sexta-feira, 15 de abril de 2016

Como num campo de flores




É incontornável o momento que se vive neste mês. Lembrar a acção dos militares de Abril, ocorrida há 42 anos, é perpetuar a vontade indomável de não querermos de novo no país uma ditadura, desumana como todas as ditaduras, onde os mais pobres não tinham voz, onde os mais ricos detinham o poder e o domínio sobre os outros e durante a qual foram perseguidos, presos e mortos muitos dos que ousaram levantar a mão contra o querido líder e o seu abençoado regime.
Houve exageros durante todo o processo revolucionário. É inquestionável. Profundos e irreversíveis, como acontece, desde sempre, em todos os processos revolucionários. Voltaram a cometer-se injustiças, quando se procurou, com todas as forças, inverter os papéis e se pensava que qualquer um poderia gerir o país, ainda que, para tal lhe faltasse as “habilitações” necessárias. Os que saíram magoados da Revolução, e sabemos que foram muitos, gostariam que tudo tivesse sido de outra maneira. Talvez até isso tivesse sido possível. Se, antes de Abril, o povo português não tivesse alimentado durante décadas uma vontade indomável de querer ser livre. Depois, tal como um rebanho, solto após anos de cativeiro, mediu mal a liberdade e acabou por repetir erros contra os quais tinha lutado. Nunca George Orwell* tinha tido tanta razão.

Mas como viver um novo estado de coisas se tal nunca tinha acontecido antes? Soltemos uma criança num campo cheio de flores e verificaremos que ela, no seu entusiasmo ingénuo e com a sua inexperiência de vida, vai acabar por colher uma grande parte, acreditando que, nas suas mãos, ou nos vasos e nas jarras lá de casa, elas venham a ter uma maior hipótese de sobrevivência.

*George Orwell, (1903- 1950) escritor, jornalista e ensaísta político inglês, autor de Animal Farm (O Triunfo dos Porcos), onde denuncia os exageros dos regimes totalitários e as consequências das revoluções contra essas formas de governo.


In "O Montemorense", Abril de 2016

1 comentário:

Anónimo disse...

(Re)visitar este texto é sempre gratificante para mim. No meio destes tempos de loucura, perturbação e desespero, é tão bom saber que existem mentes lúcidas como a do Professor que percebem que o caminho do herói não pode ser o de odiar cegamente o vilão, pois nesse caso eles não se distinguirão entre si. Obrigado Professor e um grande abraço.

Distraídos crónicos...

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