terça-feira, 12 de maio de 2026

Da escrita e de livros memoráveis

 


Da escrita…

 

Há, cada vez mais, a prática do exercício de auto-censura prévia por parte de quem escreve e, imagine-se, até já está a acontecer no caso de alguns professores, que começaram a medir cuidadosamente cada palavra, cada conteúdo programático, que exibem perante uma turma.

No acto da escrita, uma acção sempre mais ponderada, com o desenvolvimento de ideias sobre as quais se reflectiu e que queremos partilhar com os leitores, o autor da mensagem tem mais tempo para decidir que palavra usar, que tema abordar, que comboio apanhar. É na tomada destas decisões que reside, muitas vezes, a angústia.

Por vezes, sentado em frente ao computador, com o objectivo de cumprir a minha missão mensal de alinhavar ideias para o Cloreto, ou de fazer uma qualquer publicação nas redes sociais, dou comigo a rejeitar algumas formas de abordagem, para que os salpicos possam ser mínimos para o meu lado. Depois, arrependo-me de tal gesto de cobardia e avanço para o teclado, sem reservas, sem palas e sem medo. Até um dia.

 

 

…e de livros memoráveis

 

Ler é um passatempo de excelência. Ler o mesmo livro, mais do que uma vez, seja um romance, uma novela ou uma mão cheia de contos, parece à partida incompreensível e desnecessário. “Está lido, lido está!”, dirão como justificação para o recolocar no seu lugar na estante para, certamente, de lá não sair.  

Há quem discorde deste divórcio depois de várias horas e, até, dias, de um casamento feliz. Porque, quando agarramos num livro, será para mantermos com ele uma relação de fidelidade que irá durar, pelo menos, o tempo da leitura. Em princípio. Contudo, a verdadeira magia de um livro, o profundo e sentido “plaisir du texte”, como lhe chamou Roland Barthes, estender-se-á para além da leitura, prolongando-se, algumas vezes, até ao fim da nossa vida. Ficamos presos. Aprisionados pelo tema, pelo enredo, pelo tom, pelas personagens, pelo estilo do autor ou, e este facto é inegável, pelo momento ou pelos momentos em que pusemos nele os olhos – um momento de felicidade ou de dor, de desespero ou de fadiga ou mesmo de indescritível pasmo. Circunstâncias únicas como as que nos levaram a conhecer a mulher da nossa vida, a assistir ao nascimento dos nossos filhos, a criar amizades tão para a vida como alguns livros que lemos e que nunca mais nos irão largar. As amizades e os livros.

Li O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights, no original), de Emily Brontë, pela primeira vez há perto de meio século. Desde então, já o reli quatro ou cinco vezes, com alguns anos de intervalo entre cada leitura. Estou, novamente, hoje, mergulhado nas ambiências góticas da história, situada no Yorkshire, na Inglaterra, no início do século XIX, agarrado às profundezas do amor e do ódio entre Catherine e Heathcliff, a beber o choque violento e destruidor, mas imprescindível, que as suas vidas imprimiram à sua volta. Estes dois seres, únicos na história da literatura vitoriana, cresceram juntos, em permanente desafio, confundindo-se com a dureza da paisagem das charnecas desoladas e varridas pelo vento, magistralmente descritas por Brontë, sendo neste cenário que floresce a paixão que os irá inexoravelmente consumir.  

Se é um exercício de violência, é porque são sentimentos nascidos do mais puro amor e da mais desassossegada e improvável paixão; se o entendo como imprescindível, o motivo reside no facto de, sem o caos criado à sua volta, sem o sofrimento em que sadicamente mergulham, página após página, capítulo após capítulo, não se justificaria o restaurar da Ordem. A ordem das coisas e da vida. O equilíbrio entre o ódio e o amor. A eterna, mas nunca ultrapassável, luta entre o Bem e o Mal.

De cada nova leitura, sempre à espera de novos sinais, de outras pistas, de pormenores escondidos, surge inevitavelmente mais profunda a relação entre as personagens, com os seus traços de personalidade, transgressores e cada vez mais expostos, ficando nós, os (re)leitores, de posse de uma maior consciência de nós próprios, das nossas glórias e misérias. E do possível limite da nossa sanidade mental.

O Monte dos Vendavais é dos tais livros que são como alguns amigos – para a vida, surpreendentes e sempre disponíveis para infindáveis releituras.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Maio de 2026

Distraídos crónicos...


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