quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


Vem aí o acordo horto-gráfico. O projecto acabou por ver a luz do dia sem se saber porquê. De país colonizador e que imprimiu regras (religiosas, sociais, linguísticas, administrativas) aos povos de África e do Brasil (se bem, se mal, isso agora não vem ao caso), Portugal passa a país colonizado que vai ter de aceitar um acordo político, mascarado com as cores da fraternidade e a fingir um intercâmbio em nome sei lá do quê. Os Norte-americanos e os Britânicos nunca se incomodaram com as diferentes formas de escrever (e de falar) dos seus cidadãos. Os Espanhóis e os países da América Latina nem discutem essas diferenças. Só um país chamado Portugal é que teve a ideia peregrina de pôr o pessoal a escrever como os brasileiros e os africanos. Mais surreal do que isto foi a chegada de uns tanques de guerra para proteger aqueles tipos da Cimeira da Nato. É que essas armas de defesa só chegaram muito depois daquela cambada ter regressado a casa.
Devo confessar, desde já, que me vai ser muito doloroso e difícil abandonar a grafia do meu português e adoptar a forma de escrever de um tipo de português que, para mim, não passará de uma excepção a todas e quaisquer regras adoptadas há várias décadas. Vai ser o Inferno para quem está habituado ao português de Portugal. As televisões começaram a fazer passar no rodapé alguns títulos com a nova grafia e eu até fiquei agoniado. A nossa língua começou já a ser um objecto de violência para a qual não há adjectivos possíveis e suficientemente fortes que a classifiquem. Enquanto professor, ensinarei de acordo com a legislação. Enquanto cidadão que escreve por aí, não vou conseguir abdicar tão depressa da verdadeira língua portuguesa.
Por enquanto, é um choque. É como se me obrigassem, a partir de agora, a conduzir pela esquerda ou a atropelar velhinhas de andarilho nas passadeiras. É um sentimento de perda e uma vontade de voltar ao útero materno. Mas, como diz o outro, este é um problema menor em relação a outros bem maiores. Um deles é, por exemplo, a fome que muitas crianças começaram a sentir diariamente, problema que algumas escolas tentam ajudar a ultrapassar servindo refeições durante as férias. Pensando bem, para uma criança com fome é indiferente se ela é tratada pelos políticos como um sujeito exce(p)cional, um obje(c)to desprezível ou um mero complemento indire(c)to a quem não se dá condições para ser feliz.


10 comentários:

Anónimo disse...

com um aperto no coração... e garanto-lhe, que não é por causa do acordo ortográfico!
beijocassssss
vovómaria

Liebend disse...

Isto não é só a perda da nossa língua, é a perda da nossa identidade cultural! É um aborto que ninguém escolheu fazer e, ainda assim, não foi espontâneo mas provocado!
No horário de trabalho, vou ter de me obrigar a colaborar com este crime mas, de resto, recuso-me a usar a norma culta brasileira, pois aprendi e usarei sempre a portuguesa.

Anónimo disse...

Não me apetece aderir. Aliás, nem sei se consigo aderir!

Abraço

Leonel

Helena disse...

Pois é, Professor! Finalmente alguém que expressa exactamente aquilo que sinto em relação a este acordo! Vai ser doloroso, muito doloroso...Bjnhos

Anónimo disse...

Concordo e estou solidário consigo, pois também eu não utilizarei o novo acordo ortográfico.
Com o novo acordo ortográfico parece que não sei escrever e recuso-me de todo a utilizar o dito cujo!

Anónimo disse...

Quando fiz a primária, a minha Professora quase que entrava em desespero pelo facto de os alunos continuarem, apesar das repetidas repreensões, a escrever "acto" sem "c"...dar-se-á, no ensino primário já do nosso tempo, o caso contrário? Obviamente que é uma piada este (aclamado) Acordo Ortográfico. E para além de todos os inconvenientes que o mesmo certamente trará, como por exemplo, o facto de pessoas com os seus 50, 60 anos, que toda a vida escreveram "português", terem de se adaptar, sem mais nem menos, ao brasileiro, saliento que, a meu ver, apesar do que possa ser dito da nossa língua em termos de complexidade, ela é uma língua bastante "charmosa" e "elegante". E este Acordo só lhe retirará tais características. É pena.

Abraço

(n)Ana disse...

Hoje não podia ficar sem dizer nada...
Vou passando aqui e lendo de vez em quando. Mas hoje tinha que comentar.
Subscrevo total e absolutamente cada palavra (tirando apenas aquela parte do ensino pois não me calhou esse fado de ser professora - E acredito que não deve andar fácil...)
Esse acordo é um desatino e antes um desacordo. Difícil de entender como andou para a frente. Grrrr!
Continuação de boa escrita! Sempre à moda aAO (antes Acordo Ort.!)

Sira disse...

É mesmo verdade? É obrigatório? É ridículo! Tive uma colega na universidade que era brasileira e ela nunca se queixou da nossa maneira de escrever, nem nós da dela...não foi por escrevermos de modo diferente que não nos entendíamos! E eu a pensar que isto não dava em nada... Como dizia o Outro: "Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!"

Maria João Serrão disse...

Obrigada por estas palavras com que me identifico totalmente e que fizeram sair da minha garganta entupida um rugido de leão. Sinto a mesma dor em relação ao nosso Português, aprendido com tanto amor e valorizado até pelas suas dificuldades, mas, sobretudo, pelo que tem de genuíno e belo. Pela primeira vez me congratulo por não ser professor de Português pois acho que dificilmente conseguiria obedecer. A "inteligentsia" que determina tais mudanças sem fundamento não entende que uma coisa é o desgaste natural pelo uso de uma língua outra coisa são as mutilações que lhe são feitas arbitrariamente. Avivou-se-me a memória dos meus professores da primária que me fizeram conhecer e amar o Português. Para eles um gesto de gratidão e saudade, estejam lá onde estiverem.

Margarida disse...

Eu não adiro!

Distraídos crónicos...

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