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Ventura mais… seguro?
António José Seguro
venceu as eleições presidenciais com uma larga margem em relação ao seu
adversário. Oceanos de tinta já se escreveram, entretanto, em comentários,
análises e artigos de opinião, numa tentativa de se perceber se Seguro venceu
por mérito próprio, porque garantiu e convenceu ser o Chefe de Estado ideal e
adequado ao perfil da Nação Portuguesa, ou se essa vitória esmagadora teve como
base o medo (nunca pensei usar, um dia, esta palavra em contexto eleitoral, a
não ser em textos de ficção) de dar a cadeira presidencial a alguém que
pareceu, em todas as suas intervenções e actos públicos, não querer ter
Portugal como elemento aglutinador de todos os seus cidadãos. A intenção de Ventura foi, antes de mais, garantir e reforçar a continuidade do culto do líder
absoluto e aclamado pelo voto, um exercício que o "candidato" tinha vindo a praticar e a
aperfeiçoar desde sempre no seio do seu próprio partido.
Se me é permitida uma
opinião, que nada tem a ver com interesses ou preferências partidárias ou de
candidato, Ventura nunca quis ser Presidente da República. Jamais foi esse o
seu objectivo primeiro. O que ele pretendeu com este jogo eleitoral, que ele alimentou
com desinformação e, muitas vezes, com insultos, foi apalpar o pulso ao povo e
saber se tem condições para, daqui a três anos, se candidatar às legislativas.
E ganhar.
2
A
Geração de Cristal
Estamos a educar uma nova geração que nada tem a ver
com todas as outras anteriores com quem convivemos e trabalhámos antes. São
crianças e jovens a quem nada falta, que conseguem convencer os pais de que têm
sempre razão nas suas exigências, que abrem a boca a pedir um telemóvel 5G e
que, no dia seguinte, são presenteados com dois ou três, para não ficarem traumatizados.
São defendidos pelos pais perante as asneiras que vão fazendo,
independentemente de terem ou não razão. Esquecem-se de honrar o seu estatuto
de estudantes e chegam atrasados às aulas, não levando muitas vezes os materiais
necessários para cada disciplina. Ignoram os momentos de avaliação,
recusando-se a ser avaliados em determinados parâmetros, faltam
propositadamente aos testes, ou porque não estudaram, ou porque querem conhecer
melhor a estrutura do teste ou a matéria que saiu… Deixaram de saber pensar, de
exercer o seu pensamento crítico, ignoram o que é ler um livro, um artigo de
jornal, assistir a um bom filme ou a um programa de televisão de qualidade. Não
sabem nem querem saber como se faz uma investigação sobre determinado tema, deixaram
de saber criar, perderam a capacidade de serem inovadores e inteligentemente
desafiadores. E tudo isto apesar de todas as maravilhosas ferramentas que se encontram
hoje ao seu dispor.
São a Geração de Cristal, porque são frágeis, pouco
intuitivos, exigentes sem nada dar em troca, viciados nas redes sociais, alguns
em jogos a dinheiro online, lentos
nos raciocínios e nos cálculos, descuidados nas opiniões que libertam (quando
as têm), incapazes de criar defesas e, por isso, medrosos em relação à vida,
não percebendo que há limites que não devem ser ultrapassados e que há outros
limites que o devem ser.
São a Geração de Cristal que, como qualquer objecto
feito deste material, deverá ser colocada em cima de um móvel, à laia de bibelot, à vista de todos, mas intocável
para não se partir.
É esta a geração que vai começar a exercer o seu
direito de voto nas eleições que estão para vir. E é esse o meu maior medo.
Há excepções, claro, e eu tenho o privilégio de
lidar diariamente com uma boa colecção de excepções que, mais sermão, menos
sermão, percebem que o mundo que os espera fora da escola é duro e injusto, e
que me dão a entender que conseguem chegar ao que os professores lhes tentam
ensinar nas entrelinhas dos programas escolares, por vezes, estes também a
necessitarem de mudança.
3
D.
Maria Manuel
A
D. Maria Manuel que era, para mim, a nossa Chefe de Redacção, faleceu no
passado dia 1 de Fevereiro, deixando-nos mergulhados numa profunda tristeza. A
sua exigência e o seu rigor transformavam a nossa colaboração num trabalho
quase profissional e sem margem para falhas. Recebia mensalmente o texto do Cloreto,
mandando-me sempre mensagem a confirmar que tudo estava em ordem e pronto a
paginar.
Sabemos
que “a Messe é grande e os trabalhadores poucos”, e que esses, apesar de
poucos, se vão revezando no cultivo das extensas searas da Palavra e da Boa
Nova. Por isso, temos a absoluta certeza de que tudo irá continuar. Mas temos
consciência, no entanto, de que, sem a nossa carismática Chefe de Redacção,
nada será a mesma coisa. Perdemos um elemento estruturante d’ “O Montemorense”
e o seu nome ficará para sempre ligado ao mensário que ajudava a construir.
Cá
estaremos para colaborar no que, e sempre que, for necessário. Aos Familiares e
Amigos, ao Director e ao Administrador do nosso jornal, bem como a todos os
meus colegas colaboradores, que todos os meses, de perto ou à distância,
interagiam com a D. Maria Manuel, um abraço de sentidas condolências.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Fevereiro de 2026




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