quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Old friends





Quando começamos a perder seres que nos amaram incondicionalmente ao longo de toda a nossa vida e que, pelo sangue ou pela amizade, faziam parte indissociável de nós, do nosso ser, das nossas entranhas, do ar que respirávamos, tentamos, timidamente, encontrar formas de ultrapassar a dor, de minimizar o desgosto, de nos aproximarmos, discreta mas eficientemente, dos seus olhos, dos seus ouvidos, dos seus lábios. O ser humano, ainda que se diga sem fé, tem feito a sua vida, desde tempos imemoriáveis, como homem religioso que tenta encontrar noutra dimensão o que não encontra no mundo, na cidade, na rua onde vive. A certa altura, muitos afastam-se de uma prática religiosa, com maior ou menor intensidade, porque pretendem, com um olhar mais objectivo, tentar perceber a lógica do que, aparentemente, não tem qualquer lógica. Essa separação, quase sempre temporária, acaba, tantas vezes, por dar frutos. E é preciso começarmos a perder os que mais nos amavam para percebermos que o mundo pode ser mais do que terra, água, ar e fogo.

In "O Montemorense", Setembro de 2015

8 comentários:

samuel disse...

Sim... felizmente, também pode ser "feito" de textos como este...

olimpio rosa disse...

Meu caro amigo, obrigada pelo seu belíssimo texto, que concordo plenamente... "E é preciso começarmos a perder os que mais nos amavam para percebermos que o mundo pode ser mais do que terra, água, ar e fogo"... Eu acredito. Um abraço!

Cloreto de Sódio disse...

Um abraço, Samuel, amigo Olímpio e querida Adelaide! São muito generosos. Também gosto muito de vocês.

Anónimo disse...

Olá João

Gostei do teu texto pois veio mesmo numa altura em que eu perdi um gande AMIGO, o meu cunhado.
Acho que existe uma falha na Humanidade em não nos prepararmos e aceitarmos normalmente estas dolorosas separações.
Apesar de ser religiosa mas devido a acontecimentos, já deixei de ser praticante.
Gostava de saber para onde foram, onde estão, se os voltarei a encontrar....
Como finalizas: existe mais que Terra, àgua, ar e fogo. ONDE ESTÂO TODOS OS QUE TANTO AMAMOS?????
Beijos
Fátinha

Francisco disse...

Joni:
Li ontem, mas a horas tão impróprias que já não disse nada. Mas digo agora: gostei. Gostei do título e gostei do texto - quer separados, quer em conjunto. É um exercício de reflexão em torno da fragilidade da nossa condição, a que me associo de modo muito franco. Há amigos nossos - muitos - para quem estes problemas existenciais estão muito resolvidos: somos uma unidade de carbono e ponto final. Para mim e para meu grande mal, essa compreensão, apesar de tão simples, não me responde de modo satisfatório. Há dias folheei (obrigado à fila nos CTT) um livro do Padre José Tolentino de Mendonça (como se chama? não me recordo) que abordava, no seu registo habitual, alguns dos temas centrais da nossa inquietação existencial, e o da morte, a partir de um texto magnífico da Virgínia Wolf que reflecte de forma magistral o absimo de incompreensão e de dor que a perda acarreta. Por conseguinte, mais do que apenas em torno de meras questões teológicas, li o teu texto também numa dimensão profundamente humanista, que me convoca sempre para uma ética que não é paralisante já que o teu velho amigo pregado na cruz apela sempre a que eu caminhe, já que só caminhando se pode fazer o caminho e é logo aqui na Terra que a nossa salvação começa.
Um grande abraço.

Cloreto de Sódio disse...

Pois é, Francisco. Passamos a vida a reflectir nestas "coisas", porque nunca estamos satisfeitos connosco, com o mundo, com os outros. E há momentos de profunda solidão, em que mergulhados num abismo que parece sem retorno, acabamos por encontrar um rumo, ainda que incerto, como é habitual, que nos remete para uma realidade em que essas "coisas" começam a fazer algum sentido. Forte abraço também parav ti e obrigado por me leres.

João Bravo disse...

Obrigado João.

Cloreto de Sódio disse...

João:
Aquele abraço, à distância, mas sempre perto.

Distraídos crónicos...

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