sábado, 16 de novembro de 2013

As escolas das tias são as melhores, tá a ver…?!!!





Quando leio os já tristemente célebres rankings, onde se posicionam as escolas do país, da melhor até à pior de todas, fico três dias a rir, mas de estupidificante tristeza, por perceber que os jornalistas levam muito a sério notícias destas, que são obrigados a veicular, e por verificar que a maioria dos portugueses acredita que aquilo é uma verdade verdadeira, uma realidade real e indesmentível.
Ora reparem lá, se fazem favor: então as escolas privadas, os colégios finos, cheios de nove-horas e má-na-sê-quê, onde andam os filhos e os sobrinhos das tias e dos tios, que têm massa de sobra, onde não faltam livros, nem papel para fotocópias, nem papel higiénico, não hão-de ficar à frente das escolas públicas? Nesses colégios só entra quem tem dinheiro para pagar as mensalidades. Esses colégios só são frequentados por alunos, cujo ambiente familiar é, de longe, diferente dos ambientes familiares de muitos dos alunos que frequentam as escolas públicas.
Não entendo a lata dos que fazem essas pesquisas e chegam a tais conclusões, assim, sem mais nem menos. Afinal, entendo. É porque não sabem rigorosamente nada do que se passa nas escolas públicas. Mas eu explico: nas escolas públicas, pagas com os nossos dinheiros, há alunos com bom ambiente em casa, com livros, com Internet, com pequeno-almoço todos os dias, a tempo e horas, com almoço e jantar, com pais e mães preocupados. Mas também há alunos com necessidades educativas especiais que não podem, nem têm, de fazer exames nacionais. Também há alunos de famílias desagregadas, alunos que não tomam o pequeno-almoço em casa porque, simplesmente, não têm o que tomar ao pequeno-almoço. As nossas escolas públicas também são frequentadas por alunos que não têm livros, porque o sistema económico familiar não o permite. Porque ou o pai ou mãe se encontram em situação de desemprego. Porque a escola ainda é o único lugar onde podem tomar uma refeição quente diária. (E não é preciso sair de Montemor para constatar este tipo de situações). E, depois, vêm-me esses gajos das estatísticas mostrar as notas dos alunos sem revelar, de facto, honestamente, o que pode originar esses resultados? E se fossem à fava? 
E há mais uma coisa. Uma investigação de um canal de televisão descobriu que, afinal, há colégios privados a receberem dinheiros do Estado, isto é, dinheiro meu e seu que, em vez de ser gasto naquilo que os nossos filhos precisam nas suas escolas, anda a ser gasto nas finesses da rapaziada dos privados. Desculpem, mas isto não se aguenta. Não admito que, na minha escola, comece a haver racionamento de materiais por falta de verba, quando essa verba é canalizada pelos mecanismos do Estado, pelos caminhos mais estranhos e ínvios, para as escolas das tias. Não admito. E estou a borrifar-me para quem discorde. Só posso concluir que este país e este Governo continuam a ser o que sempre foram desde há uma década a esta parte: uma vergonha sem regresso.

Não foi por acaso que Guterres, Durão Barroso e José Sócrates fugiram como o diabo foge da cruz.

3 comentários:

Anónimo disse...

Texto de grandes pertinência e actualidade, como de costume. Os meus parabéns, Professor. Estou totalmente de acordo.

E se me é permitido, ainda acrescentaria algo: o que falhou para termos chegado à situação em que um bem tão essencial como o Ensino se tem de debater com o racionamento de material? E quem diz ensino, diz, naturalmente, Saúde, por exemplo.

É como se ninguém tivesse previsto que um dia as coisas poderiam chegar a este ponto. Ou melhor...é como se tivesse fechado os olhos a essa possibilidade.

O que eu quero dizer é que talvez não se gastasse, por estes dias, a palavra "reajuste" se, de facto, tivesse havido um prévio...ajuste! Reajuste? Mas de quê, se não se ajustou no passado?

Não me venham dizer que a crise financeira e (posterior e consequentemente) o programa de assistência nos conduziram, de modo exclusivo a este caos. Fomos nós, que falhámos os "timings" de reformas; fomos nós, que agora as fazemos "à pressa" e porque a elas somos obrigados; e fomos nós, que esbanjámos ao mesmo tempo em que falávamos, pasme-se, em "progresso sustentável".

É pena termos chegado a isto.

Um forte abraço, e acreditemos que não será sempre noite.



Cloreto de Sódio disse...

É um facto. Reajustar o que nunca foi ajustado é a forma brilhante de continuar a atirar areia para os olhos de quem, agora, tem de pagar pelas barrigas cheias, de meia dúzia de nababos. E o Governo sabe. E o Tribunal Constitucional sabe. E o Tribunal de Contas sabe. E o Tribunal do Trabalho sabe. E os Ministérios sabem. E nós também sabemos. O nosso poder é ainda, e só, o voto e estamos a utilizá-lo muito mal.
Um abraço.

ana graça disse...

É bem verdade Maestro; cada dia sinto maior o aperto desta teia de de olhos cegos e desumanos que nos sufocam a voz e o sonho. Na minha escola, por enquanto ainda temos o papel higiénico, mas há já vários anos que somos nós, professores a comprar giz, canetas...
Resta-nos a revolta e o grito, tanto que ando rouca há muito tempo(o canto fica nas memórias antigas e queridas)

Abraço
Ana Isabel Graça

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