terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O último resistente?



Não podemos avançar na escrita desta crónica sem sublinhar a importância de António Gervásio para a consolidação da consciência de classe dos trabalhadores montemorenses, em particular, e da democracia portuguesa, de forma mais abrangente. Faleceu a 10 de Janeiro, após, ao longo de grande parte da sua vida de lutador antifascista, ter sentido na pele as agruras de um regime ditatorial que lhe tentou calar a voz e a vontade sem, contudo, jamais o ter conseguido. António Gervásio acreditava profundamente nos ideais comunistas e foi por eles que se entregou, em toda a sua plenitude, com todas as suas forças, à luta por um Portugal melhor, livre e sem medo, quando a omnipresença de Salazar queria, à viva força (literalmente), silenciar os que acreditavam num futuro diferente.
Fui com a minha mulher dizer-lhe, em silêncio, o muito que o admiramos, e que ele, bem como outros companheiros – o João do Machado, por exemplo – iriam ficar para sempre na nossa memória. E na memória dos nossos filhos, porque é uma questão da qual não abdicamos. Foi por causa deles (e de muitos outros, do mesmo ou de outros quadrantes políticos) que, hoje, a minha mulher, eu e a prole que de nós nasceu respiramos todos os dias, de manhã à noite, o ar puro da liberdade.
Contudo, e porque nunca tenho a certeza de nada, dei comigo a perguntar a mim próprio: “E hoje? Os comunistas de hoje? Seriam capazes, nos tempos actuais (num contexto visivelmente diferente, é certo), de sacrificar a própria vida por uma causa tão nobre como a que levou os seus antecessores à prisão, à tortura e à morte nos calabouços da hedionda PIDE?”  
Gostava de acreditar que sim. Que os ideais continuam vivos, em espírito e em letra, e que, de punho erguido, ofereceriam, sem hesitar, a própria vida, para que outros pudessem, anos depois, beneficiar de uma verdadeira democracia e viver num país onde a justiça social e a política, transparente e séria, não passassem de palavras bem esgalhadas, fantásticas e extraordinariamente oportunas, para terminar este parágrafo.  



João Luís Nabo
In "O Montemorense", Janeiro de 2020

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