quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O pecado de Deus





Há dias deu por ele a caminhar, devagar e sozinho, em direcção à ermida da Senhora da Visitação. O tempo era ainda de Inverno, mas aquele dia, aquele dia exacto, tinha dispensado a chuva e o vento e, em seu lugar, o Sol, pregado naquele céu tão azul, abraçava Vila Nova e iluminava as muralhas ainda imponentes do velho castelo. Subiu a escadaria lentamente, saboreando cada passo que o levava mais alto em direcção ao templo. o, não foi pagar uma promessa, muito menos fazer um pedido ou alterar um compromisso assumido num momento de aflição. Foi, simplesmente, porque a hora de almoço era larga e sentiu (terá sentido?) uma força, cuja origem nem sequer tentara perceber, que o puxou até  a cima. Chegado ao cimo da colina, virou-se e enfrentou a vila. Gostou do que viu. Gostava sempre.

Deu por ele a empurrar a porta centenária, sempre entreaberta. Entrou e sentou-se na última fila (onde se senta habitualmente quando entra numa igreja), na penumbra silenciosa da capela. O espaço parecia-lhe vazio. Mas não. Quando os olhos, ainda cheios da luz do Sol, se habituaram àquela semiescuridão, viu um vulto junto ao altar-mor. No genuflexório da direita, mesmo aos pés da Virgem, notou a presença recolhida de uma senhora que rezava, concentrada, de cabeça baixa. O que estaria ela a murmurar? Que pedido? Que agradecimento?  ela o sabia. Era sério o momento e, por isso, ficou, descontraidamente, a olhar para ela, sentindo, não queria admiti-lo, um estranho desejo de estar  à frente, no lugar daquela mulher. Confirmou a vontade. Sim. Era um sentimento que poderia ser de… inveja, um pecado que há muito não cometia.

As pequenas chamas das velas,  em cima, tremeluziam por detrás da imagem e reforçavam o ambiente místico que envolvia aquele cenário tão… simples. A força silenciosa daquela mulher, que não conheceu logo, quer pela semiobscuridade do espaço, quer pela distância a que se encontrava, deixou-lhe o pensamento viajar para outros tempos, quando tudo era mais enigmático mas, paradoxalmente, mais claro.
Perguntou-se em silêncio se ainda saberia rezar. Achou que já o. Muitos anos se tinham passado desde a última vez. Tinha-se esquecido de como pôr as mãos, de como olhar para cima e imaginar Deus na parede do seu quarto, junto à janela, ou mesmo ao seu lado enquanto adormecia. Libertou um sorriso breve ao lembrar-se de como, nesse tempo, se sentia seguro e inexplicavelmente confiante. «Rezar é falar com Deus», asseguravam-lhe as catequistas, de quem tinha uma imensa saudade. Delas, do padre António, na sua constante impaciência pragmática, que ninguém tentava contrariar, dos pequenos amigos, do lanche (frugal e rápido, é verdade) depois da missa da primeira comunhão. Se rezar era (e é decerto) apenas e só isso ― falar com Deus ―, então esse diálogo entre Deus e este humano, frágil e feito do  da terra, Adão mil vezes renascido, acabaria por tornar-se difícil, por motivos na altura considerados fortes e inabaláveis. Razões que hoje teriam, provavelmente, a mesma força, embora numa nova era, e passados tantos anos, talvez houvesse tempo, ou maturidade, para o perdão pela Sua enorme mácula. Entretanto, para preencher aquele enorme vazio tinham aparecido outros deuses, outras divindades, novas certezas, bem mais materiais e bem menos, como diria, difíceis de compreender e aceitar…
Por estranho que possa parecer, a imagem da Virgem, no seu manto da cor do céu  fora, com aquela senhora aos s, cheia de  e humildade, fez com que sentisse saudades do Deus da sua infância, um constante companheiro de conversas, algumas ridículas aos olhos de hoje, muitas delas sublimes e inesquecíveis aos olhos de qualquer época. Mesmo assim, mantinha-se onde estava, firme, inabalável nas suas crenças cristalizadas de homem do novo milénio, querendo deixar para trás as suas discussões com Deus, os debates, as brigas, as fugas e os regressos, mas sobretudo o último diálogo, violento e tumultuoso, que ditara aquela zanga aparentemente definitiva, uma ruptura permanente, sem regresso possível.

Foi depois da morte de um amigo da sua idade, quase iro, impetuoso, bem-humorado, generoso, ambos na escola, com planos e projectos de longas vidas e famílias felizes. Morte inexplicável e injusta. Dor profunda e incurável. Um jovem quase adulto, iluminado, filho único. Cancro. Galopante. Nem tempo tinha havido para tentar a cura. Deus fora, afinal, um pai desatento e negligente. Outros, os que espalhavam o mal, os ódios e as guerras, continuavam  com bilhete de identidade vitalício e sem pai que os repreendesse. Depois de muitas discussões, com grimas e raiva à mistura, disse-Lhe que  não O queria como seu, que não precisava de um pai assim, omnipotente mas com defeitos.

Quando a senhora se levantou, ele, sem lhe apetecer grandes conversas, de forma quase automática, saiu da capela e dirigiu-se à escadaria que desaguava  em baixo, junto à estrada. No entanto, não a desceu. Esperou, curioso. A senhora, de cabelo prateado e pele morena, a rondar os 70 anos, saiu em passo lento e ficou de rosto iluminado logo que o viu. Desceu os três degraus que a separavam do terreiro e acenou na sua direcção:
 Não esperava encontrar-te aqui. Pelo menos para já!  Fez uma pausa, enquanto guardava o terço no bolso do casaco, e acrescentou: ― Não sabia que as minhas orações tinham uma força tão poderosa e um efeito tão… imediato!  Perante o seu contínuo silêncio, aproximou a face da dele e segredou-lhe:  Se Deus nos perdoa os pecados, também tu deves perdoar-Lhe o Dele.
Era a e, a sua, inteligente como todas as mães, confiante e simples como todos os sábios.

In “Outros Contos de Vila Nova”
João Luís Nabo
Editorial Tágide
Lisboa,

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Do Tempo e das Vozes






(À minha Mãe, in memoriam)

Fervilhar.
É o verbo que se passeia pela memória dos dias quando me olho, através do tempo, a atravessar o jardim com a minha mão esquerda, pequenina, embrulhada na da minha mãe. Cinco anos de quotidianos felizes a ansiar pelos sábados de manhã para agarrar no cesto e partir à descoberta neste templo onde as estações do ano comandam as modas e os paladares de quem lá entra.

Fervilhar.
É som que não é som. É um sentimento que começa ainda o dia não passa de duas, talvez três, pinceladas de madrugada. Primeiro, vozes soltas, meio sozinhas ainda, neste espaço vazio, gemendo, impando, dando ordens… Depois, mais vibrantes, frescas, timbres em contraponto dos vendedores que, num aumento gradual, ali misturam os duros dias ao sol, à chuva, ao frio, no campo, na lota, no matadouro, com as dores e os caprichos das donas de casa, as exigências das avós que vão à hortaliça para a sopa dos netos, os pedidos das criadas que não querem ouvir ralhar as patroas…

É um labirinto de cores, um caleidoscópio de caras. De novidades iguais e diferentes. De sorrisos, de esgares, da vida de todos os dias. Onde me perdia vezes sem conta, porque um quadrado confunde toda a gente, mesmo que se visite amiúde e se conheça cada erva que nasce por entre as lajes de granito pisado mil vezes. Estranho este labirinto, que não tem nem corredores, nem passagens secretas, espaço aberto onde todos sabem de todos, porque todos ouvem todos. Mas onde me perdia constantemente… Acabando por sair sempre pela porta por onde não entrara…

Talvez o lago, ao centro ― uma taça de mármore, com uma coluna ao meio a equilibrar uma bola fantástica a apontar para o azul, quando o há ―, fosse responsável por tal perda de referência. A perseguição aos peixes vermelhos, que se bandeavam nas águas claras e frias, era sempre o primeiro e único exercício físico possível naquele lugar. Depois de umas quantas voltas, ora para um lado, ora para o outro, para não entontecer, eis que acabava perdido, sem saber onde tinha pousado o cesto, sem saber da minha mãe, sempre atenta no olhar e nas palavras, entretida a falar com a D. Carlota do Julinho dos presépios, dos comboios eléctricos e dos balões coloridos, mal pairavam os primeiros acordes do Natal.

E, quando, a troco de um tostão, os vendedores me enchiam o pequeno cesto com duas ou três cenouras, três ou quatro vagens de feijão-verde, um molho de salsa e outro de hortelã, que deixavam um rasto de sabores adivinhados, eu sentia-me o petiz mais importante do planeta, talvez o mais feliz do universo.

Agarro com força estas memórias, como se fossem a mão da minha mãe, porque me sinto protegido, aconchegado, fascinado com o tal barulho das vozes que continuam a misturar-se em contracantos, salmodias e pregões. Sem nesse tempo perceber porquê, sentia que aquelas melodias iam fazer parte da minha vida e que se prolongariam muito mais do que durante aquela breve meia hora matinal. Só depois vim a entender o poder daquelas vozes, mais puras, mais belas, mais sinceras e convincentes do que muitas que mais tarde, por gosto ou missão, viria a escutar nas mais divulgadas oratórias, nas mais sublimes árias, em tantas óperas, densas e dramáticas, e no esplendor das cantatas de um tal senhor Bach.

A minha mãe continua fiel às orações da manhã:
― Quanto é este molho de espinafres?
― E o carapau do alto? – pergunta ainda, de banca em banca, porque a tradição vive naqueles olhos e naquela vontade sábia de continuar simples, a gostar das coisas simples. Sei que ainda me dá a mão, como se eu, homem feito, diminuísse de tamanho todos os dias, pegasse no cesto que ela me dera e, de moeda em punho, fosse eu o responsável pelas ervas de aroma que ainda hoje lhe enchem a casa de cheiros e de sonhos…

João Luís Nabo, Outros Contos de Vila Nova,                  
            (Editorial Tágide, Lisboa, 2010)

(Foto: Boa cama boa mesa)

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Torre


Foto: MANUEL ROQUE

          O calendário é implacável e não há deuses que o façam parar nesta sua vertiginosa viagem que nos arrasta e intimida. E lá vamos nós para mais umas semanas de férias, porque foi um ano complicado e todos merecemos um período de descanso. Todos?  Não me parece, mas também não me sinto motivado, neste momento de despedida, para desenvolver o assunto.
         Interrompemos as nossas actividades e marcámos uns dias com a patroa, com os pirralhos ou com os amigos e amigas, num local afastado do nosso domicílio habitual, da nossa rua e dos vizinhos de todos os dias. Temos de ver caras novas, pessoas diferentes, cenários alternativos aos que nos são oferecidos durante todo o ano na nossa cidade, na nossa vila ou na nossa aldeia. É importante visitar o país, dando preferência a novos locais (spots, como se diz agora), uns cheios de tradição a nível de eventos e de património histórico e arquitectónico, outros verdadeiros paraísos de férias, onde residentes e turistas se sentem confortáveis e confiantes até no ar que respiram. Localidades onde é um prazer viver uns dias em ambientes saudáveis, com gente arejada, onde podemos conversar sobre o que nos apetecer sem que apareçam os habituais defensores da moral e dos magníficos e intocáveis costumes a defenderem, tantas vezes, o que não é defensável. Por outro lado, há quem prefira voar para outros destinos, para a velha Europa, ainda a refazer-se das mudanças geo-políticas que tem vindo a enfrentar (e a assumir) nos últimas décadas; ou para o novo continente, onde tudo é grande, desde o vazio no cérebro do grande líder, passando pelas reservas dos tristes Nativos Americanos, até ao Empire State Building e ao deserto do Arizona, tão árido como o cérebro de muita gente que conhecemos.

          Contudo, há uma questão que tem de ser aflorada, ainda que ao de leve: o pessoal parte à conquista desse Portugal e desse Mundo, porque há necessidade de mudança e, mais importante ainda, sede de enriquecimento cultural, ou os seus objectivos são reduzidos única e exclusivamente ao desejo perverso de, através das redes sociais, mostrar aos amigos (e, principalmente, aos inimigos) onde estão/foram? E lá vêm colecções de selfies no FB ou no Instagram, para esfregar na cara de algumas gaivotas o nosso estatuto, a nossa carteira e, até, porque não?, o nosso bom gosto. Sabemos que há excepções, muitas excepções a esta regra estúpida, mas elas acabam por confirmar o que se vai observando por aí.

             Depois do passeio cá dentro ou lá fora, ou da estada na praia ou na montanha, há o regresso e o doloroso mergulhar na realidade do trabalho, no dia-a-dia das relações nem sempre assertivas. E, assim, voltamos a ter de calar algumas opiniões, ideias ou sugestões, porque a sensibilidade dos que não concordam connosco engorda com o passar dos dias. Lá seremos, durante mais onze meses, escravos do relógio, dos horários, da legislação e dos caprichos de alguns inefáveis iluminados que sentem inveja de não serem como nós e, ao mesmo tempo, medo de serem como nós. E pronto, é assim que tudo vai caminhando em direcção ao buraco final onde, aí, já ninguém terá razão sobre coisa nenhuma.

             Não terminem a leitura destas reflexões com um travo amargo de boca. Não quero levar isso na consciência quando partir para a Comporta ou para a Barragem dos Minutos, onde vou dedicar alguns segundos às Belas Artes da Pesca e algumas horas à Belíssima Arte de Bem Dormir a Sesta. Fiquem a saber, caros dez (onze?) leitores que a nossa terra é como se fosse a nossa Mãe. Se dela nos afastamos para respirar mais livremente outros ares, nem sempre são os oceanos, os lagos, as cidades, os monumentos, as praias ou as ilhas paradisíacas que nos atraem o verdadeiro objectivo das nossas férias. Reparem no meu caso, por exemplo: o que me leva, por vezes, a sair da minha cidade, nem sempre é essa tal vontade de ver e de viver temporariamente noutros cenários. É o prazer do regresso e, perante a visão sempre épica da minha Torre do Relógio, o sabor da indescritível sensação de pertença, de lar e de identidade feliz.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Julho de 2018

domingo, 17 de junho de 2018

Férias virtuais


Os nossos alunos vão começar as férias grandes. Dois longos meses sem aulas, sem a pressão dos testes e das avaliações, dos trabalhos e das muitas actividades extra-curriculares. E como vão ocupar eles esse tempo que, no nosso tempo, dava para tantas coisas…? A forma como decidem passar esses sessenta e muitos dias (mais de 650 horas de luz solar) resume-se a uma breve frase, a um conceito mais do que moderno: ligados ao telemóvel ou ao PC.  
Recentemente, li no Jornal de Notícias, as conclusões retiradas da prova de Expressões Físico-Motoras do ano lectivo passado e que concluíam que um terço dos alunos teve dificuldade em participar em jogos de grupo e que quase 50% não conseguiram saltar à corda ou dar uma cambalhota. Perante estes dados, constantes do relatório do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), o presidente da Confederação Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física, Avelino Azevedo, também ouvido pelo JN, referiu que a solução seria um maior investimento na disciplina de Educação Física no ensino primário. Acrescenta que deveria ser “repensado o modelo de ensino da Educação Física no ensino primário, idades em que se desenvolvem capacidades como o equilíbrio ou flexibilidade.”
Poderá ter muita razão este responsável pelo ensino da E. Física nas nossas escolas, mas as coisas não se resolvem só assim. Estes novos tempos (cliché com pujança), cheios de tecnologias na vida de todos os dias, no trabalho e no ensino, nas relações familiares e entre pares, têm vindo a afastar cada vez mais, e de modo assustador, toda a gente, e sobretudo os mais jovens, da prática natural do exercício físico.
Tenho por prática natural tudo o que não depende de uma intenção de mantermos a forma física, alinhando em caminhadas (muitas vezes forçadas) ou em sessões de ginásio. A prática natural de exercício era aquilo que os meus amigos e eu fazíamos todos os dias quando, nas nossas brincadeiras e aventuras, passávamos as horas sem escola a correr, a trepar, a jogar futebol, a explorar montes e vales, a lançar papagaios, a percorrer quilómetros de estrada montados em bicicletas a pedal, pesadas como tractores (sem capacete, claro…), a carregar fardos de palha ou a participar na apanha do tomate do senhor Emídio. Se bem as duas últimas actividades nunca tivessem tido a minha participação (era franzino e o meu Pai arranjava-me trabalho em algumas empresas comerciais da então vila), todas as outras em que me envolvi constantemente nunca me permitiriam fazer parte desse número de crianças que não sabem dar cambalhotas ou saltar à corda.
E de onde nos vinha o tempo para tudo isto (e ainda para estudar, comer, dormir e ler)? A resposta parece outro cliché, mas não há forma de lhe fugir: a televisão estava ainda a conquistar terreno, a censura não lhe permitia grandes angulares, não havia o jornalismo sensacionalista, Bruno de Carvalho ainda não tinha nascido e ninguém sequer sonhava que poderia um dia, quarenta anos depois, estar ligado ao mundo inteiro através de um aparelhómetro do tamanho de um maço de cigarros (desculpem lá a comparação politicamente incorrecta).
Pois é aí que bate o ponto: quem, hoje, prefere estar ligado ao mundo inteiro dessa forma, não tem disponibilidade para se ligar fisicamente e emocionalmente a quem vive ao seu lado, a quem mora na mesma casa, a quem frequenta a mesma escola ou a mesma esplanada de Verão. Não é possível ser-se competente a lançar papagaios, a saber pescar uma carpa boa e inteligente, a andar de bicicleta, a nadar, a correr, a ler, com a preocupação permanente e doentia de ir saber, de dois em dois minutos, quem anda a fazer o quê no FB, no Twitter ou no Instagram, contabilizar os likes que recebeu e compará-los com os likes que recebeu um dos “amigos” que publicou a mesmíssima coisa sem interesse.
E é este tipo de comportamento que leva as crianças a nunca adquirirem as competências físicas que lhes seriam naturais. É por isto e por causa dos TPCs.
Dos TPCs?, perguntarão. Pois! Muitos professores continuam a achar que os trabalhos de casa resolvem todos os problemas de raciocínio, de discernimento e de lógica que os alunos devem apresentar no final de cada ano ou de cada ciclo. E os professores, quase todos eles, pensam que a sua disciplina é a única que existe na escola e que, por isso, os alunos terão tempo para, em casa, praticarem demoradamente a matéria dada na aula. O interessante (e desesperante) é que, todos os dias depois de jantar, centenas de pais quebram a cabeça e perdem a paciência num processo desgastante de apoio aos filhos nestas tarefas, por vezes inglórias, após seis ou sete horas enfiados numa escola, os segundos, e depois de oito, nove ou dez horas de trabalho, os primeiros. 
Noutro tempo, os pais não tinham nem vagar nem competências para ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Os gaiatos faziam os trabalhos sozinhos e, depois (muito importante), iam brincar para a rua, sem vigilância parental ou policial. Aí, podia acontecer de tudo, para além das brincadeiras habituais: brigavam por uma bola, por uma maçã roubada ao vizinho Facas, esfolavam os joelhos, partiam as cabeças uns aos outros, para não falar de braços, dedos e narizes. No final de tudo, com o corpo em modo de mapa de nódoas negras, apertavam as mãos e continuavam amigos, sem que os pais soubessem ou quisessem saber das atribulações do dia. Sem queixas ao director de turma, aos pais dos envolvidos ou à polícia. Hoje, tudo seria diferente. Hoje tudo é diferente.

Os alunos das nossas escolas vão entrar de férias. Dois longos meses que vão aproveitar para, numa esplanada da nossa cidade, estarem orgulhosamente ligados ao mundo mas completamente afastados dos amigos que, com eles, foram para ali “conviver”.
“Publiquei agora uma foto minha a comer dois hamburgers ao mesmo tempo. Põe lá um like.”
“Done.”

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

O que faz correr o Zé?



Muitas coisas. Porque o Zé gosta de correr, nem que seja na Ecopista do Montado. De repente, quando nos preparamos para uma semana tranquila de trabalho, somos atacados em várias frentes com questões que viram a luz do dia, sabe-se lá como e sabe-se lá porquê. O que faz correr o Zé nestes dias de Sol e a ameaçar praia?
O Sporting e o seu inefável presidente, que não sabe bem qual a melhor maneira para destruir de vez uma Instituição Nacional, com os seus tiques de querido líder que o vão conduzir à desgraça total.  A ele e ao Sporting Clube de Portugal.
Fátima e o seu poder religioso, económico e social. A fé é, sem dúvida, o “material” mais sólido que leva o Zé a assumir que vale a pena acreditar, que há um Deus que o liberta e uma Senhora que o protege. A minha Mãe dizia-me, sábia e paciente, quando eu, meio gaiato, questionava a validade daquelas vontades, quase místicas, de percorrer o Santuário de joelhos: “Não fales sem saber. Ninguém sabe exactamente o desespero de cada um.” E cada vez que vou até lá, lembro-me destas palavras e fico-me, em silêncio, a respeitar os que acreditam.
Os fogos, o Verão, os Bombeiros, a Protecção Civil e as trapalhadas do ano anterior, que nem Costa nem Marcelo querem que se repitam. Não sei se vai ser assim. As queixas vão-se avolumando e as exigências de mais e melhores meios não param de chegar a quem de direito.
O Festival da Eurovisão, emitido a partir de Portugal, com uma organização exemplar, num espectáculo de televisão que nem parecia... português. A menina Netta e o seu brinquedo, uma das canções mais divertidas mas, ao mesmo tempo, mais musical e textualmente vazias, desde que Vasco da Gama cantou a canção do bandido ao Rei de Melinde. E  também o murmúrio incaracterístico nas vozes das representantes de Portugal... que ficaram no lugar que mereceram.
As maluquices do Trump com a mania, sempre renovada, de que os Estados Unidos devem continuar a ingerir-se nas políticas internas de outros países. Tal como um tal Adolfo de triste memória, também Donald quer o seu país maior e mais poderoso, dominante e desrespeitador dos direitos dos de dentro e dos de fora. E é um risco meter a colher entre Palestinianos e Israelitas.
O muro do Jardim Público cá da santa terrinha, que está agora enfeitado com um belo desenho a explicar aos munícipes como é que tudo aquilo vai ficar -  Jardim, Rua das Escadinhas, Rua de Avis - depois de pronto. Quero acreditar que o desenho não veio apenas para acalmar os ânimos do pessoal mais impaciente e que as obras vão mesmo começar na data prevista. Sabemos que os políticos sabem sempre falar a gosto do povo mas o povo não é parvo e parece que vai ficando farto de tanta conversa.
A falta de autonomia intelectual e cognitiva de muitos que só falam a favor do partido, seja ele qual for, e nunca, mas nunca, contra o partido, mesmo que algumas das linhas de orientação sigam contra a lógica e em direcção a um beco sem saída e mesmo contra os princípios da democracia.
Os roubos, as transferências, os off-shores, as luvas, os tráficos de influências de Sócrates e dos seus amigos. As linhas ténues entre o poder político e o poder financeiro, entre o futebol e a política, entre tudo isto e os indivíduos a cujas mãos se colam milhões e milhões sem parar.
O final do ano lectivo nas escolas, onde alguns intervenientes no processo ensino-aprendizagem viveram placidamente, como se estivessem a passar uns tempos num espaço de entretenimento e diversão. São estes que querem agora, muito perto do mês de Junho, ser levados a sério para que tudo acabe bem. Há quem não vá na cantiga.
A escolha do local onde passar férias, julgando que a economia vai ultrapassar os três por cento, satisfazendo o ego de quem pensa que a crise já passou. Se possível, um lugar onde as selfies tiradas com mar e céu, sol e dunas ao fundo saquem mais de mil gostos nas redes sociais.   

Mas nada disto hoje me interessa. Tudo é efémero. Até as corridas do Zé. Hoje, o que é mesmo importante é dar um abraço ao meu barbeiro de há trinta anos. O meu Amigo Manuel Parreirinha vai fazer 92 anos quando chegar Novembro... e comemora este ano 65 anos de carreira. E continua atento ao mundo, crítico, sensato, atencioso e um profissional de excelência. Parabéns e obrigado!

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Maio de 2018

quarta-feira, 18 de abril de 2018

25 para todos



A importância da Revolução de Abril, concretizada na madrugada do dia 25 desse mês, do ano de 1974, será sempre encarada como um marco que transformou radicalmente as vidas dos nossos pais, as nossas e as dos nossos filhos, resultado, sobretudo, de um profundo desejo de mudança, atravessado, após 48 anos de ditadura, nas gargantas e nas mentalidades dos portugueses. Mais de quatro décadas após essa data, quero continuar a acreditar que todos os sectores da sociedade e da política portuguesa a encaram como uma mais-valia para um futuro que se construiu para todos, sobre um passado cinzento, de miséria, de medo e de perseguições políticas.
Levarei comigo, quando me for embora definitivamente, a imponência das chaimites vindas de Estremoz, carregadas de soldados, descendo a avenida Gago Coutinho da então Vila Notável, nessa manhã clara e de esperança. Salgueiro Maia já as esperava em Lisboa. Essa imagem de determinação e vontade marcou de forma irreparável o rapazola de 13 anos que se dirigia para casa, aconselhado pela professora de Matemática, a minha querida amiga Jesuína Raposo, porque não estavam garantidas condições para o prosseguimento das aulas. Quando cheguei junto de minha Mãe, esta já ocupada na preparação do almoço, encontrei-a na cozinha, com o aparelho de rádio ligado, de onde saíam vozes de homens entrecortadas por músicas militares e cantigas de Zeca Afonso. Tinha os olhos maiores e o sorriso mais aberto, misturado com a insegurança, a desconfiança que a caracterizava e o hábito de muitas décadas de silêncio e algum medo. O meu Pai chegou depois e mostrou-se igualmente receoso: “Vamos ter calma, que isto ainda pode voltar para trás.” Todas estas palavras foram, nesse momento, muito vagas para mim.
Mas o que podia voltar para trás não voltou. Aos poucos e com o passar do tempo, comecei a enquadrar a Revolução num cenário lógico, com vozes, agora sonoras e destemidas, que tinham acabado de atravessar uma longa noite de silêncios e sobressaltos. Quando, no longínquo mês de Julho de 1970, no dia 27, a minha Mãe segredou ao meu Pai, após um noticiário da Emissora Nacional, “O homem já morreu”, eu, de ouvido alerta, perguntei-lhes: “Quem é que morreu?” O olhar aflito da minha Mãe confundiu-me. Pensei que tivesse sido alguém da minha família. A voz dela ainda me deixou mais sem rumo: “Não são contas do teu rosário. Não fales disto a ninguém. Vai brincar”.
Evitar pronunciar com todas as sílabas o nome de Salazar, a ausência de liberdade, o temer pelo futuro, a guerra colonial estúpida e sem sentido (como se alguma guerra tivesse sentido), tudo isso foi revogado e assinado com cravos nas metralhadoras e gritos de alívio e de desabafo e de euforia.

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Quarenta e quatro anos mais tarde, ao rapazola já crescido apetece-lhe escrever sobre alguma da desilusão que hoje o acompanha. Não em relação aos princípios e aos valores de Abril. Esses são intocáveis e estão bem arrumados na sua cabeça. Mas em relação à apropriação que alguns partidos, sobretudo os mais à esquerda, parecem fazer desse movimento e dessa Revolução.
Se bem que a clandestinidade e as lutas contra o regime ditatorial de Salazar e Caetano fossem, na sua maioria, protagonizadas por portugueses ligados ao Partido Comunista Português ou próximos dele e por simpatizantes ou militantes de outras forças de esquerda, a Revolução, com R maiúsculo, com todos os seus frutos, todas as suas consequências, boas e más, é de todos nós: dos de esquerda, dos de centro, dos de direita e dos que não se encaixam em nenhuma das opções anteriores.
Já era, pois, tempo de não se transformar uma celebração nacional e colectiva num comício político-partidário, onde o protagonismo de alguns se transforma no desconforto de outros. Assim, acredito eu, muito dificilmente será possível habitarmos livres “a substância do tempo” após aquele “dia inicial e limpo”.
Inicial e limpo.


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Abril de 2018


quinta-feira, 15 de março de 2018

O que estás a pensar, João Luís?







O que estou a pensar, Facebook?
Olha, estou a pensar que hoje não me levantei atrasado nem com dores de cabeça, com problemas gástricos ou crises de falta de ar; e também desliguei o rádio-despertador à primeira, sem entornar o copo de água e sem derrubar os quatro ou cinco livros que me vigiam o sono todas as noites.
Depois, enquanto tomei o meu duche matinal, a água não acabou e o gás também não. Na cozinha, o micro-ondas não fez efeitos especiais, com faúlhas e cenas, quando lá meti o leite a aquecer, e a medicação foi tomada com consciência do dever cumprido. A taça do Balú estava vazia e lá a enchi com uma dose suficiente para a sua refeição da manhã; continuou simpático, o bichinho, mas sem fazer habilidades de maior. A minha mulher levantou-se a horas, fez tudo a horas, tomou o seu pequeno-almoço de baixas calorias e saiu sem pressa para o emprego.
O meu carro pegou à primeira e tirei-o da garagem sem me roçar pelo muro, pelos arbustos ou sequer pelo portão ou pelo carro da vizinha que fica sempre ali estacionado resvés a minha entrada. O carro da minha mulher foi um luxo a pegar e também não houve acidentes que mereçam ser mencionados ou fotografados.
No emprego, os colegas saudaram-me todos com simpatia, houve tempo para um café e para actualizarmos um ou outro tema mais acutilante, relacionado com o Governo-toca-a-rir, com o Homem-selfie-vá-lá-mais-um-beijinho (que até é uma excelente dona de casa), ou com outra coisa igualmente de somenos importância.
Já notaste (oh, se notaste), Facebook que, até ao momento, não achei necessidade de fazer qualquer fotografia, nem minha, nem da Fofa, nem dos carros a saírem da garagem, nem do leitinho no micro-ondas, nem do Balú de língua de fora a babar-se todo, ao ver a ração da manhã a mergulhar na sua taça de metal de tamanho mediano comprada numa loja perto de si.
O almoço decorreu normalmente, também sem justificar fotos dos pratos acabados de chegar à mesa e, depois, todos emporcalhados, nem de nós, com caras de alarves, de papo cheio. A tarde foi uma tarde como as outras, desta vez com chuva, mas o que é se pode esperar desta altura do ano? E não, também não tirei fotos à chuva, nem às árvores a abanarem a guedelha, nem às nuvens escuras que sobrevoaram a cidade. Nem ao rio, nem ao Rio, nem a coisíssima nenhuma, nem ao Castelo, nem às ervas que enfeitam o Bairro da Che, nem ao Muro das Lamechices, nem aos prédios que estão quase a cair, no Centro Histórico da nossa cidade.
O jantar passou-se bem, com a família, e também não achámos importante fazer registo fotográfico das pataniscas da D. Domitília, que circulavam entusiasticamente de mão em mão, (é uma forma de dizer) boas, boas que até dói, nem da favada com chouriço, entrecosto e farinheira, feita cá pelo menino, paciente com a vida e com o fogão. Nem sequer houve fotos do menino com um avental oferecido pelo Compadre Chotas, há uns meses, numa noite de muita alegria (e que iria acabar no hospital), em casa da Isabel e do Zé. (Não, também não tirei uma foto ao Compadre Chotas, nem à médica que me assistiu, nem ao padre que me queria dar a Extrema Unção, comigo de olhos arregalados a olhar-lhe para a estola e para aquele aparelhozinho de prata que eles usam para atirar a água benta para cima dos pobres moribundos).
Ao serão, depois da cozinha arrumada, preparei o trabalho para o dia seguinte. Não houve fotos nem da esfregona, nem do pano da loiça, nem do fogão eléctrico a levar uma esfrega com um produto muito bom que parece gel de banho mas não é. Muito menos dos manuais de Inglês e de Alemão espalhados sobre mesa da copa, nem das fichas ou dos testes que vou ter que ver (Há-de ver quem?).
Tratados esses assuntos, televisão com eles. Pôr algumas séries em dia, ver os telejornais em diferido, já que em directo não foi possível, e dar algum repouso ao cérebro, cujo conteúdo, por esta altura, já está muito parecido com o gel que usámos para limpar o fogão eléctrico. Não há imagens minhas a ver as séries, nem poderão ver a minha cara de horror quando ouvi a Cristas a dizer que quer ser primeira-ministra, nem admirar o rosto seráfico da minha mulher a fingir que não percebeu o Jerónimo de Sousa que esteve, há pouco, há poucochinho, a falar contra o capitalismo, contra o capital, em defesa dos trabalhadores, do proletariado e de um país mais igualitário. Coisa que ele raramente faz.
Os filhos distribuíram-se pelos seus afazeres do serão, sem necessidade de fotos, nem em pose, nem sem ser em pose. Também não achámos bem fazermos imagens do pessoal em pijama, já mais tarde, a comer um iogurte com cereais, antes de subir para a caminha. Nem sequer ficámos com uma imagem da colher ou sequer das pantufas da Joana que são cinco estrelas, fofinhas e quentinhas que até apetece dormir lá dentro.
Acordei a Fofa, ainda a sonhar com o Jerónimo de Sousa, e lá fomos nós para a cama. Não há fotos da cama, nem dos últimos momentos antes de adormecermos. Ainda li umas páginas de um romance, pensei noutro que poderia muito bem começar a escrever e… apagámo-nos durante umas horas.

Como vês, Facebook, o meu dia foi o de um cidadão normal, igual a tantos outros, pacífico e sem nenhuma tendência para grandes chatices.
O que queres tu que mais te diga?

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O Muro das Lamentações






Sei que foi mera coincidência. Mas achei alguma piada à coincidência. Dias depois da publicação da minha crónica de Janeiro na minha página do Facebook, a Câmara Municipal publicava na sua página o projecto de requalificação do Jardim Público e da zona envolvente, com uma imagem da maqueta vencedora mais os orçamentos e tudo. Pareceu-me uma maneira de avisar os munícipes de que os responsáveis não estão esquecidos do grave problema e de que nem sempre é tarefa fácil definir e, depois, decidir o que fazer naquele espaço tão emblemático da nossa cidade.
A discussão não está, contudo, encerrada. Teremos sempre três grupos de opinião, já preconizados por Monsieur de La Palisse: os que concordam com o projecto aprovado, em que se apresenta um jardim sem muros, inserido no Largo (com inicial maiúscula, como em Manuel da Fonseca), numa resolução moderna para a questão; os que gostariam de voltar a ver o muro do jardim como estava antes, porque no nosso passado arquitectónico e na traça original dos edifícios e dos espaços públicos não se deve mexer; e os que tanto se lhes dá como se lhes deu e que, por isso, acabam nesta linha, ou na seguinte, os seus trinta segundos de fama, porque dos indecisos não reza a História.
Assim, terão razão os que querem o Jardim aberto ao Largo e, consequentemente, a todas as artérias que nele confluem. Um espaço aberto, com acessos práticos aos munícipes de todas as idades, transformando em verdadeiramente público o que nunca deveria ter estado claustrofobicamente “fechado” durante décadas e, nota importante, exibindo de futuro, e por inteiro, o Coreto, uma obra de arte de rara beleza de que muito nos orgulhamos e que muito pouco usamos.  Uma solução, afinal, que resolve, definitivamente, um problema grave que é o de haver sempre a possibilidade de, mais ano menos ano, mais chuvada menos chuvada, termos mais um pedaço de muro a cair de velhice sabe-se lá para cima do quê ou de quem. Outras cidades alentejanas têm apostado em projectos do mesmo género e os espaços abrem-se, como por magia, com menos barreiras, com mais luz, melhor visibilidade, menos perigo e mais conforto para os seus utilizadores.
E os que gostariam que o muro fosse reconstruído de modo a ficar igual ao que estava antes? Também podem igualmente exibir os seus argumentos. Comecem, então, por focar, e com toda a razão, o enquadramento do velho Jardim no Largo, tendo em conta a traça dos muros que circundam igualmente o Jardim dos Cavalinhos e a centenária Sociedade Carlista. O eliminar da cerca do espaço ao lado pode, portanto, suscitar dúvidas e hesitações que poderão estar mais ligadas ao sentido estético e ao respeito pela possível perda de identidade daquela zona. É-lhes legítimo justificar a sua posição, lembrando a necessidade de manter a imagem que desde sempre tem caracterizado a Praça da República (que todos conhecem como Largo do Almansor) e que, com a nova obra concluída, irá, eventualmente, transformar-se numa espécie de campo de batalha entre o Clássico e o Moderno, entre a História e o Futuro, entre a ideia de Progresso, reflectida na maqueta, e o pensamento dos que poderão ser comparados aos Velhos  do Restelo da nossa mais famosa obra literária.
Independentemente das opiniões, há uma verdade inabalável e indesmentível: quase dois anos passados sobre a data da derrocada, os montemorenses não querem esperar muito mais.
Agora, só nos resta saber se a publicação do projecto no Facebook, por parte do Município, foi para nos consolar e dar esperança em relação a uma intervenção a ser iniciada muito em breve, se foi para nos distrair ou entreter, enquanto se resolvem eventuais questões burocráticas/financeiras de última hora que irão atirar a remoção da trágica ferida para as calendas gregas. Aí, acho que vamos ter o caldo entornado.

João Luís Nabo, in "O Montemorense", Fevereiro de 2018

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)*



                                                      (Foto: Rádio Nova Antena)

Falar do que nos preocupa neste momento torna-se inútil, porque o momento é efémero, há muito que fazer e ninguém tem tempo para ouvir o que temos para dizer. No entanto, as palavras registadas continuam a ser a estratégia mais eficaz para, nem que seja daqui por cem anos, haver gente a ler o escrevemos hoje sobre o que nos preocupa. Digo isto, porque cada vez mais tenho a sensação, quase certeza, de que o que se diz hoje só é lido daqui a uns tempos, quando o que hoje nos preocupa já não tiver importância nenhuma, porque, na melhor das hipóteses, todas as questões foram resolvidas.

E o que é que me preocupa hoje? O que me impele a escrever estas linhas breves e despretensiosas, neste momento, igualmente breve? Para além de pensar nos naturais, e por vezes incontornáveis, contratempos domésticos, dou comigo a cismar com o mundo, com as catástrofes, os acidentes, as consequências da estupidez do homem. À porta do escritório (obrigado, Paul Auster) aparece-me um Trump, com as suas diatribes completamente loucas, um Putin, com o seu pragmatismo ameaçador, um miúdo mimado da Coreia do Norte, acenando-me com os seus caprichos nucleares, seguido de meia-dúzia de parolos com vénias e aplausos. Depois, passo para o país, o nosso, engalanado com as cores do optimismo, com um ministro das finanças que é presidente do Eurogrupo, com um ex-primeiro ministro que é secretário-geral das Nações Unidas, com um presidente da república que é um tipo fixolas e que sabe como agradar a gregos e a troianos; um país quase feliz, com sorriso de totó, por causa do défice que desce e do emprego que sobe e com uma Oposição aborrecidíssima, porque acha que não há muito para dizer. E António Costa confirma: se exceptuarmos os incêndios e as mortes, as perdas e a devastação, a Raríssimas, o BES, a EDP, as munições de Tancos, a expulsão antecipada da Procuradora, a eleição de Rio para grande chefe dos laranjas... está tudo nos conformes. E, atrás, lá vem meia-dúzia de parolos a aplaudir.

Depois, como se fosse uma águia, vinda bem lá de cima, sobrevoando a minha cidade, aproximo-me e vejo esta aldeia que se chama Montemor e que, apesar das últimas promessas eleitorais, continua a ter questões graves por resolver. Aponto, quase inconscientemente, os binóculos ao Castelo a precisar de intervenção; ao Centro Histórico com edifícios em ruínas, e onde, mais tarde ou mais cedo, vai acontecer o pior; ao muro do velho Jardim Público, esventrado como uma baleia já putrefacta que deu à costa quase há dois anos; às ruas e aos largos pouco tratados, onde se torna impossível caminhar em segurança, devido ao péssimo empedramento dos passeios, que mais parecem uma praia da Ilha da Madeira; às pinturas e colagens descaracterizadoras, em edifícios públicos; aos estacionamentos mal ordenados, que permitem que haja carros quase dentro das habitações de alguns munícipes; e, finalmente, ao rio, ao meu Rio, cada vez mais sujo, poluído e seco, numa agonia longa e sem solução por falta de vontade de quem mais pode.

Depois, aponto o meu olhar à alma dos meus conterrâneos e noto que houve tempos em que os sorrisos já foram mais abertos, porque era muito maior o orgulho que sentiam pela sua terra, pela cidade e pelo concelho, que deviam garantir emprego aos filhos e que não garantem, obrigando, todos os dias, a partidas para longe dos que, sem alternativa, vão procurar trabalho e outras vidas. Vejo a aflição dos pequenos comerciantes, cada vez mais sufocados pela concorrência desenfreada das grandes superfícies…

Reparo, por fim, no cansaço que começa a abater-se sobre todos nós e no metafórico (ou real) encolher de ombros dos políticos – mundiais, nacionais - que, claramente, não estão capacitados para resolver os nossos problemas com a urgência necessária e dentro do tempo útil que as necessidades exigem. Mas esses, ainda que importantes, ficam longe do nosso humilde alcance. Agora, os nossos, estes, de longe bem mais próximos de nós, deveriam ter para com os seus munícipes outro tipo de responsabilidade, para que, quem vier a ler, mais tarde, o que hoje escrevemos, possa dizer que Montemor é, finalmente, o espaço que merecíamos ter.
Bom 2018. A gente vai-se cumprimentando por aí. E falando destas coisas... enquanto pudermos. 


* Cântico Negro (José Régio)


João Luís Nabo, in "O Montemorense", Janeiro de 2018

Distraídos crónicos...


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