terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Um texto para esta Quarta-feira de Cinzas


Há dias dei por mim a caminhar, devagar e sozinho, em direcção à ermida da Senhora da Visitação. Não, não fui pagar uma promessa, não fui fazer um pedido. Fui, simplesmente, porque a hora de almoço era larga e senti (terá sido?) uma força que me puxou até lá acima.

Dei por mim a entrar e a sentar-me na última fila (onde me sento habitualmente quando entro numa igreja), na penumbra silenciosa da capela. No genuflexório da direita, mesmo aos pés da Virgem, uma senhora rezava, concentrada, de cabeça baixa. Estive a olhar para ela com inveja… um pecado que há muito não cometia. A força silenciosa daquela mulher, que não conheci logo, quer pela semi-obscuridade do espaço, quer pela distância a que me encontrava, deixou-me o pensamento viajar para outros tempos.

Perguntei-me em silêncio se eu ainda saberia rezar. Achei que já não. Muito anos se tinham passado desde a última vez. Tinha-me esquecido de como pôr as mãos, de como olhar para cima e imaginar Deus na parede do meu quarto, junto à janela, ou mesmo ao meu lado enquanto adormecia. Sentia-me, nesse tempo, seguro e inexplicavelmente confiante. “Rezar é falar com Deus,” asseguravam-me as minhas catequistas, de quem tenho uma imensa saudade. Se assim era, e continuará a ser, decerto, então esse diálogo entre Deus e este humano, frágil e feito de pó, acabaria por tornar-se difícil, por motivos na altura considerados fortes e inabaláveis. Razões que hoje já não teriam a mesma força. Comecei, admito, a acreditar noutros deuses, noutras realidades bem mais materiais e bem menos, como direi… compensadoras. Mesmo assim, mantenho-me onde estou. Mas, acreditem, sinto saudades das minhas discussões com Deus, sobretudo das últimas que ditaram a nossa zanga aparentemente definitiva.

A imagem da Virgem, com aquela senhora aos pés, cheia de fé e humildade, fizeram-me sentir saudades do Deus da minha infância, um constante Companheiro de conversas, algumas ridículas aos olhos de hoje, muitas delas sublimes e inesquecíveis, aos olhos de qualquer época.

Quando a senhora se levantou, eu, sem me apetecer grandes conversas, de forma quase automática, saí da capela e dirigi-me à escadaria, que desaguava lá em baixo, junto à estrada. No entanto, não a desci. Esperei, curioso. A senhora saiu, em passo lento e de rosto luminoso. A oração tinha-lhe feito bem. Desceu os degraus e acenou na minha direcção: “Sentes-te bem? Não esperava encontrar-te aqui!”
Era a minha mãe, desconfiada como o são todos os sábios. 

(Nota importante: este texto não passa de puríssima ficção. Penso eu.)

16 comentários:

Belinha disse...

Será???
Não poderá ser um desejo, ainda no inconsciente, de Tréguas???
Não há um autor importante que estudou de que forma o escritor se revela através do seu duplo???
Não sei bem se é assim o tema do estudo...
Mas este texto ser só ficção???
Tenho dúvidas.

Belinha

Anónimo disse...

Caro Dr. João,

tocou naquilo que é o significado mais profundo da Quarta-feira de Cinzas!!! Gostei da sua partilha bastante clara e honesta. As discussões com Deus são sempre possíveis e fazem parte da caminhada... As tréguas... são permanentes, pelo menos da parte d'Ele. Quem sabe se esse companheiro não pede uma nova forma de fazer companhia, à luz do passado, mas com os contornos dos novos tempos?
Um abraço,
Padre Ricardo Cardoso

Anónimo disse...

Olá Maestro João, boa noite!
Se a ida à capela foi imaginária tem uma forte e doce convicção - digo isto porque era assim, foi assim que eu também aprendi a rezar! E as mães estão mesmo em todo o lado...
Lindas, essas casas que libertam a escadaria para a porta dos segredos !
A. Graça

Leonel Craveiro disse...

Cantei e rezei muitas vezes na Igreja da Matriz, também lá estavas, lembras-te?
Eu tenho a minha fé e acredito em algo divino, por vezes também não consigo acreditar em tudo aquilo que a Igreja defende e reitera, no entanto, na minha pequenez, acredito em algo e sinto-me bem na acalmia duma igreja quase vazia.
Quando posso, gosto de acompanhara filhota na Missa após a Catequese, com os escutas a animar a Celebração, vivem-se momentos de alegria e reflexão.
Já agora, adorei o texto.
Aquele abraço.

vovó disse...

bela mas puríssima ficção... (?)...

beijocasssss
vovó Maria

Cloreto de Sódio disse...

Belinha:
Falaremos mais tarde sobre as tuas... dúvidas.
Bjs.

Cloreto de Sódio disse...

Caro Padre Ricardo:
É bom "encontrá-lo" por aqui e poder reflectir consigo sobre estas questões, sempre tão importantes. Obrigado. Um abraço.

Cloreto de Sódio disse...

Ana:
Foi de facto a minha mãe que me ensinou a rezar. E quando dizemos que já nos esquecemos de tudo, naturalmente que isso não é verdade. O que aprendemos com a nossa mãe e com a nossa professora primária :))) são coisas que ficam para toda a vida.

Cloreto de Sódio disse...

Pois é, Leonel, estivemos lá, há uns bons anos e foi lá que aprendemos muitas coisas.
ABraço.

Cloreto de Sódio disse...

Vovó: Isto daria pano para mangas, não é? Bjs.

Maria de Fátima Matias disse...

Quem te viu e quem te vê!
Tu que até pensaste ir para padre...
Talvez esse passeio seja um sinal...
Bjs
Fatinha

Cloreto de Sódio disse...

Sabe-se lá por que não fui?
Abraços

kalikera disse...

São lindas as mães.

Falava eu também com Ele, num duplo pecado que era o ter que os inventar por os não ter. E parecer mal não comungar. E as sábias mentiras pecadoras eram sempre as mesmas (nunca tive jeito para mentir), que roubei açúcar à minha mãe, que tinha feito qualquer coisa à minha irmã, que tinha feito xixi na esquina junto aos pombos... E o padre Alberto castigava-me por estas terríveis invenções de pertença. Depois a malta cresce, percebe e fica contra.

E tem pena que assim seja.

Cloreto de Sódio disse...

As confissões eram sempre momentos importantes mas, ao mesmo tempo, de exposição ao Padre e a Deus. E isso era doloroso, porque sabíamos que daí a umas semanas lá estaríamos no mesmo local a confessar exactamente os mesmos pecados. O arrependimento durava apenas umas horitas! :)E como tudo isso hoje parece distante e, ao mesmo tempo, tão próximo!

Anónimo disse...

Olá, João !

(...) Esta amiga esteve tentada a entrar no blogue de 4ª feira de cinzas porque ,ao contrário de Vovó, sabe que não é pura ficção.
Há quase 19 anos atrás, outra mãe e esposa e amiga pediu com
o mesmo fervor o impossível e a outra Mãe ouviu...
Tal como tem ouvido milhares de milhares, mesmo fora da casa Dela...
Talvez o João se recorde, éramos só três: o meu amigo, a Constancinha e eu...
(...) O primeiro foi feito em profunda solidão e os que se lhe seguiram são tão frequentes que não acho justo roubar o precioso tempo do meu amigo. Mas saiba que está sempre no meu pensamento quando estou a agradecer...
Acredito que essa ida lá acima, a casa da nossa Mãe,não foi acaso....
Peço desculpa pela imperfeição do texto mas também eu tenho os
olhos húmidos e não consigo reler(...).
Abraaaaaaaço fooooorte para todos.
Os sempre vossos amigos
Jominha e Nobre

Cloreto de Sódio disse...

Jominha e Nobre:
Obrigado pela vossa visita e pela memória que guardam (guardamos) desses tempos terríveis mas que foram, a pouco e pouco, regressando à normalidade. Acredito que tenha sido a vossa fé a dar-vos a força que não encontravam cá em baixo. E os que têm fé encontram o sossego que os outros procuram. Eu continuo num enorme desassossego. :) Um forte abraço

Distraídos crónicos...

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