domingo, 17 de junho de 2018

Férias virtuais


Os nossos alunos vão começar as férias grandes. Dois longos meses sem aulas, sem a pressão dos testes e das avaliações, dos trabalhos e das muitas actividades extra-curriculares. E como vão ocupar eles esse tempo que, no nosso tempo, dava para tantas coisas…? A forma como decidem passar esses sessenta e muitos dias (mais de 650 horas de luz solar) resume-se a uma breve frase, a um conceito mais do que moderno: ligados ao telemóvel ou ao PC.  
Recentemente, li no Jornal de Notícias, as conclusões retiradas da prova de Expressões Físico-Motoras do ano lectivo passado e que concluíam que um terço dos alunos teve dificuldade em participar em jogos de grupo e que quase 50% não conseguiram saltar à corda ou dar uma cambalhota. Perante estes dados, constantes do relatório do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), o presidente da Confederação Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física, Avelino Azevedo, também ouvido pelo JN, referiu que a solução seria um maior investimento na disciplina de Educação Física no ensino primário. Acrescenta que deveria ser “repensado o modelo de ensino da Educação Física no ensino primário, idades em que se desenvolvem capacidades como o equilíbrio ou flexibilidade.”
Poderá ter muita razão este responsável pelo ensino da E. Física nas nossas escolas, mas as coisas não se resolvem só assim. Estes novos tempos (cliché com pujança), cheios de tecnologias na vida de todos os dias, no trabalho e no ensino, nas relações familiares e entre pares, têm vindo a afastar cada vez mais, e de modo assustador, toda a gente, e sobretudo os mais jovens, da prática natural do exercício físico.
Tenho por prática natural tudo o que não depende de uma intenção de mantermos a forma física, alinhando em caminhadas (muitas vezes forçadas) ou em sessões de ginásio. A prática natural de exercício era aquilo que os meus amigos e eu fazíamos todos os dias quando, nas nossas brincadeiras e aventuras, passávamos as horas sem escola a correr, a trepar, a jogar futebol, a explorar montes e vales, a lançar papagaios, a percorrer quilómetros de estrada montados em bicicletas a pedal, pesadas como tractores (sem capacete, claro…), a carregar fardos de palha ou a participar na apanha do tomate do senhor Emídio. Se bem as duas últimas actividades nunca tivessem tido a minha participação (era franzino e o meu Pai arranjava-me trabalho em algumas empresas comerciais da então vila), todas as outras em que me envolvi constantemente nunca me permitiriam fazer parte desse número de crianças que não sabem dar cambalhotas ou saltar à corda.
E de onde nos vinha o tempo para tudo isto (e ainda para estudar, comer, dormir e ler)? A resposta parece outro cliché, mas não há forma de lhe fugir: a televisão estava ainda a conquistar terreno, a censura não lhe permitia grandes angulares, não havia o jornalismo sensacionalista, Bruno de Carvalho ainda não tinha nascido e ninguém sequer sonhava que poderia um dia, quarenta anos depois, estar ligado ao mundo inteiro através de um aparelhómetro do tamanho de um maço de cigarros (desculpem lá a comparação politicamente incorrecta).
Pois é aí que bate o ponto: quem, hoje, prefere estar ligado ao mundo inteiro dessa forma, não tem disponibilidade para se ligar fisicamente e emocionalmente a quem vive ao seu lado, a quem mora na mesma casa, a quem frequenta a mesma escola ou a mesma esplanada de Verão. Não é possível ser-se competente a lançar papagaios, a saber pescar uma carpa boa e inteligente, a andar de bicicleta, a nadar, a correr, a ler, com a preocupação permanente e doentia de ir saber, de dois em dois minutos, quem anda a fazer o quê no FB, no Twitter ou no Instagram, contabilizar os likes que recebeu e compará-los com os likes que recebeu um dos “amigos” que publicou a mesmíssima coisa sem interesse.
E é este tipo de comportamento que leva as crianças a nunca adquirirem as competências físicas que lhes seriam naturais. É por isto e por causa dos TPCs.
Dos TPCs?, perguntarão. Pois! Muitos professores continuam a achar que os trabalhos de casa resolvem todos os problemas de raciocínio, de discernimento e de lógica que os alunos devem apresentar no final de cada ano ou de cada ciclo. E os professores, quase todos eles, pensam que a sua disciplina é a única que existe na escola e que, por isso, os alunos terão tempo para, em casa, praticarem demoradamente a matéria dada na aula. O interessante (e desesperante) é que, todos os dias depois de jantar, centenas de pais quebram a cabeça e perdem a paciência num processo desgastante de apoio aos filhos nestas tarefas, por vezes inglórias, após seis ou sete horas enfiados numa escola, os segundos, e depois de oito, nove ou dez horas de trabalho, os primeiros. 
Noutro tempo, os pais não tinham nem vagar nem competências para ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Os gaiatos faziam os trabalhos sozinhos e, depois (muito importante), iam brincar para a rua, sem vigilância parental ou policial. Aí, podia acontecer de tudo, para além das brincadeiras habituais: brigavam por uma bola, por uma maçã roubada ao vizinho Facas, esfolavam os joelhos, partiam as cabeças uns aos outros, para não falar de braços, dedos e narizes. No final de tudo, com o corpo em modo de mapa de nódoas negras, apertavam as mãos e continuavam amigos, sem que os pais soubessem ou quisessem saber das atribulações do dia. Sem queixas ao director de turma, aos pais dos envolvidos ou à polícia. Hoje, tudo seria diferente. Hoje tudo é diferente.

Os alunos das nossas escolas vão entrar de férias. Dois longos meses que vão aproveitar para, numa esplanada da nossa cidade, estarem orgulhosamente ligados ao mundo mas completamente afastados dos amigos que, com eles, foram para ali “conviver”.
“Publiquei agora uma foto minha a comer dois hamburgers ao mesmo tempo. Põe lá um like.”
“Done.”

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2018

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