sábado, 13 de junho de 2026

Última carta a todos os meus alunos

 

 



Queridos alunos:

 Estou a escrever esta carta sentado numa das salas de aula da nossa Escola. Quis que o cenário fosse simbólico e que servisse para que todos, mas todos, desde 1986, quando comecei, se sintam abarcados por estas últimas palavras de quem viveu mais de quatro décadas numa espécie de Escola de Magia onde todos os truques eram possíveis para levar jovens a acreditar nas suas capacidades, por muito impossível que tal lhes parecesse, ou porque alguém lhes dissera, em tempos, que não valia a pena acreditarem.

Cometi erros, porque os humanos cometem erros. Por vezes, fui injusto, porque não compreendi bem os alunos, porque ignorei as suas angústias, porque não dei importância aos problemas que poderiam ter em casa. Para mim, o mais importante seria cumprir a planificação da aula, dar o programa, enfim, livrar-me da pressão que o sistema me colocava diariamente sobre os ombros. Com o passar dos anos, e sobretudo depois de ter dois filhos e uma filha, comecei a olhar para os alunos com outros olhos: uns olhos menos analíticos e mais de… pai.

Nem sempre os dias foram tranquilos, porque o desassossego que me fez levantar todos os dias para ir para a escola foi permanente e, quase, obsessivo. Pois, este professor que vos escreve veio do povo, de uma família de gente de trabalho que fez um esforço hercúleo para que o futuro professor fosse para a universidade, com o meu pai a trabalhar dia e noite e com a minha mãe a arranjar emprego como costureira para que nada faltasse ao filho querido que “ia ser doutor”. Foi esse preço que os meus pais pagaram, e cuja factura nunca me foi apresentada, que me deu uma carga imensa da responsabilidade que serviu de base ao que veio depois: à dedicação, à paixão, à busca incessante de conhecimento e, também, ao respeito que os meus alunos me inspiraram e, naturalmente, os pais e encarregados de educação, que quiseram sempre o melhor para os seus filhos e que tinham o direito de ter na sala com os seus filhos alguém que gostasse da profissão e que gostasse deles.

E quanto mais lia e estudava, quanto mais investigava nas minhas áreas de estudo, menos perdia de vista as minha origens e as lições que os meus pais e a vida me foram dando. E foi dessas lições que retirei o essencial que coloquei diante dos alunos, sempre com o objectivo de lhes mostrar a importância da honestidade, do respeito, da tolerância, da equidade, das oportunidades que todos devemos ter, depois de termos dado os primeiros tropeções. Tal como os meus pais e alguns bons professores me ensinaram, sobretudo a minha professora primária, a saudosa e querida D. Bia Mareco, que eu tentei imortalizar no meu romance “Sertório”.

Não fui nem melhor nem pior professor que muitos dos meus colegas que caminharam comigo neste universo nem sempre pacífico. Fomos equipa, respeitámos os saberes de cada um, partilhámos dores e alegrias e, felizmente, a maior parte estava comigo com o mesmo objectivo: o aluno em primeiro lugar. Depois, tratávamos da burocracia e das “tonterias” que os ministros se lembravam de lançar, sobretudo se eram novos no escritório.

Com a minha mulher, amiga, companheira e colega de profissão, aprofundei novas práticas pedagógicas e dei por mim a aplicar, ainda com mais certeza, um novo paradigma, ignorado durante décadas no nosso sistema de ensino: cada aluno é um universo e todos devem ter direito a uma aprendizagem e a uma avaliação justa e inclusiva, de acordo com as suas capacidades. Depois vieram colegas mais jovens, com novas ideias, sem preconceitos, libertos de ideias feitas e que me arrastaram neste últimos anos lectivos para um mundo mais livre, mais verdadeiro, onde confirmei que também eu, há 43 anos, me iniciei nesta missão “com todos os sonhos do Mundo” e que os mantive até à última aula, graças também a esses ventos do Norte e de outros quadrantes que, um dia, vieram para refrescar a minha escola e a minha vida.

 Queridos alunos: também vocês devem ter no coração “todos os sonhos do Mundo.” Nesta fase terminal da minha carreira, muitos alunos, sobretudo os alunos de gerações mais antigas, têm-me recordado algumas das minhas “máximas”, menos poéticas, é certo, mas que os faziam rir e também pensar. Uma delas era simples: “Para conseguirem chegar a Patalim têm de querer muito ir até Évora”. E penso que muitos entenderam o que lhes queria transmitir. Eu também quis ir muito, mas muito mais longe, mas fico feliz por ter ficado por aqui, onde me senti útil, a ver a Torre do Relógio sempre que me apetecia, a estar com os meus filhos diariamente e a colaborar na concretização dos sonhos dos alunos que nunca deixaram de acreditar em mim. Nem eu neles.  

Um abraço e votos de boas férias!

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             Aos ministros da educação que me azucrinaram a molécula durante 43 anos não deixo qualquer palavra. Não merecem o tempo e o espaço neste texto, porque o respeito que nutriram pela classe mais nobre de todas nunca foi devidamente acautelado e começaram a tratar-nos, desde há muitos anos, como escravos do regime. E eu, escravo nunca fui.

Muito menos do regime.

 João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2026

 

Distraídos crónicos...


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