terça-feira, 13 de julho de 2010

Um poema para o caminho...

NUM MEIO-DIA DE FIM DE PRIMAVERA
(Alberto Caeiro)



Texto integral aqui: http://www.revista.agulha.nom.br/fp213.html

3 comentários:

kalikera disse...

Também tens esperança na historinha...? Já somos dois ateus de porta apenas encostada, como nas terras de gente de bem.

Carlos Olivença disse...

Já li e ouvi algumas vezes este texto... mas nunca entendi o porquê de quando em vez descaradamente se retirar a parte que o poeta "não deveria ter escrito"... mas pronto... o poeta é tão grande que permitiu ter as duas opções no mesmo texto... e como diria o Zeca... "...Haja versões que se quiserem... é a este que se chama um bom álibi, a criatividade..."

Cloreto de Sódio disse...

Pois é, Carlos, não acredito que o poeta tenha feito duas versões. Acredito mais que alguns fiéis vigilantes do regime pré-25 tenham decidido encurtar o texto, retirando a parte em que o poeta (tal como viria a fazer Saramago mais tarde)descrevia Deus com palavras nada simpáticas. Aqui ficam algmas das partes habitualmente retiradas, provavelmente com a desculpa de que o poema é demasiado longo:

VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera

(...)No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

(...)Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
(...)

Distraídos crónicos...

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