Cartoon: Adão Silva (Diário do Minho)
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Em
Dezembro surgiu uma notícia sobre uma escola no nosso país, cuja direcção
decidiu não manifestar quaisquer sinais exteriores de… celebração. Explicando
melhor e de forma clara: os planos para as habituais celebrações de Natal foram
cancelados. O motivo apresentado foi a necessidade ética e pedagógica de não
ferir as susceptibilidades de alunos e respectivos encarregados de educação,
originários de outros países e que professam religiões, crenças, ideologias
religiosas diferentes.
Não
entendi na altura e não entendo agora.
Teria
sido mais pedagógico pedir-se a todas as tendências religiosas representadas
nesse estabelecimento de ensino que comemorassem o Natal segundo a tradição do
seu país. E que, quem tenha outro tipo de tradições religiosas no decorrer do
ano, que as celebrasse sem qualquer constrangimento.
Todos
nós, educadores, devemos estar preparados para dar andamento às mais variadas
formas que cada grupo tem de celebrar as suas festas religiosas. O Papa
Francisco foi, talvez, dos papas mais ecuménicos de toda a História da Igreja
Católica. Chegou a altura de pormos em prática nas nossas escolas, nas nossas
cidades, nas nossas famílias, este conceito de ecumenismo, porque todos, todos,
todos deverão ser respeitados nas suas convicções. E os portugueses que
celebram o Natal também.
A nova ordem que começa a reger o mundo
onde vivemos diz-nos que qualquer governante de qualquer estado pode invadir um
país que lhe agrade, independentemente dos motivos, e raptar o governante, sem
qualquer interferência das instituições e organismos responsáveis pelo
equilíbrio e pela paz mundial, vergonhosamente encolhidos dentro do seu
casulinho.
O planeta não pode transformar-se no
recreio de um qualquer que, por ter brinquedos e dinheiro, pode brincar ao que
bem entende. As ameaças permanentes e diárias que caem sobre outros estados
soberanos é o reflexo de uma nova ditadura a surgir no horizonte, muito embora
os seus defensores lhe chamem uma democracia renovada. Não acredito em
democracias renovadas. Acredito na democracia, ainda que seja considerada por
muitos o sistema menos mau de vida e de governação.
Os
Estados Unidos da América, com a sua História, o seu desenvolvimento e
expansão, a sua cultura, o seu cinema e a sua literatura, exerceram desde
sempre um fascínio sobre mim, transformado de vez em quando em alguns trabalhos
académicos, sobretudo relacionados com a literatura. Muitos dos autores, quer
do passado, quer contemporâneos, profetizaram nas suas obras os tempos que hoje
vivemos. A América já não é “a terra das laranjas e do mel”, como lhe chamou
Nathaniel Hawthorne. É a terra do medo, onde a perversidade de um ser humano o
atrai cada vez mais para o abismo, como terá projectado Edgar Allan Poe, no conto
“The Imp of the Preserve”, comprovando que há no ser
humano uma força misteriosa que o empurra para o mal de forma consciente e
malévola, sem haver uma razão aparente.
O mundo é hoje, mais do que nunca, um lugar assustador onde deixou de haver um
refúgio, um lugar, um momento de alívio. Vivemos, de forma cada vez mais premente,
a era da paranóia, como nos alertou a australiana Teresa Brennan.
O
breve título deste desabafo não tem a ver com alguém desequilibrado, narcisista
e criminoso. É coincidência, acreditem. Significa apenas: Tarde Recuperaremos
a Unidade e os Meios para atingir a Paz.
Será
mais uma profecia, dirão. Talvez.
Os candidatos à Presidência da
República pareceram-me confusos no decorrer de toda esta actividade para
convencer o povo a outorgar-lhes uma confiança para cinco anos. Ouvi-los
descrever as suas posições, os seus desejos e as suas promessas foi a
mesmíssima coisa que ouvir um candidato a primeiro-ministro, sem tirar nem pôr.
A ajudar à festa, estendeu-se diante de nós, portugueses eleitores, um espectro
de palhaçada da pior qualidade que, de ser tão amplo, levaria o autor deste
texto a precisar do resto deste jornal para descrever e comentar os momentos,
os discursos, as entrevistas, os debates, os trivia mais ridículos,
nunca antes transmitidos pelas televisões e redes sociais acopladas. Um
sentimento de vergonha alheia prolongado e sem solução alargou-se, de uma forma
arrastada e penosa, no decorrer desta malfadada campanha, que só serviu para
evidenciar os defeitos, a incapacidade, a rebaldaria, a falta de profundidade de
ideias e de interesses, a leviandade, em suma, como os candidatos conduziram a
sua campanha, sem o mínimo respeito pelo país, pelas famílias, pelos
trabalhadores, pelos imigrantes, pelos eleitores. Os golpes baixos que alguns
deles desferiram, nestes últimos dias, contra os seus adversários, comprovam a
falta de ética e de sentido de Estado que poderiam muito bem começar a treinar
antes de ocuparem o Palácio de Belém.
Portugal acompanha a par e passo o
mundo que o rodeia: cheio de teorias falsas, ideias bacocas, promessas vãs,
tentativas iluminadas de galgar a escada do poder até chegar ao cimo, mentiras
governamentais sobre o estado da Saúde, o Ensino e a Economia (os pequenos
continuam a contar os centavos), despesas milionárias em armamento para a
Europa Central, quando continuamos com gravíssimos problemas para manter em
Portugal médicos, enfermeiros, professores, cientistas, artistas e outros que vão
tentar noutras partes do mundo ganhar um vencimento justo e garantir a si próprios
e às suas famílias um futuro sem dificuldades. Quando temos em Lisboa, no Porto
ou em Coimbra centenas de cidadãos a dormir na rua, vítimas muitos deles das
políticas deste e de outros Governos.
Não
há volta a dar a este destino que Camões tão bem descreveu na sua epopeia.
Somos assim: tristes, pobres, cobiçosos e… invejosos. O mais grave e vergonhoso
é o facto de não conseguirmos sair desta preguiça para alcançar esse estatuto
divino que nos poderia salvar. Queremos fama sem esforço? Morreremos sempre na
praia por culpa nossa. De mais ninguém.



