Convento para ensaios e concertos sempre que seja necessário.

É praticamente impossível fazer um balanço das centenas de concertos, das milhares de horas de ensaios, dos programas de televisão, das gravações, das inúmeras digressões pelo país e pela Europa, das ligações a muitas das instituições montemorenses, das inolvidáveis histórias protagonizadas pelas dezenas de amigos que passaram pelo coro e lá deixaram o seu contributo e a sua marca. O Coral de São Domingos, à imagem de outras instituições do nosso concelho, nasceu e ficou, graças ao entusiasmo de várias gerações de cantores e aos apoios de muitas entidades públicas e privadas que confiaram no grupo e nas direcções que o foram gerindo nestas três décadas e meia. Continua, hoje, com o entusiasmo de sempre, a levar música de qualidade a vastos públicos cada vez mais exigentes, e ficou mais do que ciente que não há pandemia nem crise que o derrube. Porque, para além da música que une todos os cantores, há uma mística que, por ser mística, não se explica, que os envolve e os torna uma voz única, que eu não consigo encontrar em mais lado nenhum e que, por muitos motivos, jamais poderei dispensar.

Obrigado a todos.  


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Abril de 2022

segunda-feira, 14 de março de 2022

A guerra, o rio e a educação

 


I         

Parte-se para o papel em branco ainda sem temas definidos, mas sempre com uma voz a bater forte cá por dentro: “Não quero falar da guerra, não quero escrever sobre a guerra, nem sobre as crianças que choram ao som das sirenes e dos bombardeamentos. Não quero regressar a 1939-45, nem a outras datas, que estão cada vez mais presentes no nosso quotidiano.”

As perguntas e as críticas que todos nós fazemos e que, orgulhosamente, ostentamos nas redes sociais, transformam-nos nuns “enormíssimos” e “competentes” analistas políticos de fim-de-semana que, e com todo o respeito pelas excepções, não percebem nada do que estão a dizer. Parece que agora somos todos estrategas militares, líderes, membros do Parlamento Europeu ou das Nações Unidas, comandantes de pelotão, soldados milicianos de cocktails molotov em punho. A maioria ataca Putin e defende Zelensky, uma minoria defende o poder russo sobre as antigas repúblicas soviéticas, num saudosismo doentio e perigoso, e outros ainda não conseguiram pronunciar-se de forma aberta sobre a sua posição.

É impossível analisar de forma correcta, ao minuto e em directo, os acontecimentos terríveis que já fizeram milhares de mortos e milhões de refugiados, estando o povo russo e o povo ucraniano a serem ambos vítimas de um ditador eleito (onde é que eu já li uma coisa parecida?). Os mortos, os feridos, as famílias separadas, os bens destruídos, tudo será contabilizado mais tarde. Porque a História que hoje vivemos só então será analisada, quando os especialistas estiverem de posse da maior parte dos dados, para que a narrativa seja clara e concreta. Aí ficaremos a conhecer os profundos porquês destes verdadeiros crimes de guerra, para que não haja dúvidas sobre a autodeterminação legítima do povo ucraniano e para que se condene a decisão absolutamente anacrónica, estúpida e fascizante de se invadir um país livre, ainda que não se concorde com o seu governo ou a suas alianças geo-económico-políticas.

            Há ainda os que criticam a posição letárgica da Europa, dos Estados Unidos e da NATO em termos de acção militar. Se os Estados Unidos e os países da NATO tivessem pegado em armas, vivíamos hoje o que nunca teríamos imaginado viver: o terror de uma terceira guerra mundial. Duas chegaram e sobraram. Putin é, nesta altura, um homem politicamente derrotado e cada vez mais só. Tenho a certeza de que, a seu tempo, os Tribunais Internacionais julgarão e condenarão o presidente da Rússia por crimes de guerra e aí, só aí, se fará justiça.

            Um último parágrafo, que deveria ter sido o primeiro, para saudar os jornalistas de todo o  mundo e, sobretudo, os portugueses, que todos os dias arriscam a vida para nos mostrarem os dados sempre actualizados desta guerra desnecessária, tal como são todas as guerras.  

 

II

Da nossa santa terrinha falei há dias com pessoa amiga. E falámos do rio. Do nosso Rio Almansor, cartão de visita para quem entra em Montemor, vindo do Sul. Um frondoso matagal cobre todo o leito, escondendo o escasso fio de água que vai correndo timidamente por ali.

Também falámos do pouco tempo que o novo executivo ainda tem em funções e que, provavelmente, não tem tido uma agenda muito livre para pensar nesta questão. Sabemos que Olímpio Galvão e a sua equipa já nada podem fazer pela Rua de Aviz nem pelo Largo da Câmara (o que é pena, na minha opinião!). O que está feito, feito está. Mas ainda vão muito a tempo de alterar o estado em que o rio se encontra. É preciso financiamento, é verdade, mas também é fundamental a vontade política.

Depois de limpo o leito do rio e de transformadas algumas zonas em espaços de caminhada e lazer, Montemor mostrar-se-ia mais atractivo logo assim que se atravessasse a Ponte de Alcácer. Depois, era só repovoar o rio com as espécies que sempre o habitaram: carpas, barbos, pardelhas, enguias, bordalos... E, a seguir, era só pegar numa cana de pesca e recuperar a infância perdida.

 

 

III

Montemor está a tornar-se um local menos seguro do que era há uns meses. Já passámos na televisão por motivos menos bons, o que nos leva a concluir da necessidade de uma maior atenção por parte das autoridades em relação a determinadas questões. Assaltos, roubos, violência física começam a estar na ordem do dia. São situações que acabam por afastar quem, por motivos de trabalho ou de lazer, goste da cidade e a queira adoptar como sua. Para não falar das vítimas, que gostariam, sobretudo, de não o terem sido.

Os valores morais e sociais começam a ficar desfocados e, nas próprias escolas, notamos comportamentos cada vez mais desadequados por parte de alguns alunos, o que torna esta questão do ensino-aprendizagem muito mais complicada do que ela já é. O mais curioso é que, confrontados com as atitudes menos positivas dos seus educandos, alguns encarregados de educação respondem, de forma inocente: “Já eu era assim quando tinha a idade dele! E pronto.

Não me venham com cantigas de que o professor deve dar aos seus alunos a educação que estes, eventualmente, possam não receber em casa. Eu raramente o faço. Ensino as matérias e mostro-lhes que o mundo, fora da escola, é composto de muitas mudanças e contrariedades, mais facilmente combatíveis com as atitudes certas. A escola não pode substituir os pais na educação dos filhos. É um complemento e deverá sê-lo sempre, mas eu sou professor dos meus alunos, não sou pai deles. E eles sabem disso.  E os pais deles (muitos deles foram meus alunos) também

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2022

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

A estética, a ética e outras coisas de pouco interesse

 

           



       I         

A estética

             Se me quiserem um dia aborrecer a sério, atirem-me com aquela dos “gostos não se discutem”. E muito mais lixado fico quando esses gostos se referem à forma como estão a ser reabilitados vários espaços da nossa cidade. Precisavam de uma reestruturação? É possível que sim. Era forçoso acabar com a ruína de alguns pontos e ressuscitá-los? Claro que era. Seria importante manter a cidade inteira e viva, com futuro no Mor e mais-na-sê-quê? Evidentemente que sim. É por isso que os gostos se discutem, sim senhor, e o nosso sentido estético também, porque tem muito a ver com a forma como nós vemos as formas das coisas.

Sessenta e um anos a beber Montemor todos os dias não são meia-dúzia de meses (e já foram muitos, que o digam os comerciantes e habitantes da Rua de Aviz) que os técnicos responsáveis pelas alterações na cidade levaram a concretizar os seus projectos. Sessenta e um anos de Montemor dão-me a legitimidade de dizer, em qualquer lugar e a quem quer que seja, que não gosto do que fizeram à minha cidade e que, por isso mesmo, os gostos discutem-se sim, senhor. Que raio de bancos são aqueles que espalharam pelas ruas e largos emblemáticos de Montemor? Que floreiras horríveis são aquelas que semearam a eito Rua de Aviz afora? Que lajes de cimento são aquelas, todas tortas e que ficam encardidas assim que passa um caracol, e que nada, sublinho o NADA,  têm a ver com Montemor e o Alentejo, onde esta terrinha se situa? Digam-me, por favor, qual é o sentido estético que deram ao novo Largo da Câmara? Aquele é o Largo da Câmara de que cidade, de que vila? E o Largo de São João de Deus? Porquê aqueles desníveis à volta da estátua? Por ser moderno? Porque se faz noutras cidades do Norte ou do Sul? Eu estou-me a marimbar para as cidades e para os técnicos e para os arquitectos e engenheiros das cidades do Norte ou do Sul. Eu queria era que os técnicos que trabalham na e para a minha cidade tivessem tido em conta o nosso passado, o nosso presente e a traça tradicional de cada praça, de cada rua. Isso é que eu queria. O meu desgosto, a minha desilusão é para com estes que não tiveram em conta a nossa história e, sobretudo, a vida, a longa vida, de quem cá vive e tem de levar todos os dias com aquelas coisas estranhas que se chamam floreiras e bancos e cenas e tal que só empatam… a vista e a sensibilidade.

E o Jardim Público?” perguntarão. Bom, é como dizia o outro: primeiro, estranha-se e depois entranha-se. Mas em relação ao Jardim, do mal o menos. Ficou mais aberto e mais disponível para a cidade. Só não faz é pandã com o muro do Jardim dos Cavalinhos, nem com o muro da Carlista, nem com os gradeamentos da Pedrista, o que até pode ser uma nova ameaça para aquela zona… Eu nem quero pensar!

Sei que a responsabilidade por estes gostos e por estas opções estéticas não são do actual executivo, mas sei que os responsáveis por tais avarias deveriam reflectir no que fizeram para não o repetirem noutra cidade qualquer. E não. Não estou contra os comunistas, nem contra os pêessedês, nem contra os pans, nem contra os bloquistas, nem contra os chegas, nem contra os socialistas, nem contra os cdesses. Estou apenas contra o mau gosto que começou a reinar na minha cidade. E é por isso que não me calo. Ou então, admitam esse erro estético colossal e, aí, calar-me-ei para sempre.

 

 

II

A ética

O nosso recém-eleito primeiro-ministro não quer falar com o Chega. Está mal. Será este um dos primeiros sinais da ditadura socialista que para aí vem? Ou é apenas uma birra do António só porque o André lhe disse que ia atrás dele? Birras de gaiatos tratam-se com um pequeno açoite e, sim, o Costa devia receber o Chega tal como recebe todos os outros partidos. Depois, o que lhe dirá, isso é lá com ele, mas a sua recusa em receber um partido com assento parlamentar fica-lhe mal e assusta-me. Não sei se o Chega lhe faria o mesmo se fosse eleito. Talvez sim, talvez não. Jamais o saberemos, de facto. Mas o Costa devia ser o primeiro a dar exemplo de lisura, educação e democracia. Se eu tiver ideias completamente opostas às de Costa também ficarei posto de parte? Nunca o saberemos, porque eu não sou político.

Se eu gosto do Chega? Não sou obrigado a gostar de todos os partidos do espectro político, muito menos daqueles que não me dão confiança numa democracia aberta e pluralista. Mas que André Ventura deveria ser recebido pelo primeiro-ministro, disso não tenho dúvida.

 

III

Os anni horribiles do ensino

Passámos praticamente dois anos com aulas “à distância”. Primeiro, foi aprender teoricamente como é que tudo funcionava, com tutoriais e cenas no Youtube e assim, que não me chegaram a ensinar a ponta de um corninho. Depois, foi a aprendizagem na prática, a chatear os amigos que, mais do que amigos, pacientes e talentosos, conseguiram com que eu dominasse mais ou menos o esquema para poder dar as minhas “aulas”. Escrevi “aulas”, com aspas, porque o que fiz através do computador e da tristemente célebre (na minha opinião) Plataforma Teams não foram aulas. Foram qualquer coisa parecida com uma entretenga televisiva, assim tipo programa do Marco Paulo, para que as matérias não se fossem perdendo totalmente e para que os alunos, entre umas mensagens e outras, entre uns jogos e outros no telemóvel, com os amigos do costume, fossem adquirindo os conhecimentos minimíssimos para que eu os pudesse passar de ano.

Tudo isto foi uma afronta para quem é professor a sério. E não me venham os professores excelentes e iluminados (há muitos por aí) dizer que as aulas online foram o supra-sumo da pedagogia, porque não foram. (E eles também sabem que não foram). Foram, sem sombra de dúvida, uma verdadeira perda de tempo. Para não falar no fosso profundo que se cavou entre quem tinha possibilidades e skills digitais e entre quem morava em zonas da cidade ou no meio do campo, sem acesso à Internet e, consequentemente, sem acesso a qualquer contacto com a escola. Que o digam os pais, os alunos e… os professores.

Eu sei dar aulas (acho que sei), mas é numa sala de aula, com um quadro e com um pau de giz à minha disposição. Com livros, cadernos, filmes e outros recursos digitais, e cérebros a seguirem o que eu lhes ensino, sem distracções nem modernices de maior, sem a mãe a vir entregar o lanche às quatro em ponto, ou sem a avó a precisar de ajuda para fazer o chá.

Durante a Pandemia, pouco se aprendeu. Aprendi, sim, que nada substitui a sala de aula e o mar de cabeças à espera de qualquer coisa útil que possa partir de quem está à sua frente.

Pronto, este mês foi assim. Para o próximo… logo se vê.

In "O Montemorense", Fevereiro de 2022

João Luís Nabo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Os porcos e os homens




1         

           

O balanço do ano que passou é igual ao balanço do ano anterior e podíamos ficar por aqui, porque chega, repetidamente, de falar de coisas aborrecidas, dramáticas para muitos, que nos surpreenderam a meio das nossas vidas, sem pedir permissão para entrar. Como uma espécie de tia-avó, chatinha e com mau hálito, que tivesse decidido aparecer por tempo indeterminado. Ainda assim, já arrisquei uma breve reflexão que plasmei nas redes sociais e que posso muito bem partilhar aqui com os meus nove leitores, sempre à espera de novidades. Pois, acho que concordam comigo. A pandemia veio pôr à prova muitas das nossas forças, da nossa paciência, da confiança em nós próprios e nos outros, acabando também por reforçar a nossa autoestima e a confiança e a amizade nos que nos rodeiam e connosco convivem nesta prolongada crise.

Os acontecimentos sucederam-se, com os políticos completamente apanhados de surpresa, a cometerem erros uns atrás dos outros, porque também eles, tal como nós, nunca se tinham visto confrontados com tal situação. E é preciso dar-lhes esse benefício da dúvida, essa margem de manobra onde tentam, e disso não tenho dúvida, combater e levar-nos a combater a grande guerra das nossas vidas. Nem por um dia queria eu estar nos seus difíceis lugares de decisão e de controlo desta pandemia e de outras pandemias crónicas.

Ainda assim, foram quase 24 meses de incertezas, de doença, de mortes de amigos e familiares, que nos mantiveram constantemente em estado de alerta e não nos deixaram indiferentes. Durante estes dois estranhos anos que passaram, perdemos e ganhámos, tivemos sucessos e fracassos, fomos muitos seres diferentes num só, espartilhados entre decisões acertadas e outras completamente disparatadas, amámos e ignorámos, defendemos e atacámos, fomos crentes e ateus, trabalhadores e preguiçosos, criativos e obtusos, rimos e fizemos rir, ensinámos e aprendemos, escrevemos livros e lemos muitos mais, plantámos árvores, criámos animais domésticos, cantámos e fizemos cantar obras imortais, fomos duros connosco e com os outros, fomos suaves no trato, tolerantes e intolerantes, disponíveis e encerrados em nós próprios. Fechámos portas que precisavam de ser fechadas e abrimos outras que precisavam de ser abertas, mimámos velhos amigos, que estão sempre onde precisamos deles, e fizemos novos, daqueles tão raros e improváveis que queremos que fiquem connosco até nós já sermos velhinhos, até eles já serem velhinhos, porque também eles passaram a estar no sítio certo, à hora certa. Em suma, fomos humanos, com todas as nossas glórias e misérias. E, imaginem os meus amigos, até cá em casa apanhámos Covid, apesar dos cuidados, das máscaras e do gel, das vacinas e dos testes… para logo de seguida sermos inundados de mimos nos mais diversos formatos, motivados pela preocupação de quem cuida.

Por isso, estamos gratos a todos os que fazem parte da nossa História de Vida. Continuamos firmes e prontos para continuar a amar esta cidade e cada átomo da nossa existência.

Mas há a Dúvida. A Dúvida, esse grão de areia que se enfia na nossa corrente sanguínea e nos mói até à exaustão. A Dúvida continua, porém: até quando viveremos assim, entre testes e vacinas, confinamentos e saídas precárias? Até quando teremos esta nossa vida transformada permanentemente em meia-vida? Até quando teremos de esperar até voltarmos à nossa vida em pleno, tantas vezes simples e sem glória, mas sem vírus e sem a espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças? “Até quando, Catilina, abusarás da nossas paciência? Por quanto tempo a tua loucura há-de zombar de nós?”

2

 

E o que falta referir ainda? As próximas eleições legislativas e as absurdas dezenas de debates televisivos, claro! Tudo em contra-relógio, tudo com os minutos contados, tudo muito atabalhoado, com os candidatos às Legislativas a degladiarem-se como putos reguilas no recreio da escola, porque o meu telemóvel novo é melhor do que o teu.

Os ataques pessoais sobem de tom, deixando para segundo plano a procura de soluções para o país que, neste momento, precisa urgentemente de soluções e não de mais problemas. Costa não me parece bem na foto nesta novela das eleições. Está constantemente a assumir a pose de virgem ofendida, como quem diz: “Chumbaram-me o Orçamento, agora aguentem!” Parecendo crianças mimadas de volta do mesmo brinquedo, os nossos políticos, ao contrário de uma das mães na história do Rei Salomão, querem um país dividido, estraçalhado, onde não se note a diferença entre a esquerda e a direita, e sem deixar claro até onde pode ir o valor político de homens, que tanto fazem acordos parlamentares ou extra-parlamentares, pré-eleitorais ou pós-eleitorais com um qualquer, desde que isso lhes dê acesso ao poder. São imagens que nos confundem mas que não nos surpreendem.

O pessoal que põe o voto nas urnas dá-se melhor com a Cristina Ferreira e as suas cobaias, com os programas televisivos da manhã e da tarde, os tais das desgraças, onde se expõem intimidades de cidadãos comuns perante um público ávido de sangue e de lágrimas.

Tal como termina George Orwell no seu icónico Animal Farm (O Triunfo dos Porcos, na sua primeira versão em língua portuguesa e, por acaso, uma tradução de qualidade discutível) “as criaturas olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez, mas já era impossível distinguir quem era homem e quem era porco.”

Sim, somos o país que somos, quase meio século depois de uma certa Revolução. Onde “todos são iguais mas onde há uns mais iguais que outros”. Temos, pois, os políticos que merecemos.

Os jovens que tomem conta disto, porque os velhos já não conseguem deixar de olhar para o seu próprio umbigo e nem forças têm para levantar as taças de champanhe já com sabor a outros tempos que não deviam voltar.

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

O Natal do nosso descontentamento

 

          



1         

           Parece que a Justiça pôs a mão na consciência e decidiu oferecer uma prenda de Natal a alguns meliantes de colarinho branco do nosso país. Já consta que não avançam com mais ofertas para não chocar as famílias e os vizinhos de outros que tais porque, coitadinhos, se, na verdade, roubaram milhões e milhões ao povo, não o fizeram por mal. Nós sabemos: têm famílias numerosas e, como o subsídio da Segurança Social se atrasou um bocadinho, decidiram tratar do assunto para ninguém lá em casa morrer à fome.

Portugal continua um pântano. Um quintal cada vez mais mal frequentado, onde os maiores desgraçados morrem à fome, enquanto outros, que gozam descaradamente com todos nós, esperam que prescrevam todos crimes de que são acusados. O povo vai levando com estas detenções esporádicas pelos olhos dentro para deixar de pensar mal da Justiça, dos juízes e dos tribunais, que ainda têm muito que dar ao dedo até vermos a corja de bandidos toda enfiada na prisão.

Mas cuidado, ó cidadãos! Não se atrasem com o pagamento do IRS, nem do IMI, nem da água, nem da luz, nem do telefone, nem do gás. Nem das multas, nem da renda de casa, nem das prestações ao banco. Nem se atrevam a serem apanhados em excesso de velocidade ou ligeiramente sorridentes. Tudo isso é crime e serão condenados sem dó nem piedade pelos tribunais, pela opinião pública e pela vossa santa sogra que vos julgava o par ideal do seu rebento.

  2

Esta cena do Natal põe sempre os nervos em franja à Fofa, que tem este ano uma lista de pessoas que mais parece a lista dos inscritos nas Festas do Avante ou nas Celebrações de Fátima. Rapinei-lhe as cinco folhas A4 recentemente e contei, no mínimo, 150 convivas para o almoço de Natal. Com este pequeno problema do Covid, isto é que a enerva, nem sabe ainda o que vai fazer à vida. “E se comprássemos testes para todos fazerem à porta da nossa casa, antes de abancarem à frente do peru? E será que todos querem fazer?”, perguntou-me ela, cheia de esperança numa reacção de bonomia. Olhei para ela, pus o filme na pausa, o “Sozinho em Casa 134”, e esperei que ela desenvolvesse a ideia. O Balú, sentindo de repente este silêncio cheio de tensão, arrebitou a orelha direita, depois a esquerda, depois baixou a direita e a seguir a esquerda e voltou a adormecer com uma espécie de sorriso no focinho, que é como quem diz “Vais ter de dar uma resposta, meu menino!”.

Mas não dei, porque como todos os meus amigos homens sabem, só podemos dar sequência aos desafios das nossas mulheres se continuarmos na mesma linha, sempre concordando e nunca saindo do caminho previsto. Com a Fofa é o mesmo. Olhei para ela e disse-lhe numa voz que aparentava tranquilidade: “Sim, filhinha!”, um truque que aprendi com o meu saudoso sogro. (Digo sempre isto quando sou obrigado a dar opiniões com alguma profundidade.) Ela sorriu e desatou a enviar mensagens pelo Whatsapp, ou lá como se chama essa coisa que ela usa, a convidar família, amigos e vizinhos como se não houvesse amanhã.

Serenamente, levantei-me, peguei no telefone e liguei para o primeiro-ministro: “António! Ainda tens tempo para decretar um novo estado de emergência? Sim? Ah, é com o Marcelo? Vais falar com ele? Eu espero…”

Cinco minutos depois, vi passar no rodapé da CNN Portugal (um canal 100% nacional): “Festas familiares com mais de três elementos expressamente proibidas pelo Governo.” A organizadora de eventos que vive comigo entrou na sala, assarapantada, e atirou-me: “A minha irmã telefonou-me e disse-me para ligar aquele canal português, a CNN. O que é que se passa?” Segundos depois, uma lágrima, pequena, é certo, corria tímida mas intensa pela sua bochechinha abaixo. Peguei num lenço de seda, branco com borboletas cinza, e limpei aquela pungente manifestação de dor e de desalento. Secretamente, sorri, e o Balú deu-me um toque discreto com a pata no joelho.

  3

 Nunca vivemos antes uma incerteza assim. Quando tudo parece voltar à normalidade, logo há uma nova variante do vírus que atira com tudo de pantanas. Há quem diga que, se o Vice-Almirante Gouveia e Melo tivesse continuado a liderar o processo de vacinação, este tal Ómicron não se teria atrevido a entrar no nosso país. Outros acham que a directora geral é muito fofinha e que isso veio facilitar a propagação desta nova estirpe. Sem querer dar razão a ninguém, cá em casa continuamos com os cuidados todos, sem permitirmos grande margem de manobra a esse tal novo visitante. Ainda ontem conversávamos sobre isto, já na cama, antes de dormir. “Temos de continuar a ser cuidadosos e conscientes, não achas, mô?”, perguntou-me ela. “Sim, filhinha”, respondi, com ar sério. Depois, ajeitei a máscara cirúrgica, que me tinha sobrado do último concerto do Coral de São Domingos, virei-me para o outro lado e adormeci.

  4

Apesar da pandemia e da insegurança em que vivemos, Montemor nunca esteve tão natalício como este ano. E isso é importante, embora haja quem diga que o dinheirão desta despesa devesse ter sido canalizado para ajudar quem precisa. Não discordo. Contudo, esse assunto poderá ser discutido noutra altura. Agora, o que me apraz dizer é que Montemor está a viver o Natal como nunca viveu antes, sobretudo as crianças, com toda a decoração que lhes é direccionada. O que se torna engraçado no meio disto tudo é o duelo de palavras entre alguns simpatizantes comunistas e alguns simpatizantes socialistas sobre a paternidade desta iniciativa. “Com o novo executivo, as coisas começam a estar diferentes, até os enfeites de Natal”, começam uns. “Não sejam totós!”, dizem outros. “Isto foi programado e orçamentado pelo executivo anterior!” (E não deixam de ter razão.)

E pergunto eu: o que é que isso interessa? Está bonito e ponto final.


João Luís Nabo

In "O Montemorense". Dezembro de 2021

 

Boas Festas! 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Quatro ou cinco ideias sem importância


                                                         Foto: António Lopes

                                                                                 1         

Temos o país numa convulsão, ainda sem termos saído daquela provocada pelo vírus que nos alterou mil planos e nos separou, quer temporária, quer definitivamente, de muitos familiares e amigos. Se a crise provocada pela Covid-19 terá sido inevitável, pelo menos é o que se pensa, já esta, provocada pelos políticos portugueses, poderia muito bem ter sido adiada para outra altura, quando o país vivesse uma normalidade mais… normal. Mas não. Os partidos que gerem as nossas vidas (e todos, directa ou indirectamente, gerem as nossas vidas) decidiram que, já que o povo está mais do que habituado a crises, mais uma, menos uma, não teria qualquer importância. O orgulho cego de Costa, a teimosia surda da esquerda e a desorganização total da direita acabaram por ditar este novo caminho que nos há-de deixar ainda mais frágeis dentro das nossas já imensas fragilidades. Além-fronteiras, os outros começam a olhar de revés para nós, um pequeno povo que, ao contrário do que dizia o general romano, gostaria de ser bem governado mas não tem por quem. Aguardemos com serenidade, já que isso é coisa que, desde Abril de 74, não nos vem faltando. E até antes. Até antes.

2 

A direita está a ficar um caco com, pelo menos, dois senhores a quererem ser vizires no lugar do vizir. Rio e Rangel, laranjas até ao tutano, vêm agora para a praça pública lutar por um lugar ao Sol. E quando é que Rangel começou a dar ares da sua graça com maior frequência e intensidade? Quando percebeu que Costa ir cair e que as legislativas antecipadas iam ser mais do que certas. Aliás, se pensarmos melhor, foi Marcelo que lhe fez um claro sinal, quando ameaçou com a dissolução da Assembleia da República se o Orçamento para 2022 foi chumbado. E Rangel, inteligente e atento, percebeu essa sugestão, que de subtil não teve nada, e lançou-se ao ataque. É assim a política, meus caros. Todos almejam os quinze minutos de fama do Andy Warhol. Assim, logo que surge essa possibilidade, não hesitam. Não sei se Rangel dará um bom PM. Não sei se melhor ou pior que RR ou Costa. Sei que o actual boss está cansado e em aparente desistência, mas aberto a qualquer tipo de aliança para garantir o cargo. Não sei se vai ter essa sorte. Ou nós esse azar. Aguardemos, pois.

 

3

O pessoal tem passado os últimos tempos mais à vontade e o mariola do vírus começou outra vez a pôr as antenas de fora, apesar das vacinas, e ainda que a maioria dos portugueses tivesse tido todos os cuidados aconselhados pelas chefias. Começámos a reunir com quantidades consideráveis de amigos e colegas à volta da mesa, a visitar os familiares nos lares e hospitais, a passear por outras cidades, nacionais e estrangeiras, a solo ou em grupo, a participar em eventos culturais com uma descontracção quase… pré-Covid e até com a animação que o regresso à vida normal provoca em seres humanos como nós, de afectos à flor da pele. Como já não podemos abraçar os que partiram nestes tempos conturbados e ingratos, lançamos os braços à volta dos que ainda cá estão, numa tentativa, sei lá, de nos pacificarmos e de, quem sabe, alcançarmos com este gesto os que nunca mais estarão connosco fisicamente. Mas alguém já disse (foi a Directora-Geral) que estamos todos sujeitos a um novo confinamento, se os números de internados e de falecidos continuar a aumentar. Talvez esta responsável pela Saúde o tivesse dito para prevenir ou, tal como Marcelo fez a Costa, para chantagear (quem sabe?) esta gente que já anda aí a espalhar magia como se não houvesse amanhã. Seria bom que não tivessem razão. Porque nós queremos que haja um amanhã e muitos dias depois desse para gozarmos a vida que o Deus de cada um, ou a natureza, no entender de outros, planificou para nós. Lá teremos de aguardar e, enquanto aguardamos, vamos consultando os gráficos da DGS para podermos gerir os nossos próprios comportamentos.

4 

Uma nota breve sobre o segredo de justiça em vigor no nosso país. Esse resguardo em que se embrulham os casos em investigação pelas polícias e pelos magistrados é, como sabemos, do mais frágil que há, um cobertor esfiapado que deixa ver tudo o que lá vai dentro, para alegria de muitos jornalistas e de outros tantos meios de comunicação social. No entanto, nem o Primeiro Ministro nem o Presidente da República, como dois dos representantes mais altos do poder e das instituições nacionais, foram informados dos casos vergonhosos de alegado tráfico de diamantes e drogas por elementos dos comandos do nosso país. Claro: segredo de justiça é segredo de justiça. Ponto.

5 

Na nossa santa terrinha, as coisas vão caminhando sob a égide do executivo recém-eleito, este ainda a usufruir dos planos e iniciativas programadas no tempo anterior. Está, por assim dizer, no fecho das contas. E é o tempo o factor mais importante nisto da política. O tempo e a capacidade de entrega e a vontade indomável de aprender. Se quando a CDU sucedia à CDU, essa transição estava facilitada, precisamente pela permanência das mesmas pessoas, ou quase, nos cargos, agora há que dar tempo, algum, para que a transição se faça de forma segura e transparente. É essa capacidade de partilha, esse respeito e essa lealdade ao povo, que serviram durante mais de quatro décadas, que se espera de uma força política com tanta obra feita no concelho, com tantos pergaminhos e detentora de um passado histórico de luta e de longos e difíceis caminhos percorridos em nome do povo e, sobretudo, dos mais desfavorecidos. Por isso, se pensarmos no actual grupo de trabalho, ainda é cedo para balanços apressados ou para exigências sobrenaturais. No entanto, em breve, todos nós iremos querer saber as diferenças e as semelhanças entre os que foram e os que chegaram à cadeira dos Paços do Concelho desta cidade de santos e heróis. Aguardemos.

 

João Luís Nabo 

In "O Montemorense", Novembro de 2021

Distraídos crónicos...


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