terça-feira, 16 de junho de 2020

Tempos estranhos





Floyd

            E passou um mês. Trinta dias alucinantes em que a normalidade da nossa vida continuou a sofrer constantes alterações diárias, quer por motivos vindos da esfera pública, quer por acontecimentos de maior proximidade, que nos afectaram, de certa forma, o nosso dia-a-dia, já de si tão complicado. O assassinato, pela polícia, de George Floyd em Minneapolis, no estado do Minnesota, no dia 25 de Maio, passou a marcar o nosso tempo, quando trouxe à superfície velhos conflitos de consciência colectiva, latentes mas vivos, que os norte-americanos vinham, pensavam eles, a ignorar. A diversidade racial nos Estados Unidos da América provocou, desde o início da História daquele país, cismas incontornáveis e com uma solução visivelmente distante. Aliada às diferentes raças e etnias, veio a religião, e a prevalência do Puritanismo que, tal como o Catolicismo na Europa, deixou atrás de si um rasto de perseguições e mortes, em nome dos acertos de fé que motivavam os seus mentores.
            Paralelamente às manifestações nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo, em que se exigiu, mais uma vez, justiça e tratamento igual por parte das forças de segurança em relação aos cidadãos, independentemente da cor da pele, choveu uma tempestade de caos e destruição. Sabemos que gritar em grupo por uma causa, não será, nunca o foi, como gritar sozinho no meio de uma avenida ou de uma praça. O grupo, pelas suas características de, paradoxalmente, quase anonimato, angaria uma força tal e uma personalidade de tal modo perigosa, que os seus actos, praticados na multidão, acabam por extravasar os verdadeiros motivos que o levou a manifestar-se.
            Dos assaltos e dos saques, dos incêndios e da violência física entre manifestantes e a polícia, a raiva e a revolta que moviam os mais radicais viraram-se para outros alvos, de forma cega e absolutamente grosseira e indiscriminada. Estátuas começaram a ser vandalizadas um pouco por todo o mundo, sem qualquer fundamento ou sem que alguém procurasse uma solução para os problemas que estamos a viver. Muitos, levados pela cultura do ódio e da ignorância cega, esqueceram por completo a verdadeira virtude da luta pelos direitos humanos e, neste caso específico, pelos direitos dos negros no país daquela esquisita figura a que chamam Trump. Achei estranho este ataque aos inertes blocos de estatuária e concluí que há mais ignorantes no planeta Terra do que poderíamos imaginar, pois muitos parecem estar esquecidos das bases em que fomos construindo a nossa civilização. Ou, então, nunca perceberam as mentalidades que dominaram cada tempo, cada época, todas delas conduzidas e plasticinadas pelos homens da política e da religião, pela ciência e, sobretudo e de forma mais abrangente, pelo pensamento vigente. É por isso que é de primordial importância perceber, mas perceber com o cérebro todo, que a História das nações se fez sempre com exploradores e explorados, escravos e homens livres, poderosos e desprotegidos, ricos e pobres, conquistadores e conquistados, cultos e ignorantes, vencedores e vencidos.
Porém, hoje, a História não pode continuar a ser construída só por ignorantes. Destruir não me parece a melhor forma de homenagear a memória de Rosa Parks, de Luther King e de Nelson Mandela, entre muitos outros. De acordo com o que tenho lido, nenhum deles pediu que se destruísse qualquer estátua ou incendiasse qualquer edifício. Por isso, e por mais incrível que pareça, se dermos seguimento a esta nova política de atentados ao património, não haverá muitas ruas a manterem o mesmo nome, ou muitas estátuas de pé nos seus pedestais. Nem o Convento de Mafra poderá ficar inteiro.
Não se está a fazer o que é fundamental: combater o racismo de hoje porque, desta forma, o futuro da História tem toda a possibilidade de ser alterado. Quanto ao passado, por muito tenebroso que tenha sido, nada dele deve ser eliminado para que esse futuro que desejamos faça claro sentido.


Tele-professor

            Fui tele-professor durante três meses. Não gostei. Não gostei mesmo nada. Fugiu-me de repente a rotina da minha escola. O encontro e o convívio com os colegas e alunos desapareceu, as salas de aula transformam-se num ecrã frio e impessoal, as matérias tornaram-se estranhas quando transmitidas assim à distância, e a motivação de quem gosta de estar numa sala de aula desceu a pique e nunca soubemos, na verdade, se a informação passada através do microfone, foi, de facto, a recebida pelos alunos.
Por isso, tenham lá cuidado com as férias, com as manifestações, com as peregrinações, com as cerimónias religiosas, com as Feiras, com os concertos e má-na-sê-quê, porque eu, em Setembro, quero ir para escola, ensinar alunos “de verdade” e continuar a acreditar numa escola de futuro com gente de carne e osso e com genuína vontade de aprender.
Olhem, caros oito leitores, eu já estou por tudo. Sou muito humilde a pedir: quero uma sala, um pau de giz e um quadro preto. E uma quantidade de alunos à minha frente. É quanto basta. Obrigado.
Livros? Não preciso. Havia um jovem, nos seus trinta e poucos, que “não sabia nada de finanças. Nem consta que tivesse biblioteca”.
           

João Luís Nabo
In "O Montemorense",  Junho de 2020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Cinco pequenos aborrecimentos



Primeiro aborrecimento

Estou a ficar muito aborrecido com esta pandemia. Como dizia um senhor, há uns anos, “Não gosto de ficar sequestrado, pá! Não gosto!” Mas esta minha apoquentação não é pelo vírus em si, que já provou por esse mundo fora ser mesmo mauzinho e que até mata muitas pessoas, e tudo. São, lá está, as pessoas, em si, que me aborrecem.
Passei este tempo todo fechado em casa (mas sempre de fato e gravata, não fosse haver ordem repentina para fazermos concertos), no sentido de colaborar com aquelas senhoras com ar já muito cansado que nos entram em casa a toda a hora a falar de mortos, de recuperados, de infectados e má-na-sê-quê. Eis senão quando, nas redes sociais, começam a aparecer publicações de manos e manas que se fartam de passear o cão, de lavar o carro, de conviver com os vizinhos, dizendo até que com vizinhos não faz mal nenhum que é tudo gente séria e de confiança. Gostava de entender isto.


Segundo aborrecimento

Agora, um dos passatempos da televisão destes últimos tempos (vejo muita televisão, já se sabe!) é ir até aos funerais fazer umas imagens descontraídas para mostrar ao pessoal que fica em casa… e que não pode ir aos funerais. E o que é que nós vemos? Pessoal a chorar baba e ranho (há canais que fazem grande planos destas secreções naturais), abraçado a toda a gente, aproveitando assim a onda do abracinho comovido para sentir alguma proximidade, porque depois regressam a casa e, por vezes, ficam sem ninguém para abraçar.


Terceiro aborrecimento

Outra coisa que me incomodou nestes dias tristes, e muito, foi aquela briga assaz curiosa e engraçada entre o Primeiro Ministro e o Ministro das Finanças por causa de um comentário que aquele senhor que ainda pensa que está na TVI fez. Ora, Marcelo já devia ter fechado o megafone há muito tempo, só que ninguém tem coragem para lho dizer. Por vezes, (quase nunca) ninguém lhe pede a opinião e ele acaba por dá-la, dividida em vários pontos (quase sempre dois) e de borla. Fiz alguma investigação e descobri, vejam lá só, que esta pequeníssima desavença foi tirada, sem tirar nem pôr, de uma cena de uma novela venezuelana em que ele, todo machão, diz, ela, muito sorrateira, desdiz, e depois vem a bisbilhoteira da vizinha meter o nariz onde não é chamada. Acabam todos à pancada, mas depois de um encontro romântico (sem a vizinha, que é chata!!!), o casal continua junto, com renovadas juras de amor. Pelo menos, até Junho.


Quarto aborrecimento

Isto hoje são só desabafos. Eu não saio de casa, mas sei de tudo o que se passa por aí. Porquê? Porque, nos intervalos dos treinos físicos que agora se fazem a dar com um pau, a malta vai dar umas voltas para espairecer e desata a tirar fotos e a mandar informação. Pois, uma coisa que me aborreceu profundamente é a falta de sensibilidade de algumas pessoas anónimas que não gostam de fazer as coisas às claras. Então não é que houve uns jardineiros amadores que foram arrancar as plantas das floreiras da renovada rua de Aviz? Isso não é forma de manifestar o seu desagrado em relação ao ar inestético das floreiras, até porque as flores não têm culpa nenhuma. A falta de honestidade passa, isso sim, por outra questão: se foi o género de flor que desagradou ao sensível energúmeno, este, para ser intelectual e esteticamente honesto, só deveria ter tido o cuidado de lá ter plantado outra a seu gosto. Eu sei que corria o risco de outro pateta não concordar e arrancar os seus malmequeres e trocá-los por miosótis ou por um alho francês, por exemplo. Mas isso era uma questão que se ia resolvendo nas noites seguintes.


Quinto aborrecimento

Vou terminar, avançando com uma inconfidência que me pode valer as malas à porta (já esteve mais longe de acontecer): um dia destes, a Fofa começou a fazer exercício físico com mais intensidade do que o habitual e eu perguntei-lhe qual o motivo de tanto esforço. Sorriu (cá em casa não usamos máscara e eu vi-lhe o sorriso maroto) e respondeu: “Assim que aquecer o tempo, vamos à praia.” “À praia?”, admirei-me. “Vai ser uma enchente e vamos ter de ficar presos naquelas gaiolas art-déco de acrílico (parecemos uns periquitos da China)!!” Ela respondeu-me, com a respiração entrecortada: “Vamos cedinho, tipo três, quatro da manhã, chegamos lá, tiramos a senha verde para irmos para o areal, a senha azul para o duche, a senha vermelha para o restaurante, a senha branca para as bolas de Berlim e a senha amarela para passear à beira-mar. Anima-te e faz uns exercícios também. Vais ver que, por volta das onze da noite, já estamos em casa.”
E eu não tive outro remédio.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Covid 1, 2, 3 e 4



(Fonte: Washington Post)

Covid-1

Começa a ser um lugar comum, a cheirar a mofo, até, dizer-se ou escrever-se que nunca tínhamos experienciado uma situação como esta a que o Coronavírus nos obrigou a viver. E é quase sempre daqueles que ficam confortavelmente em suas casas à espera que a coisa passe, que nasce grande parte das reclamações efusivas e dramáticas, como se eles fossem enfermeiros ou bombeiros em risco de vida. Estes e outros profissionais que andam na linha da frente a combater a doença e os comportamentos idiotas, fúteis e de animais irracionais de alguns de nós nem têm tempo para se queixar.
Os dois milhões de mortos, ao tempo de hoje, em todo o planeta são um sério aviso à navegação mundial. O que nos deixa desconfortáveis, e quiçá irritados, é que este número de vítimas poderia ser muito menor se, durante os genéricos iniciais deste filme, não se tivesse desvalorizado a gravidade da situação e se tivesse perdido tempo com conselhos inúteis. E apesar do que está à vista do planeta inteiro, ainda hoje há trumps e bolsonaros que, de forma absolutamente terrorista, gritam aos mil ventos que tudo o que se está a passar não é mais do que “uma gripezinha”, outros ainda afirmando com assumida propriedade que isto não passa de um castigo de Deus para com os homossexuais. Declarações do género vão abrindo caminho na mente de idiotas como eles, que acabam por viver o dia-a-dia sob o risco de serem contaminados e com grandes probabilidades de contaminarem outros.


Covid-2

No nosso país passou-se algo parecido, embora com contornos diferentes. Contudo, o grau de inconsciência julgo que andou perto. Recordo quando ainda não havia casos declarados em Portugal e ouvi a Directora-geral da Saúde afirmar que seria suficiente resfriarmos os nossos contactos sociais, que “não era preciso andarmos sempre aos beijinhos e aos abraços”. Depois foi o tempo de uma eternidade até o Governo de António Costa decidir fechar as fronteiras com Espanha (mas só aos turistas). Ou seja, se o vírus viesse na bochecha de um condutor de um transporte de mercadorias, poderia passar porque vinha em trabalho. Se viesse na mucosa nasal de um turista, então, porque vinha em lazer, já não poderia atravessar a fronteira. A acrescentar a estes disparates, só muito mais tarde é que foram encerrados os aeroportos. Pois foi assim, caros leitores e caras leitoras, que, com calma e simpatia, escancarámos o nosso querido Portugalzito à pandemia, expusemos os idosos e os igualmente mais vulneráveis, de modo a que o vírus fizesse o que entendesse, com toda a liberdade e com todo o tempo do mundo.
E agora é aguentar, com o Serviço Nacional de Saúde a dar o berro, com 18.000 infectados e com 600 mortos. E agora é aguentar o milhão de portugueses em lay-off com sessenta e seis por cento de vencimento, é aguentar o desemprego e as aulas pela televisão e pelo célebre e amado Teams, uma plataforma digital assim tipo central de comunicações 24 sobre 24. E agora é aturar a mulher, o marido, a sogra, o sogro, o pai, a mãe, os filhos, o cão e o sacana do canário que não se cala, um dia inteiro, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, uma semana inteira, sete sobre sete dias, um mês todinho (para já) do princípio ao fim. Ouvi há pouco da parte das autoridades de saúde que vai ser declarado obrigatório o uso da máscara em espaços públicos. Espero que seja obrigatório também dentro de casa, porque eu cá já não consigo encarar diariamente a família com olhos de bom cristão. Nem ela a mim. Assim, com a máscara, colocada logo de manhã após o duche, a coisa ainda dava para suportar mais ou menos.


Covid-3

O que nos salva são as comunicações com o exterior. Criam-se novos grupos no WhatsApp e noutras cenas do género, liberais e à maneira, e o pessoal convive, almoça, toma café e até dorme sestas improváveis com quem nunca imaginaria que tal desse certo. Reforçam-se os laços de amizade, apesar da distância, e fica-se sem tempo para pensar em tragédias. Há até quem pratique piano mais do que o habitual, estude partituras para coro, escreva artigos para jornais e, até, imaginem a ousadia, tenha pensado numa história em forma de romance.


Covid-4

E o melhor do mundo continuam a ser as crianças, complementando o verso do tal que a gente sabe. Pois continuam. E agora estão na mó de cima, a rirem-se de nós como se não houvesse amanhã. Um jovem aluno, em conversa animada comigo através de um desses processos modernos e apelativos, disse, e com toda razão do seu lado: “Nunca imaginei que os meus pais me estivessem sempre a dizer agora para ir para o computador e para o telemóvel, quando, há umas semanas me diziam exactamente o contrário, chegando ao ponto de me proibirem tal prática, por causa das notas baixas na escola… Afinal, se não fosse a nossa prática, adquirida em anos, em lidar com estas novas tecnologias, como é que a gente se iria desenvencilhar com estes métodos de ensino à distância e orientar professores menos talentosos? Eram os cotas que nos iam ensinar?”
E tem toda razão, o puto. Toda mesmo. Dá-lhe, miúdo!


João Luís Nabo

In O Montemorense, Abril 2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

Estamos tramados



Penso que já se disse tudo sobre o Novo Coronavírus. E já se escreveu o que se tinha a escrever. Tudo o que se acrescentar a partir de agora deverá trazer novidades e propostas de solução. (Por esse motivo, e porque não tenho soluções para apresentar, eu devia parar já de bater com os dedinhos no teclado do computador. Mas aí, seria despedido do jornal e não teria forma de pagar o carro novo – estou a brincar.) E há questões que não vale a pena voltar a aflorar. Situações absurdas que nos surpreenderam todos os dias, quando pensávamos que vivíamos num país evoluído e progressista. E não me venham dizer que a estupidez humana em geral e a estupidez dos portugueses em particular são ainda herança da longa noite do fascismo. Isso foi chão que já deu uvas, e os tristes que se desculpam com esses 48 anos de escuridão (que já lá vão quase há meio século) deviam pensar melhor no que dizem e no que fazem.          
Enquanto assistíamos ao colapsar da Itália e ao alastrar da epidemia noutros países da Europa, continuámos a fazer a nossa vidinha como se nada estivesse a acontecer e, pior ainda, como se Portugal se localizasse numa redoma de vidro que o tornava intocável e imune a todo e qualquer vírus. Numa primeira fase, quando parecia que o problema se encontrava “apenas” do outro lado do mundo, a velha expressão “isso só acontece aos outros” continuava de boca em boca, quando nos encontrávamos com os amigos nos cafés, nos restaurantes, nas discotecas, nos teatros e cinemas, nos recintos desportivos, nos ginásios, nos balneários, nas escolas, nas missas, nos ensaios dos coros e das bandas, nos escuteiros, nas visitas de estudo, nos projectos Erasmus, nas viagens ao estrangeiro… em plena pandemia.
            Numa segunda fase, se algum de nós, mais consciente ou mais temeroso, referisse a necessidade de uma mudança urgente de comportamentos e políticas, os doutores e engenheiros da nossa praça atiravam-nos logo com artigos de jornais e de revistas sobre a Gripe Espanhola… que matou mais de 100 mil (nunca percebi como é que isto serve de argumento para defender seja o que for ou para contrapor as opiniões dos mais atentos). Outros, licenciados em Medicina de um dia para o outro e especialistas em Saúde Pública na Universidade da Vida, atiravam com um doutoral e inabalável, “mas a gripe comum mata muito mais e ninguém fala nisso.” Alguns ainda, com a mania que salvam o planeta da fome, mas que vão para a praia quando as escolas e as universidades são encerradas, vociferavam: “Morrem mais crianças à fome do que as vítimas do Corona e ninguém se importa com isso…” Enfim, para cada borrego a sua borreguice. E não valia a pena referir que os casos apontados nada tinham a ver uns com os outros e que agora se tratava de um vírus mutável, perigoso, e de rápida propagação. Não. Os que se preocupam é que são estúpidos e os que compram umas mercearias a mais nos supermercados é que são uns egoístas açambarcadores e má-na-sê-quê.
            Numa terceira fase, agora que grande parte dos edifícios e das instituições públicas e privadas se encontram encerrados, não sabemos quais serão as verdadeiras e terríveis consequências de todo este processo alucinante. E não me refiro apenas à qualidade de vida, à saúde e à necessidade imperiosa de sobrevivência. Sabemos que não estamos a viver um filme de terror. Foi a nossa vida que se transformou numa existência de incerteza e de medo, tal como vimos em muitas narrativas cinematográficas e literárias, tal como Stephen King profetizou em tantos dos seus romances, ou como Dean Koontz imaginou no seu livro The Eyes of Darkness, publicado em 1981, em que a cidade de Whuan se torna no berço do vírus, ou ainda como a escritora, também norte-americana, anuncia uma pandemia irreversível “lá para o ano 2020”, no seu livro End of Days: Predictions and Prophecies About the End of the World. Assustador? Sim. São apenas livros? São. E de qualidade literária questionável, segundo alguns críticos. Mas a verdade é que já começámos a viver o que ambos imaginaram na ficção, há já algumas décadas.
            Numa reflexão um pouco mais fantasiosa e correndo o risco de parecermos paranóicos, não seria estranho se um cientista desequilibrado, após ter lido os livros, tivesse decidido fazer exactamente o que lá vem descrito. Koontz e Browne tornar-se-iam profetas e o cientista louco terminaria os seus dias num manicómio a assistir ao colapsar do planeta, qual Nero diante de Roma em chamas, sem poder gastar os milhões de dólares que um qualquer governo, igualmente louco e terrorista, lhe teria pago para cometer este crime maior contra a humanidade.
Regressando à nossa realidade e resumindo as aventuras dos últimos dias, passámos de uma despreocupação absolutamente patética para uma fase de invasão dos supermercados e farmácias. Do abraço efusivo e do beijo lambuzado à vénia e ao toque de cotovelo. Agora, não cumprimentamos ninguém como devíamos (por vezes, até dá jeito) e apodera-se de nós um receio atípico quando temos de aceitar o pão do padeiro que, fiel às suas obrigações, nos vem bater à porta todas as manhãs.
Se a estupidez não tem cura, o que me deixa aliviado é que esta questão do vírus vai acabar, mais tarde ou mais cedo, por ficar resolvida. Já a questão da estupidez... essa ficará em stand-by à espera de uma nova epidemia. Não sei quando terminará este período de caos. Não sei se ainda cá estarei nessa altura, mas, para já, vão para casa e não me aborreçam mais com as vossas doutorices da mula russa e os vossos exageros liliputianos.
Portugal é, e vai continuar a ser, um Portugal dos Pequeninos. Mas isso já todos sabemos.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2020

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Carlos Cebola: presente!



Não me agrada escrever textos sobre amigos que partiram. Penso sempre que os deveria ter escrito (ou dito) com eles à minha frente, olhos nos olhos, a dizer-lhes o bem que penso deles, como os admiro e amo. Com o Professor Carlos Cebola deveria ter sido assim. Só que há o embaraço da escolha das palavras, o tempo que nunca chega para estarmos juntos, o momento que nos foge, sempre in extremis.
Partiu Carlos Cebola. Partiu o Homem. Ficou a obra do Poeta, do Ensaísta, do Dramaturgo, do Contista, do Melómano. As nossas primeiras palavras foram trocadas por volta de 1992, quando Carlos Cebola, a convite de Manuel Filipe Viera, hoje um dos grandes conhecedores de toda a sua obra, começa a colaborar no jornal “Folha de Montemor” com um conjunto de poemas – “Romagem a Montemor” –, primeiro passo de muitos que daria, depois, ao lado do jornal e, porque seria inevitável, ao lado do grupo de cantores que começou a admirar - o Coral de São Domingos.
No Natal passado, já o professor se encontrava fragilizado, Filipe Fernandes, Vítor Guita e Bernardino Samina, na minha opinião, declamadores maiores da obra poética de Carlos Cebola, disseram, na Igreja da Misericórdia, em jeito de homenagem, dois dos seus poemas de Natal, inéditos, escritos para os Cantares ao Menino em anos anteriores. Porque em 2019 já não tivemos o prazer inenarrável de ter nas nossas mãos mais um original que iria fazer parte da colecção de poemas, escritos especificamente para o Coral.
Vítor Guita, um dos nossos amigos comuns, costuma dizer amiúde que a melhor forma de homenagear um autor é ler-lhe a obra. Lembrei-me destas suas palavras tão certas, que ele insiste em repetir sempre que pode, e fui ao meu arquivo para trazer de lá esta pequena crítica à última peça de teatro escrita pelo professor para o Theatron e que nos revelou, de facto, o verdadeiro espírito de Carlos Cebola, enquanto contador de estórias e criador de sonhos: todos os seus textos partem da natureza humana e a ela regressam, após sérias reflexões sobre a vida, a morte e o prazer e a dor que se retiram da existência.
Fiquem, então, com este artigo, escrito a 30 de Maio de 2009, já em casa, após uma monumental bebedeira de grande teatro:

“Se Bertolt Brecht tivesse passado o serão de ontem no Cine-teatro Curvo Semedo, sentir-se-ia vítima da sua própria receita e teria dito: “Este Carlos Cebola é um jovem criador que sabe do ofício.” Se Roland Barthes tivesse igualmente dado uma volta por lá, era capaz de ter concordado com esse mestre do teatro moderno alemão, falecido em 1956. Se outros autores e teóricos da literatura e do drama pudessem ter visto e ouvido o mais recente texto para teatro de Carlos Cebola – In(e)vasões –, iriam querer tirar dividendos das múltiplas influências que afirmariam ter tido na escrita do autor.
Se o texto literário, tal como refere Barthes, é um entretecer de inúmeros textos, palimpsestos impossíveis de distinguir, produto de uma sobreposição de culturas e de conhecimentos, o autor da peça ultrapassou essas teorias e colocou actores e texto a um nível dramatúrgico que, aparentemente de difícil execução, resultou numa perfeita lição de teatro. E nada mais modernista do que pôr o texto a falar dele próprio, os actores a comunicarem como seres humanos e não como seres de papel decalcados num cenário, com a encenação a ajudar, dando esta ênfase a um equilibrado misturar de tempos, de épocas e de ritmos. Assistiu-se ao teatro a prestar uma homenagem a si próprio, piscando o olho direito ao público, que se entregou ao jogo desde o primeiro momento, e o esquerdo a Brecht (desculpem a insistência), um dos primeiros a escrever e a encenar um tipo de representação teatral que, de quando em vez, tornasse o espectador consciente de que o que via não era mais do que uma representação.
Mas a peça, logo definida de início com um “exercício”, vai muito longe, muito para além desse humilde desiderato. O carácter metaliterário e provocador de In(e)vasões torna-se visível de imediato quando, perversamente, as personagens se tratam pelo nome próprio dos actores, situação improvável num texto clássico. Sabemos que o transtornado Hamlet nunca se chamou em palco Laurence Olivier ou Kenneth Branagh, nem a calculista Lady Macbeth responderia pelo nome de Sarah Bernhardt.
Que o Theatron tivesse sabido dar vida às palavras de Carlos Cebola, já eu calculava que era possível. Que Vítor Guita, a respirar o pó do palco uma vida inteira, seja um especialista nas encenações daquele autor de Niza, naturalizado montemorense, também foi uma constatação. Que Maria João Crespo manifeste perfeito conhecimento das capacidades e limites dos seus colegas actores da Associação Theatron, foi igualmente fácil de perceber. O que me deixou profundamente fascinado foi Carlos Cebola, com mais de sete décadas de vida, ter concebido um texto com uma estrutura que parece ter saído da mais moderna escola europeia (ou americana) de guionistas, mostrando de forma inteligente, como aliás é hábito, o seu espírito rebelde e desafiador das normas para, imaginem, enganar o público, fingindo dizer a verdade, fazendo lembrar, ao de leve, um certo texto de Almeida Garrett.
Avisado pelos actores-personagens, por mais do que uma vez, que não iria assistir à representação de uma peça de teatro, pois não viu o público outra coisa, com os nomes das personagens a confundirem-se maliciosamente com os dos actores, com Montemor ao fundo, em imagens, ouvindo referência aos nomes dos sítios e das ruas no decorrer da “narrativa”. Um “simples exercício” não pode ter a profundidade que o texto foi revelando aos poucos, em crescendo e com um fantástico e propositadamente ofensivo anti-climax. O recheio, fundo e espesso, do qual a caneta (agora o teclado) de Carlos Cebola nunca abdicou nestas largas décadas de escrita, esteve lá, mais uma vez mostrando o Homem como o centro da intriga, mas simultaneamente como o último reduto da esperança, o lugar derradeiro onde pode haver solução para os seus problemas, uns mais metafísicos, outros de pura condição humana.
E a lição que tirámos desta vez é a continuação do que já sentimos em alguns dos seus textos dos anos 50/60 (Três Tardes de Três Outonos, A Cigarra e a Formiga, A Acácia no Quintal ou Quinto Mandamento) e noutros mais recentes (João Cidade e Tamar): para o dramaturgo, nada é completamente branco, nada é completamente preto. Há sempre que dar lugar ao cinzento. Ou a outra cor qualquer. É isto, para além daquilo que já escrevi e do muito que fica por dizer, que faz de Carlos Cebola um autor modernista, tendo-o já começado a ser, avant la lettre, há mais de meio século.”

Quero acreditar que, mais tarde ou mais cedo, se fará a divulgação da extensa e multifacetada obra de Carlos Cebola, para que ela possa vir a ser estudada e interpretada nas escolas e universidades deste nosso país.
Até um dia, Professor Carlos.
Um abraço.
Apertado.



João Luís Nabo
In "O Montemorense", Fevereiro de 2020 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Deprimido, sim!







Andamos preocupados com o tempo. Com as secas e as inundações. Com o calor extremo e o frio exagerado. Com os incêndios e os vulcões furiosos. Com a subida do nível das águas e com a extinção de milhares de espécies animais e vegetais. Muitos de nós admiram e aplaudem as acções de sensibilização da jovem Greta Thunberg, outros criticam-na e acusam-na de estar ao serviço de lobbies poderosos e de outros interesses obscuros. Mas que ela veio agitar as consciências, disso ninguém tem dúvidas. Espantamo-nos com o desprezo e a ignorância com que Bolsonaro (Urgh!!!) e Donald John Trump (duplo urgh!!!) mostram ao (des)preocupar-se com as questões do ambiente. Estes e outros poderosos, que por inerência poderiam ajudar a resolver parte do problema, recusam-se pornograficamente a fazê-lo. E talvez tenham razão. Porque talvez não valha a pena. O planeta em agonia remete-me para a metáfora do cofre, outrora cheio de dinheiro e que, agora, está vazio, depois de despesas desnecessárias e exageradas efectuadas por todos nós. De momento, a recuperação do capital, mal gasto durante décadas, de forma inconsciente e leviana, é indiscutivelmente impossível. Porque é impossível interromper, nem que fosse por seis meses (obrigado, Manuela Ferreira Leite), o sistema capitalista que abraçou o planeta em forma de estufa asfixiante e de longa duração.
Sinto, pois, que nos encontramos em absoluta falência ambiental. E para este tipo de crise, acreditem os meus oito leitores, não há FMI que nos valha.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro 2020

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Shame on you, Mr. Trump!




É incontornável, logo no início do ano, aquela parvoíce do senhor Trump que, aparentemente, ia pondo metade do globo em guerra. Não sei o que se passa naquela cabecinha oca, tão cheia de oxímoros estúpidos e sem sentido, só porque sim, só porque não. A Fofa não percebe por que ainda não o destituíram, e eu gostava de saber, mesmo de verdade, se o cargo que ocupa não foi consequência de uma fraude eleitoral, que ainda vai deixar um amargo de boca (se for só isso!) a esta civilização do século XXI. “Se foi fraude, tem de ser despedido…”, sublinha a Fofa sempre preocupada com a política internacional.
Cá para mim, que nada percebo de política, e muito menos de política internacional, o que há aqui é um interesse aceso dos senhores da guerra, que querem manter em alta as fábricas de armamento e todo o lucro que isso lhes dá. Independentemente das vítimas, da destruição e da dor.
Não sei qual será a solução para tais actos praticados por alguém verdadeiramente louco. (Parece que a História, a mais recente e a mais distante, é rica em personagens com esta falha cognitiva grave). No entanto, e esta ideia já não é nova, aqui vai a sugestão: reúnam o Trump com os outros trumpezinhos como ele, numa sala fechada, e resolvam, de vez, os diferendos sem que inocentes sejam envolvidos. Eu sei que, depois de uma longa sessão de batatada, alguém teria de recolher as sobras e limpar a sala. Mas isso seria uma questão de peso relativo.   

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2020



terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O último resistente?



Não podemos avançar na escrita desta crónica sem sublinhar a importância de António Gervásio para a consolidação da consciência de classe dos trabalhadores montemorenses, em particular, e da democracia portuguesa, de forma mais abrangente. Faleceu a 10 de Janeiro, após, ao longo de grande parte da sua vida de lutador antifascista, ter sentido na pele as agruras de um regime ditatorial que lhe tentou calar a voz e a vontade sem, contudo, jamais o ter conseguido. António Gervásio acreditava profundamente nos ideais comunistas e foi por eles que se entregou, em toda a sua plenitude, com todas as suas forças, à luta por um Portugal melhor, livre e sem medo, quando a omnipresença de Salazar queria, à viva força (literalmente), silenciar os que acreditavam num futuro diferente.
Fui com a minha mulher dizer-lhe, em silêncio, o muito que o admiramos, e que ele, bem como outros companheiros – o João do Machado, por exemplo – iriam ficar para sempre na nossa memória. E na memória dos nossos filhos, porque é uma questão da qual não abdicamos. Foi por causa deles (e de muitos outros, do mesmo ou de outros quadrantes políticos) que, hoje, a minha mulher, eu e a prole que de nós nasceu respiramos todos os dias, de manhã à noite, o ar puro da liberdade.
Contudo, e porque nunca tenho a certeza de nada, dei comigo a perguntar a mim próprio: “E hoje? Os comunistas de hoje? Seriam capazes, nos tempos actuais (num contexto visivelmente diferente, é certo), de sacrificar a própria vida por uma causa tão nobre como a que levou os seus antecessores à prisão, à tortura e à morte nos calabouços da hedionda PIDE?”  
Gostava de acreditar que sim. Que os ideais continuam vivos, em espírito e em letra, e que, de punho erguido, ofereceriam, sem hesitar, a própria vida, para que outros pudessem, anos depois, beneficiar de uma verdadeira democracia e viver num país onde a justiça social e a política, transparente e séria, não passassem de palavras bem esgalhadas, fantásticas e extraordinariamente oportunas, para terminar este parágrafo.  



João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2020

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Salvemos Greta Thunberg!




Eu não devia estar aqui. Eu devia estar
na escola, no outro lado do oceano.”
G. Thunberg

            O fenómeno Greta Thunberg tem dividido a opinião pública e dado capas com fartura a revistas e a jornais, e aberturas de noticiários nunca antes pensadas, quando se trata de temas relacionados com o ambiente.
            Há os que acham toda esta movimentação um exagero e criticam a adolescente que, na sua opinião, deveria estar na escola e não se deixar envolver em esquemas alegadamente construídos por alguém mais poderoso. Por outro lado, temos os que a aplaudem entusiasticamente e se juntam aos protestos, acreditando ser este o caminho certo para despertar os líderes mundiais de modo a darem início a uma melhor política global em termos de ambiente.
Tal como os primeiros, penso que Greta Thunberg é demasiado jovem para andar numa barafunda destas e que sim, que em Portugal tal não seria possível, porque a Lei obriga a que “se vá buscar o aluno a casa” quando ele se ausenta da escola sem motivo que o justifique. Não sei se a luta por um Planeta melhor seria aceite como justificação pela directora de turma. No entanto, tal como os segundos, concordo que haja acções concertadas por parte de todos os países, sobretudo os mais poluentes, para que o Planeta não avance para a destruição total. O que a jovem em causa nos tem mostrado, valha-nos isso, é o desconforto de alguns políticos em reacção aos seus ataques, nem sempre muito assertivos, e a visibilidade que o tema alcançou, apesar de todas as incoerências, discórdias e divisões.
Temos, sem dúvida, de salvar a Terra. Comecemos por fazê-lo na nossa própria casa. Na nossa própria cidade. 
(Daqui a algum tempo é Greta Thunberg que vai precisar de ser salva.)

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Dezembro de 2019

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Traições (sublimes)







Emma: Ainda pensas em mim?
      Jerry: Não preciso de pensar em ti.

Traições (Betrayal), por muitos considerada a obra-prima do dramaturgo britânico Harold Pinter (1930-2008), foi estreada a 15 de Novembro de 1978, em Londres, no National Theatre, e em Portugal, no ano seguinte. Em Montemor, subiu à cena recentemente, no passado dia 6 de Dezembro, pela Associação Theatron, com a produção executiva de Todinha Santos, no Espaço do Tempo, agora sediado na antiga Oficina Magina, 
            A criativa encenação de Paulo Quedas e a exploração dos jogos de luz, de som e de imagem, pelos cada vez mais sofisticados Tiago Coelho e Helena Barreiras, trouxeram-nos um Harold Pinter absolutamente actual, focado nas glórias e nas misérias, nas forças e nas inseguranças do ser humano, à deriva, sempre à deriva, consoante os sentimentos e os impulsos de que se alimenta, condicionado pelo sucesso, pelo fracasso, pelas relações conjugais, pelos laços de amizade e pelo sexo.
            O público era constituído por apenas 15 (sim, quinze) espectadores, convidados a fazer, de certo modo, parte da peça, como figurantes/voyeurs, que assistem ao desvendar dos mais íntimos segredos, protegidos (ou não) pela memória, e escondidos nos cantos mais profundos das três personagens em conflito.  O desconforto provocado no espectador, confrontado com questões que, aparentemente, não lhe dizem respeito, é tal que, nos momentos de maior tensão, lhe apetece disfarçar, ir até lá fora, apanhar ar ou fumar um cigarro, para dar tempo a que Jerry, Robert, Emma e Judith (que nunca aparece) resolvam as graves questões em que assenta a peça: o adultério, a traição e as memórias impossíveis de segurar. É, pois, o passado que regressa, implacável, aos olhos deles e aos nossos.
            Rosa Souto Armas (Emma), Filipe Fernandes (Jerry) e Bernardino Samina (Robert) mostram-se cada vez mais amadurecidos nos papéis que assumem e interpretam. Pinter, nas palavras deste trio, ficou ainda mais subtil e, por isso mesmo, mais violento, mais ironicamente revelador. Durante pouco mais de uma hora, assistimos a momentos verdadeiramente sublimes, quando, numa empatia perfeita, exploraram as subtilezas do texto, com os tempos mais do que correctos e os silêncios mais do que enervantes, de modo a acelerar o batimento cardíaco do espectador, sobretudo quando o que ficava por dizer era muito mais esclarecedor do que aquilo que se tinha dito. O espectador, esse é a verdadeira vítima do texto de Pinter: entramos em cena, servimo-nos educadamente de uma bebida e vamos deambulando pelos diferentes cenários, espreitando, constrangidos, as vidas duplas das personagens em permanente conflito.
Falei com o meu filho mais velho no final da récita e ele resumiu de forma simples, mas absolutamente esclarecedora, o que tínhamos acabado de ver: “Estivemos num Facebook ao vivo, a fazer um scrolling da vida dos outros”.
            O mais assustador é que nós, os espectadores, as mulheres e os homens reais deste mundo, ficámos durante aquele tempo a olhar para nós próprios, num espelho que reflectia também, quiçá, o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Onde surgiram os fantasmas que nos atormentam, as relações de amizade falhadas, os casos amorosos por concluir e… as nossas próprias traições.
            Mais do que as palavras de Pinter, na voz e no corpo destes actores, e nas mãos do Paulo do Tiago e da Helena, foram os silêncios que me incomodaram.
E de que maneira.

João Luís Nabo
In O Montemorense, Dezembro de 2019

sábado, 16 de novembro de 2019

As Leis da Nação - II



As alterações à lei que rege o sistema educativo nacional têm sido tantas, que os professores até ficam zonzos com a catadupa de informação que recebem dia sim, dia sim, com orientações superiores em formato de Decretos-Leis, Portarias e má-na-sê-quê, para que cada vez menos alunos fiquem retidos, ainda que não mostrem conhecimentos suficientes para transitar. Segundo já se sopra na Assembleia da República, e com comentários de gente de, alegadamente, reconhecido mérito, levar as crianças, deste o 1.º até ao 9.º ano, sem reprovações, vai ser uma obrigatoriedade de todos os docentes, não tendo tal questão importância de maior.
É aqui que começamos a perguntar se a lei, a ser aplicada, não virá apenas legitimar aquilo que já vem acontecendo há meia-dúzia de anos. Os professores que trabalham com alunos do ensino básico, do 1.º ao 9.º, procuram sempre rodear-se de profissionais, de acordo com a lei, que os ajudem a ajudar os jovens que mostrem mais dificuldades na aquisição dos conhecimentos e, sobretudo, na aquisição de… valores. Tentam, esses professores, por todos os meios, conduzir os alunos ao sucesso e à permanente integração no seu grupo-turma: trabalhos extra, apoios, tutorias, adaptações curriculares, testes adaptados, apoio personalizado na sala de aula, entre outras estratégias. A lei, que poderá estar a chegar, não vem mostrar nem obrigar a nada de novo. Por isso, não entendo o bruaá que a “novidade” está a causar.
Contudo, as consequências disto podem ser (já estão a ser) menos positivas e, a longo prazo, o país irá sofrer as devidas consequências. Para já, os alunos começam a chegar ao ensino secundário com algumas lacunas, por vezes difíceis de colmatar, tanto em termos de conhecimentos, como em termos de valores sociais. Por aquilo que vejo e sei, por este andar, o mais certo é daqui a três anos sair uma lei que nos obrigue a transitar toda a gente até ao décimo segundo ano, que passará, decerto, a ser um ano sem exames ou, então, com exames de nível tão básico, que todos irão para a universidade, sem problemas de maior e se houver capacidade financeira dos pais para tal.
Mas esta última parte do desabafo é já assunto para outro Cloreto. Isto, porque Portugal continua a ser um país a duas velocidades, sobretudo quando pensamos em alguns alunos que por nós passaram e que não seguiram estudos… porque não havia meios financeiros para tal. O que foi pena.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2019

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

As Leis da Nação - I




É encontrado um bebé recém-nascido num contentor do lixo. Investiga-se. Descobre-se que a mãe é uma jovem de vinte e poucos anos, sem-abrigo, só, desprotegida. O Estado toma providências para que o bebé seja tratado o melhor possível, como seria evidente, e toma providências para que se enfie a mãe na prisão. Tem de ficar em preventiva, acusada de homicídio na forma tentada, diz a lei.
A lei é fria e não consegue varar as pessoas até lhes chegar à alma*. A lei é crua e só admite excepções para quem bem o legislador e a Assembleia da República entendem. A lei, desta vez, também não protegeu quem mais precisava. Para esta mãe, sem-abrigo, só, desprotegida, não houve qualquer regime de excepção. Ninguém se lembrou de a enviar para uma associação adequada ao seu perfil e às suas necessidades, até ser altura de ser confrontada com todo o calvário de um processo judicial. “Não se deve atirar pedras”, referiu uma indignada Manuela Eanes, em defesa da jovem, quando questionada sobre este caso, mostrando a sua total discordância em relação à forma como tudo está a ser conduzido. E tem razão a ex-Primeira Dama.
E a família desta jovem mulher? Qual o seu grau de responsabilidade neste seu gesto desesperado, nos motivos que a levaram a viver a vida passada na rua, sem qualquer esperança no horizonte? E o pai do bebé? Qual o seu grau de responsabilidade, quando a jovem dá à luz o seu filho e o abandona à morte certa? Hoje, já não é impossível saber-se quem é pai de quem. E, por isso, também ele deveria ser chamado e ouvido. Vi o Presidente da República a abraçar, comovido, o senhor, também ele sem-abrigo, que salvou (e, depois, parece que não foi ele) o bebé recém-nascido. Não vi o Presidente da República a abraçar a jovem mulher, só e desprotegida, e em óbvio sofrimento físico e psicológico.
E qual é, afinal, o papel do Estado? Apenas prender uma mulher de vinte e poucos anos, mãe recente, só e desprotegida. Apenas e só. Que se saiba, ninguém ainda se preocupou, pelo menos publicamente, com o porquê daquela atitude que muitos classificam como criminosa, se estivermos de acordo com a lei dos homens, mas que merece uma séria investigação por uma equipa multidisciplinar, que tente saber o porquê de tudo o que aconteceu até ao parto, momento dramático e de contornos indescritíveis. Esta jovem mulher, que poderia ser filha de qualquer um de nós, tem, com toda a certeza, uma história de vida pouco invejável mas que, a ser devidamente analisada, iria ajudar os habituais polícias da moral e dos bons costumes a perceber e a ajustar a pena a aplicar à mulher que, infelizmente, irá ficar sem o seu filho.
Não será o eventual encarceramento que vai resolver os problemas desta mãe. Nem os de outras mães em igual caso de desespero.


*Obrigado, F. Pessoa


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Seis Pontos na Ordem de Trabalhos



Ponto 1: Este primeiro ponto era para dizer que continua a ser complicado termos ideias próprias nesta terra de santos e heróis. E também era para dizer que, se criticarmos as decisões menos boas do executivo camarário, corremos o risco de sermos bombardeados com bocas e dizeres do tempo do PREC. Porque há sempre meia dúzia de paladinos que vêm defender o indefensável, sem quererem perceber que houve, de facto, uma evolução nas mentalidades e que as pessoas, todas as pessoas, já podem e sabem pensar por si. Mas como isso poderia tornar-me, mais uma vez, alvo de comentários democráticos e progressistas, o Ponto Um fica sem efeito.

Ponto 2: A campanha para as últimas legislativas foi das mais vergonhosas na história da democracia. Mentiu-se descaradamente, utilizaram-se as questões judiciais, as falhas de governação, a falta de decoro de António Costa, gozou-se de forma desumana com as deficiências de alguns candidatos, aproveitaram-se todos os erros, conscientes ou inconscientes, dos adversários políticos, por forma a denegrir, rebaixar e ofender todos os candidatos, com um destaque miserável para o desprezo dado aos partidos sem representação na Assembleia da República, a auto-proclamada casa da Democracia (tá bem, abelha!). A acrescentar a isso, os meios de comunicação social mostraram, e bem, quem eram os seus candidatos preferidos. Outra vergonha. Eu explico: numa arruada qualquer, num local perdido no meio do país, bastava a imagem captada pelo ângulo certo da câmara, o ponto de vista escolhido pelo fotógrafo, a frase retirada do contexto pelo jornalista, para que o candidato viesse a ganhar ou a perder popularidade ou vantagem nas tão estupidificantes sondagens.

Ponto 3: Rui Horta não pára. Não baixa os braços. Temos o Convento da Saudação com obras já adjudicadas com o imprescindível apoio da autarquia montemorense. O Espaço do Tempo continua em frente, desta vez na antiga Oficina Magina, um local renovado, onde muitas criações irão acontecer, enquanto o Convento não estiver pronto para continuar a receber alguns dos maiores criadores artísticos do mundo. E ainda há gente que não entendeu a mais-valia, o valor acrescentado, o prestígio que Horta e a sua equipa trazem para esta cidade.
Taditos!

Ponto 4: O ponto anterior leva-me a este assunto que só poderia vir no ponto 4. Depois de, em Abril, terminar o “reinado” de um ano do Grupo Fora d’Oras, que representou, e bem, Montemor, através do Cante, Património Imaterial da Humanidade, embora Montemor só tivesse começado a tradição do Cante Alentejano com o Fora d’Oras, seria de uma profunda injustiça cultural, não ser o Espaço do Tempo o próximo Embaixador de Montemor no Mundo, por tudo o que fez e o que fará nesta e por esta terra, em termos de dança, de música, de criação artística em geral, pela sua ligação aos montemorenses, pela forma como Rui Horta e equipa se oferecem à comunidade, levando o nome de Montemor às partes mais longínquas do planeta.

Ponto 5: D. José Tolentino de Mendonça, um dos meus clérigos preferidos de sempre, foi recentemente elevado à púrpura cardinalícia pelo Papa Francisco. É com orgulho que vemos a nomeação deste português, padre, poeta, escritor, filósofo, pensador para um cargo de tamanha dimensão. Aumenta-se-nos a esperança de que ele, como um dos mais próximo do Papa, se transforme num auxiliar de excelência para defender as vítimas dos abusos cometidos por alguns membros da Igreja e ajudar a pôr na cadeia os terríveis perpetradores. Aí, o nosso orgulho como portugueses, e muitos, como católicos, seria bem maior.

Ponto 6: Recomeçámos as aulas e com elas o contacto com os alunos e as alunas que, apesar dos tempos que correm, tão céleres e aparentemente diferentes dos tempos em que éramos miúdos, são adolescentes iguais a tantos que por nós passaram nestes 36 anos de carreira. Precisam de se sentir seguros, aguardam constantemente o olhar aprovador do professor quando os conhecimentos estão no seu devido lugar, sentem-se livres quando lhes ensinamos que a liberdade de expressão e de pensamento é válida para todas as áreas e para todas a aulas, mostram-se apreensivos quando lhes ensinamos que para a máxima liberdade deve haver a máxima responsabilidade, preocupam-se com a chamada de atenção que, muitas vezes, é suficiente para lhes mostrarmos que somos da mesma equipa e que queremos todos o mesmo: o sucesso e a felicidade, a passagem do conhecimento e dos valores que também nos ajudaram, a nós, mais velhos, e hoje menos inocentes, a ultrapassar as dificuldades maiores da vida.
Penso, muitas vezes, que estava na idade certa para partir. Porque outros planos me esperam. Tão ou mais exigentes que esta minha profissão. Mas, pelos vistos, se ficar por aqui durante mais três ou quatro anos, a tentar fazer os putos felizes e mais conhecedores da vida que os espreita lá fora, também não vem daí mal ao Mundo e… os planos, os outros planos, podem muito bem esperar por mim.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Déjà-vu



Depois de levantada a última barraca da Feira da Luz/Expomor 2019, cujo balanço é sempre igual (muitos gostam, alguns não), e regressados à realidade do nosso quotidianozinho, acabamos por concluir que, para viver pacificamente os dias que nos restam, basta, tal como antes das férias, não sair do mainstream onde navegamos, exercendo os brandos costumes a que nos habituámos e a que nos habituaram. E porquê?
Porque o exercício da democracia se está a transformar num grande imbróglio e, se querem saber mesmo a verdade, a própria democracia está a tornar-se, cada vez mais, num conceito abstracto e, cada vez menos, numa prática concreta (peço perdão pela redundância). Porque se mostra todos os dias uma consideração mínima, ou nula, em relação às minorias ou aos que estão à margem dos partidos políticos e das correntes religiosas. Porque quem é diferente, quem não tem partido ou religião, começa a ser considerado um elemento que não deve ser ouvido, nem lido, e cujas ideias nem sequer devem ser discutidas, porque lhes falta… “fundamento”. Os exemplos que estão subjacentes a esta reflexão são inúmeros e, muitos deles, a serem expostos aqui, poderiam (lá está) ser mal interpretados ou lidos de viés, com consequências e juízos de valor pouco abonatórios para quem os emite.
Mas temos de ser claros: no país, continua a haver filhos e enteados, primos e primas do Poder, assimetrias escandalosas e acentuadas, quando comparamos o interior com o litoral, para não referir a desertificação do Alentejo, resultado de más políticas, de interesses esconsos, de combinações, de guerras de bastidores.
Os professores continuam a ser descaradamente desrespeitados pelo Estado, quando deveriam, à imagem do que se passa noutras latitudes, ser considerados elementos essenciais na formação dos jovens e membros de uma das mais nobres profissões; o Sistema Nacional de Saúde obriga doentes graves a esperarem meses sem fim para serem submetidos a cirurgias urgentes, com as terríveis consequências que isso acarreta; os médicos e os enfermeiros querem fugir de Portugal à procura de uma vida equilibrada e feliz; o desemprego continua a ser um flagelo, mascarado pelos ditos estágios profissionais, muitos deles não remunerados, que não passam de uma forma moderna de exploração; os cidadãos continuam, de forma consciente, a mostrar, com maior frequência, o seu lado mais primitivo e egocêntrico – no trânsito, no emprego, no supermercado, no restaurante, na praia; os incendiários são apanhados e libertados logo de seguida, porque têm uma doença, coitados, e má-na-sê-quê; os trabalhadores das mais diversas áreas já não se revêem nos sindicatos, que os representam cada vez pior, e sempre e cada vez mais com a partidarite como fio condutor do seu trabalho; o povo português já pouco acredita no poder do voto e nas mudanças que tal arma poderá ter para a sua vida e para a vida dos seus filhos e netos, esquecendo que, se a política é para os políticos, eles não poderão exercê-la se não formos nós a outorgar-lhes essa possibilidade. E os políticos, com responsabilidades de governação? Esses perderam completamente o sentido de Estado e comportam-se como se fôssemos todos amiguinhos e ex-colegas de escola. Usam as redes sociais para responder às críticas das oposições e acreditam que o twitter é o seu melhor instrumento para governar. Por outro lado, o Presidente da República anda, há uma série de meses, com paninhos quentes, a tentar convencer os portugueses de que vivem num paraíso. (E alguns acreditam e babam-se todos quando ele fala!) Nunca nos devemos esquecer que um tal senhor chamado Cavaco Silva disse ao país, em Julho de 2014, que não havia problemas com o BES e, dias depois, foi o escândalo vergonhoso que se viu.
Neste país, nesta santa terra, nada é o que parece. Nada parece o que é.

Os portugueses estão a perder, aos poucos, a noção da realidade. Dizem preocupar-se muito com o futuro, mas vão para a praia em vez de irem votar. O importante é mostrarem-se nas redes sociais, afirmando-se os mais bem vestidos, os mais viajados, os mais bem penteados, os mais engatatões, os mais bronzeados, os mais totós, os melhores dos melhores em qualquer área, desde que os resultados sejam imediatos e a sua consecução não dê muito trabalho, que isto a vida não está para grandes chatices.
E há os que, de forma diabólica e cobarde, usam as redes sociais sob pseudónimos asquerosos, para denegrir os que, de forma transparente, trabalham diariamente, nos mais diversos sectores (política, educação, saúde, movimento associativo, economia, apoios sociais, cultura), por um país melhor, por uma cidade mais atraente e mais evoluída. Se tudo isso não tem a ver com o Poder…
Mas o Poder, e o Poder Absoluto, tem sempre as suas consequências. A médio ou a longo prazo. Não fui eu que inventei isto. É a História que nos tem mostrado que a democracia, se não acompanha a evolução dos tempos, é, indiscutivelmente, o melhor terreno para o suave nascimento de uma ditadura, que tanto pode vir de esquerda como de direita. É esta evolução lenta, esta metamorfose orgânica, esta transformação assustadora, feita aos olhos de todos e com a legitimidade das urnas, que nos deve pôr de sobreaviso.

Se estou preocupado com o futuro? Mais do que isso. Estou preocupado com o presente, quando dou comigo a pensar no passado. Nas décadas de 40 e 50, a minha cidade, então vila, foi palco das mais corajosas lutas pela liberdade. José Adelino dos Santos e Germano Vidigal foram assassinados nesta terra, porque ousaram levantar a voz contra o status quo da ditadura salazarista, que muitos tentam agora branquear das mais diversas formas. Foram montemorenses que disseram não, quando os queriam obrigar a dizer sim. Pagaram caro a sua ousadia: foram presos, torturados, silenciados, exilados, mortos, abandonados por um sistema controlado por um poder totalitário e impiedoso.

Por questões ligadas a uma pesquisa sobre as movimentações sociais nesse período, ainda tão perto de nós, ouvi recentemente, em duas cassetes que guardo religiosamente, uma entrevista que fiz, em 2004, ao saudoso João do Machado, homem de uma verticalidade ímpar, elemento activo do PCP e que viveu grande parte da sua vida na linha da frente, em luta permanente contra as injustiças sociais e políticas da sua terra, sofrendo por causa disso os horrores da tortura e do encarceramento. Esse mesmo testemunho levou-me a recordar a minha avó paterna que ia, clandestinamente, e sem que os filhos sonhassem, ouvir a Rádio Moscovo, nos idos anos 50 e 60, à casa de um amigo, o Joaquim Badalinho (este também preso por causa dos seus ideais), para entender um pouco mais de política e tomar consciência das injustiças que se viviam no nosso país.
Estas memórias transportaram-me a um Montemor que viveu décadas de medo e de intolerância, que jamais deveriam voltar: pensava-se três vezes antes de emitir uma opinião, olhava-se para os lados antes de se tecer qualquer comentário, desconfiava-se do vizinho ou da vizinha, porque ninguém sabia quem estava a soldo do regime. É, sobretudo, ao ver os exemplos de vida destes homens e das suas mulheres, igualmente corajosas e lutadoras, que gostaria que nada disto se repetisse tantos anos depois. Porque quero que os meus filhos, os meus sobrinhos, os meus futuros netos, e os alunos com quem trabalho todos os dias, sejam livres, respeitadores e respeitados, olhando, olhos nos olhos, todos os seus conterrâneos, todos os seus compatriotas, independentemente da sua cor política, da sua formação, do seu trabalho, das suas opiniões ou da sua opção religiosa. E que nunca, nenhum partido, de esquerda, centro ou direita, se arrogue detentor da verdade absoluta e dono do pensamento de cada um. E que Montemor seja, de facto, uma cidade sem medo da modernidade, do progresso e do pensamento livre, nem que seja em sinal de respeito pela memória e pelo sofrimento dos nossos antepassados.

Quando aconteceu a Revolução de Abril de 74, nesse dia 25, o meu Pai foi a casa à hora do almoço. Eu, com os meus treze anos, lembro-me de ele ter dito à minha Mãe, que estava a acompanhar na rádio (num misto de receio e de entusiasmo) a evolução dos acontecimentos: “Não faças muito alarido, porque isto ainda pode voltar para trás.”  
Espero que esta frase do meu querido e saudoso Pai, naquela altura mais novo do que eu sou hoje, não tenha tido qualquer carácter profético. Nem no meu país e muito menos na minha cidade.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Setembro de 2019

Distraídos crónicos...

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