segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Autárquicas - Parte 2




(Foto: ODigital.pt - SAPO)


O Novo Professor da Turma


            Um professor de uma qualquer disciplina que comece a leccionar a uma turma sabe que tudo aquilo que vai ensinar será, directa ou indirectamente, a continuação das matérias, dadas por outros professores nos anos anteriores. Naturalmente que cada ser humano imprime ao seu trabalho ritmos diferentes, pinta com cores pessoais cada palavra, cada gesto ou intenção, e um professor não é excepção. Embora pareçam, por vezes, super-homens e super-mulheres, são apenas seres humanos com qualidades e defeitos como qualquer outro profissional… ou político.

Independentemente das suas crenças e dos seus princípios, o novo professor da turma não poderá, nem deverá, tentar apagar o que foi construído durante vários anos por outros colegas seus, após longas horas de prática, de planificações, estratégias, análises, reflexões, frustrações e alegrias. O novo professor da turma tem isso em conta e será sobre isso mesmo que irá construir o seu processo de ensino-aprendizagem, respeitando criticamente o conhecimento dos alunos, entendendo a dignidade dos métodos e das práticas anteriores que os levaram até aquele momento do conhecimento, e criando condições, de forma consciente, coerente e profissional, de modo a salvaguardar sempre o interesse dos alunos, com vista ao seu futuro como profissionais e cidadãos responsáveis.

O novo professor da turma não vai fazer tábula rasa de tudo o que foi ensinado aos jovens que tem à sua frente, nem poderá, nunca, ignorar os conhecimentos acumulados por eles, sabendo, isso sim, utilizá-los da melhor forma para que as suas novas ideias e os projectos mais inovadores para os alunos tenham o sucesso esperado e permaneçam depois como património solidificado e inalienável.

Porque um professor nem sempre sabe durante quanto tempo vai ficar com a turma. E muito menos quem será o seu sucessor.  

 

 

 

O Presidente da Câmara

 

Vivemos ainda o rescaldo das últimas eleições autárquicas. Após a vitória de Olímpio Galvão, pelo Partido Socialista, instalou-se, por um lado, a certeza de uma mudança no paradigma governativo autárquico e, por outro, a ansiedade que este tipo de alterações provoca nos munícipes.

Montemor viveu durante 46 anos sob a égide do Partido Comunista Português, até 1987 integrando a Aliança Povo Unido (APU) e, depois, como partido principal da Coligação Democrática Unitária (CDU). Vencendo sempre com maiorias absolutas, o partido do histórico e insubstituível Álvaro Cunhal, que tinha vindo a perpetuar-se no poder em Montemor-o-Novo, acabou agora por perder, não só a maioria, como as próprias eleições, dando lugar ao que se julga vir a ser uma nova era para o concelho onde vivemos.

A análise destes resultados, muitas vezes a roçar alguns conceitos da psicanálise, deixo-a aos politólogos da nossa praça, que cada vez são em maior número e que me parecem muito mais capacitados para isso do que este vosso cronista. Eles lá saberão responder por que é que a CDU perdeu… Por que é que a maioria do povo já não está como antes ao lado do candidato comunista… O que levou o CDS a eleger um vereador… o que provocou a quase completa invisibilidade nas urnas dos restantes candidatos, enfim, lições de ciência política que a todos trazem proveito.

Mais importante do que tudo isso, e o que a maioria de nós quer saber, é como será a nova era - na prática, no quotidiano, na nossa luta diária - que o novo Presidente da Câmara quer iniciar. Se, segundo o slogan da sua campanha, “melhor é possível”, anima-nos esta ideia, sabendo naturalmente de cor o tal ditado de Roma e Pavia, e tendo consciência de que a passagem de pastas e de responsabilidades terá um tempo próprio até à implementação, ou continuação, de medidas onde elas se manifestem necessárias. 

Por aqui irei continuar, enquanto for vivo e com saúde (e enquanto não for despedido), a reclamar, sempre que considere justo e apropriado, tal como me é outorgado pela liberdade de expressão e pela vontade de caminhar “por onde me levam meus próprios passos.” Quero empregos em Montemor. Quero casas acessíveis para todos os jovens casais que pretendam viver e trabalhar em Montemor. Quero uma articulação mais eficaz entre a Autarquia e a Educação. Quero o Centro Histórico protegido, antes que caia. Quero as ruas e os largos limpos. Quero o Rio Almansor como parte integrante da cidade e cartão de visita de Montemor, em vez da monstruosidade a que o deixaram chegar. Quero que as futuras obras públicas (se as houver) sejam produto de bom gosto e de respeito pelo espaço e pela história e traça arquitectónicas e urbanísticas da cidade. Tal como escrevi neste espaço, faz agora um mês, não quero um mandatário de um partido político “a gerir a minha terra e a mandar na minha vida. Quero pessoas. Pessoas íntegras, com cérebro, honestas, com um profundo e inalienável sentido democrático, com respeito pelas ideias dos outros, tolerantes, transparentes e com visão.”

Sem querer armar-me em moralista ou em qualquer personagem queirosiana, cheia de verdades de La Palisse, sei de muitos munícipes que votaram em Olímpio Galvão, ignorando propositadamente a sua base partidária de apoio. Não puseram o seu destino nas mãos do Partido Socialista, mas deram o seu voto de confiança a um candidato de Montemor, vindo do povo, consciente das qualidades e dos defeitos da anterior gestão camarária, pai de família, um profissional de referência e um activista, desde muito jovem, em espaços culturais e associativos. E isso, caro Olímpio, é um acréscimo na tua responsabilidade como presidente recém-eleito. Muitos chamar-lhe-iam a tua cruz. Mas nós sabemos que Montemor, que vai passar a estar no centro das tuas preocupações, nunca será a tua cruz. Eu digo apenas que é a tua paixão. E isso basta.

Bom mandato.

 

 

 

           

 João Luís Nabo 

(In O Montemorense, Outubro de 2021)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Autárquicas outra vez

 


Foto: Manuel Roque

Deixar passar em claro este momento que todos atravessamos seria dar provas de um total desinteresse e banal despreocupação pela nossa vida social, económica, cultural e política – sim, todos somos políticos –, logo agora que o futuro do nosso concelho está seriamente em jogo. Nunca, em quarenta e sete anos de democracia, tivemos diante de nós tantas variantes partidárias, um tão largo número de nomes que se afirmam defensores legítimos de Montemor e das suas gentes, tantos políticos, com e sem experiência, uns mais antigos, outros recém-chegados, a quererem melhorar as nossas vidas e as vidas dos que virão depois de nós.

 Se os meus oito leitores (creio que, agora, serão mais – por causa do “Sertório”) estão à espera de que eu, finalmente, defina a minha posição político-partidária, tal não vai acontecer. Nem em casa anunciei ou virei a anunciar a minha tendência de voto, porque quero que todos os meus, cada um por si, ouça, leia, discuta, aprenda, entenda e decida quem será o melhor candidato para a nossa Câmara Municipal.

O leque de tendências abriu-se muito mais do que em todas as autárquicas anteriores. É extraordinária a quantidade de jovens que vieram a terreno, presencialmente ou através das redes sociais, apresentar o seu projecto político para Montemor, município a viver sob a égide do Partido Comunista deste Abril de 1974. Quando muitos de nós afirmámos criticamente que a malta nova não quer saber de política, essa presunção é, hoje, facilmente rebatível quando tomamos consciência do interesse manifestado por tantos jovens no futuro do concelho. Tal facto deixa-me orgulhoso, mais descansado e leva-me a reformular algumas ideias que tive no passado sobre este tipo de candidaturas.

 Todos os partidos e movimentos, sem excepção, podem e devem avançar com ideias, propostas, planos para que Montemor seja uma terra e um concelho mais atractivos, com mais postos de trabalho, com mais indústria e comércio, sem medo de uma maior abertura ao exterior e aos que, vindos de fora, tenham capacidade e qualidade para deixar aqui a sua pegada de progresso e de confiança. No fundo, queremos tão somente que o candidato vencedor dê provas de mais interesse e de mais respeito por todos aqueles, internos e externos, que gostariam de fazer de Montemor o seu porto de abrigo,  a terra preferida dos seus filhos e netos.

             Todos os que vão constar do boletim de voto no próximo dia 26 de Setembro se perfilam para diversificar os apoios a todos os níveis, para apoiar as instituições de cultura e desporto, para proporcionar benefícios fiscais e outros às instituições de solidariedade social, para dar apoio mais sólido e eficaz às famílias carenciadas, de modo a que sejamos uma cidade e um concelho inclusivos, onde todos, independentemente das suas capacidades e das suas limitações, tenham um lugar visível, activo e útil nesta nossa pequena, mas extraordinária, terra. Queremos deixar de ser um velho e gasto “ponto de passagem” para cultivarmos este espaço como um ponto efectivo de encontro entre os que cá vivem e trabalham e os que gostam de “passar por cá”, de forma esporádica ou mais permanente. Porque só assim faremos todos de Montemor uma cidade aprazível e atractiva, sem medo de turistas, nem de inovações credíveis, um melting pot de culturas, de saberes e de sabores.

 Por isso, os candidatos que querem conquistar o meu voto terão de querer um concelho com mais empregabilidade, uma cidade mais limpa, mais branca, menos descaracterizada, com o Centro Histórico recuperado sem as modernices estéticas e arquitectónicas de um passado recente, com as ruas arranjadas e com os problemas ambientais resolvidos. Queremos que devolvam o rio à cidade.  O rio que poderia ser já uma imagem de marca da nossa preocupação pelo ambiente e que não passa de um depósito de memórias da nossa infância.

Todos os que se vão apresentar diante de nós no dia 26 dizem amar Montemor com uma paixão sem limites e até os que não são de cá, os que nem sequer conhecem a Travessa das Farizes ou a Rua de São Vicente, se afirmam amantes desta pátria de santos e heróis. Pois bem. Também eu amo esta terra. Mas eu amo mesmo. Não é só de agora este meu arroubo de romantismo. É de sempre. E, como tal, não vou gostar de a ver maltratada e usada apenas por questões bacocas de poder ou protagonismo. Tal como os montemorenses que aqui vivem, e os que se encontram espalhados pelos quatro cantos do planeta, não quero o nome de Montemor nas bocas do mundo pelas piores razões.

 Acredito em todas as intenções, em todos os quereres de todos os candidatos. Mas não sei se, quem vier a substituir a presidente Hortênsia Menino, terá a força, a visão, a capacidade, a vontade e o espírito vanguardista para cumprir as suas promessas, nem que para isso seja necessário ignorar as directivas do partido pelo qual foi eleito. Porquê? Porque não quero um partido político a gerir a minha terra e a mandar na minha vida. Quero pessoas. Pessoas íntegras, com cérebro, honestas, com um profundo e inalienável sentido democrático, com respeito pelas ideias dos outros, tolerantes, transparentes e com visão. Com visão. 

Sei que há soluções. Sei que há futuro. Sei que há dinheiro. O próximo presidente da autarquia montemorense terá uma dura tarefa que é a de colocar o concelho no sítio que merece. Não gosto do senhor Trump. Nem das suas políticas. Nem das suas paranóias arrogantes. Nem dos seus tiques afascizados. Mas há uma frase que ouso adaptar e deixar à laia de conclusão: Montemor em primeiro lugar! Primeiro que as vaidades pessoais (e há por aí algumas). Primeiro que os interesses dos primos, dos tios e dos amigos. Primeiro que o partido que elegeu o candidato.

Montemor em primeiro lugar!

Já é altura!

É a hora!

                                                                                João Luís Nabo

                                                           In "O Montemorense", Setembro de 2021 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Opiniões sem importância

 


            Efeito borboleta: este conceito, já desenvolvido num belo filme de 2004, de Eric Bress e J. Mackye Gruber, aplicável a tantas situações do nosso planeta e do nosso dia-a-dia, baseia-se no princípio de que “o bater de asas de uma borboleta no Japão pode causar um tufão nos Estados Unidos”. Nunca tal ideia teve tanta força de lei: estamos (alguém tem dúvidas?) a viver um permanente efeito borboleta desde há dois anos a esta parte, iniciado não por uma borboleta, mas por outros animais infectados, num mercado em Whuan, na China, em Dezembro de 2019. A partir daí foi o descalabro total.

As acções, os comportamentos, as decisões de qualquer um de nós, modestos grãos de areia de todo este complexo chamado vida, alteram substancialmente, para melhor ou para pior, a existência de outros seres que vivem a milhões de quilómetros de distância. Por isso, seria perfeitamente expectável que os festejos futebolísticos, a recusa em usar máscara, as festas clandestinas, enfim, o desrespeito total pelas normas neste tempo de pandemia só viesse a dar no que deu. Agora, aguentem-se. Aguentemo-nos. A imagem romântica e fofinha de uma borboleta a bater as asas foi por mim, desde há algum tempo, substituída pela de um morcego. O efeito é o mesmo.

 O desgoverno que nos desgoverna: governar um país nos tempos de hoje não será fácil e não invejo Costa e sus compañeros que, claramente, já não sabem como dar conta disto. O acidente na A6 que vitimou um conterrâneo nosso, de Santiago do Escoural, e a ausência de explicações por parte do ministro da Administração Interna poderão ter sido a gota de água. Fala-se de uma “megaremodelação” ministerial. Quando os meus 12 leitores estiverem a ler isto, muito provavelmente já o ministro Cabrita saiu, acompanhado de outros que já não andam cá a fazer nada de jeito. (Já agora, espero que leve também com ele o da Educação, pelos mesmíssimos motivos). Mas não serão os novos governantes que vêm resolver o caos em que nos encontramos. Eles vêm apenas tipo Deus ex-machina (vão ver o que é isto, que eu não tenho muito mais espaço para grandes explicações), à laia de manobra de diversão e para satisfazer a gritaria da Oposição que, muitas vezes, não faz nem deixa fazer.

 Terra de santos e heróis: Montemor, apesar da pandemia e desse belo e terrível conceito do “efeito borboleta”, iniciou o Verão com a abertura das piscinas e com a organização de espectáculos musicais e performativos, um pouco por toda a cidade. Enquanto escrevo, dou uma olhadaleda para o gráfico da pandemia referente ao nosso concelho e leio que há já 50 casos activos e 63 mortes até ao momento. Fiz há dias um pequeno comentário nas redes sociais em relação à abertura das piscinas. Responderam-me alguns defensores do partido maioritário da autarquia que só lá vai quem quer, outros que está tudo de acordo com as regras de segurança. Na verdade, o pessoal que dá respostas destas não percebe mesmo nada do que se está a passar. Isto não tem nada a ver com o gostar ou o não gostar de quem gere os nossos destinos. Nada disso!!!! Tem a ver com outros factores muito mais importantes do que qualquer partido político. Ou então, insistindo nas suas teorias, querem fazer valer o epíteto que, há muito séculos, engrandece Montemor: sermos terra de santos e de heróis. Mas de heróis… mortos.

             Enginhêros: o meu saudoso sogro dizia-me há muitos anos, quando falávamos sobre as novas formas de ensino e a falta de vontade de muitos alunos de se dedicarem seriamente aos estudos: “Ainda virá o tempo em que vamos parar o carro antes de atravessarmos uma ponte, batemos com os pés logo ali ao princípio da construção e, se não cair, avançamos.” Já não viveu o suficiente para testemunhar o desespero de professores e alunos para se adaptarem às aulas à distância, tipo de ensino que eu entendo, por muitos motivos, estar sujeito às mais extraordinárias fraudes intelectuais de sempre. Uma cábula na bainha da saia? Um auxiliar de memória num rolinho em letras microscópicas? Isso já passou tudo à história. O que está a dar agora são mesmo as aulas online. Daqui a duas gerações teremos professores, médicos, engenheiros, advogados, arquitectos, técnicos de toda a espécie, a funcionarem sempre com o manual de instruções à mão. Isto se o souberem ler.

 A arte de escrever ficção: a escrita é uma arma poderosa que já elegeu presidentes e derrubou governos. O acto de escrever substitui, como referiu o mestre Stephen King, a carabina com que o escritor desejaria derrubar meia-dúzia de tipos desagradáveis (tradução livre do original). Escrever é pôr tudo o que se tem, de bom e de mau, numa folha em branco. Depois da frase decidida, da página completa, do livro acabado, nada fica igual na nossa cabeça, na nossa vida e nas nossas relações pessoais. Para o bem e para o mal. E todos os que escrevem sabem disso. E, sempre à beira do abismo, aceitam cegamente, qual salto no desconhecido, todas as consequências da sua arte.  A construção do meu romance “Sertório, uma história de Vila Nova”, a sua aceitação pelos leitores e as reacções de dezenas de pessoas à história e ao autor está a ser uma das experiências mais extraordinárias da minha vida. Obrigado.


João Luís Nabo

 In "O Montemorense", Julho de 2021

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Balancete

 

Se uns podem…

 Andamos agora a viver uns momentos deveras curiosos em termos de comportamento, no que se refere aos cuidados ainda a ter com a propagação do vírus, cujo nome todos conhecemos. Quando ainda era regra ficarmos em casa sempre que possível, não colaborar na formação de ajuntamentos, não emborcar álcool depois das oito da noite, eis que somos confrontados com os festejos do campeão nacional de futebol no Marquês de Pombal, em Lisboa, com largos milhares de foliões verdes e brancos aos saltos, como seria de esperar, para receber, com pompa e circunstância, a equipa vencedora; poucos dias depois, em Braga, ainda que numa expressão menor, também os adeptos do futebol desataram a exibir o seu legítimo orgulho pela sua equipa que, este ano, conquista a Taça de Portugal; finalmente, no Porto, adeptos ingleses das equipas em disputa pela Taça da Champions League, invadiram a Invicta, armaram serrabulho e estiveram à vontadinha, armados em conquistadores, com imperiais em punho no lugar dos canhões. Poucos dias depois, porque já não era de interesse britânico, e por ordem do Tintin Inglês, Portugal sai da lista dos países a visitar. Ex-tra-or-di-ná-ri-o! Entretanto, o resto do país, ainda e sempre amordaçado (literalmente), continuava a meio gás, com os restaurantes, o comércio, a indústria, os serviços, as escolas, os grupos artísticos, o cinema… sem saberem muito bem como seria o futuro. Como diria um amigo meu, perante estes dramas e estas contradições, e sempre a propósito, “é o que há.”

Quereis saber como se podiam ter impedido aquelas manifestações de euforia desportiva misturada com a alegria de se ser livre por uma noite? Pois, não sei. Pela imposição da lei, à força de bastonadas? Isso seria absurdo e acabava por dar origem a uma guerra civil. Alertar os foliões para os perigos que representavam os ajuntamentos? Isso eles já sabiam. Disponibilizar de imediato meios de testagem rápida para determinar o isolamento de muitos deles? Talvez fosse esta uma das formas…

O que se tornou óbvio foi a reacção dos que não foram a essas manifestações e continuavam, então, a cumprir as regras do confinamento e do recolhimento domiciliário. E essa atitude, perante a diferença de tratamento, só podia ser esta: “Se uns podem, eu também posso. Compadre Costa, que raio de democracia é esta?”

Um facto inegável é o número de infectados que está a subir todos os dias. Estão admirados? Claro que não. Eu também não. E o Presidente da República também não. E o primeiro-ministro? Bom, desse governante é difícil saber a opinião, quando a lei portuguesa e as autoridades decidem tratar de forma diferente os filhos da mesma nação, e assobiar para o lado, quando centenas de aliados britânicos, meio vestidos, meio despidos, se lançam em massa na propagação do Covid e de outros vírus associados, como se não houvesse amanhã.

Uma coisa é certa: se queremos momentos de alegre (mas pouco são) convívio com familiares e amigos, já em número acima do normal, marquemos uma manifestação a favor de um clube qualquer. Ninguém terá autoridade moral para nos repreender, multar ou mesmo identificar na esquadra mais próxima. Eu, para evitar problemas, ando sempre com o cachecol do meu favorito no bolso.  (Estou a pensar organizar uma festa para comemorar a manutenção do clube do meu bairro nas distritais sub-14. E as autoridades não poderão fazer nada.)

Entretanto, nas nossas escolas, professores, alunos e funcionários continuam, contrariados, claro, a usar máscara. Dentro dos blocos de aulas, nas salas de trabalho e… no exterior da escola. Haverá excepções, como em tudo. Há sempre umas gaivotas que, assim que saem da escola, tiram a máscara, rumam em direcção às esplanadas e… siga a marinha. Mas, pensando bem, depois de tudo a que já assistiram, quem é que os pode condenar? Eu não.


Fim de ano (des)lectivo

Estamos a terminar as aulas. Depois de quase dois anos lectivos profundamente atípicos, vamos dar algum descanso aos alunos e vão os professores também passar uns dias longe das questões em que estiveram envolvidos no decorrer deste tempo de pandemia.  Todos nós aprendemos qualquer coisa com tudo isto. A adaptação dos alunos e dos professores às potencialidades de um ecrã de computador  não foi fácil e demorou algum tempo até todos nós, comunidade educativa, acreditarmos que poderíamos ultrapassar este problema. Fizemo-lo, de vez, com algum estudo da nossa parte, por vezes perdidos nos mil e um pormenores tecnológicos, mas angariando uma boa ajuda por parte de colegas e amigos e, claro, seria inevitável, após algumas experiências mal sucedidas.

Terminado o processo por mais este ano, poderemos dizer que houve um balanço positivo? As matérias foram leccionadas na íntegra e, na perspectiva dos professores (e dos alunos), foram bem leccionadas? Teriam todos os alunos as mesmas condições de acesso às tecnologias? Teriam todos eles familiares e amigos que os encaminhassem e auxiliassem neste novo universo do ensino à distância? Não me parece que assim fosse. Então, deveríamos passar uma esponja que apagasse estes dois anos lectivos e começar tudo de novo? Claro que, para além de absurdo, seria impossível e não levava a lado nenhum. Aceitar o que existe é, para já, a nossa única possibilidade. Reforçar conhecimentos e matérias no decorrer do próximo no lectivo parece-me ser uma das soluções possíveis. Aprender a utilizar de forma mais eficaz as ferramentas tecnológicas que temos à disposição para o ensino à distância também acho que será a única aposta viável e útil em termos de futuro. Entretanto, esperar que a situação pandémica não se agrave para que possamos regressar à nossa vida normal é aquilo que fazemos todos os dias. Vamos acreditar que tal seja possível.

Uma questão, independentemente dos aspectos positivos e negativos do ensino à distância, ou do teletrabalho de uma forma geral, é que, se antes da pandemia nada estava garantido na nossa vidinha, este célebre vírus veio transformar essa certeza numa verdade sem discussão.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2021



segunda-feira, 17 de maio de 2021

Moralidades

                                                     

                                                            Foto: Ricardo Feijão

 “Cada coisa a seu tempo tem seu tempo”, refere num belíssimo poema Pessoa vestido de Ricardo Reis. Nós, longe da genial capacidade reflexiva do poeta, nunca pensamos nisso. Talvez por não termos tempo para parar e pensar. Queremos chegar ao fim da jornada o mais depressa possível, esquecendo-nos, bastas vezes, de viver cada momento com a intensidade com que, e com quem, deve ou merece ser vivido. Os milhares de filósofos de fim-de-semana que povoam o Facebook e outras redes sociais do género publicam diariamente “pensamentos” em modo de conselho para quem anda distraído com a vida. Eles são os primeiros a viver nessa distracção, porque em vez de publicarem essas “moralidades” deviam era estar a vivê-las.

 O pessoal pensa que estamos a ficar livres do vírus só porque a vacinação vai avançando a um ritmo aceitável. Claro que não é bem assim. Os adeptos do Sporting esqueceram-se completamente de que estamos a viver ainda uma grave pandemia e juntaram-se em festa, a comemorar o título, como se não houvesse amanhã. Agora está um país inteiro à espera para ver se os infectados com o vírus, se os houver, começam a dar sinal nos gráficos da DGS. Espero sinceramente que não. Se achei aquela loucura verde normal? Claro que sim. Normal… mas insensata. Seria assim a mesma loucura se fosse encarnada ou azul. A razão não chega para explicar o que a psicologia nos mostra em três penadas. Como não podia deixar de ser, os líderes desses clubes já fizeram as suas críticas e traçaram as suas moralidades, escondendo, digo eu, que os seus sócios e adeptos fariam exactamente o mesmo se ganhassem o campeonato, quer houvesse ou não Covid-19. Mas o futebol em muito se assemelha à política e isso também não é novidade para ninguém. “Se fosse comigo, tudo seria diferente”, dizem. E nós sabemos que não é assim. E eles também.

Quanto à actuação das autoridades…? Bom, elas ainda não acabaram de discutir de quem foi a culpa para as medidas de contenção não terem funcionado. Mas eu digo o que todos já sabem: a culpa foi da falta de visão de quem manda. Ou então da falta de força para mandar. Não se façam agora de virgens ofendidas, se faz favor.

 Quem nunca, no calor de uma acesa discussão, no auge de um ataque de fúria incontrolável, depois de ter martelado um dedo ou dado uma topada no pé de um móvel, disse uma palavra daquelas mais pesadas que tanto nos envergonham como nos libertam? O soltar de um palavrão, em tempos considerado quase um acto criminoso (e junto de senhoras era motivo de condenação eterna), é hoje tão normal como beber um copo de água. Jovens, eles e elas, e adultos, eles e elas, não se coíbem que utilizar o que há de mais vernáculo na nossa língua para manifestar sentimentos, estados de alma, alívio ou preocupação. Todas as situações são as ideais para soltar o que, há muito, só em circunstâncias muito restritas, nos atrevíamos a soltar.

Nas escolas, os professores fazem ouvidos moucos à linguagem dos alunos e das alunas (mandá-los refrear o palavreado seria considerado censura, não é?), na televisão, um meio ainda com uma fortíssima influência em todos nós, em programas transmitidos em horário nobre, o palavrão é cada vez mais uma constante e é utilizado quase como uma coroa de glória.

Não estou a armar-me em moralista. Estou a constatar um facto que já me começou a preocupar, sobretudo se são figuras públicas a protagonizar esses momentos de pouca elevação linguística. Se eu digo palavões? Claro que digo. Com precisão, classe e extraordinário sentido de oportunidade. Nem sempre sou compreendido, porém.

 Ainda um pouco a medo. Ainda com passos curtos. Curtos mas certos. Os artistas e as associações culturais estão agora a reiniciar a sua vida. Começam a ser anunciados concertos e outros tipos de espectáculos. A longa travessia do deserto parece estar com um fim à vista. Os técnicos de palco, os artistas, os seus agentes e patrocinadores preparam-se agora para o grande desafio que é trabalhar em segurança e fazer com que os espectadores regressem às salas. A retoma parece-me possível. A arte pode ser feita em segurança. Em Montemor, por exemplo, já começamos a “ver mexer” quem há muito estava parado. Que perdure este tempo de esperança.

             Às vezes, somos um povo muito engraçado. Falo de Montemor e de nós, os montemorenses. Estão em curso as obras de remodelação do Largo de São João de Deus, também conhecido como Largo da Matriz. Pelo que nos foi dado a ver, o espaço vai ficar diferente. Acredito que com mais vantagens para a circulação de carros e peões. Também sei que irei ter dificuldade em habituar-me ao novo visual daquele micro-espaço tão icónico da minha cidade. Mas não terei outra alternativa. Pois circulava nas redes sociais (outra vez as redes sociais) a ideia de que o Largo já não iria receber a icónica estátua do padroeiro da cidade, São João Deus, nascido a poucos metros daquele local. Tal ideia, posta a circular por aí, é um verdadeiro insulto à equipa que esteve envolvida no projecto e um insulto ainda maior à autarquia. Nem por um momento duvidei da insensatez e do veneno que destilava tal desinformação. Por isso é que eu acho que, às vezes, somos um povo muito engraçado. Nós, os montemorenses.

 

João Luís Nabo          

               In "O Montemorense", Maio de 2021 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Oh, meu menino!

 




É a justiça, meu menino!

            O início deste mês foi causador de imensas dores de cabeça à democracia, à justiça, ao Partido Socialista, ao José Sócrates e ao juiz Ivo Rosa. E para que eu não fique também com umas dores de cabeça valentes, declaro que tudo o que vou escrever a partir deste sagrado momento está protegido pelo conceito do “alegadamente”, porque senão, como diria Ricardo Araújo Pereira, seria eu o único (e ele também, já agora) a ir preso.

Ninguém percebeu por que é que de trinta e um crimes de que Sócrates estava acusado pelo Ministério Público todos ficaram reduzidos a pó. Todos, não. Seis – belos alegados crimes – seis vão ainda ser discutidos em tribunal e, depois, logo se verá. Tal como grande parte dos portugueses, também eu estou incrédulo com esta profunda e quase inexplicável diferença de opinião entre Ivo Rosa e o Procurador Jorge Rosário Teixeira. Queria acreditar que esta meia-dúzia de anos que mediou entre a detenção de Sócrates no aeroporto de Lisboa, em Novembro de 2014, e a exaustiva leitura feita, no dia 12 de Abril, pelo magistrado, teriam sido suficientes para, comprovadamente, apresentar ao país os motivos pelos quais o ex-primeiro ministro de Portugal deveria ser julgado. Não entenderam assim. Ivo Rosa passou um atestado de incompetência ao Ministério Público e deu novas forças ao alegado arguido para levantar ainda mais a sua voz a clamar inocência. Contudo, houve crimes, e ambos o admitiram, que já prescreveram. Só não prescreveram as multas de trânsito do meu compadre Jiló, nem se distraem os senhores dos bancos que chamam logo lá o pessoal quando se tem, por exemplo, 46 cêntimos negativos na conta bancária. (Quarenta e seis cêntimos!?? Que horror! Este cliente é um criminoso!! E logo no BES!!! Que vergonha!! Olhem lá o boss Ricardo Salgado, sempre tão cumpridor!)

Pois é, meu menino: este país não é para gente séria. Este país não é para gente sem padrinhos. Este país é um pagode chinês. Este país ainda vai ser a chacota da Comunidade Sul-Americana Europeia. Este país ainda vai ser (já o é) o paraíso de Al Capone. E de Bonnie e Clyde, também.

 

 

É o desconfinamento, meu menino!

 

Desconfinar, desconfinar, desconfinar é o verbo mais utilizado nos últimos dias pelos políticos e por nós, cidadãos comuns, fartos de casa, cansados do computador, dos filhos, das sogras, dos periquitos das sogras, ansiosos por atestar o depósito do Renault 5 e ir até à Barragem dos Minutos fazer peões no pó da estrada do paredão, com o habitáculo cheio de rapaziada, e gritar que somos livres!

Nós somos assim. Assumimos que tudo o que de mau acontece… é aos outros que acontece. E relaxamos os cuidados, relaxamos o elástico da máscara, relaxamos a besuntadela das mãos, relaxamos a distância, porque temos saudades do calor humano. Porque, se vamos desconfinar, é porque as coisas estão a correr bem e o que é preciso é recuperar o tempo perdido. Ó gente da minha terra (esta parte é para ser cantada, como faz a Mariza), tenham lá calminha. Vão às esplanadas com uma alegria mais ou menos comedida e não desatem a dar abraços uns aos outros como se não houvesse amanhã. Se um de vocês é portador do vírus, está a cantareira armada.

Ah, e se quiseres juntar-te com as namoradas, meu menino, junta-te com uma de cada vez. É mais seguro… por todos os motivos.

Eu acredito que será desta, com a vacina a ajudar, que vamos caminhando em direcção à liberdade, dando passos firmes ao encontro da recuperação lenta e parcial, mas segura, da nossa vida. E há quem precise urgentemente disso mesmo.

 

 

 

É uma história de Vila Nova, meu menino!

 

Publiquei recentemente na minha página do Facebook um breve texto onde apresentava o meu novo livro, quase a sair. Porque era importante deixar registado o reconhecimento e a amizade em que assentou toda a produção do romance que fala de Abril e das muitas coisas que aconteceram para que Abril acontecesse. E escrevi, mais ou menos, assim. Mais ou menos, porque foram necessárias as devidas alterações para transformar uma simples publicação, breve e prática, numa rede social, num texto a que os meus alunos pudessem chamar crónica:

Um dia, conto a história de um livro como este. Desde a ideia inicial, passando pelas madrugadas de solidão em perseguição da história que queremos contar, pelas mil páginas rasgadas, pelas leituras, pela pesquisa, pelas conversas com amigos, pelas mensagens enviadas em desespero, pelas mensagens recebidas em apoio incondicional e... pela memória.

O romance Sertório, uma história de Vila Nova é o resultado de tudo isto, mas é, sobretudo, o transformar em ficção o que aprendi com o meu Pai, António Manuel, com a minha Mãe, Rosa Maria, com o meus Sogros, Nita e Valério, com o João Machado, todos de saudosa e suave memória, com o Manuel Filipe Vieira, com a minha Mulher, Belinha, com todos os meus professores e todos os meus alunos e todos os meus amigos, que não me dão descanso e que todos os dias me ensinam que o mais importante é aceitar as diferenças e deixar atrás de nós o nosso exemplo como cidadãos livres e tolerantes, em tudo o que fazemos. E sei, tenho a mais absoluta das certezas, que os meus filhos João, Joana e Pedro beberam de mim e da Mãe estes valores que, um dia, deixarão aos nossos netos e a todos os que vierem depois.

Sertório é um romance para toda esta gente que gosta de mim e que está comigo, é um hino à Liberdade, é um violento ‘não’ à intolerância e à ditadura das ideias, e é, acima de tudo, uma homenagem aos que, um dia, foram torturados e mortos para que hoje, este livro, parido com sofrimento, fosse possível. Todos eles estão retratados nas personagens que construi e que povoam este universo ficcional de Vila Nova, mas que é, sem sombra de dúvida, o nosso espaço e a nossa vida passada e futura.


João Luís Nabo

 In "O Montemorense", Abril de 2021

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Duas cartas que já deviam ter sido escritas há (com agá) muito tempo


1.ª Carta 

Homens da minha família: 

Uni-vos. 
Fundo, nesta hora, com o apoio de todos os homens da minha família – filhos, primos, cunhados e sobrinhos – o Movimento Masculino pela Igualdade para os Homens da Nossa Família e para os Homens Nossos Amigos. Vocês não aspiram a sala? Aspiram. Não aspiram os quartos? Aspiram. Vocês não lavam as casas de banho? Lavam. Vocês não limpam o pó? Limpam. Vocês não cozinham? Cozinham. Não põem a roupa na máquina? Põem. Não tiram a roupa da máquina? Tiram. Não estendem a roupa? Estendem. Não chamam o técnico quando ela avaria? Chamam. Não põem a mesa? Põem. Não levantam a mesa? Levantam. Não lavam a louça? Lavam. Não limpam a louça? Limpam. Não arrumam a louça? Arrumam. Não arrumam a cozinha? Arrumam. Não abrem a cama? Abrem. Não fazem a cama (nunca entendi porquê, se a vou abrir mais logo a seguir à novela)? Fazem. Não levam o carro ao bate-chapas quando alguém da família roça com ele na parede da garagem? Levam. (Não vão pintar a parede, logo a seguir? Vão.) Não vão mudar os pneus quando eles estão carecas? Vão. Não colam o selo do seguro no pára-brisas, de seis em seis meses? Colam. Não vão com o carro à revisão? Vão. Não vão às compras ao Supermercado? Vão. 
Então, meus amigos, do que estão à espera para assinar uma petição, acabadinha de fazer, para entregar na Assembleia da República com o pedido para a criação do Dia do Homem? A celebração do Dia das nossas Mães, das nossas Filhas, das nossas Mulheres tem a sua razão de ser. Sabemos que sim e somos os primeiros a comprar uma flor e a pagar o jantar desse dia. Mas se houvesse um dia 9 de Março, assim, logo a seguir, para lembrar os dedicados homens da nossa família e seus Amigos que não deixam as suas rainhas mexer uma palha desnecessariamente, isso é que era de louvar. Reparem todos e todas: para além das nossas profissões, temos ainda a nosso cargo todas estas tarefas e, sempre que nos despachamos mais cedo do emprego, lá vamos, cantando e rindo, buscar a criançada à creche, à escola ou à Universidade. Merecemos, portanto, um dia em nossa honra, dedicado aos que fazem do lar a sua segunda profissão. 
E porquê? Porque as nossas mulheres têm trabalhos exigentes, são profissionais de sucesso, saem cedo e entram tarde em casa, têm mil reuniões, viagens de negócios, cursos de Relações Públicas, Webinars, Cabeleireira, Manicure, Missa, dão Catequese, trabalham pro bono em várias instituições de solidariedade, vão às compras duas vezes por semana a Lisboa. (Antes da pandemia até iam, num saltinho, beber um café a Londres com as amigas.) Muitas têm ginásio e cenas de Pilates ou lá o que é… Então, há que respeitar tudo isto, incentivá-las a nunca desistir dos seus sonhos e, assim, Elas (com e maiúsculo) talvez assinem também a já aludida petição que eu pus a circular na Internet. 
 No passado Domingo, a Fofa abriu o meu computador, enfiou lá a minha palavra-passe e leu calmamente este meu texto, antes de ele ser enviado à D. Maria Manuel. Ontem já consegui beber leite por uma palhinha. Hoje, acordei menos dorido dos maxilares e já consigo dizer, mas baixinho: “Viva o Dia 9 de Março!” 
Homens da minha família: uni-vos e, por favor, não me deixem só. 




 2.ª Carta 
Querido Balú: 
Há muito tempo que te devia esta carta. Faz agora um ano que as relações entre nós se tornaram muito mais próximas. Vinte e quatro horas, vezes trinta dias, vezes doze meses, é tempo suficiente para que a nossa amizade se tenha transformado em algo mais terno, mais consistente e duradouro. Contudo, e sem pôr essa nossa relação em causa, comecei a sentir, aos poucos, que tu, querido Balú, assim como quem não quer a coisa, iniciaste um curioso processo de manipulação, levando-me a fazer-te todas as tuas vontades, sem reclamar ou sem manifestar o meu, ainda que raro, mau feitio. 
Semana após semana, mês após mês, comecei a perceber que estava a perder, claramente, a minha autoridade sobre ti e sobre os teus comportamentos. Começaste a comer mais vezes por dia, atrevias-te a pedir-me um petisco, primeiro, de vez em quando, depois, quase todos os dias, os sofás caríssimos de pele de camelo passaram a ser a tua cama neste longo Inverno, começaste a fazer xixi onde bem te apetecia, saltaste para o quintal da vizinha e destruíste as flores raríssimas (que eu tive de pagar) que ela tinha trazido da Tailândia, os pés das cadeiras desataram a ter a marca dos teus dentinhos… Quiseste morder ao carteiro… e eu deixei. Perseguiste o padeiro até ao Campo de Ténis… e eu aplaudi-te. Conquistaste, enfim, um lugar de destaque na hierarquia da Família e, ainda que o pessoal cá de casa me dissesse para eu ser mais duro, mais autoritário, mais intolerante contigo, eu nunca consegui fazer-lhe a vontade. Porque te amo e nunca quero que te falte nada. 
Já agora, obrigado por estares sempre disponível para o teu passeio higiénico, de manhã, à tarde e à noite. Se não fosse assim, eu já teria enlouquecido. Queres continuar a dormir no sofá de pele de camelo? Sim? Muito bem. Mas, como sabes, só podemos avançar com isso depois da meia-noite, que é quando os rabugentos vão todos para a caminha. 

Beijinhos, Balú. E vai-te preparando: o confinamento acabará em breve, assim esperamos, e vais passar a dormir na marquise, como dantes. Entre outras coisinhas, que a gente depois acerta.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2021

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Ou há democracia... ou comem todos

 


Ou há democracia...

Tem sido de loucos este tempo estranho, diferente e improvável. Há um ano, a nossa vida decorria dentro da normalidade, com os nossos problemazinhos de fácil resolução, com as nossas birrinhas por isto ou por aquilo, com as nossas zangas no emprego, porque o chefe gosta mais de ti do que de mim.

Meses depois de lançado o alerta, os dias tornaram-se iguais, mas para pior, salpicados a toda a hora por notícias que nos dão números, números e mais números, que nos põem a cabeça num rodopio, num deprimente enjoo sem limites. São os falecidos, os internados em enfermaria, os internados em UCI, os casos activos, os novos casos... São gastas desta forma as horas dos noticiários em todos os canais. Oferece-se ao espectador o que ele quer ver. É a lei da oferta e da procura aplicada aos tempos de pandemia. Vivemos para perceber o panorama do país em forma de gráficos, e ansiamos loucamente pela descida dos números. Contudo, vamos passear à beira-rio, ou, quem sabe, organizamos um jantar num determinado restaurante que diz descaradamente lutar pelo direito à liberdade, com a Grândola do Zeca cantada sem pudor pelos alegres convivas e num desrespeito absoluto pelo valor da democracia e, mais do que isso, pelo valor da vida. É um gozo displicente com quem se mantém em casa e um insulto a quem é obrigado a manter as actividades profissionais suspensas, em cumprimento das regras impostas.

Nada disto acontece por acaso. A ocasião faz o ladrão e má-na-sê-quê, não é? Costa é um primeiro-ministro tolerante. Costa é um primeiro-ministro de boa fé. Costa é um político fofinho. Este pai bonacheirão e o também fixolas avô Marcelo põem as autoridades a fiscalizar, a mandar parar as viaturas, a perguntar aos condutores se vão dar banho ao cão ou se vão dar farelos às galinhas, num galinheiro que fica mesmo ali à curva, a seguir ao moinho velho. “Vá lá, passe lá, vá dar comida às suas galinhas, senão elas morrem, coitadinhas”, diz o capitão da guarda com voz forte, mandando avançar para, educadamente, leccionar depois uma aula sobre civismo e comportamento ao condutor seguinte e à respectiva mulher, entretida a fazer umas botinhas para o neto que vai nascer daí a três anos. A justiça branda faz o povo rebelde, dizia-me o meu saudoso Pai, e diziam os sábios como ele, e começo a acreditar que assim é. Aliás, o que há… à vista está.

...ou comem todos

Nunca, em tantos anos de democracia e liberdade, se queixou tanto o povo. As lamentações sucedem-se em cascata, muitas vezes sem se saber exactamente porquê. Muitas nem sequer têm razão de ser. Partem de cidadãos que, devido à especificidade do seu emprego, estão em casa em teletrabalho, recebendo, e merecidamente, o seu ordenado por inteiro, sem que essa preocupação lhe afecte o raciocínio. (Sim, porque a falta de dinheiro afecta o raciocínio de qualquer um.) Pois estes queixam-se porque têm os filhos todos em casa, em ensino à distância, mais o seu querido cônjuge em teletrabalho também, mostrando que é preciso ter uma capacidade gigantesca para gerir computadores, quebras de Internet, refeições, banhos, horas de sono, trabalho e lazer (pouco). Terão as suas razões, naturalmente que sim. Relativamente.

Outros portugueses há que, também devido à especificidade do seu trabalho, se encontram neste momento… sem trabalho. Contudo, cumprem corajosamente as medidas impostas pelo Governo, porque não querem ser eles os responsáveis pelas infecções e pelas mortes que ainda poderão ocorrer, depois da lista já infindável, onde constam queridos amigos nossos que estariam vivos se não fosse o vírus e que partiram sem que os pudéssemos ter acompanhado à sua morada derradeira.

Dos mais atingidos estão, sem dúvida, todos os ligados à indústria hoteleira e à restauração, aos ginásios e ao desporto, ao mundo da estética e da moda, à música, ao cinema, ao teatro, ao bailado e a outras artes de palco, que se encontram hoje a viver, juntamente com as suas famílias, os momentos mais difíceis das suas vidas. Contas para saldar, ordenados para cumprir, empréstimos a dilatarem-se, rendas e impostos para pagar e a necessidade de comer todos os dias. Torna-se difícil gerir tudo isto juntamente com a ansiedade que os assalta pela incerteza do futuro e, mais do que tudo, se acrescentarmos a sensação de injustiça de que são alvo quando vêem alguns dos seus pares a desafiarem o Governo, a gozarem com as autoridades, no fundo, a assumirem comportamentos como se vivessem num país imaginário.

Esta gritante falta de solidariedade e de respeito faz-nos desejar aos infractores que nunca tenham de lidar com infecções ou mortes no seio das suas famílias ou nas suas relações de amizade. Faz-nos desejar ainda que, embora furem as regras, consigam depois ser encarados pelos outros como pessoas de bem e não como criminosos sem perdão. E quando digo pelos outros, refiro-me aos que perderam os seus rendimentos, aos que ficaram sem emprego, aos que não fazem concertos, cinema, teatro ou bailado há um ano, aos que deixaram de ter comida para dar aos filhos e a têm de ir pedir a uma associação benemérita. 

Os outros são estes.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2021

Distraídos crónicos...


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