Da
escrita…
Há,
cada vez mais, a prática do exercício de auto-censura prévia por parte de quem
escreve e, imagine-se, até já está a acontecer no caso de alguns professores,
que começaram a medir cuidadosamente cada palavra, cada conteúdo programático,
que exibem perante uma turma.
No
acto da escrita, uma acção sempre mais ponderada, com o desenvolvimento de
ideias sobre as quais se reflectiu e que queremos partilhar com os leitores, o
autor da mensagem tem mais tempo para decidir que palavra usar, que tema
abordar, que comboio apanhar. É na tomada destas decisões que reside, muitas
vezes, a angústia.
Por
vezes, sentado em frente ao computador, com o objectivo de cumprir a minha
missão mensal de alinhavar ideias para o Cloreto, ou de fazer uma qualquer
publicação nas redes sociais, dou comigo a rejeitar algumas formas de
abordagem, para que os salpicos possam ser mínimos para o meu lado. Depois,
arrependo-me de tal gesto de cobardia e avanço para o teclado, sem reservas,
sem palas e sem medo. Até um dia.
…e
de livros memoráveis
Ler
é um passatempo de excelência. Ler o mesmo livro, mais do que uma vez, seja um
romance, uma novela ou uma mão cheia de contos, parece à partida
incompreensível e desnecessário. “Está lido, lido está!”, dirão como justificação
para o recolocar no seu lugar na estante para, certamente, de lá não sair.
Há
quem discorde deste divórcio depois de várias horas e, até, dias, de um
casamento feliz. Porque, quando agarramos num livro, será para mantermos com
ele uma relação de fidelidade que irá durar, pelo menos, o tempo da leitura. Em
princípio. Contudo, a verdadeira magia de um livro, o profundo e sentido
“plaisir du texte”, como lhe chamou Roland Barthes, estender-se-á para além da
leitura, prolongando-se, algumas vezes, até ao fim da nossa vida. Ficamos
presos. Aprisionados pelo tema, pelo enredo, pelo tom, pelas personagens, pelo
estilo do autor ou, e este facto é inegável, pelo momento ou pelos momentos em
que pusemos nele os olhos – um momento de felicidade ou de dor, de desespero ou
de fadiga ou mesmo de indescritível pasmo. Circunstâncias únicas como as que
nos levaram a conhecer a mulher da nossa vida, a assistir ao nascimento dos
nossos filhos, a criar amizades tão para a vida como alguns livros que lemos e
que nunca mais nos irão largar. As amizades e os livros.
Li
O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights, no original), de Emily
Brontë, pela primeira vez há perto de meio século. Desde então, já o reli
quatro ou cinco vezes, com alguns anos de intervalo entre cada leitura. Estou,
novamente, hoje, mergulhado nas ambiências góticas da história, situada no
Yorkshire, na Inglaterra, no início do século XIX, agarrado às profundezas do
amor e do ódio entre Catherine e Heathcliff, a beber o choque violento e
destruidor, mas imprescindível, que as suas vidas imprimiram à sua volta. Estes
dois seres, únicos na história da literatura vitoriana, cresceram juntos, em
permanente desafio, confundindo-se com a dureza da paisagem das charnecas
desoladas e varridas pelo vento, magistralmente descritas por Brontë, sendo neste
cenário que floresce a paixão que os irá inexoravelmente consumir.
Se
é um exercício de violência, é porque são sentimentos nascidos do mais puro
amor e da mais desassossegada e improvável paixão; se o entendo como imprescindível,
o motivo reside no facto de, sem o caos criado à sua volta, sem o sofrimento em
que sadicamente mergulham, página após página, capítulo após capítulo, não se justificaria
o restaurar da Ordem. A ordem das coisas e da vida. O equilíbrio entre o ódio e
o amor. A eterna, mas nunca ultrapassável, luta entre o Bem e o Mal.
De
cada nova leitura, sempre à espera de novos sinais, de outras pistas, de
pormenores escondidos, surge inevitavelmente mais profunda a relação entre as
personagens, com os seus traços de personalidade, transgressores e cada vez
mais expostos, ficando nós, os (re)leitores, de posse de uma maior consciência
de nós próprios, das nossas glórias e misérias. E do possível limite da nossa
sanidade mental.
O
Monte dos Vendavais
é dos tais livros que são como alguns amigos – para a vida, surpreendentes e
sempre disponíveis para infindáveis releituras.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Maio de 2026



