quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Queria castanhas, a moça


Martinho, o nobre cavaleiro gaulês, militar do exército romano, que ofereceu metade da sua capa a um mendigo que morria de frio, abandonou a guerra e entrou para um convento, para longe das tentações mundanas. O dia em que se deu este tão simples mas tão nobre gesto foi a 11 de Novembro do ano 337 d.C. e é hoje celebrado com castanhas e água-pé.
Pois, no dia 11 que passou, fui, depois de almoço, dar uma volta pela cidade. “Compra-me umas castanhinhas assadas, que ainda temos ali uma garrafa de água-pé. Vamos dar seguimento ao que faziam os nossos pais… Tradição é tradição!”, gritou-me a Fofa, do quintal, onde tentava (sem sucesso) dar banho ao Balú, e esquecendo, por momentos, as três semanas de rigoroso regime alimentar.
Saí de casa e fui beber o cafezinho da praxe no António Quitério. “Quer o seu Poejo habitual?”, perguntou-me. “Não, António. Vou conduzir. Vou comprar castanhas assadas!”, respondi, quase eufórico.  E assim fiz.
Assim fiz, não. Assim quis fazer. Percorri (de carro, pois claro) a cidade de ponta a ponta, de lés-a-lés, de fio a pavio e não encontrei vivalma a vender uma castanha assada que fosse. Vieram-me logo à memória as recordações de infância e a barraquinha de uma senhora velhota de saias compridas e lenço na cabeça, mesmo junto ao Passo da Rua Nova, que vendia uma dúzia de castanhas por 10 tostões.
Voltei pesaroso… mas com castanhas num saco. (Eu não poderia desiludir a Fofa que, àquela hora, já devia estar mais molhada do que o próprio Balú). Não as encontrei numa esquina, quentinhas a estalar. Fui comprá-las, cruas, claro, a uma das superfícies comerciais da cidade cujo nome, Intermarché, não se pode dizer por causa das cenas da publicidade e má-na-sê-quê, e dirigi-me ao doce lar. Acendi a lareira da sala e, quando a coisa estava mais ou menos capaz, retalhei as castanhas, coloquei-as dentro de uma panela própria, pus-lhes sal e depositei aquele tesouro sobre as brasas da minha lareira. Liguei a televisão naquele Canal Zen que dá para a gente descansar um bocadinho e… adormeci.
Fui acordado violentamente pelo fumo negro e denso que invadia a sala. Eram as castanhas completamente transformadas em carvão que se tinham praticamente evaporado.
Ainda hoje, caros leitores, com o cheiro que se entranhou naqueles cortinados de veludo persa, continua a parecer que é dia de São Martinho naquela bendita sala. A Fofa é que não ficou lá muito pelos ajustes. Quando me ouviu gritar, aflito, como se tivesse despertado em pleno Inferno, apareceu-me, ligeiramente despenteada, com o Balú atrás dela, a sacudir água por todo o lado, e disse-me sem um sorriso: “Para a próxima vez, traz-me um pastel de nata.”
Não respondi.

João Luís Nabo
In O Montemorense, Novembro 2018

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