quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Torre


Foto: MANUEL ROQUE

          O calendário é implacável e não há deuses que o façam parar nesta sua vertiginosa viagem que nos arrasta e intimida. E lá vamos nós para mais umas semanas de férias, porque foi um ano complicado e todos merecemos um período de descanso. Todos?  Não me parece, mas também não me sinto motivado, neste momento de despedida, para desenvolver o assunto.
         Interrompemos as nossas actividades e marcámos uns dias com a patroa, com os pirralhos ou com os amigos e amigas, num local afastado do nosso domicílio habitual, da nossa rua e dos vizinhos de todos os dias. Temos de ver caras novas, pessoas diferentes, cenários alternativos aos que nos são oferecidos durante todo o ano na nossa cidade, na nossa vila ou na nossa aldeia. É importante visitar o país, dando preferência a novos locais (spots, como se diz agora), uns cheios de tradição a nível de eventos e de património histórico e arquitectónico, outros verdadeiros paraísos de férias, onde residentes e turistas se sentem confortáveis e confiantes até no ar que respiram. Localidades onde é um prazer viver uns dias em ambientes saudáveis, com gente arejada, onde podemos conversar sobre o que nos apetecer sem que apareçam os habituais defensores da moral e dos magníficos e intocáveis costumes a defenderem, tantas vezes, o que não é defensável. Por outro lado, há quem prefira voar para outros destinos, para a velha Europa, ainda a refazer-se das mudanças geo-políticas que tem vindo a enfrentar (e a assumir) nos últimas décadas; ou para o novo continente, onde tudo é grande, desde o vazio no cérebro do grande líder, passando pelas reservas dos tristes Nativos Americanos, até ao Empire State Building e ao deserto do Arizona, tão árido como o cérebro de muita gente que conhecemos.

          Contudo, há uma questão que tem de ser aflorada, ainda que ao de leve: o pessoal parte à conquista desse Portugal e desse Mundo, porque há necessidade de mudança e, mais importante ainda, sede de enriquecimento cultural, ou os seus objectivos são reduzidos única e exclusivamente ao desejo perverso de, através das redes sociais, mostrar aos amigos (e, principalmente, aos inimigos) onde estão/foram? E lá vêm colecções de selfies no FB ou no Instagram, para esfregar na cara de algumas gaivotas o nosso estatuto, a nossa carteira e, até, porque não?, o nosso bom gosto. Sabemos que há excepções, muitas excepções a esta regra estúpida, mas elas acabam por confirmar o que se vai observando por aí.

             Depois do passeio cá dentro ou lá fora, ou da estada na praia ou na montanha, há o regresso e o doloroso mergulhar na realidade do trabalho, no dia-a-dia das relações nem sempre assertivas. E, assim, voltamos a ter de calar algumas opiniões, ideias ou sugestões, porque a sensibilidade dos que não concordam connosco engorda com o passar dos dias. Lá seremos, durante mais onze meses, escravos do relógio, dos horários, da legislação e dos caprichos de alguns inefáveis iluminados que sentem inveja de não serem como nós e, ao mesmo tempo, medo de serem como nós. E pronto, é assim que tudo vai caminhando em direcção ao buraco final onde, aí, já ninguém terá razão sobre coisa nenhuma.

             Não terminem a leitura destas reflexões com um travo amargo de boca. Não quero levar isso na consciência quando partir para a Comporta ou para a Barragem dos Minutos, onde vou dedicar alguns segundos às Belas Artes da Pesca e algumas horas à Belíssima Arte de Bem Dormir a Sesta. Fiquem a saber, caros dez (onze?) leitores que a nossa terra é como se fosse a nossa Mãe. Se dela nos afastamos para respirar mais livremente outros ares, nem sempre são os oceanos, os lagos, as cidades, os monumentos, as praias ou as ilhas paradisíacas que nos atraem o verdadeiro objectivo das nossas férias. Reparem no meu caso, por exemplo: o que me leva, por vezes, a sair da minha cidade, nem sempre é essa tal vontade de ver e de viver temporariamente noutros cenários. É o prazer do regresso e, perante a visão sempre épica da minha Torre do Relógio, o sabor da indescritível sensação de pertença, de lar e de identidade feliz.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Julho de 2018

domingo, 17 de junho de 2018

Férias virtuais


Os nossos alunos vão começar as férias grandes. Dois longos meses sem aulas, sem a pressão dos testes e das avaliações, dos trabalhos e das muitas actividades extra-curriculares. E como vão ocupar eles esse tempo que, no nosso tempo, dava para tantas coisas…? A forma como decidem passar esses sessenta e muitos dias (mais de 650 horas de luz solar) resume-se a uma breve frase, a um conceito mais do que moderno: ligados ao telemóvel ou ao PC.  
Recentemente, li no Jornal de Notícias, as conclusões retiradas da prova de Expressões Físico-Motoras do ano lectivo passado e que concluíam que um terço dos alunos teve dificuldade em participar em jogos de grupo e que quase 50% não conseguiram saltar à corda ou dar uma cambalhota. Perante estes dados, constantes do relatório do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), o presidente da Confederação Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física, Avelino Azevedo, também ouvido pelo JN, referiu que a solução seria um maior investimento na disciplina de Educação Física no ensino primário. Acrescenta que deveria ser “repensado o modelo de ensino da Educação Física no ensino primário, idades em que se desenvolvem capacidades como o equilíbrio ou flexibilidade.”
Poderá ter muita razão este responsável pelo ensino da E. Física nas nossas escolas, mas as coisas não se resolvem só assim. Estes novos tempos (cliché com pujança), cheios de tecnologias na vida de todos os dias, no trabalho e no ensino, nas relações familiares e entre pares, têm vindo a afastar cada vez mais, e de modo assustador, toda a gente, e sobretudo os mais jovens, da prática natural do exercício físico.
Tenho por prática natural tudo o que não depende de uma intenção de mantermos a forma física, alinhando em caminhadas (muitas vezes forçadas) ou em sessões de ginásio. A prática natural de exercício era aquilo que os meus amigos e eu fazíamos todos os dias quando, nas nossas brincadeiras e aventuras, passávamos as horas sem escola a correr, a trepar, a jogar futebol, a explorar montes e vales, a lançar papagaios, a percorrer quilómetros de estrada montados em bicicletas a pedal, pesadas como tractores (sem capacete, claro…), a carregar fardos de palha ou a participar na apanha do tomate do senhor Emídio. Se bem as duas últimas actividades nunca tivessem tido a minha participação (era franzino e o meu Pai arranjava-me trabalho em algumas empresas comerciais da então vila), todas as outras em que me envolvi constantemente nunca me permitiriam fazer parte desse número de crianças que não sabem dar cambalhotas ou saltar à corda.
E de onde nos vinha o tempo para tudo isto (e ainda para estudar, comer, dormir e ler)? A resposta parece outro cliché, mas não há forma de lhe fugir: a televisão estava ainda a conquistar terreno, a censura não lhe permitia grandes angulares, não havia o jornalismo sensacionalista, Bruno de Carvalho ainda não tinha nascido e ninguém sequer sonhava que poderia um dia, quarenta anos depois, estar ligado ao mundo inteiro através de um aparelhómetro do tamanho de um maço de cigarros (desculpem lá a comparação politicamente incorrecta).
Pois é aí que bate o ponto: quem, hoje, prefere estar ligado ao mundo inteiro dessa forma, não tem disponibilidade para se ligar fisicamente e emocionalmente a quem vive ao seu lado, a quem mora na mesma casa, a quem frequenta a mesma escola ou a mesma esplanada de Verão. Não é possível ser-se competente a lançar papagaios, a saber pescar uma carpa boa e inteligente, a andar de bicicleta, a nadar, a correr, a ler, com a preocupação permanente e doentia de ir saber, de dois em dois minutos, quem anda a fazer o quê no FB, no Twitter ou no Instagram, contabilizar os likes que recebeu e compará-los com os likes que recebeu um dos “amigos” que publicou a mesmíssima coisa sem interesse.
E é este tipo de comportamento que leva as crianças a nunca adquirirem as competências físicas que lhes seriam naturais. É por isto e por causa dos TPCs.
Dos TPCs?, perguntarão. Pois! Muitos professores continuam a achar que os trabalhos de casa resolvem todos os problemas de raciocínio, de discernimento e de lógica que os alunos devem apresentar no final de cada ano ou de cada ciclo. E os professores, quase todos eles, pensam que a sua disciplina é a única que existe na escola e que, por isso, os alunos terão tempo para, em casa, praticarem demoradamente a matéria dada na aula. O interessante (e desesperante) é que, todos os dias depois de jantar, centenas de pais quebram a cabeça e perdem a paciência num processo desgastante de apoio aos filhos nestas tarefas, por vezes inglórias, após seis ou sete horas enfiados numa escola, os segundos, e depois de oito, nove ou dez horas de trabalho, os primeiros. 
Noutro tempo, os pais não tinham nem vagar nem competências para ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Os gaiatos faziam os trabalhos sozinhos e, depois (muito importante), iam brincar para a rua, sem vigilância parental ou policial. Aí, podia acontecer de tudo, para além das brincadeiras habituais: brigavam por uma bola, por uma maçã roubada ao vizinho Facas, esfolavam os joelhos, partiam as cabeças uns aos outros, para não falar de braços, dedos e narizes. No final de tudo, com o corpo em modo de mapa de nódoas negras, apertavam as mãos e continuavam amigos, sem que os pais soubessem ou quisessem saber das atribulações do dia. Sem queixas ao director de turma, aos pais dos envolvidos ou à polícia. Hoje, tudo seria diferente. Hoje tudo é diferente.

Os alunos das nossas escolas vão entrar de férias. Dois longos meses que vão aproveitar para, numa esplanada da nossa cidade, estarem orgulhosamente ligados ao mundo mas completamente afastados dos amigos que, com eles, foram para ali “conviver”.
“Publiquei agora uma foto minha a comer dois hamburgers ao mesmo tempo. Põe lá um like.”
“Done.”

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

O que faz correr o Zé?



Muitas coisas. Porque o Zé gosta de correr, nem que seja na Ecopista do Montado. De repente, quando nos preparamos para uma semana tranquila de trabalho, somos atacados em várias frentes com questões que viram a luz do dia, sabe-se lá como e sabe-se lá porquê. O que faz correr o Zé nestes dias de Sol e a ameaçar praia?
O Sporting e o seu inefável presidente, que não sabe bem qual a melhor maneira para destruir de vez uma Instituição Nacional, com os seus tiques de querido líder que o vão conduzir à desgraça total.  A ele e ao Sporting Clube de Portugal.
Fátima e o seu poder religioso, económico e social. A fé é, sem dúvida, o “material” mais sólido que leva o Zé a assumir que vale a pena acreditar, que há um Deus que o liberta e uma Senhora que o protege. A minha Mãe dizia-me, sábia e paciente, quando eu, meio gaiato, questionava a validade daquelas vontades, quase místicas, de percorrer o Santuário de joelhos: “Não fales sem saber. Ninguém sabe exactamente o desespero de cada um.” E cada vez que vou até lá, lembro-me destas palavras e fico-me, em silêncio, a respeitar os que acreditam.
Os fogos, o Verão, os Bombeiros, a Protecção Civil e as trapalhadas do ano anterior, que nem Costa nem Marcelo querem que se repitam. Não sei se vai ser assim. As queixas vão-se avolumando e as exigências de mais e melhores meios não param de chegar a quem de direito.
O Festival da Eurovisão, emitido a partir de Portugal, com uma organização exemplar, num espectáculo de televisão que nem parecia... português. A menina Netta e o seu brinquedo, uma das canções mais divertidas mas, ao mesmo tempo, mais musical e textualmente vazias, desde que Vasco da Gama cantou a canção do bandido ao Rei de Melinde. E  também o murmúrio incaracterístico nas vozes das representantes de Portugal... que ficaram no lugar que mereceram.
As maluquices do Trump com a mania, sempre renovada, de que os Estados Unidos devem continuar a ingerir-se nas políticas internas de outros países. Tal como um tal Adolfo de triste memória, também Donald quer o seu país maior e mais poderoso, dominante e desrespeitador dos direitos dos de dentro e dos de fora. E é um risco meter a colher entre Palestinianos e Israelitas.
O muro do Jardim Público cá da santa terrinha, que está agora enfeitado com um belo desenho a explicar aos munícipes como é que tudo aquilo vai ficar -  Jardim, Rua das Escadinhas, Rua de Avis - depois de pronto. Quero acreditar que o desenho não veio apenas para acalmar os ânimos do pessoal mais impaciente e que as obras vão mesmo começar na data prevista. Sabemos que os políticos sabem sempre falar a gosto do povo mas o povo não é parvo e parece que vai ficando farto de tanta conversa.
A falta de autonomia intelectual e cognitiva de muitos que só falam a favor do partido, seja ele qual for, e nunca, mas nunca, contra o partido, mesmo que algumas das linhas de orientação sigam contra a lógica e em direcção a um beco sem saída e mesmo contra os princípios da democracia.
Os roubos, as transferências, os off-shores, as luvas, os tráficos de influências de Sócrates e dos seus amigos. As linhas ténues entre o poder político e o poder financeiro, entre o futebol e a política, entre tudo isto e os indivíduos a cujas mãos se colam milhões e milhões sem parar.
O final do ano lectivo nas escolas, onde alguns intervenientes no processo ensino-aprendizagem viveram placidamente, como se estivessem a passar uns tempos num espaço de entretenimento e diversão. São estes que querem agora, muito perto do mês de Junho, ser levados a sério para que tudo acabe bem. Há quem não vá na cantiga.
A escolha do local onde passar férias, julgando que a economia vai ultrapassar os três por cento, satisfazendo o ego de quem pensa que a crise já passou. Se possível, um lugar onde as selfies tiradas com mar e céu, sol e dunas ao fundo saquem mais de mil gostos nas redes sociais.   

Mas nada disto hoje me interessa. Tudo é efémero. Até as corridas do Zé. Hoje, o que é mesmo importante é dar um abraço ao meu barbeiro de há trinta anos. O meu Amigo Manuel Parreirinha vai fazer 92 anos quando chegar Novembro... e comemora este ano 65 anos de carreira. E continua atento ao mundo, crítico, sensato, atencioso e um profissional de excelência. Parabéns e obrigado!

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Maio de 2018

quarta-feira, 18 de abril de 2018

25 para todos



A importância da Revolução de Abril, concretizada na madrugada do dia 25 desse mês, do ano de 1974, será sempre encarada como um marco que transformou radicalmente as vidas dos nossos pais, as nossas e as dos nossos filhos, resultado, sobretudo, de um profundo desejo de mudança, atravessado, após 48 anos de ditadura, nas gargantas e nas mentalidades dos portugueses. Mais de quatro décadas após essa data, quero continuar a acreditar que todos os sectores da sociedade e da política portuguesa a encaram como uma mais-valia para um futuro que se construiu para todos, sobre um passado cinzento, de miséria, de medo e de perseguições políticas.
Levarei comigo, quando me for embora definitivamente, a imponência das chaimites vindas de Estremoz, carregadas de soldados, descendo a avenida Gago Coutinho da então Vila Notável, nessa manhã clara e de esperança. Salgueiro Maia já as esperava em Lisboa. Essa imagem de determinação e vontade marcou de forma irreparável o rapazola de 13 anos que se dirigia para casa, aconselhado pela professora de Matemática, a minha querida amiga Jesuína Raposo, porque não estavam garantidas condições para o prosseguimento das aulas. Quando cheguei junto de minha Mãe, esta já ocupada na preparação do almoço, encontrei-a na cozinha, com o aparelho de rádio ligado, de onde saíam vozes de homens entrecortadas por músicas militares e cantigas de Zeca Afonso. Tinha os olhos maiores e o sorriso mais aberto, misturado com a insegurança, a desconfiança que a caracterizava e o hábito de muitas décadas de silêncio e algum medo. O meu Pai chegou depois e mostrou-se igualmente receoso: “Vamos ter calma, que isto ainda pode voltar para trás.” Todas estas palavras foram, nesse momento, muito vagas para mim.
Mas o que podia voltar para trás não voltou. Aos poucos e com o passar do tempo, comecei a enquadrar a Revolução num cenário lógico, com vozes, agora sonoras e destemidas, que tinham acabado de atravessar uma longa noite de silêncios e sobressaltos. Quando, no longínquo mês de Julho de 1970, no dia 27, a minha Mãe segredou ao meu Pai, após um noticiário da Emissora Nacional, “O homem já morreu”, eu, de ouvido alerta, perguntei-lhes: “Quem é que morreu?” O olhar aflito da minha Mãe confundiu-me. Pensei que tivesse sido alguém da minha família. A voz dela ainda me deixou mais sem rumo: “Não são contas do teu rosário. Não fales disto a ninguém. Vai brincar”.
Evitar pronunciar com todas as sílabas o nome de Salazar, a ausência de liberdade, o temer pelo futuro, a guerra colonial estúpida e sem sentido (como se alguma guerra tivesse sentido), tudo isso foi revogado e assinado com cravos nas metralhadoras e gritos de alívio e de desabafo e de euforia.

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Quarenta e quatro anos mais tarde, ao rapazola já crescido apetece-lhe escrever sobre alguma da desilusão que hoje o acompanha. Não em relação aos princípios e aos valores de Abril. Esses são intocáveis e estão bem arrumados na sua cabeça. Mas em relação à apropriação que alguns partidos, sobretudo os mais à esquerda, parecem fazer desse movimento e dessa Revolução.
Se bem que a clandestinidade e as lutas contra o regime ditatorial de Salazar e Caetano fossem, na sua maioria, protagonizadas por portugueses ligados ao Partido Comunista Português ou próximos dele e por simpatizantes ou militantes de outras forças de esquerda, a Revolução, com R maiúsculo, com todos os seus frutos, todas as suas consequências, boas e más, é de todos nós: dos de esquerda, dos de centro, dos de direita e dos que não se encaixam em nenhuma das opções anteriores.
Já era, pois, tempo de não se transformar uma celebração nacional e colectiva num comício político-partidário, onde o protagonismo de alguns se transforma no desconforto de outros. Assim, acredito eu, muito dificilmente será possível habitarmos livres “a substância do tempo” após aquele “dia inicial e limpo”.
Inicial e limpo.


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Abril de 2018


quinta-feira, 15 de março de 2018

O que estás a pensar, João Luís?







O que estou a pensar, Facebook?
Olha, estou a pensar que hoje não me levantei atrasado nem com dores de cabeça, com problemas gástricos ou crises de falta de ar; e também desliguei o rádio-despertador à primeira, sem entornar o copo de água e sem derrubar os quatro ou cinco livros que me vigiam o sono todas as noites.
Depois, enquanto tomei o meu duche matinal, a água não acabou e o gás também não. Na cozinha, o micro-ondas não fez efeitos especiais, com faúlhas e cenas, quando lá meti o leite a aquecer, e a medicação foi tomada com consciência do dever cumprido. A taça do Balú estava vazia e lá a enchi com uma dose suficiente para a sua refeição da manhã; continuou simpático, o bichinho, mas sem fazer habilidades de maior. A minha mulher levantou-se a horas, fez tudo a horas, tomou o seu pequeno-almoço de baixas calorias e saiu sem pressa para o emprego.
O meu carro pegou à primeira e tirei-o da garagem sem me roçar pelo muro, pelos arbustos ou sequer pelo portão ou pelo carro da vizinha que fica sempre ali estacionado resvés a minha entrada. O carro da minha mulher foi um luxo a pegar e também não houve acidentes que mereçam ser mencionados ou fotografados.
No emprego, os colegas saudaram-me todos com simpatia, houve tempo para um café e para actualizarmos um ou outro tema mais acutilante, relacionado com o Governo-toca-a-rir, com o Homem-selfie-vá-lá-mais-um-beijinho (que até é uma excelente dona de casa), ou com outra coisa igualmente de somenos importância.
Já notaste (oh, se notaste), Facebook que, até ao momento, não achei necessidade de fazer qualquer fotografia, nem minha, nem da Fofa, nem dos carros a saírem da garagem, nem do leitinho no micro-ondas, nem do Balú de língua de fora a babar-se todo, ao ver a ração da manhã a mergulhar na sua taça de metal de tamanho mediano comprada numa loja perto de si.
O almoço decorreu normalmente, também sem justificar fotos dos pratos acabados de chegar à mesa e, depois, todos emporcalhados, nem de nós, com caras de alarves, de papo cheio. A tarde foi uma tarde como as outras, desta vez com chuva, mas o que é se pode esperar desta altura do ano? E não, também não tirei fotos à chuva, nem às árvores a abanarem a guedelha, nem às nuvens escuras que sobrevoaram a cidade. Nem ao rio, nem ao Rio, nem a coisíssima nenhuma, nem ao Castelo, nem às ervas que enfeitam o Bairro da Che, nem ao Muro das Lamechices, nem aos prédios que estão quase a cair, no Centro Histórico da nossa cidade.
O jantar passou-se bem, com a família, e também não achámos importante fazer registo fotográfico das pataniscas da D. Domitília, que circulavam entusiasticamente de mão em mão, (é uma forma de dizer) boas, boas que até dói, nem da favada com chouriço, entrecosto e farinheira, feita cá pelo menino, paciente com a vida e com o fogão. Nem sequer houve fotos do menino com um avental oferecido pelo Compadre Chotas, há uns meses, numa noite de muita alegria (e que iria acabar no hospital), em casa da Isabel e do Zé. (Não, também não tirei uma foto ao Compadre Chotas, nem à médica que me assistiu, nem ao padre que me queria dar a Extrema Unção, comigo de olhos arregalados a olhar-lhe para a estola e para aquele aparelhozinho de prata que eles usam para atirar a água benta para cima dos pobres moribundos).
Ao serão, depois da cozinha arrumada, preparei o trabalho para o dia seguinte. Não houve fotos nem da esfregona, nem do pano da loiça, nem do fogão eléctrico a levar uma esfrega com um produto muito bom que parece gel de banho mas não é. Muito menos dos manuais de Inglês e de Alemão espalhados sobre mesa da copa, nem das fichas ou dos testes que vou ter que ver (Há-de ver quem?).
Tratados esses assuntos, televisão com eles. Pôr algumas séries em dia, ver os telejornais em diferido, já que em directo não foi possível, e dar algum repouso ao cérebro, cujo conteúdo, por esta altura, já está muito parecido com o gel que usámos para limpar o fogão eléctrico. Não há imagens minhas a ver as séries, nem poderão ver a minha cara de horror quando ouvi a Cristas a dizer que quer ser primeira-ministra, nem admirar o rosto seráfico da minha mulher a fingir que não percebeu o Jerónimo de Sousa que esteve, há pouco, há poucochinho, a falar contra o capitalismo, contra o capital, em defesa dos trabalhadores, do proletariado e de um país mais igualitário. Coisa que ele raramente faz.
Os filhos distribuíram-se pelos seus afazeres do serão, sem necessidade de fotos, nem em pose, nem sem ser em pose. Também não achámos bem fazermos imagens do pessoal em pijama, já mais tarde, a comer um iogurte com cereais, antes de subir para a caminha. Nem sequer ficámos com uma imagem da colher ou sequer das pantufas da Joana que são cinco estrelas, fofinhas e quentinhas que até apetece dormir lá dentro.
Acordei a Fofa, ainda a sonhar com o Jerónimo de Sousa, e lá fomos nós para a cama. Não há fotos da cama, nem dos últimos momentos antes de adormecermos. Ainda li umas páginas de um romance, pensei noutro que poderia muito bem começar a escrever e… apagámo-nos durante umas horas.

Como vês, Facebook, o meu dia foi o de um cidadão normal, igual a tantos outros, pacífico e sem nenhuma tendência para grandes chatices.
O que queres tu que mais te diga?

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O Muro das Lamentações






Sei que foi mera coincidência. Mas achei alguma piada à coincidência. Dias depois da publicação da minha crónica de Janeiro na minha página do Facebook, a Câmara Municipal publicava na sua página o projecto de requalificação do Jardim Público e da zona envolvente, com uma imagem da maqueta vencedora mais os orçamentos e tudo. Pareceu-me uma maneira de avisar os munícipes de que os responsáveis não estão esquecidos do grave problema e de que nem sempre é tarefa fácil definir e, depois, decidir o que fazer naquele espaço tão emblemático da nossa cidade.
A discussão não está, contudo, encerrada. Teremos sempre três grupos de opinião, já preconizados por Monsieur de La Palisse: os que concordam com o projecto aprovado, em que se apresenta um jardim sem muros, inserido no Largo (com inicial maiúscula, como em Manuel da Fonseca), numa resolução moderna para a questão; os que gostariam de voltar a ver o muro do jardim como estava antes, porque no nosso passado arquitectónico e na traça original dos edifícios e dos espaços públicos não se deve mexer; e os que tanto se lhes dá como se lhes deu e que, por isso, acabam nesta linha, ou na seguinte, os seus trinta segundos de fama, porque dos indecisos não reza a História.
Assim, terão razão os que querem o Jardim aberto ao Largo e, consequentemente, a todas as artérias que nele confluem. Um espaço aberto, com acessos práticos aos munícipes de todas as idades, transformando em verdadeiramente público o que nunca deveria ter estado claustrofobicamente “fechado” durante décadas e, nota importante, exibindo de futuro, e por inteiro, o Coreto, uma obra de arte de rara beleza de que muito nos orgulhamos e que muito pouco usamos.  Uma solução, afinal, que resolve, definitivamente, um problema grave que é o de haver sempre a possibilidade de, mais ano menos ano, mais chuvada menos chuvada, termos mais um pedaço de muro a cair de velhice sabe-se lá para cima do quê ou de quem. Outras cidades alentejanas têm apostado em projectos do mesmo género e os espaços abrem-se, como por magia, com menos barreiras, com mais luz, melhor visibilidade, menos perigo e mais conforto para os seus utilizadores.
E os que gostariam que o muro fosse reconstruído de modo a ficar igual ao que estava antes? Também podem igualmente exibir os seus argumentos. Comecem, então, por focar, e com toda a razão, o enquadramento do velho Jardim no Largo, tendo em conta a traça dos muros que circundam igualmente o Jardim dos Cavalinhos e a centenária Sociedade Carlista. O eliminar da cerca do espaço ao lado pode, portanto, suscitar dúvidas e hesitações que poderão estar mais ligadas ao sentido estético e ao respeito pela possível perda de identidade daquela zona. É-lhes legítimo justificar a sua posição, lembrando a necessidade de manter a imagem que desde sempre tem caracterizado a Praça da República (que todos conhecem como Largo do Almansor) e que, com a nova obra concluída, irá, eventualmente, transformar-se numa espécie de campo de batalha entre o Clássico e o Moderno, entre a História e o Futuro, entre a ideia de Progresso, reflectida na maqueta, e o pensamento dos que poderão ser comparados aos Velhos  do Restelo da nossa mais famosa obra literária.
Independentemente das opiniões, há uma verdade inabalável e indesmentível: quase dois anos passados sobre a data da derrocada, os montemorenses não querem esperar muito mais.
Agora, só nos resta saber se a publicação do projecto no Facebook, por parte do Município, foi para nos consolar e dar esperança em relação a uma intervenção a ser iniciada muito em breve, se foi para nos distrair ou entreter, enquanto se resolvem eventuais questões burocráticas/financeiras de última hora que irão atirar a remoção da trágica ferida para as calendas gregas. Aí, acho que vamos ter o caldo entornado.

João Luís Nabo, in "O Montemorense", Fevereiro de 2018

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)*



                                                      (Foto: Rádio Nova Antena)

Falar do que nos preocupa neste momento torna-se inútil, porque o momento é efémero, há muito que fazer e ninguém tem tempo para ouvir o que temos para dizer. No entanto, as palavras registadas continuam a ser a estratégia mais eficaz para, nem que seja daqui por cem anos, haver gente a ler o escrevemos hoje sobre o que nos preocupa. Digo isto, porque cada vez mais tenho a sensação, quase certeza, de que o que se diz hoje só é lido daqui a uns tempos, quando o que hoje nos preocupa já não tiver importância nenhuma, porque, na melhor das hipóteses, todas as questões foram resolvidas.

E o que é que me preocupa hoje? O que me impele a escrever estas linhas breves e despretensiosas, neste momento, igualmente breve? Para além de pensar nos naturais, e por vezes incontornáveis, contratempos domésticos, dou comigo a cismar com o mundo, com as catástrofes, os acidentes, as consequências da estupidez do homem. À porta do escritório (obrigado, Paul Auster) aparece-me um Trump, com as suas diatribes completamente loucas, um Putin, com o seu pragmatismo ameaçador, um miúdo mimado da Coreia do Norte, acenando-me com os seus caprichos nucleares, seguido de meia-dúzia de parolos com vénias e aplausos. Depois, passo para o país, o nosso, engalanado com as cores do optimismo, com um ministro das finanças que é presidente do Eurogrupo, com um ex-primeiro ministro que é secretário-geral das Nações Unidas, com um presidente da república que é um tipo fixolas e que sabe como agradar a gregos e a troianos; um país quase feliz, com sorriso de totó, por causa do défice que desce e do emprego que sobe e com uma Oposição aborrecidíssima, porque acha que não há muito para dizer. E António Costa confirma: se exceptuarmos os incêndios e as mortes, as perdas e a devastação, a Raríssimas, o BES, a EDP, as munições de Tancos, a expulsão antecipada da Procuradora, a eleição de Rio para grande chefe dos laranjas... está tudo nos conformes. E, atrás, lá vem meia-dúzia de parolos a aplaudir.

Depois, como se fosse uma águia, vinda bem lá de cima, sobrevoando a minha cidade, aproximo-me e vejo esta aldeia que se chama Montemor e que, apesar das últimas promessas eleitorais, continua a ter questões graves por resolver. Aponto, quase inconscientemente, os binóculos ao Castelo a precisar de intervenção; ao Centro Histórico com edifícios em ruínas, e onde, mais tarde ou mais cedo, vai acontecer o pior; ao muro do velho Jardim Público, esventrado como uma baleia já putrefacta que deu à costa quase há dois anos; às ruas e aos largos pouco tratados, onde se torna impossível caminhar em segurança, devido ao péssimo empedramento dos passeios, que mais parecem uma praia da Ilha da Madeira; às pinturas e colagens descaracterizadoras, em edifícios públicos; aos estacionamentos mal ordenados, que permitem que haja carros quase dentro das habitações de alguns munícipes; e, finalmente, ao rio, ao meu Rio, cada vez mais sujo, poluído e seco, numa agonia longa e sem solução por falta de vontade de quem mais pode.

Depois, aponto o meu olhar à alma dos meus conterrâneos e noto que houve tempos em que os sorrisos já foram mais abertos, porque era muito maior o orgulho que sentiam pela sua terra, pela cidade e pelo concelho, que deviam garantir emprego aos filhos e que não garantem, obrigando, todos os dias, a partidas para longe dos que, sem alternativa, vão procurar trabalho e outras vidas. Vejo a aflição dos pequenos comerciantes, cada vez mais sufocados pela concorrência desenfreada das grandes superfícies…

Reparo, por fim, no cansaço que começa a abater-se sobre todos nós e no metafórico (ou real) encolher de ombros dos políticos – mundiais, nacionais - que, claramente, não estão capacitados para resolver os nossos problemas com a urgência necessária e dentro do tempo útil que as necessidades exigem. Mas esses, ainda que importantes, ficam longe do nosso humilde alcance. Agora, os nossos, estes, de longe bem mais próximos de nós, deveriam ter para com os seus munícipes outro tipo de responsabilidade, para que, quem vier a ler, mais tarde, o que hoje escrevemos, possa dizer que Montemor é, finalmente, o espaço que merecíamos ter.
Bom 2018. A gente vai-se cumprimentando por aí. E falando destas coisas... enquanto pudermos. 


* Cântico Negro (José Régio)


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Janeiro de 2018

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

É por ti, é por nós




                                                     

       “A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

                                                                   John Donne, poeta inglês (1572-1631)


Quando éramos gaiatos de calções, armados de fisga (ainda não havia o PAN, inefável e cheio de boa vontade) e montados nas aranhas de rolamentos que desciam as ruas empinadas da encosta do nosso castelo, não pensávamos na morte. Era a vida que nos enchia a alma e o corpo magricela e desajeitado. A finitude do ser humano como homem ou mulher que, de carne e osso e em plena actividade quotidiana, um dia iria deixar de sê-lo, nunca nos passava pela cabeça arejada de putos sadios. Aventureiros, saudavelmente inconscientes, sempre cheios de planos e ideias (tantas vezes... parvas) preferíamos viver, ao vivo e a cores, “perigosíssimas” odisseias na mata do castelo, nos lugares mais recônditos do nosso rio Almançor, numa imitação quase perfeita dos nossos heróis a preto e branco preferidos - o Billy the Kid, o Tarzan, o Super Homem ou o David Crockett. Entretanto, não perdíamos tempo e escolhíamos a preceito as amoras mais maduras ou, imagine-se, estudávamos a forma mais engenhosa de rapinar uns figos ainda leitosos ou uns marmelos, cheios de penugem e acres, que nos acenavam constantemente dos quintais que eram, mas que infeliz coincidência, dos nossos vizinhos mais sisudos.
A morte era uma “coisa” distante, abstracta, escondida, tapada tantas vezes pelas nossas mães, quando do passamento de uma ou outra vizinha mais idosa, ou de uma nossa tia-avó já nos seus oitenta e tais. A morte era, portanto, e como os meus leitores sabem, quase tabu, propriedade exclusiva dos adultos e que só atingia, com o seu sopro fatal, os velhinhos e as velhinhas de cabelo branco e desdentados.
Com a morte do nosso primeiro familiar, normalmente e se os deuses estivessem de bom humor, o nosso avô velhinho ou a nossa avó, começávamos a sentir essa estranha nuvem que, aos poucos, e à medida que íamos crescendo, se ia apoderando do nosso quotidiano. Depois de um período de negação, que atinge toda a gente, acabaríamos por, ao longo da nossa vida, aceitar a morte do nosso Pai, da nossa Mãe, no nosso Irmão, do nosso Filho, esta última morando num espaço impossível de descrever, porque indizível a dor e amargas as lágrimas, por contrariar todas as leis da natureza e por nos fazer duvidar do sentido de justiça dos deuses que nos governam. Mas aceitamos. Com uma dor que não tem fundo. Aceitamos.
Quando começam a partir alguns dos nossos amigos, e já não foram poucos como isso, sentimos próxima a foice que, aleatória, vai segando tudo o que é vida. Tudo o que é seiva. Tudo o que é aurora e luz. Pouco importa a idade, de nada valem os hábitos, a profissão, os valores morais e humanitários por que pautámos a nossa existência. Não interessa a conta bancária, a fé, a miséria, a glória, os títulos. Todos, em fila, aguardamos a nossa vez. 

Recentemente, despedi-me, com outros amigos, de um homem de família, íntegro, boa onda, inteligente, solidário, preocupado, arejado... um homem que se sentia feliz por ver os outros felizes. E pensei nisto tudo que acabei de partilhar convosco, enquanto via desfilar perante o seu caixão as larguíssimas dezenas de pessoas que lhe foram dar o abraço derradeiro e que, com os seus filhos e a sua mulher, lhe prestaram a homenagem final.
E pensei também que, em miúdos, tínhamos brincado juntos, depois da escola, com grandes lancharadas à mistura, enquanto conquistávamos toda a Rua de Lavre com as nossas bicicletas e gritarias, com outros amigos, com o Miguel, com o Zé Miguel, com o João Arlindo... e que a felicidade era, nessa altura, o nosso nome do meio. E tive consciência plena de que as lágrimas que por ele deitámos nesse dia eram também por nós, numa dramática mas consciente antevisão da nossa própria partida.
E sim, Carlos Silvério, todos sabemos, e tu também sabes, que um dia voltaremos a brincar, todos juntos, como se nunca tivéssemos crescido.

João Luís Nabo, in "O Montemorense", Dezembro de 2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Hospitais públicos? Sim, obrigado





Os tempos estão diferentes, sem dúvida. Tenho uma relação de amizade com uma jovem enfermeira, amiga cá de casa, com quem falamos sobre as suas práticas profissionais. Quando pensava que as suas narrativas poderiam não ser bem assim quando vividas no local de trabalho e que ainda poderia ali haver muito humanismo aprendido nos livros e não na prática, os deuses decidiram que eu teria de ir ver por mim o que aquela jovem, recém-licenciada, a fazer uns trabalhos antes de abraçar definitivamente a carreira, me tinha transmitido.
Ao ser encaminhado para uma urgência do Hospital de Évora, pensei o que é hábito pensar-se e o que a grande maioria pensa nestas circunstâncias: "Estou feito!” Uma equipa de jovens médicas, de ainda mais jovens enfermeiras e de auxiliares cuidaram do seu paciente com um gigantesco profissionalismo e um desvelo que eu julgava fora do comum. Mas não. Numa troca de impressões com pessoas amigas que viveram situações do mesmo tipo, concluímos que esta nova geração de profissionais começou a ver o doente com outros olhos. Não é por acaso que também o Juramento de Hipócrates foi alterado. Uma coisa levou a outra ou...vice-versa.
Regressado a casa, quase restabelecido, continuo a acreditar que não terei sido a honrosa excepção a essa assustadora regra, produto do senso comum, e que dizia, até há bem pouco tempo: “O doente que entrar num hospital público em Portugal... está feito ao bife.”


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Novembro 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Face, ó que rico Face...





Já vou quase com um mês de afastamento desta invenção tão extraordinária como perniciosa chamada Facebook, decisão que provocou nos amigos e nos “amigos” alguma perplexidade. Senti-me, ao fim do segundo dia de jejum, um viciado a necessitar de acompanhamento profissional, pois mal abria os olhos de manhãzinha, o primeiro gesto, automático e cego, era para ligar o PC e deliciar-me com os gostos às minhas publicações, ou irritar-me com os comentários que eu considerava despropositados às minhas provocações e afins. Mas essa ajuda nunca chegou a ser verdadeiramente necessária. Comecei a usar uma terapia de substituição: tirei partido do tempo livre que começava a ter e, sobretudo, da paz que, durante alguns anos, tinha sido interrompida diariamente por gente que se envolvia comigo sem que eu, muitas vezes, lhe tivesse dado liberdade para tal. Gente parva, portanto.
Ao cancelar a minha Conta, acabei por cancelar, de igual modo, muitos motivos de incómodo e irritação. Vamos ver o que perdi: dezenas de deliciosas e eficazes correntes milagrosas, rezas, terços, imagens de santos e de santas; homens e mulheres, habitualmente discretos no que concerne à sua vida privada e familiar, a anunciar aos sete ventos que sofrem de doenças complicadas, que têm filhos maravilhosos na escola, que viajam com a pessoa amada por tudo quanto é paraíso à face da terra, que encontraram um lagarto no jardim, que têm um filho que já tem um ligeiro buço, maior do que o da filha do vizinho, que atropelou um cão e que fugiu para as Ilhas Fiji com a namorada, uma desenvergonhada. Que se zangaram com a mulher, com a amante, com o marido, com o padre da freguesia; que foram despedidos do emprego, por terem chegado constantemente atrasados durante 10 meses (o patrão é um intolerante fascizóide), que foram à pesca, que não foram à pesca, que estão com prisão de ventre, que vomitaram o jantar todo, coitadinhos, e que estão a tomar Kompensan... Que está muito calor, que está um frio de rachar, que hoje é Domingo e que amanhã é Segunda... Que gosto muito de ti, meu amor, mas se não me pedires em casamento em directo no Face, nunca mais quero olhar para a tua fronha. (E diz à tua mãe que ela é uma bruxa desdentada.)
Isto, caros leitores, sendo apenas uma amostra do que para lá vai, é suficiente para comprovar a existência de um ambiente poluído, a roçar o grotesco e o despudorado. Há situações, momentos, pensamentos e desejos que, pela sua natureza, nunca deveriam passar da porta da rua para fora. Porém, a maioria dos facebookianos pensa o contrário, pretendendo ter diariamente os seus cinco minutos de fama à custa sabe-se lá do quê.
Mas, para já, acreditem que esta foi a melhor decisão que tomei, sem contar quando decidi deixar de fumar há bem mais de vinte anos. (Fumar um cigarro é, sem sombra de dúvida, muito mais saudável do que andar agarrado a essa coisa chamada FB.)
E não regressas? Não vens por aqui?, perguntam-me alguns com os olhos doces, estendendo-me os braços. E eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)* e respondo: “Quem sabe? Quem sabe?”

* Obrigado, José Régio

N. A. : Este regresso, aparentemente contrariando a tese apresentada no texto, foi necessário pelos motivos à vista. Será, provavelmente, temporário.



João Luís Nabo, in "O Montemorense", Novembro, 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Raposas velhas


Sócrates está acusado de 31 crimes. E atrás dele vem uma respeitosa fila de celebridades, que comeram ou deram a comer uns aos outros milhões de euros sem fim, enquanto o Zé Povinho continuava na sua labuta pela sobrevivência. Nomes sonantes da política e da finança, ex-governantes e ex-banqueiros, ex-directores gerais de várias empresas e organismos conseguiram, durante longos meses de passividade por parte dos órgãos que gerem a justiça neste país, levar o país à bancarrota, usando os cargos que ocupavam para corromper, subornar, untar, comprar e vender honras e promessas, influências e modos de vida. E, naturalmente, pois claro, para se encherem do belo guito.
Segundo notícias recentes, este processo, pela sua complexidade e pelos intervenientes, irá fazer história na sociedade portuguesa. Um pequeno mundo, acrescento eu, de pequenos mafiosos incompetentes. O verdadeiro criminoso, competente e profissional, jamais deixa pontas soltas. E nunca é apanhado. Sócrates dominou a situação enquanto manteve na mão os pontos-chave do poder e da finança. Quando essas pontas soltas começaram a abanar ao sabor da brisa jornalística, tudo começou a desmoronar-se.
Quatro anos depois, com as entranhas expostas e em sangue vivo, e com o que falta ainda desenterrar, a serem provadas as acusações que o vão levar a tribunal, Sócrates foi, afinal de contas, um amador que continua a fazer-se de vítima, como aquela virgem que se mostrou ofendida após ter passado umas férias de arromba em Ibiza. Para a próxima tem de ser menos vaidoso, mais discreto e confiar menos nos amiguinhos.
Don Corleone tê-lo-ia despachado em três tempos. Sem apelo nem agravo.


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Outubro 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Tempos novos





Com os resultados alcançados nas últimas eleições autárquicas, o partido do poder vai forçosamente estar mais atento à Oposição, começando por manifestar uma maior abertura às propostas que dela vierem para, consequentemente, ganhar dela algum apoio, de modo a dar mais credibilidade às suas resoluções.

Poderíamos seguidamente analisar a conjugação de factores que levaram à diminuição de votantes na CDU mas deixamos isso para os verdadeiros analistas que, muito justamente, são pagos para esses raciocínios elaborados. Ainda assim, e com uma margem menor do que há quatro anos, a CDU vai continuar a gerir os nossos destinos, com a colaboração, espero, do PS, que se junta a eles com três vereadores no Executivo.

O Partido Socialista mostrou-se satisfeito com o passo dado em frente, ao ter conseguido diminuir a diferença em termos de votos que o separava da CDU. Contudo, e já sei que não terei muito apoio dos vereadores rosa nesta minha insistência, a possível não-aceitação de pelouros por parte dos socialistas escolhidos pelo povo acabará por limitar a acção desses eleitos e poderá desiludir (mais uma vez) algumas facções do seu eleitorado.

Por seu turno, o CDS conseguiu, contra ventos e marés, aumentar o número de eleitos, o que lhes trouxe uma maior confiança e um espaço mais confortável para poderem apresentar e defender os seus projectos.

O PSD ficou muito aquém do esperado. Creio que o próprio partido acabou por desistir da candidata que, corajosamente, lutou até ao fim, dando o melhor de si por uma causa em que acreditava. Contudo, não viu compensada esta sua luta.

Restam-nos quatro anos de gestão, que se espera mais organizada, tendo por base o exercício da coerência, do respeito e da tolerância. Mais importante do que os confrontos políticos, tantas vezes inócuos (e do tempo dos dinossauros), é esta terra que me viu nascer, porque “aqui, onde meu pai repousa, em dez palmos de terra também quero descansar!” *

Que possamos, sobretudo, continuar a viver, a trabalhar, a escrever e a falar livremente, sem que isso traga de volta os tais velhos fantasmas de má memória. Quero acreditar que sim.

*Manuel Justino Ferreira, poeta montemorense e humanista



João Luís Nabo, in "O Montemorense, Outubro 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O 1.º Dia








Estamos a umas escassas duas semanas das autárquicas, momento para muitos considerado crucial, já que o dia 1 de Outubro pode vir ser o primeiro dia de um novo ciclo político e administrativo para o concelho. Por outro lado, se a vitória continuar a sorrir à CDU, no poder há 40 anos, e desta vez sem João Amaro Marques, o melhor dos seus vereadores,  estes resistentes vão ser obrigados a estudar e a aplicar novas estratégias e a tomar decisões mais práticas e mais abertas em relação a muitas das questões que não conseguiram resolver no passado. E, naturalmente, terão de levar em consideração as que têm vindo a ser apontadas pela Oposição, no decorrer desta campanha. Para além deste exercício de revisão, nada fácil mas possível de pôr em prática, terão também de fazer contas à vida, porque o dia 1 de Outubro pode vir a ser para eles o primeiro dia do seu último mandato.


 In "O Montemorense", Setembro de 2017

domingo, 17 de setembro de 2017

Seattle


O Planeta está cada vez mais revoltado com os maus tratos que os homens lhe têm infligido ao longo de décadas. Os abalos sísmicos, as chuvas torrenciais, os furacões, os incêndios, os tsunamis, a seca prolongada, a fome, a morte... são as manifestações e as reacções naturais deste grande território, cada vez mais doente, devido a um contínuo desleixo, a um gritante desrespeito e a uma ganância sem limites com que temos habitado o nosso mundo.
Há muito tempo que as organizações ecologistas nos têm vindo a alertar para estas questões e para os dramas que hoje vivemos em grande parte do Planeta. Donald Trump é a imagem cinzenta e o símbolo triste desse desinteresse arrogante pelo bem estar de todos nós, num contraste espantoso com o testemunho do Chefe Seattle, dos índios Suquamish, do Estado de Washington, enviado numa carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pearce, em 1855: “Tudo o que fere a terra, fere também os filhos da terra. (...) Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco (...) continua a sujar a sua própria cama e há-de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejectos.


In "O Montemorense", de Setembro de 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Verão


Com o início do ano lectivo, a cidade recupera algum movimento habitual, depois da relativa vitalidade que o Verão nos trouxe. Assistiu-se a algumas manifestações culturais e desportivas que, de enaltecer, levaram até si os que, ficando de férias em Montemor, nada mais tinha que fazer nessas noites quentes. No entanto, tenho de colocar esta pergunta: alguns dos meus 12 leitores foi ao cinema até ao Parque Urbano ou ao Largo da Câmara? Pois eu fui uma vez apenas e... muito bem acompanhado. Levámos (nós e os sete espectadores estóicos e firmes) uma seca tal de José Mário Branco que adormeci, que nem um bebé, no ombro da minha fofa. Depois de ter sido acordado suavemente por ela, fomos para casa ver um filme na Fox.
Pois é, caros amigos! Neste Verão nem sequer se levou a cabo uma programação de cinema que captasse audiências: os documentários/filmes foram do mais aborrecido que se pode imaginar e, acredito, que só alguns dos espectadores puderam atingir o âmago de tais mensagens. Cheguei a perguntar-me: “Quem terá sido o iluminado que programou o cinema para as noites deste Verão?” Deve ser primo do Antonionni, do Manuel de Oliveira, do João César Monteiro, do Visconti ou do... Fellini.  Tudo tipos que faziam pensar muito e gozar pouco. Pois eu acho que, com a experiência de programação que os serviços da autarquia possuem, estes têm a obrigação de trazer à cidade uma mão cheia de filmes que abrangesse mais público do que só aquele (e, mesmo assim, muito pouco) que gosta de cinema de elite.
Em relação aos outros acontecimentos, há mais cultura para além dos coros, das bandas e dos ranchos. É o que me transmitem os jovens com quem converso e que assumem rever-se, na sua grande maioria, noutro tipo de espectáculos e festivais, mais ao sabor das novas ondas musicais e, por que não, de outros géneros mais alternativos.
De regresso às aulas, muitos adolescentes vão certamente comentar os festivais, os concertos, os filmes exibidos num Centro Comercial longe de si, iniciativas levadas a efeito a alguns quilómetros de distância e às quais nem todos tiveram acesso. Ou, então, vão passar os intervalos a recordar o Festival de Lavre que foi, mais uma vez, a Honrosa Excepção.


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Setembro de 2017

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Almansor agonizante




(Foto José Rasquinho)

Salvem o rio. É este o meu apelo aos autarcas que mandam e aos que hão-de vir a mandar.
Salvem o rio.
É um grito que tem eco nas memórias de todos os que não conseguem dispensar o Velho Almansor das suas vivências e dos seus olhares de gaiatos-marinheiros-pescadores-exploradores-nadadores sempre em liberdade. Hoje poderão encontrar-se outras funções nesta linha de água em vias de extinção. Temos técnicos com capacidade para nos devolverem este rio que foi dos nossos pais e avós e que é nosso por direito e herança. Haja vontade política e haverá sempre uma candidatura à espera de quem queira fazer daquele, hoje pobre caudal, um espaço de encontro entre a cidade e o seu passado feliz.

Salvem o rio.


João Luís Nabo

In O Montemorense, Julho 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

TNAs! TNAs! TNAs!





Antes de a rapaziada ir definitivamente de férias, renovo aqui a minha posição a favor dos TNAs (Trabalhos na Aula) em detrimento dos TPCs (Trabalhos para Casa). Porquê? Porque quando eu, professor, me preparo para, no remanso do lar, corrigir esses tais TPCs, nunca sei a quem atribuir a classificação: se ao aluno, se ao explicador, se à mãe ou ao pai ou se à extraordinária e sapientíssima Internet, ferramenta para todo e qualquer serviço quando a emergência é maior que o saber. Digamos que o melhor seria não atribuir nota nenhuma e fazer o que se fazia dantes: convidar o aluno a defender o seu trabalho na aula, sem a participação dos seus inúmeros e nem sempre credenciados mind coaches (treinadores da mente). Só assim mostraria o que vale. Ou o que não vale.

Distraídos crónicos...

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