sexta-feira, 20 de junho de 2008

Crise (bem) instalada

Foto: Fornos crematórios de Auschwitz




Não são necessárias catástrofes naturais para fazer estalar a crise. Basta um Governo que queira pôr o país no lugar, depois de três décadas a vivermos a balões de oxigénio com as esmolas da Comunidade Europeia, algumas delas muito bem aproveitadas por alguns.
Não precisamos de inundações, de guerras ou de epidemias para conhecermos o sabor da crise. Basta haver obras megalómanas e desnecessárias que delapidem o erário público. Basta haver brutais e contínuas fugas ao fisco, derrapagens vergonhosas em obras gigantescas como a Expo, os estádios de futebol e os túneis dos marqueses e de mais não sei quem. E as outras “fugas” que ainda estão para vir, com o TGV e o aeroporto.
A crise estala como estala o verniz das senhoras de bem que tropeçam e dizem, inadvertidamente, um palavrão. As medidas que Sócrates tomou para acabar com os problemas da nação ainda os puseram mais em evidência. Temos de admitir que não é ele o responsável pelo estado de coisas em que nos encontramos, mas, ao impor reformas em catadupa, as coisas ficaram num estado ainda pior. Ao expor despudoradamente a crise diante de nós todos, esqueceu-se que o Estado é um dos responsáveis por não ter dado fim a este problema há mais tempo. E se os políticos antes destes revelaram um enorme autismo por nunca terem tentado reparar o mal, os de agora mantêm a mesma incapacidade de ver que o país não aguenta tanta mudança em simultâneo. Sócrates quer servir o país, mas acho que se esqueceu que o país é, fundamentalmente, formado por pessoas. Pessoas e não números. Pessoas que começam a não aguentar esta vontade férrea de querer mudar Portugal, cegamente e à força, depois de 30 anos de caviar, champanhe e dinheiro a rodos. Por aquilo que ouço dizer ao Eng.º Sócrates, fico com a sensação de que o Portugal dele não é o mesmo Portugal onde nós vivemos.
Os professores manifestaram-se e o Governo não ligou. Outros grupos profissionais mostraram o seu descontentamento e o Governo encolheu os ombros. Os pescadores paralisaram e o Governo sorriu. Os camionistas usaram do seu poder e pararam o país. Houve piquetes de greve, violência, justiça à solta nas estradas, mortes e camiões incendiados. Porquê? Porque Sócrates não percebeu as chamadas de atenção feitas com diplomacia. Sócrates só percebeu o uso da força bruta e ficou a saber que um camião TIR tem mais poder do que mil manifestações pela avenida da Liberdade. É pena que os professores não tenham carta de pesados.
As consequências de trinta anos de oportunismo e falta de visão estão aí e resumem-se a duas coisas fundamentais para a nossa vida: combustível e comida. De um depende a outra. O combustível começa a escassear, as prateleiras dos supermercados estão a ficar vazias e o povo, como acontece nestas ocasiões, fica histérico. Enquanto produzo este arrazoado de preocupações, o Governo ainda não se manifestou nem incluiu na sua agenda a necessidade de uma palavrinha ao povo. O poder não pode andar na rua. A liberdade de cada um não deve continuar a ser ameaçada. O poder do Estado tem de ser exercido. Afinal quem manda no país? Carolina Salgado? Pinto da Costa? Valentim Loureiro? Piquetes de grevistas? Quem assume a responsabilidade do morto e dos feridos? Quem assume a responsabilidade dos camiões destruídos? Das toneladas de bens estragados? A fama de intolerante de Sócrates não lhe está a servir de proveito. Os partidos da Oposição calaram-se. O Presidente da República calou-se (como de costume) e o povo já anda aflito sem saber a quem recorrer.

Portugal está agora com as feridas abertas, expostas a um qualquer abutre que se apresente como salvador da pátria. Se assim for, em breve Caxias, Peniche e o Aljube voltarão a ter utilidade. E o Tarrafal também. Hitler não tomou o poder de assalto. Foi eleito chanceler por um povo em desespero que punha lá o primeiro que lhe prometesse um bocadinho de felicidade. Sócrates tem os dias contados. Já não é Sócrates que me preocupa. É quem vier a seguir.
Esta pode mesmo vir a ser a minha última crónica sem passar pelo lápis azul.

8 comentários:

samuel disse...

Os bons toques de alerta são os que fazem estremecer a gente meio adormecida.
Como este!

kalikera disse...

Numa adaptação de boca anarca: O capitalismo roubou-lhes a virgindade.

Um bixo disse...

Eu devo concordar com o texto pois o povo tem uma noção de que o nosso país só entrou em crise desde que o socrates entrou para o governo, sinceramente também não gosto no sinismo presente na espreção do senhor e das suas intervenções pouco oportunas, mas, não foi ele que pôs o país no estado em que ele se encontra, não foi ele que criou o rifte entre pobres e ricos, isso já se prologa muito antes das Expos e dos Tuneis do Marquez, sinceramente desde os primordios de Portugal quanto nação não me lembro de qualquer governante eficiente que não comprometesse as nossas carteiras pelo bem da nação. Enfim nós não vamos ter um "D.Sebastião" durante algum tempo e não podemos esperar que venha um salvador da patria...o ultimo que se intitulava assim acho que caiu de uma cadeira...

kalikera disse...

Tens que explicar a fotografia que a malta é cega do neurónio; ainda hão-de pensar que é da Panificadora Estrela.

ZERO À ESQUERDA disse...

Pronto, Kalikas. Pensei que a legenda fosse tirar força à fotografia. Provavelmente, ela é mesmo necessária. Já lá está.

Anónimo disse...

Panificadora ????...

alto texto, Amigo!
já tivemos bem mais longe, de todas essas desgraças que aponta!...
abreijos

Anónimo disse...

o "anónimo" anterior é a vovó Maria, a do costume :)...

MonteMaior disse...

Excelente crónica do Portugal profundo

Distraídos crónicos...

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