quarta-feira, 18 de junho de 2014

Dino, Paulo e... teatro do bom



Ah, teatro, e tal, Montemor tem tradição, e tal, e o Theatron é já um ponto de referência a nível nacional… Pois é mesmo. E, se ainda não o fosse, passava a sê-lo depois da sua última produção “O Coração de um Pugilista” do dramaturgo alemão Lutz Hubner, nascido em 1964.

Escrever sobre as capacidades camaleónicas de Bernardino Samina, o pugilista, é chover no molhado, porque ele consegue ser sempre cada personagem que interpreta. Assenta-lhe na perfeição a pele do velho pugilista reformado, saudoso dos tempos áureos da sua carreira e que conhece, por acaso do destino, um jovem “delinquente” a cumprir, por determinação do tribunal, um período de serviço social no Lar onde aquele vive, só e em delírio com as suas memórias.

O papel do protagonista acaba por viver, de forma indelével, da extraordinária contracena com um jovem actor, sobre quem já escrevi e de quem também sou amigo. O Paulo Quedas, que interpreta o jovem a cumprir o serviço social, cria, neste diálogo (a peça é um “simples” diálogo entre duas pessoas de gerações diferentes), uma personagem notável, sensível, rebelde, descontraída mas consciente do mundo que o rodeia e ameaça. Posso dizer que não poderia ter sido escolhido o par de actores mais adequado para a representação deste drama actual, com constantes alusões à solidão, ao desinteresse dos jovens pelos mais velhos, mas que também é um hino à esperança e à vida. Tanto um como outro são perfeitamente enquadráveis nas galerias das grandes personagens do novo teatro alemão.

Passámos ali por uma hora de aprendizagem. As personagens aprendem que, embora “retidas” pelos seus “crimes”, podem criar laços perduráveis e que não encontram barreiras nem na idade, nem no sexo, nem na morte eminente de um ou na longa vida do outro. E depois, para além do texto magnífico e brutalmente bem interpretado, tenho de falar no que não se costuma falar muito nestas ocasiões. Nos tempos. Nas pausas. Nos olhares. Esta trilogia “técnica” foi uma das tónicas da representação que veio acentuar, mais ainda, o profissionalismo dos actores, da encenadora Catarina Caetano, da assistente de encenação Sónia Setúbal e do luminotécnico/sonoplasta Nuno Borda D’Água. Uma equipa a não mexer.

Falta escrever que foi levada à cena nos dias 13, 14 e 15 de Junho, na black box do Cine-teatro Curvo Semedo, na minha cidade de Montemor-o-Novo, e que, se fosse eu que mandasse, partiria já amanhã em tournée até ao fim do Mundo.

In "O Montemorense" de 20 de Junho de 2014

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