quarta-feira, 11 de novembro de 2009

As semelhanças das diferenças


Claro que não me esqueci. O tempo é que não foi muito e só agora recordo por escrito a queda mais famosa do século passado: a do Muro de Berlim, faz agora duas décadas. Estive lá há uns anos, com o Coral de São Domingos, quando fizemos uma digressão à Polónia, em 2000, que cantou num concerto improvisado debaixo das Portas de Brandenburgo. Durante a nossa visita pela cidade nada foi mais emocionante do que tocar e ver a mais célebre construção que dividiu, entre 1961 e 1989, uma cidade, um país, um continente inteiro. Homens o construíram. Homens o derrubaram. Ideologias que hoje podem coabitar pacificamente, serviram então para, durante anos, colar nos cidadãos adjectivos terminados em -istas quando, afinal, tantos "os de cá" como "os de lá" foram (e continuam a ser) vítimas de regimes, cujos erros são comuns e cujas virtudes nem sempre são as mais apreciadas.
Um regime totalitário é sempre um regime totalitário. Presos políticos são sempre presos políticos. Campos de trabalhados forçados são sempre campos de trabalhos forçados. O culto do chefe é sempre o culto do chefe. Interesses instalados são sempre interesses instalados. O terror e a miséria são sempre o terror e a miséria. Tanto do lado de cá como do lado de lá. Nestas coisas (e noutras) não há diferenças entre os chamados regimes de Leste e os auto-proclamados regimes ocidentais.  Mas se o Muro caíu, não o voltem a erguer. E aproveitem para derrubar outros muros que, entretanto, se levantaram. Há muitos Berlins que florescem por aí. É tudo uma questão de semântica e de simpatias. É tudo uma questão de poder e de estupidez.




5 comentários:

vovó disse...

Abaixo os muros! sejam eles quais forem (visíveis invisíveis...)!

beijocassss
vovó Maria

Anónimo disse...

joão luís
tens razão
não devem existir muros entre os humanos.
Mas contraditoriamente enquanto se festeja a queda desse,
a que me associo,
quantos, entretanto, se levantaram
e quantos outros subsistem ainda?
E olha que são muitos
e alguns recentes!

Mas tal como festeja aquele
(no qual também teve responsabilidades)
a ideologia dominante cala-se sobre esses...
Constrói-os,ajuda a construi-los e nada faz para os derrubar
cala-se, calam-se, como se não existissem.

Então, em que ficamos?!
Diga-se, que o Expresso trouxe uma larga reportagem sobre o assunto!

Sabes,
o difícil é os homens tiraram ensinamentos para o futuro.
Não retiramos ensinamentos da história!
Não há um constante debate pedagógico sobre o passado nas escolas e noutros espaços públicos, como deveria haver, já que o turbilhão do presente nos avassala, e assim as novas gerações acabam por fazer a sua própria experiência política no quotidiano em que vivem, deitando borda fora toda a experiência antes acumulada, por outros humanos.

Só com uma maior participação de todos na gestão da sociedade
tomada com nossa, por todos e cada um,
poderemos construir um novo mundo
mais igual, mais solidário, mais livre, menos poluído, menos perigoso, mais humano
em que outros humanos não morram de fome, de guerra, ou violência
tal como hoje acontece
em que continuamos a viver como se tudo isso
não fora verdade mas simples espectáculo,
já que acontece longe de nós
com imagens em directo
a que já não ligamos.

É esta a liberdade que a queda do muro representa e reclama?!
Não quero crer!
Não podemos deixar que assim seja.

Ainda haverá em nós, humanos,
um pingo de dignidade mínima
que enfim levante o género humano desta vida rasteira
em que vivemos,
junto ao chão,
quantas vezes como se rastejantes fôssemos?!

Acabaste por me fazer perder/ganhar algum tempo
nesta manhã em que faço 54 anos de vida,
dia de S. Martinho
dia da independência de angola
dia de armistício de grande guerra
mais um dia
em que a ideologia dominante, apesar da crise, continua, mais do que nunca,
a dominar o mundo.
Por isso esses outros muros, os seus,os que lhe são úteis,
não são derrubados.
Mas serão!

abraço para ti
fj

kalikera disse...

É tudo uma questão de inexistência de Deus.

Leonel Craveiro disse...

Parece-me é que vivemos cheios de muros por todo o lado e ninguém se digna em tentar derrubá-los.
Para quando a queda dos muros da corrupção, da hipocrisia, da mentira, da vergonha, da injustiça, do favorecimento, e tantos outros que a nossa classe governante teima em manter de pé?
A culpa, em parte, também é nossa, mas, pergunto eu, que podemos fazer contra esta máquina podre, velho, viciada e enferrujada?
Alguém me consegue dar uma resposta, "oculta", "freepórtica", "casapiana", "isaltinica", "felgueirista", sei lá?

ZERO À ESQUERDA disse...

Pois é, Kalikas! Terá sido Deus, caso exista, a criar o primeiro muro quando proibiu Adão de comer do fruto da Árvore do Conhecimento: o pecado dos não alinhados. Depois foi um ver se te avias de muros e muralhas, muitas vezes em nome desse Deus. Isto é uma coisa que me deixa muito chateado.

Distraídos crónicos...

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