quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

É por ti, é por nós




                                                     

       “A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

                                                                   John Donne, poeta inglês (1572-1631)


Quando éramos gaiatos de calções, armados de fisga (ainda não havia o PAN, inefável e cheio de boa vontade) e montados nas aranhas de rolamentos que desciam as ruas empinadas da encosta do nosso castelo, não pensávamos na morte. Era a vida que nos enchia a alma e o corpo magricela e desajeitado. A finitude do ser humano como homem ou mulher que, de carne e osso e em plena actividade quotidiana, um dia iria deixar de sê-lo, nunca nos passava pela cabeça arejada de putos sadios. Aventureiros, saudavelmente inconscientes, sempre cheios de planos e ideias (tantas vezes... parvas) preferíamos viver, ao vivo e a cores, “perigosíssimas” odisseias na mata do castelo, nos lugares mais recônditos do nosso rio Almançor, numa imitação quase perfeita dos nossos heróis a preto e branco preferidos - o Billy the Kid, o Tarzan, o Super Homem ou o David Crockett. Entretanto, não perdíamos tempo e escolhíamos a preceito as amoras mais maduras ou, imagine-se, estudávamos a forma mais engenhosa de rapinar uns figos ainda leitosos ou uns marmelos, cheios de penugem e acres, que nos acenavam constantemente dos quintais que eram, mas que infeliz coincidência, dos nossos vizinhos mais sisudos.
A morte era uma “coisa” distante, abstracta, escondida, tapada tantas vezes pelas nossas mães, quando do passamento de uma ou outra vizinha mais idosa, ou de uma nossa tia-avó já nos seus oitenta e tais. A morte era, portanto, e como os meus leitores sabem, quase tabu, propriedade exclusiva dos adultos e que só atingia, com o seu sopro fatal, os velhinhos e as velhinhas de cabelo branco e desdentados.
Com a morte do nosso primeiro familiar, normalmente e se os deuses estivessem de bom humor, o nosso avô velhinho ou a nossa avó, começávamos a sentir essa estranha nuvem que, aos poucos, e à medida que íamos crescendo, se ia apoderando do nosso quotidiano. Depois de um período de negação, que atinge toda a gente, acabaríamos por, ao longo da nossa vida, aceitar a morte do nosso Pai, da nossa Mãe, no nosso Irmão, do nosso Filho, esta última morando num espaço impossível de descrever, porque indizível a dor e amargas as lágrimas, por contrariar todas as leis da natureza e por nos fazer duvidar do sentido de justiça dos deuses que nos governam. Mas aceitamos. Com uma dor que não tem fundo. Aceitamos.
Quando começam a partir alguns dos nossos amigos, e já não foram poucos como isso, sentimos próxima a foice que, aleatória, vai segando tudo o que é vida. Tudo o que é seiva. Tudo o que é aurora e luz. Pouco importa a idade, de nada valem os hábitos, a profissão, os valores morais e humanitários por que pautámos a nossa existência. Não interessa a conta bancária, a fé, a miséria, a glória, os títulos. Todos, em fila, aguardamos a nossa vez. 

Recentemente, despedi-me, com outros amigos, de um homem de família, íntegro, boa onda, inteligente, solidário, preocupado, arejado... um homem que se sentia feliz por ver os outros felizes. E pensei nisto tudo que acabei de partilhar convosco, enquanto via desfilar perante o seu caixão as larguíssimas dezenas de pessoas que lhe foram dar o abraço derradeiro e que, com os seus filhos e a sua mulher, lhe prestaram a homenagem final.
E pensei também que, em miúdos, tínhamos brincado juntos, depois da escola, com grandes lancharadas à mistura, enquanto conquistávamos toda a Rua de Lavre com as nossas bicicletas e gritarias, com outros amigos, com o Miguel, com o Zé Miguel, com o João Arlindo... e que a felicidade era, nessa altura, o nosso nome do meio. E tive consciência plena de que as lágrimas que por ele deitámos nesse dia eram também por nós, numa dramática mas consciente antevisão da nossa própria partida.
E sim, Carlos Silvério, todos sabemos, e tu também sabes, que um dia voltaremos a brincar, todos juntos, como se nunca tivéssemos crescido.

João Luís Nabo, in "O Montemorense", Dezembro de 2017

Distraídos crónicos...

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