domingo, 19 de maio de 2019

(Ainda não) é a hora




            Nem sempre estamos preparados para escrever sobre determinados temas. Nem sempre temos uma visão clara das várias possibilidades de interpretação dos acontecimentos que nos caem em cima todos os dias. Nem sempre queremos ver o lado da razão. A voragem do tempo (onde é que eu já li isto?) deixa-nos cegos, porque a velocidade com que somos obrigados a reagir nem sempre nos deixa pensar nas palavras certas para nos sentirmos, nós próprios, esclarecidos sobre aquilo de que temos dúvidas. Mas não é por isso que muitos dos nossos concidadãos se coíbem de espalhar aos quatro ventos a sua opinião. E têm-na sobre todos os temas, desde o futebol ao fado, da religião às culturas forrageiras, do fenómeno Osiriano à forma como se devem comer uvas sem bagas ou mesmo pastéis de Belém com dois pufes de canela.

Eu, cá por mim, sempre gostei de dar a minha opinião e, por vezes, devo assumi-lo, falo até sobre coisas que não são a minha praia. Contudo, fico sempre a saber mais quando me engano, quando exagero nos comentários, quando não consigo convencer muitos de que tenho alguma dose de razão ao dizer o que esses não gostam de ouvir, sobretudo se ocupam cargos públicos, dos quais dependem o nosso bem-estar e o nosso futuro. E quando afirmo que Montemor está a viver uma das piores fases das últimas décadas em termos de imagem e de organização de alguns serviços públicos, acabo sempre por receber alguns esclarecimentos, nem sempre isentos partidariamente, e nem sempre dirigidos aos factos que aponto ou descrevo. Porque há que defender a todo o custo os erros que dão trabalho a corrigir. E porque, no palco da política, os actores procuram sempre, como é óbvio, que o público não se aperceba dos movimentos nos bastidores.
           
Foi muito falado na altura, há menos de um mês, o célebre almoço oferecido pela autarquia aos seus trabalhadores, no dia 24 de Abril, como celebração do dia seguinte, que marcava os 45 anos daquela revolução que me permite escrever estas coisas. Levantaram-se vozes críticas, e, na minha opinião, certeiras, quando se verificou o transtorno que tal almoço veio provocar na dinâmica de determinados serviços relacionados com algumas escolas do concelho. Ainda que uma verdade indesmentível, não houve por parte dos responsáveis, pelo menos que eu tenha sabido, uma justificação cabal e lógica para tal procedimento. Almoço merecido, sem dúvida. Mas no momento errado. Por isso, deverá haver a necessária abertura e a humildade correspondente para a sua correcção em momentos futuros. Nada mais simples.
           
Continua a ser um verdadeiro calcanhar de Aquiles a obra que envolve o Jardim, a Rua 5 de Outubro, a Rua das Escadinhas, o Largo da República e a Rua de Avis. Os políticos passam por lá com frequência, em passeio ou em funções, e apercebem-se, tanto quanto os moradores e comerciantes daquelas zonas, da situação caótica em que todos se viram mergulhados, com ruas esburacadas, inundadas com as águas da chuva, ficando os transeuntes e os que ali vivem e trabalham num verdadeiro estado de nervos. Podemos reclamar, naturalmente que sim, marcar bem o nosso desagrado, publicar petardos nas redes sociais, mas temos de ser rigorosos, lógicos e intelectualmente honestos. Por muito que todos tenham razão, a autarquia e os responsáveis que lá vivem não têm, na minha opinião, de ser responsabilizados pela chuva, pela lama, pelo pó, pelos buracos ou pela aparente demora das obras. Para que toda aquela zona tenha um novo aspecto, provavelmente mais prático e esteticamente mais agradável, todo este movimento inestético, abusivo e prejudicial às nossas rotinas e ao sustento de alguns de nós é necessário e indispensável.

Mas se, por outro lado, os políticos da terra, de todos os quadrantes, pretendem utilizar esta questão como arma política para começar a discutir antecipadamente as próximas eleições autárquicas, julgo que não será esse o melhor caminho. Se, porventura, a inauguração deste espaço renovado coincidir com as vésperas dessa ida às urnas (lá para 2021), tal não será de admirar, pois o mesmo aconteceria com qualquer outro partido que governasse a câmara. (É a política, meus senhores!) E temos essa perfeita noção quando, em termos nacionais, assistimos às andanças de António Costa e demais familiares nestes tempos de eleições europeias e nacionais. As obras, essas, são absolutamente inocentes em relação a tudo isso e o executivo que as mandou fazer não tem de ser penalizado nas urnas pelos atrasos ou pelos avanços, pela chuva ou pela seca, que vão acompanhando todo o processo. A discussão para as autárquicas e a penalização nas urnas, se a houver, tem de ter outra base de diálogo. Deve discutir-se, isso sim, a necessidade de um urgente progresso económico do concelho e a consequente fixação de jovens à terra que os viu nascer ou onde decidiram viver a sua vida; deve ser implementada a aplicação de benefícios fiscais para quem, corajosamente, investe na cidade e no concelho, contra todas as marés e todos os velhos do restelo; é inadiável o investimento na desburocratização da nossa vida diária e na imperiosa necessidade de uma maior justiça no apoio às associações, em particular, e à cultura, em geral.
É por isso que esses debates devem passar, em primeiríssimo lugar, pela aceitação das opiniões de todos e pela vontade manifesta de uma abertura total em relação ao ajuste e à correcção do que deve ser melhorado. Para tal, há opções que devem ser feitas. Uma delas, fundamental na minha perspectiva, passa, obviamente, por uma maior libertação das orientações partidárias e pelo assumir, sem constrangimentos, que o autarca está em primeiro lugar e sempre ao serviço da população que o elegeu e não do partido que o lançou como candidato.

Sem querer fazer futurologia, acredito que, se não se operar uma mudança nos seus estatutos internos e nas suas ideologias antiquadas e “direccionistas”, os partidos têm os dias contados. Poderá ser apenas daqui a duas ou três décadas, mas os movimentos de cidadãos “livres” acabarão por ser a solução que marcará a diferença no nosso panorama autárquico. Porque também eles são conhecedores dos concelhos e dos aparelhos autárquicos que os governam e porque também eles mostram ter consciência das carências dos munícipes e da urgência de progresso nas suas terras. A marcar a diferença está a sua acrescida vontade ilimitada de construir uma comunidade mais unida, mais amiga e mais interessada nos seus vizinhos, independentemente das suas origens sociais e das suas ideologias políticas ou religiosas.
Estamos a viver no futuro. O passado já foi.

Sei que ainda não é a hora. Mas a hora soará.

João Luís Nabo

In O Montemorense, Maio 2019

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Abril para todos

   

  Abril para todos A importância da Revolução de Abril, concretizada na madrugada do dia 25 desse mês, do ano de 1974, será sempre encarada como um marco que transformou radicalmente as vidas dos nossos pais, as nossas e as dos nossos filhos, resultado, sobretudo, de um profundo desejo de mudança, atravessado, após 48 anos de ditadura, nas gargantas e nas mentalidades dos portugueses. Mais de quatro décadas após essa data, quero continuar a acreditar que todos os sectores da sociedade e da política portuguesa a encaram como uma mais-valia para um futuro que se construiu para todos, sobre um passado cinzento, de miséria, de medo e de perseguições políticas.  Levarei comigo, quando me for embora definitivamente, a imponência das chaimites vindas de Estremoz, carregadas de soldados, descendo a avenida Gago Coutinho da então Vila Notável, nessa manhã clara e de esperança. Salgueiro Maia já as esperava em Lisboa. Essa imagem de determinação e vontade marcou de forma irreparável o rapazola de 13 anos que se dirigia para casa, aconselhado pela professora de Matemática, a minha querida amiga Jesuína Raposo, porque não estavam garantidas condições para o prosseguimento das aulas. Quando cheguei junto de minha Mãe, esta já ocupada na preparação do almoço, encontrei-a na cozinha, com o aparelho de rádio ligado, de onde saíam vozes de homens, entrecortadas por músicas militares e cantigas de Zeca Afonso. De quem eu nunca tinha ouvido falar. Tinha os olhos maiores e o sorriso mais aberto, misturado com a insegurança, a desconfiança que a caracterizava e o hábito de muitas décadas de silêncio e algum medo. O meu Pai chegou depois e mostrou-se igualmente receoso: “Vamos ter calma, que isto ainda pode voltar para trás.” Todas estas palavras foram, nesse momento, muito vagas para mim. Mas o que podia voltar para trás não voltou. Aos poucos e com o passar do tempo, comecei a enquadrar a Revolução num cenário lógico, com vozes, agora sonoras e destemidas, que tinham acabado de atravessar uma longa noite de silêncios e sobressaltos. Quando, no longínquo mês de Julho de 1970, no dia 27, a minha Mãe segredou ao meu Pai, após um noticiário da Emissora Nacional, “O homem já morreu”, eu, de ouvido alerta, perguntei-lhes: “Quem é que morreu?” O olhar aflito da minha Mãe confundiu-me. Pensei que tivesse sido alguém da minha família. A voz dela ainda me deixou mais sem rumo: “Não são contas do teu rosário. Não fales disto a ninguém. Vai brincar”. Evitar pronunciar com todas as sílabas o nome de Salazar, a ausência de liberdade, o temer pelo futuro, a guerra colonial estúpida e sem sentido (como se alguma guerra tivesse sentido), tudo isso foi revogado e assinado com cravos nas metralhadoras e gritos de alívio e de desabafo e de euforia. 

……………………………………………


     Quarenta e quatro anos mais tarde, ao rapazola já crescido apetece-lhe escrever sobre alguma da desilusão que hoje o acompanha. Não em relação aos princípios e aos valores de Abril. Esses são intocáveis e estão bem arrumados na sua cabeça. Mas em relação à apropriação que alguns partidos, sobretudo os mais à esquerda, parecem fazer desse movimento e dessa Revolução.  Se bem que a clandestinidade e as lutas contra o regime ditatorial de Salazar e Caetano fossem, na sua maioria, protagonizadas por portugueses ligados ao Partido Comunista Português ou próximos dele e por simpatizantes ou militantes de outras forças de esquerda, a Revolução, com R maiúsculo, com todos os seus frutos, todas as suas consequências, boas e más, é de todos nós: dos de esquerda, dos de centro, dos de direita e dos que não se encaixam em nenhuma das opções anteriores. Já era, pois, tempo de não se transformar uma celebração nacional e colectiva num comício político-partidário, onde o protagonismo de alguns se transforma no desconforto de outros. Assim, acredito eu, muito dificilmente será possível habitarmos livres “a substância do tempo” após aquele “dia inicial inteiro e limpo”.  
     Inicial inteiro e limpo.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Abril de 2018
In Cloreto de Sódio, 2019

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Stabat Mater




            A cruz pesava-lhe no ombro, mas já não tanto como no início. O corpo coberto de pústulas de sangue e suor misturadas com o pó seco do caminho, dando origem a uma espessa camada de lama avermelhada, começava a estar dormente, afastado do seu pensamento.
O sangue quente e vivo escorria-lhe da cabeça, e a coroa de espinhos continuava fortemente enterrada no crânio, parecendo ter nascido ali, com origem nos cabelos suados, castanhos e lodosos. O Sol a pino cegava-o e ele quase não conseguia ver para onde atirava os pés doridos, que as sandálias já não conseguiam proteger. O caminho era íngreme, pedregoso, difícil. Como difícil tinha sido a sua vida e a sua luta pela fé.
Jerusalém estava cheia de gente, por altura da Páscoa. Muitos tinham vindo de longe só para verem, com os próprios olhos, a condenação e a morte de um homem que diziam ser o rei dos Judeus. A multidão cercava-o selvaticamente, gritando, urrando, fugindo às investidas dos soldados e dos cavalos, acicatando alguns cães que se misturavam com a turba em êxtase. Ele ouvia todo aquele barulho ensurdecedor, mas não conseguia distinguir as vozes. Esforçava-se, desesperadamente, por escutar, de entre a confusão de palavras, a voz gentil de Maria, sua mãe, que estivera sempre consigo, que o amava incondicionalmente, que sempre respeitara a sua vontade e as suas opções, que queria morrer por ele, se a deixassem. E Maria de Magdala, com o seu conforto e os seus olhos de avelã, doces e tristes, e João, o seu melhor amigo, o seu irmão, a sua paz. Mas o peso da cruz tirava-lhe a concentração, e desistiu. Sabia que estariam ali, a acompanhar o seu caminho derradeiro até ao Gólgota.
Sentiu que as forças lhe fugiam. Caiu mais uma vez. Mais uma vez os soldados romanos o levantaram a toque de lanças e de palavras sujas. Ergueu-se, as pernas a tremer e a garganta seca, seca, como as dunas do deserto. Dobrou-se para abraçar a cruz e pô-la de novo sobre os ombros, já em carne viva. Não foi capaz. O corpo não obedecia ao cérebro cansado. O estômago ardia-lhe e o coração parecia querer sair-lhe do peito. Apercebeu-se de que alguém lhe punha a mão na face. Por entre o sangue quase em crosta e o suor enlameado, abriu mais os olhos para ver quem era. Não era a mãe. Não era João. Nem Maria de Magdala.
“Chamo-me Simão. Vou ajudar-te”. E empurrado pelos soldados, após um brusco aceno de cabeça do centurião, o homem, já idoso, natural de Cirene, carregou a cruz durante uns bons metros. Os suficientes para aliviar um pouco o condenado. Este aproveitou para semicerrar os olhos e tentar ver, pela centésima vez, onde estavam os amigos. Escondidos, decerto. Amedrontados, como seria de esperar. A protegerem a própria vida.
Quando, com um esgar de sofrimento, se preparava para aceitar a cruz de volta, das mãos do Cireneu, viu uns olhos muito azuis, muito abertos, rasos de lágrimas, incrustados num rosto claro de tanta luz e triste de tanta dor. Era a mãe. Era a sua mãe que lhe estendia a mão frágil, como se com aquele gesto pudesse carregar também aquela cruz ensanguentada. Inspirado pelo olhar incomparável daquela mãe, incomparável como o de todas as mães, o condenado mostrou-se mais vigoroso, mais preparado para o resto do caminho em direcção ao monte.
 Agarrou na cruz, e nem as dores dos espinhos, nem os golpes das vergastadas lhe ardiam. Nada o segurou ou impediu de cumprir o fim da mais difícil oração da sua vida. Muito menos as memórias do que tinha sofrido havia poucas horas. Pelo seu olhar perpassou o manto cor de púrpura e os risos dos que, no Sinédrio, gozavam com ele, a cana a servir de ceptro, o seu rosto cansado, cuspido pelos soldados, as injúrias e os impropérios, a libertação de Barrabás, os gritos do povo enlouquecido, “Crucifica-o, crucifica-o!”, as mãos de Pilatos mergulhadas na bacia e, depois, pingando para o chão a água da indiferença…
            Olhou em frente e viu o monte. O Gólgota. O Monte da Caveira. Onde eram crucificados os que punham em causa o que não podia ser posto em causa. Seria ali, dentro de poucas horas, o lugar da sua morte. E ele sabia-o. Desde o tempo dos profetas que tudo isto se sabia. Nada era novidade para ele. Então, nada havia a fazer para contrariar a vontade dos homens que o tinham condenado, o desinteresse dos homens que não o defenderam e a frieza do Pai, que iria aparentemente abandoná-lo no momento mais extraordinariamente difícil da sua vida. E também sabia que as suas roupas iriam ser jogadas à sorte entre os soldados e que lhe iria ser dado vinho e fel, pelos mesmos que lhe iriam perfurar o lado para se certificarem da sua morte. Todas estas provações seriam muito mais difíceis de aceitar se a mãe não estivesse com ele, quando tudo terminasse. Essa era a sua grande certeza: a mãe iria recebê-lo nos braços, junto ao coração, num aperto derradeiro, único e doloroso. E lá estaria também a irmã dela. E João. E Maria de Magdala.
            Assim se cumpriu.
Depois da hora nona, as trevas invadiram a Terra. O condenado, à beira do fim (ou do princípio?), invocou o nome do Pai e, em paz, depois de tudo estar consumado, entregou o espírito.
O Sol eclipsou-se, o véu do templo rasgou-se em dois e a Terra tremeu, tal como tinha sido narrado pelos profetas.

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Aos pés da Cruz, o regaço de Maria recebeu, finalmente, este Menino de Sua Mãe, exangue, coberto de chagas, retalhado, sujo, semi-nu, abandonado, morto, mas vivo para toda a eternidade.          


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Páscoa de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

De fio a pavio - parte 3




Os ataques criminosos contra pessoas e bens, tanto no nosso país como no estrangeiro, revelam a “era da paranóia” (Oh, Teresa Brennan, de vez em quando, ando a falar nisto, o que não é bom sinal) em que nos obrigam a viver. Obrigam os políticos, as religiões e o vazio que preenche a vida e o cérebro de tanta gente. Não tens nada para fazer logo à tarde? Tiveste uma infância infeliz? Viveste uma adolescência tardia? A escola não é do teu agrado? A tua namorada deixou-te porque lhe deste duas bofetadas? Então, pega numa arma e começa a despachar pessoal, de fio a pavio, como se não houvesse amanhã. Depois, algum causídico há-de arranjar forma de passares por maluquinho e vítima do sistema que te consumiu.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março 2019


domingo, 17 de março de 2019

De fio a pavio - parte 2



A Fofa continua sensível ao que a rodeia e hiper-super-mega atenta às minhas tentativas de escrever mais umas coisas, não vá eu ofender algumas virgens, tão virgens como eu em determinados assuntos e em determinadas práticas. Deixou-me de boquinha aberta, há bem pouco tempo, esta Fofa de uma figa. Disse-me ela, com ar pensativo, num destes dias ao serão, depois de enfiado o pijama e ajeitadas as pantufinhas: “O menino acha que me posso candidatar às próximas legislativas, para poder vir a ser primeira-ministra como a D. Assunção?” Sem acreditar no que estava a ouvir, respondi-lhe, animado, mas sério: “Claro que podes. Arranjas-me um cargo fixe, uma direcção-geral, uma secretaria de estado, um ministério, só para eu fazer uns projectos e umas cenas e assim?” Houve um momento pesado, de silêncio pesado, mesmo. Levantou o sobrolho, escancarou-me os olhos e respondeu: “Ficas com o cargo de Primeiro Damo.”
Já nem acabei de ver a novela. Cama com ele. (Ainda hoje não lhe dirijo palavra.)


João Luís Nabo

In  "O Montemorense", Março de 2019

sábado, 16 de março de 2019

De fio a pavio - parte 1






           O Grupo Coral Fora d’Oras, com quem já trabalhei em vários concertos, foi escolhido como Embaixador do Concelho de Montemor-o-Novo. A autarquia não imaginava o presente envenenado que estava a entregar a este grupo de excelentes cantores e cultivadores do Cante Alentejano, Património Imaterial da Humanidade. Choveram as críticas, sobretudo em relação aos critérios que determinaram esta escolha. Eu próprio fiquei admirado e teria outras sugestões a fazer e que não passariam por nenhum grupo aqui residente. Mas a decisão foi, sem dúvida, política e, independentemente da associação ou do grupo escolhido, as críticas acabariam sempre por aparecer. Estas nomeações nunca são pacíficas, muito menos numa terra cheia de associações que têm, nas mais variadas áreas culturais e desportivas, levado o nome de Montemor até muito longe.  Portanto, esta opção (como aconteceria com outra qualquer) deu polémica. Só tinha de dar.
Quem não pediu para ser nomeado foi o Grupo Fora d’Oras, que vai continuar a fazer aquilo que gosta: cantar. Quer concordemos, quer não, a atribuição já foi oficializada e, por isso, só resta desejar que cumpram o melhor que souberem a missão que lhes foi confiada. Estaremos com eles, naturalmente. Sempre. Porque são de Montemor e nós também.


João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março de 2019

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Love you, babies…



O dia 14 dos namorados aconteceu há pouco. Perguntei a um amigo mais jovem o que tinha oferecido à namorada. Disse-me que tinha sempre um grave problema neste dia de São Valentim e que não sabia como resolvê-lo. As namoradas, sim, no plural, quatro ao todo, eram exigentes em relação às prendas comemorativas deste dia e que, por isso, a fazer a vontade a todas elas, lá se ia a mesada completa e teria ainda de fazer um crédito bancário. Assim, esperou discretamente, e à pesca nos Minutos, que o dia se esgotasse e, a 15, marcou um cafezinho com uma de cada vez, para se desculpar do terrível esquecimento. Sempre lhe saiu mais barato.
O corajoso Valentim, preso e condenado à morte pelo imperador Cláudio (segundo reza a lenda) por realizar casamentos em segredo e contra a lei, nunca imaginou os problemas que ainda iria causar a este jovem, 18 séculos depois. E quando as quatro raparigas descobrirem o que têm em comum… vai sobrar para o pobre moço. Ora, se vai.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Fevereiro de 2019

domingo, 13 de janeiro de 2019

Ano Novo, Ano Novo, Ano Novo!



 (Foto: Nuno Photography)

“Come as 12 passas e cala-te”, mastigou a Fofa, em pleno pico de stress, tentando fazer tudo a que tinha direito na noite da Passagem de Ano. Eu, que nunca fui muito de comer passas à pressa e formular desejos ao mesmo tempo, fingi que mastigava, enquanto ela se atirava para cima de um banco, com um copo (desculpem, mas não temos flutes) de champanhe na mão. Logo a seguir, mesmo antes de me desejar Bom Ano Novo, lançou-se em direcção ao telemóvel e desatou a telefonar aos filhos e às amigas a desejar tudo de bom no tempo que estava para vir. E ali fiquei eu, paciente (é todos os anos a mesma coisa) encostado à lareira, à espera do meu beijo de Boas Festas. Lá veio ele, já perto da uma da manhã, lânguido e apaixonado. Olhámos um para um outro e desatámos a rir.
Não era preciso verbalizar os votos que nos animavam naquele momento. Sabíamos intimamente, adivinhávamos sem hesitação, líamos apaixonadamente o que nos ia no coração e os bons desejos que tínhamos um para o outro, para os nosso filhos, para a nossa família, para os amigos e para os filhos dos nossos amigos. Voltámos a encostar os copos um no outro, voltámos a encostar levemente os lábios e ficámos no sofá num exercício de adivinhação sobre o que nos iria acontecer no ano acabado de nascer. E o que formulámos posso perfeitamente revelá-lo, sem qualquer receio, porque os nossos desideratos são, mais coisa menos coisa, iguais aos de toda a gente.
Queremos entrar em 2019 com o pé direito, porque é assim que se deve fazer. Se, depois, o passo se troca, por descuido nosso, ou por causa de um ou outro empurrão de alguém menos cuidadoso, isso será resolvido a tempo e com as pessoas certas. Para já, posso revelar que pensámos na família, primeiro, nos que partiram e, depois, nos que ficaram; na harmonia sempre necessária para avançarmos no tempo e progredirmos no modo como tentamos percorrer as nossas estradas; tomámos nas mãos o desejo de uma contínua tolerância para que todos se sintam confortáveis e encorajados nas suas ideias, nos seus desejos e nas suas conquistas, sem críticas nem palavras nascidas no preconceito e na inveja; quisemos acreditar que todos os familiares e amigos iriam ter sucesso nos seus projectos, nas rotas que viessem a traçar, de forma pessoal ou colectiva, nos seus empregos e nos seus tempos de lazer; olhei-a nos olhos e vi lá reflectidos os nossos filhos, cada um percorrendo o seu caminho sempre com vontade de avançar, de melhorar, de saber mais e melhor sobre o mundo e a vida, procurando, serenos, vencer os obstáculos, com coragem e honestidade, sem pisar ninguém, sem usar ninguém, sem odiar ninguém; e desejámos o mesmo para os seus amigos, merecedores também dos maiores sucessos; pensámos, com força, nos mais pequenos da família, na Carminho, na Mariana e no Duarte e, tal como duas fadas madrinhas, desejámos-lhes o melhor deste mundo e de todos os mundos que possam existir para além deste, com saúde e força para os pais e também para os avós, que são, como todos sabemos, a grande base de apoio e de conforto dos recém-casados e dos recém-nascidos; direccionámos o nosso pensamento aos amigos e amigas, sobretudo àqueles que neste momento atravessam momentos mais complicados e que viram o seu caminho interrompido por factores de vária ordem. Queremos que tudo volte ao normal e queremos que saibam que estamos cá para o que for preciso.
Passaríamos a noite inteira a formular votos sem fim, se à memória nos viessem todos aqueles que fazem parte dos nossos dias, no nosso emprego, nos nossos tempos livres, todos os que encontramos nas ruas da cidade e que para nós têm sempre uma palavra amiga sobre nós e sobre os nossos. Estaríamos durante este novo ano, todo inteiro, de fio a pavio, a desejar a paz e a justiça para todos os que fogem da guerra, da doença, da fome e da intolerância; a imaginar como seria bom se todos tivessem uma casa decente, emprego todos os dias, saúde, pão na mesa e um livro que os fizesse sonhar, na mesinha de cabeceira; pensámos como tudo seria mais fácil se os corruptos pagassem na justiça o dinheiro e a dignidade que nos roubam diariamente, e devolvessem com juros tudo o que nos tiraram neste duros últimos anos da nossa existência; como tudo seria bem melhor se quem nos governa olhasse para nós como seres humanos, com um nome próprio e um apelido, e não como um simples número de contribuinte ou da segurança social.
Adormecemos no sofá no meio de tantos desejos, tantos que não tinham fim. Com a lareira já apagada e a sentir o frio que tinha regressado à sala, decidimos ir para o quarto, para nos restabelecermos, de modo a estarmos prontos a enfrentar o ano recém-nascido. Antes de cair nos braços do Morfeu, ainda a ouvi murmurar: “Não te esqueças de que vamos ter um compromisso importante em Fevereiro.”Vamos?”, perguntei já meio perdido. “Sim. Vamos lançar o Cloreto de Sódio no dia 2, na Biblioteca Municipal. Temos de tratar dos convites.” “Temos”, concordei, atabalhoadamente, já muito longe, quase, quase a iniciar a viagem que me iria levar até ao novo ano. 
E aqui estamos. E por aqui vamos continuar.
Bom Ano!



João Luís Nabo

In "O Montemorense", Janeiro de 2019

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Carlos




O mês de Dezembro começou mal para outra figura da cidade. Uma queda levou o meu querido amigo Carlos Cebola ao hospital onde passou uns dias, estando já em casa após uma cirurgia de sucesso. Imaginamos sempre a preocupação da Família, e, ao mesmo tempo, a serenidade do Professor que, pacificamente, aceitou o “incidente” e se abandonou de alma e coração nas mãos dos médicos e das enfermeiras. Tinha feito já o seu poema habitual para os Cantares ao Menino, entregue na minhas mãos há largas semanas, com as palavras sábias e serenas a que estamos habituados: Tome lá já o poema para este ano, porque a gente nunca sabe. Espero poder ir ouvi-lo na Igreja da Misericórdia.” Calculamos que, embora em recuperação, não vai estar ainda capacitado para cumprir esse desejo. Mas sei que vai acreditar que declamaremos o seu texto com toda a alma e com a mesma serenidade com que o escreveu. Obrigado, Professor Carlos. Os seus Amigos estão consigo.  


João Luís Nabo
In "O Montemorense", Dezembro de 2018

domingo, 9 de dezembro de 2018

Francisco



Não foram nada bons os primeiros dias de Dezembro. Neste tempo de esperança, de alegria e de união familiar e de amigos, foi exponencialmente difícil quando nos vimos confrontados com o trágico acidente e consequente falecimento de um conterrâneo nosso, figura popular e de quem todos gostávamos, pela sua forma de se dar aos outros e de partilhar o que tinha com quem não tinha. Era jovem o Francisco. Vai permanecer jovem para sempre, dando continuação a outros mitos da literatura, do desporto, do cinema e das belas artes, que têm povoado o imaginário de várias gerações ao longo da História. 
Era, por isso, ainda cedo. Cedo demais. 
Quando um amigo parte das nossas vidas e deixa os nossos dias profundamente mais vazios e sem Sol, há sempre uma parte nossa que o acompanha e uma parte dele que fica connosco. É assim a amizade. Se não fosse como acabo de descrever, nada teria valido a pena.
Partiu o Francisco. Deixou inconsoláveis a família e os amigos, sobretudo os amigos da igualmente mítica Rua de D. Sancho, e também os companheiros e colegas que, com ele, viviam a noite montemorense com intensidade e paixão.
Também nós, um dia, partiremos, por um motivo qualquer inesperado, adverso ou, nunca o saberemos agora, já aguardado. E haverá, também, gente pouco cautelosa a trocar impressões nas redes sociais sobre o nosso estado de saúde, sobre as nossas amizades, sobre a nossa família e o nosso passado, esquecida da dimensão e do alcance que esses comentários podem atingir. Todos os amigos, preocupados, os irão ler. E os outros também.
Mas para o Francisco nada disto teve importância.
Até um dia, sabe-se lá quando... Quando for, vou levar-te notícias da nossa terra.
Descansa em paz.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Dezembro 2018

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Estaleiros



Sabemos que tem de ser assim. Para haver melhoramentos no tecido urbano e rodoviário da cidade tem de haver obras, buracos no chão, cheios de água e lama, valas que nunca mais acabam, entulho, barulho, trânsito condicionado, redes, andaimes, em suma, acaba por estar tudo virado do avesso. Mas a obra do Muro do Jardim Público já começou e isso é o mais importante.
Fiquei desolado, e não fui decerto o único, com a nova imagem daquela paisagem clássica, agora com o muro quase completamente derrubado e que vai alterar de vez a magia do meu Jardim, do Jardim da minha infância e adolescência.
Pondo a razão acima do coração, sabemos, pelo que vimos no projecto, que a cidade vai ficar mais arejada, com um Jardim Público aberto e com acessos fáceis. E foram estas algumas das razões que me levaram a escolher esta opção, quando houve a votação pública. E, depois, será uma questão de hábito. Acredito que sim.
Sobre as ruas adjacentes que vão ser alteradas, aí outras vozes se levantarão, porque o corte do trânsito na rua de Avis, por exemplo, para que esta se transforme numa zona pedonal (interessante, seguro e estético, na minha opinião), pode não ser a medida mais certa, na opinião de alguns comerciantes daquela via tão movimentada.


João Luís Nabo
In "O Montemorense", Novembro de 2018

domingo, 18 de novembro de 2018

Natal injusto, mais uma vez



Vem aí o Natal (outra vez). Era só para avisar os mais esquecidos que, para além de ser uma época festiva e de prendas, é também a altura ideal de sermos bons uns para os outros. Já agora, é muito mais do que isso tudo: é o tempo certo para sermos justos. Eu explico: vou fazer anos no próximo dia 23 de Dezembro e há quase 58 Dezembros que ouço sempre a mesma lengalenga de amigos e família: “Toma lá esta prendinha. É de anos e de Natal! Parabéns!”. Eu aceito, claro, com a melhor cara que consigo arranjar na altura, sentindo-me, porém, mais uma vez, injustiçado. Este desabafo quer dizer isso mesmo que vocês estão a pensar: que eu e muitos como eu (o meu amigo Zé Bexiga, por exemplo!), estamos continuadamente a ser prejudicados pelo Menino Jesus. Sabemos que ele foi, e é ainda, mais importante do que nós, mas mesmo assim…
Tenho, portanto, uma proposta que muitos vão assinar por baixo, de cruz e sem hesitações: ou se muda a data do nascimento do Miúdo ou exigimos (eu, o Zé Bexiga e muitos outros amigos) que nos devolvam, COM RETROACTIVOS, todas as prendas que nos devem desde o princípio da nossa vida.
Tenho dito.

João Luís Nabo

In O Montemorense, Novembro 2018

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Queria castanhas, a moça


Martinho, o nobre cavaleiro gaulês, militar do exército romano, que ofereceu metade da sua capa a um mendigo que morria de frio, abandonou a guerra e entrou para um convento, para longe das tentações mundanas. O dia em que se deu este tão simples mas tão nobre gesto foi a 11 de Novembro do ano 337 d.C. e é hoje celebrado com castanhas e água-pé.
Pois, no dia 11 que passou, fui, depois de almoço, dar uma volta pela cidade. “Compra-me umas castanhinhas assadas, que ainda temos ali uma garrafa de água-pé. Vamos dar seguimento ao que faziam os nossos pais… Tradição é tradição!”, gritou-me a Fofa, do quintal, onde tentava (sem sucesso) dar banho ao Balú, e esquecendo, por momentos, as três semanas de rigoroso regime alimentar.
Saí de casa e fui beber o cafezinho da praxe no António Quitério. “Quer o seu Poejo habitual?”, perguntou-me. “Não, António. Vou conduzir. Vou comprar castanhas assadas!”, respondi, quase eufórico.  E assim fiz.
Assim fiz, não. Assim quis fazer. Percorri (de carro, pois claro) a cidade de ponta a ponta, de lés-a-lés, de fio a pavio e não encontrei vivalma a vender uma castanha assada que fosse. Vieram-me logo à memória as recordações de infância e a barraquinha de uma senhora velhota de saias compridas e lenço na cabeça, mesmo junto ao Passo da Rua Nova, que vendia uma dúzia de castanhas por 10 tostões.
Voltei pesaroso… mas com castanhas num saco. (Eu não poderia desiludir a Fofa que, àquela hora, já devia estar mais molhada do que o próprio Balú). Não as encontrei numa esquina, quentinhas a estalar. Fui comprá-las, cruas, claro, a uma das superfícies comerciais da cidade cujo nome, Intermarché, não se pode dizer por causa das cenas da publicidade e má-na-sê-quê, e dirigi-me ao doce lar. Acendi a lareira da sala e, quando a coisa estava mais ou menos capaz, retalhei as castanhas, coloquei-as dentro de uma panela própria, pus-lhes sal e depositei aquele tesouro sobre as brasas da minha lareira. Liguei a televisão naquele Canal Zen que dá para a gente descansar um bocadinho e… adormeci.
Fui acordado violentamente pelo fumo negro e denso que invadia a sala. Eram as castanhas completamente transformadas em carvão que se tinham praticamente evaporado.
Ainda hoje, caros leitores, com o cheiro que se entranhou naqueles cortinados de veludo persa, continua a parecer que é dia de São Martinho naquela bendita sala. A Fofa é que não ficou lá muito pelos ajustes. Quando me ouviu gritar, aflito, como se tivesse despertado em pleno Inferno, apareceu-me, ligeiramente despenteada, com o Balú atrás dela, a sacudir água por todo o lado, e disse-me sem um sorriso: “Para a próxima vez, traz-me um pastel de nata.”
Não respondi.

João Luís Nabo
In O Montemorense, Novembro 2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Reencontrado



Foto: TIVOLI

Acordei cedo num destes dias e fui, sem dizer a ninguém cá em casa (para quê acordá-los, não é?) passear pela cidade. Evitei o circo das obras, porque não me apetece ver os estaleiros em que a zona do Jardim Público se transformou (sim, eu sei que é necessário e tal… mas tenho o direito de não querer ver, pronto), e fui a pé até lá abaixo, ao meu antigo bairro, o Bairro de São Pedro, o mais carismático de sempre, desde que Montemor foi Vila, até hoje, que dizem que é cidade. Passei, inevitavelmente, pela casa onde os meus pais viveram mais de cinquenta anos e onde cresci e vivi até ser homem. Não me preocupei com o que mudou nem com o que ficou. Recordei-me, isso sim, que foi ali naquela casa, ao lado, primeiro, da minha vizinha Chica Borrazeiro e, depois, durante longos anos, com a minha prima Toneca Caldeira como vizinha, onde dormi, comi, brinquei e amei, onde aprendi, com os meus Pais e com todos os Vizinhos, o que, muitos dos que nos governam, jamais aprenderam. Por momentos, fiquei sem saber o que pensar da Vida que, observada daquele pequeno recanto, com quintal e tudo, enfeitado outrora com primor pelos vasos de flores da minha Mãe, se transformou numa outra bem mais dura e tantas vezes mais do que alucinante. Não que ela me tenha sido madrasta. Nada disso. Tive sorte na minha infância e também tive essa sorte na minha idade mais madura. Fui à Universidade, num tempo em que filho de comerciante ou de camionista deveria ser comerciante ou camionista como o pai, sentindo o peso da responsabilidade desses meus estudos por ver a minha Mãe a assumir o seu primeiro emprego, com 40 anos, para o filho poder andar a estudar em Lisboa.
E fui, e vi mas não venci. Não venci nesse tempo, nem venci hoje, porque sinto sempre este desassossego pessoano que não me deixa viver tranquilo. E menos tranquilo fico quando reparo em tantos com que me vou cruzando que, satisfeitos com a vida, tranquilos na sua rotina, se recusam a fazer mais por si e pelos outros, varrendo para debaixo do tapete o lixo que foram acumulando no decorrer dos dias.
Tenho saudades da minha infância. Foi por isso que fui ao meu velho bairro. Não porque hoje seja infeliz. Não posso sê-lo com tudo o que a vida me deu e, apesar de tudo o que vida me foi tirando. Não é isso. Só que, na infância, tudo o que dizia e fazia não tinha um propósito fixo, premeditado ou combinado. Era natural o meu pensamento como o era o dos meus amigos dessa altura. E é por isso que sinto saudades da minha infância, da inocência e dos amigos inocentes como eu. Porque hoje, as palavras que dizemos são medidas, pesadas, articuladas em frases bem pensadas, alinhadas e só depois lançadas com o cuidado necessário para que o seu peso não se abata sobre… nós próprios. Mas o que se torna curioso é que, por vezes, não são as palavras que têm peso. São as pessoas que as proferem. Ainda assim, não perdi totalmente essa inocência dos dias passados. Ainda assim, a frontalidade e a verticalidade que me deixaram os meus pais e os meus sogros por herança, herança mais valiosa que qualquer conta bancária recheada, são ainda, e irão continuar a ser, o pano de fundo onde me movo e onde quero que os meus se movam. São esses princípios o nosso báculo, o nosso encosto, a nossa defesa e o nosso ataque.
Por isso, nunca poderia ser um Ministro qualquer de um qualquer Costa, de um Passos perdido ou de um Portas estrela de cinema.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Outubro 2018

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Perdido



Afinal este Costa que hoje conhecemos não é o mesmo Costa que, há três anos, nos anunciou que Portugal ia mudar de vez. Afinal, quando pensávamos que as marcas que Passos e Portas nos deixaram, graças também aos “desajustes” governamentais e pessoais de Sócrates, iriam ser, se não apagadas, pelo menos disfarçadas, eis que, afinal, o país se ergue, quase em uníssono, a berrar por melhores condições de trabalho, de vida e de morte. São os professores, são os médicos, são os enfermeiros, são os trabalhadores da administração pública, são os funcionários das escolas, são os guardas, são os polícias, é o exército, é a marinha e é o que mais vier, porque parece que as coisas estão mesmo muito, muito, muito más.
E Costa, perdendo a verve e o optimismo que o caracterizava e que tanto encanta ainda o Presidente da República, não sabendo o que mais fazer, estando hipotecado à esquerda, à direita e ao centro, despede ministros e secretários de estado como quem vende malas usadas na Feira de Carcavelos, contratando outros, sem sequer se saber ao certo se eles percebem, ou não, melhor do ofício do que os anteriores.
Dizem os senhores analistas que é assim que se faz. Que é a política. Que é uma fuga não sei para onde, que é má-na-sê-quê… Mas aquilo que é não me atrevo a escrevê-lo, não só devido à índole cristã deste jornal, como também aos princípios que os meus pais democraticamente me impuseram. Afirmam os especialistas, ou os que se dizem como tal, que estas medidas de trocas e destrocas servem para acalmar o povo. Duvido, como elemento do povo, que seja essa a solução. Também não sei qual será. Não sou político nem analista. O que eu acho é que qualquer bicho homem, sem valores nem dignidade, onde quer que esteja, independentemente do seu partido, da sua ideologia, raça ou religião, acabará sempre por secar o que de bom outros fizeram. E, às vezes, faz gáudio disso.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Outubro de 2018

domingo, 16 de setembro de 2018

De regresso - parte II


 Fora dos muros da Feira, no mundo real, no quotidiano dos impostos, dos aumentos, das greves, dos incêndios, dos acidentes, dos assassinatos, dos políticos, do Robles, das dores de cabeça do Papa Francisco, das roubalheiras à grande e à fartazana... está tudo na mesminha.
A cidade continua a precisar de um maior cuidado, de constantes arranjos, de limpeza, para se apresentar aos de fora e aos de dentro, com brio, tradição e elegância; a questão relacionada com a recuperação e manutenção do Castelo, nosso ex-libris e protagonista de algumas notícias e comunicados num breve período antes das férias, não sabemos bem em que pé vai ficar. Na reunião de Câmara do passado 5 de Setembro, foi decidido “rejeitar as transferências de competências do Estado para o Município no ano de 2019, com os votos favoráveis dos eleitos da CDU e os votos contra dos vereadores do PS.” O Estado transferia as responsabilidades mas não transferia dinheiro. Por isso, nada a fazer. E agora? Sem dinheiros dos cofres centrais e sem provimento disponível nos cofres da Câmara, o que vai acontecer? Haverá a possibilidade de uma convenção entre o Estado e a Autarquia de Montemor para resolver o problema? Não? Então, os eleitos vão ficar todos de braços cruzados, à espera que o Castelo caia? Os munícipes estão preocupados e necessitam que seja urgentemente apresentada uma solução. É um direito seu, que nenhum poder político pode desprezar.
E lá vamos escrever outra vez sobre o muro do Jardim Público, cujas obras estão anunciadas para Setembro/Outubro. Se eu tivesse uma idade ainda imberbe, crente nas palavras e nas boas intenções de quem nos governa, até era capaz de começar a dormir mais descansado. Mas começamos a estar estafados de tanta parra e tão pouca uva. Só acredito que o problema vai ser solucionado quando as obras estiverem prontas.
O Almansor continua a correr, fininho, triste e poluído, sem futuro e cada vez mais desligado da cidade. A Fofa propôs-me, há pouco tempo, um passeiozinho de caiaque, rio abaixo, desde a Ponte de Évora até ao Pego do Poço de Cima, onde poderíamos, depois, tomar um banho refrescante à moda de Adão e Eva. Deixei-a viver feliz aqueles momentos de imaginação para, depois, um bocadinho à bruta, lhe atirar para cima do pechiché algumas das fotos mais recentes do Almansor, que a fizeram logo ficar tristinha e inconsolável. “O Rio está morto”, exclamou, entre dois pequenos soluços.
Na verdade, a ausência de uma atitude por parte dos responsáveis vai acentuar cada vez mais a imagem negativa que entra pelos olhos dentro de quem passa pela Ponte de Alcácer, em direcção à cidade. E o que vê o viajante quando olha para o Pego do Poço ou em direcção da Ponte de Ferro? Desleixo, desinteresse e falta de respeito pelo meio ambiente.  Uma tortura para o olhar, em suma.
E já que estamos em maré de início de ano lectivo, deixo aqui os votos de um bom ano de trabalho para todos os meus colegas e para todos os meus alunos, com muito profissionalismo e dedicação e, tendo em conta a Reforma que já chegou, pleno de criatividade e... de paciência. (E depois, ainda temos a questão do muro do Jardim Público.)“Se te móis... é pior!”, segredou-me a Fofa numa destas noites, depois de termos visto cinco episódios do Dexter. Antes de poder ouvir a minha resposta, virou-se para o outro lado e adormeceu. Penso que com um sorriso nos lábios.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Setembro 2018

De regresso-parte I

Ora cá estamos, depois de umas semanas de pausa na escrita. Os assuntos acumularam-se e agora precisaríamos do dobro do espaço para lavrar o branco do papel com as nossas habituais lucubrações, tão fofinhas para tantos e tão irritantes para outros tantos ou mais. Adiante: passou o Agosto, com o pessoal na praia, de papo ao Sol, a beberricar mojitos no bar da beach, a apreciar secretamente as paisagens e a pensar, com delícia, com água na boca mesmo, na edição da Feira da Luz que se aproximava a olhos vistos.
E, quando o calendário nos permitiu, lá fomos, pois claro, a caminho do Parque, para tomar conta do “pavilhão” do Coral de São Domingos e do da Porta Mágica, rever amigos e também (principalmente) para mostrar o nosso corpinho, bronzeado pelo sol generoso da Costa Vicentina. Na nossa primeira visita, tivemos alguma dificuldade na adaptação ao espaço e à forma esquisita como estavam distribuídas as “barraquinhas” das associações. Nada que o GPS da Fofa, sempre atenta e linda, não viesse a resolver. O mais engraçado foi que, quando estávamos prestes a dispensar a ajuda do precioso e moderno mecanismo... acabou a feira. Mas o que lá vimos e ouvimos encheu-nos a alma e deu-nos alimento para mais uns dias.
Mais a sério, o destaque vai, naturalmente, para a Banda da Sociedade Carlista que, numa metamorfose perfeita, se tornou num inteligentíssimo parceiro dos Quinta do Bill; para os Átoa, uma verdadeira força da natureza e que vimos e aplaudimos pela primeira vez ao vivo; e para a Roda Gigante que me inspirou para um novo ditado japonês que eu não me atrevo a divulgar, a conselho da Fofa, mas que tem a ver com “povo delirante” a rimar com “roda gigante” e com “tromba de elefante”.
A Exposição sobre a Educação no Concelho de Montemor revelou um bom trabalho de investigação. Contudo, a sua estrutura (com textos grandes demais para aquele contexto de feira) teria outro impacto num espaço da cidade, com carácter permanente, onde pudesse ser visitada e explorada “sem pressa” e com a necessária concentração, condições compreensivelmente impossíveis de obter no Pavilhão de Exposições da Feira da Luz. Fica a sugestão: para a próxima... mais bonecos e menos letras.
O Palco Secundário é sempre um enorme ninho de talentos e é onde também acontecem momentos de enorme valor artístico: a grande homenagem aos Queen e o excelente domínio dos instrumentos aliado à criatividade do Pedro “Zinko” Lóios foram os pontos altos deste espaço mais intimista.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Setembro, 2018


Distraídos crónicos...

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