sexta-feira, 27 de abril de 2012

A finura de um livro

Mão amiga fez-me chegar, em pleno cemitério de São Francisco, imaginem, um livro fino. Fino, porque não é espesso. E fino, porque é de um recorte literário pouco habitual para o qual o título, sugestivo porque estranho, nos remete de imediato: História de um assassino vulgar e outras peças.
            Os discursos fragmentados que formam a colectânea, vindos de narradores nos limites da loucura, são bem o reflexo da própria divisão, diria, esquizofrénica, a que o ser humano é submetido, não poucas vezes, no decorrer da sua existência, esta, muitas vezes, um percurso em permanente borderline.
Não são poemas, não são contos, não são ensaios aquilo que li. À excepção da peça de teatro propriamente dita, não sei o que são. Mas são literatura. Da boa.  A confrontar-nos com o que de pior nos desafia desde que nascemos: os nossos medos, a nossa consciência, a nossa impotência, ou incompetência, de não termos escolhido outros caminhos que não este que nos trouxe até ao hoje. “O corpo é que paga”, diz-nos a canção de Variações. A mente é que paga, diz-nos Rui Sousa, o autor do livro.
Destaco, apelando a uma leitura urgente, “História de um Assassino Vulgar”, “Fragmento-Salazar” e “As Máscaras”, pelo seu conteúdo forte, actual, nu, cru e desassombrado, de reprimidos que regressam em nossa constante perseguição pessoal e colectiva; e “Guerra de Tróia”, pela viagem crítica a um dos grandes mitos da nossa civilização.
 O livro é da Angelus Novus, editora de Coimbra, foi publicado em 2002 e não sei por que razão absurda não me foi possível lê-lo mais cedo. (Faltava a mão amiga.)
             O autor, que não conheço, nasceu em 1979, na cidade de Évora, tem raízes em Montemor-o-Novo, onde trabalha actualmente e, um dia, se ele concordar, lá teremos de trocar umas ideias sobre as palavras e sobre o que elas… escondem.

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