terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ouro, Incenso e Mirra

 


Cartoon: Adão Silva (Diário do Minho)

1

 Um Natal ecuménico

 

Em Dezembro surgiu uma notícia sobre uma escola no nosso país, cuja direcção decidiu não manifestar quaisquer sinais exteriores de… celebração. Explicando melhor e de forma clara: os planos para as habituais celebrações de Natal foram cancelados. O motivo apresentado foi a necessidade ética e pedagógica de não ferir as susceptibilidades de alunos e respectivos encarregados de educação, originários de outros países e que professam religiões, crenças, ideologias religiosas diferentes. 

Não entendi na altura e não entendo agora.

Teria sido mais pedagógico pedir-se a todas as tendências religiosas representadas nesse estabelecimento de ensino que comemorassem o Natal segundo a tradição do seu país. E que, quem tenha outro tipo de tradições religiosas no decorrer do ano, que as celebrasse sem qualquer constrangimento.

Todos nós, educadores, devemos estar preparados para dar andamento às mais variadas formas que cada grupo tem de celebrar as suas festas religiosas. O Papa Francisco foi, talvez, dos papas mais ecuménicos de toda a História da Igreja Católica. Chegou a altura de pormos em prática nas nossas escolas, nas nossas cidades, nas nossas famílias, este conceito de ecumenismo, porque todos, todos, todos deverão ser respeitados nas suas convicções. E os portugueses que celebram o Natal também.

 

 2

 T.R.U.M.P.

 

A nova ordem que começa a reger o mundo onde vivemos diz-nos que qualquer governante de qualquer estado pode invadir um país que lhe agrade, independentemente dos motivos, e raptar o governante, sem qualquer interferência das instituições e organismos responsáveis pelo equilíbrio e pela paz mundial, vergonhosamente encolhidos dentro do seu casulinho.

O planeta não pode transformar-se no recreio de um qualquer que, por ter brinquedos e dinheiro, pode brincar ao que bem entende. As ameaças permanentes e diárias que caem sobre outros estados soberanos é o reflexo de uma nova ditadura a surgir no horizonte, muito embora os seus defensores lhe chamem uma democracia renovada. Não acredito em democracias renovadas. Acredito na democracia, ainda que seja considerada por muitos o sistema menos mau de vida e de governação.

Os Estados Unidos da América, com a sua História, o seu desenvolvimento e expansão, a sua cultura, o seu cinema e a sua literatura, exerceram desde sempre um fascínio sobre mim, transformado de vez em quando em alguns trabalhos académicos, sobretudo relacionados com a literatura. Muitos dos autores, quer do passado, quer contemporâneos, profetizaram nas suas obras os tempos que hoje vivemos. A América já não é “a terra das laranjas e do mel”, como lhe chamou Nathaniel Hawthorne. É a terra do medo, onde a perversidade de um ser humano o atrai cada vez mais para o abismo, como terá projectado Edgar Allan Poe, no conto “The Imp of the Preserve”, comprovando que há no ser humano uma força misteriosa que o empurra para o mal de forma consciente e malévola, sem haver uma razão aparente. O mundo é hoje, mais do que nunca, um lugar assustador onde deixou de haver um refúgio, um lugar, um momento de alívio. Vivemos, de forma cada vez mais premente, a era da paranóia, como nos alertou a australiana Teresa Brennan.

O breve título deste desabafo não tem a ver com alguém desequilibrado, narcisista e criminoso. É coincidência, acreditem. Significa apenas: Tarde Recuperaremos a Unidade e os Meios para atingir a Paz.

Será mais uma profecia, dirão. Talvez.

 

 3

 
Presidenciais?

 

            Os candidatos à Presidência da República pareceram-me confusos no decorrer de toda esta actividade para convencer o povo a outorgar-lhes uma confiança para cinco anos. Ouvi-los descrever as suas posições, os seus desejos e as suas promessas foi a mesmíssima coisa que ouvir um candidato a primeiro-ministro, sem tirar nem pôr. A ajudar à festa, estendeu-se diante de nós, portugueses eleitores, um espectro de palhaçada da pior qualidade que, de ser tão amplo, levaria o autor deste texto a precisar do resto deste jornal para descrever e comentar os momentos, os discursos, as entrevistas, os debates, os trivia mais ridículos, nunca antes transmitidos pelas televisões e redes sociais acopladas. Um sentimento de vergonha alheia prolongado e sem solução alargou-se, de uma forma arrastada e penosa, no decorrer desta malfadada campanha, que só serviu para evidenciar os defeitos, a incapacidade, a rebaldaria, a falta de profundidade de ideias e de interesses, a leviandade, em suma, como os candidatos conduziram a sua campanha, sem o mínimo respeito pelo país, pelas famílias, pelos trabalhadores, pelos imigrantes, pelos eleitores. Os golpes baixos que alguns deles desferiram, nestes últimos dias, contra os seus adversários, comprovam a falta de ética e de sentido de Estado que poderiam muito bem começar a treinar antes de ocuparem o Palácio de Belém.

            Portugal acompanha a par e passo o mundo que o rodeia: cheio de teorias falsas, ideias bacocas, promessas vãs, tentativas iluminadas de galgar a escada do poder até chegar ao cimo, mentiras governamentais sobre o estado da Saúde, o Ensino e a Economia (os pequenos continuam a contar os centavos), despesas milionárias em armamento para a Europa Central, quando continuamos com gravíssimos problemas para manter em Portugal médicos, enfermeiros, professores, cientistas, artistas e outros que vão tentar noutras partes do mundo ganhar um vencimento justo e garantir a si próprios e às suas famílias um futuro sem dificuldades. Quando temos em Lisboa, no Porto ou em Coimbra centenas de cidadãos a dormir na rua, vítimas muitos deles das políticas deste e de outros Governos.

           

Não há volta a dar a este destino que Camões tão bem descreveu na sua epopeia. Somos assim: tristes, pobres, cobiçosos e… invejosos. O mais grave e vergonhoso é o facto de não conseguirmos sair desta preguiça para alcançar esse estatuto divino que nos poderia salvar. Queremos fama sem esforço? Morreremos sempre na praia por culpa nossa. De mais ninguém.

 

João Luís Nabo

 In "O Montemorense" - Janeiro de 2026 

Distraídos crónicos...


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