terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Três notas a correr

 


1

Ventura mais… seguro?

 

António José Seguro venceu as eleições presidenciais com uma larga margem em relação ao seu adversário. Oceanos de tinta já se escreveram, entretanto, em comentários, análises e artigos de opinião, numa tentativa de se perceber se Seguro venceu por mérito próprio, porque garantiu e convenceu ser o Chefe de Estado ideal e adequado ao perfil da Nação Portuguesa, ou se essa vitória esmagadora teve como base o medo (nunca pensei usar, um dia, esta palavra em contexto eleitoral, a não ser em textos de ficção) de dar a cadeira presidencial a alguém que pareceu, em todas as suas intervenções e actos públicos, não querer ter Portugal como elemento aglutinador de todos os seus cidadãos. A intenção de Ventura foi, antes de mais, garantir e reforçar a continuidade do culto do líder absoluto e aclamado pelo voto, um exercício que o "candidato" tinha vindo a praticar e a aperfeiçoar desde sempre no seio do seu próprio partido.

Se me é permitida uma opinião, que nada tem a ver com interesses ou preferências partidárias ou de candidato, Ventura nunca quis ser Presidente da República. Jamais foi esse o seu objectivo primeiro. O que ele pretendeu com este jogo eleitoral, que ele alimentou com desinformação e, muitas vezes, com insultos, foi apalpar o pulso ao povo e saber se tem condições para, daqui a três anos, se candidatar às legislativas. E ganhar.

 

 

2

A Geração de Cristal

 

Estamos a educar uma nova geração que nada tem a ver com todas as outras anteriores com quem convivemos e trabalhámos antes. São crianças e jovens a quem nada falta, que conseguem convencer os pais de que têm sempre razão nas suas exigências, que abrem a boca a pedir um telemóvel 5G e que, no dia seguinte, são presenteados com dois ou três, para não ficarem traumatizados. São defendidos pelos pais perante as asneiras que vão fazendo, independentemente de terem ou não razão. Esquecem-se de honrar o seu estatuto de estudantes e chegam atrasados às aulas, não levando muitas vezes os materiais necessários para cada disciplina. Ignoram os momentos de avaliação, recusando-se a ser avaliados em determinados parâmetros, faltam propositadamente aos testes, ou porque não estudaram, ou porque querem conhecer melhor a estrutura do teste ou a matéria que saiu… Deixaram de saber pensar, de exercer o seu pensamento crítico, ignoram o que é ler um livro, um artigo de jornal, assistir a um bom filme ou a um programa de televisão de qualidade. Não sabem nem querem saber como se faz uma investigação sobre determinado tema, deixaram de saber criar, perderam a capacidade de serem inovadores e inteligentemente desafiadores. E tudo isto apesar de todas as maravilhosas ferramentas que se encontram hoje ao seu dispor.

São a Geração de Cristal, porque são frágeis, pouco intuitivos, exigentes sem nada dar em troca, viciados nas redes sociais, alguns em jogos a dinheiro online, lentos nos raciocínios e nos cálculos, descuidados nas opiniões que libertam (quando as têm), incapazes de criar defesas e, por isso, medrosos em relação à vida, não percebendo que há limites que não devem ser ultrapassados e que há outros limites que o devem ser.

São a Geração de Cristal que, como qualquer objecto feito deste material, deverá ser colocada em cima de um móvel, à laia de bibelot, à vista de todos, mas intocável para não se partir.

É esta a geração que vai começar a exercer o seu direito de voto nas eleições que estão para vir. E é esse o meu maior medo.

 

Há excepções, claro, e eu tenho o privilégio de lidar diariamente com uma boa colecção de excepções que, mais sermão, menos sermão, percebem que o mundo que os espera fora da escola é duro e injusto, e que me dão a entender que conseguem chegar ao que os professores lhes tentam ensinar nas entrelinhas dos programas escolares, por vezes, estes também a necessitarem de mudança.

 

 

 

3

D. Maria Manuel

 

A D. Maria Manuel que era, para mim, a nossa Chefe de Redacção, faleceu no passado dia 1 de Fevereiro, deixando-nos mergulhados numa profunda tristeza. A sua exigência e o seu rigor transformavam a nossa colaboração num trabalho quase profissional e sem margem para falhas. Recebia mensalmente o texto do Cloreto, mandando-me sempre mensagem a confirmar que tudo estava em ordem e pronto a paginar.

Sabemos que “a Messe é grande e os trabalhadores poucos”, e que esses, apesar de poucos, se vão revezando no cultivo das extensas searas da Palavra e da Boa Nova. Por isso, temos a absoluta certeza de que tudo irá continuar. Mas temos consciência, no entanto, de que, sem a nossa carismática Chefe de Redacção, nada será a mesma coisa. Perdemos um elemento estruturante d’ “O Montemorense” e o seu nome ficará para sempre ligado ao mensário que ajudava a construir.

Cá estaremos para colaborar no que, e sempre que, for necessário. Aos Familiares e Amigos, ao Director e ao Administrador do nosso jornal, bem como a todos os meus colegas colaboradores, que todos os meses, de perto ou à distância, interagiam com a D. Maria Manuel, um abraço de sentidas condolências. 

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2026

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Distraídos crónicos...


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