terça-feira, 7 de julho de 2026

Três pequenas notas (e uma adenda)



Primeira

Quando vejo imagens desoladoras e dramáticas que nos chegam da Venezuela, da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, de Israel, do Corno de África ou de zonas do nosso país a sucumbirem aos terríveis incêndios que nunca mais têm fim, mais certo fico da nossa fragilidade e de como perdemos todo o poder, toda a atitude de seres supremos, toda a arrogância que define o nosso estatuto de animal racional e que, no fim de contas, é só de animal, porque de racional pouco temos. Milhares de mortos e de feridos, de desalojados, centenas de casas em ruínas, milhares de famílias destruídas. Só nestes momentos pensamos como somos pequenos e ineficazes.

Lisboa está plantada numa zona de risco sísmico, alerta feito vezes sem conta por especialistas na matéria, com previsão de tsunami e milhares de mortos como consequência da destruição massiva da cidade. Tal como aconteceu há 250 anos. Ainda ninguém levou a sério os avisos e andamos alegremente, respeitando sempre o perfil de idiotice e de irresponsabilidade da espécie lusa, a dizer uns aos outros: “Há-de ser o que Deus quiser!”

Há-de, há-de. Depois falamos, se cá estivermos para contar a história.

 

 

Segunda

Quando me apercebo da enormíssima “pancada” de Donald Trump e, consequentemente, analiso, ao de leve, o cérebro de todos os que o elegeram, falo para com os meus botões e pergunto: “Quando irá terminar o desfile de alarvidades, de decisões totalitárias, de inversões na lei e na ética de um país a celebrar 250 anos de independência? Quando, Donald, haverá alguém que ponha fim a toda esta loucura para o que Mundo possa finalmente ficar com menos um problema, um ‘contratempo’ que está em permanência a complicar todo o nosso quotidiano?” 

Assinada a Declaração da Independência, em Filadélfia, um texto redigido na sua maior parte por Thomas Jefferson, em 1776, este que viria a ser o terceiro presidente da nova nação, tudo levava a crer naquele espaço mítico, a terra “das laranjas e do mel”, como a terra de todas as oportunidades, conceito imortalizado por Ralph Waldo Emerson, quando escreveu: “America is another name for opportunity” (America é sinónimo de oportunidade), resumindo o velhíssimo conceito do Sonho Americano. Mas a História não nos tem mostrado isso.

Os Estado Unidos celebraram o 4 de Julho, e com muita legitimidade, continuando teimosamente a admitir que o Sonho Americano é possível, passando essa mensagem a todos os que acreditam que, para mudarem a vida e o futuro, basta pisarem o solo dessas terras abençoadas. (Trump não estará muito de acordo.)

Teresa Brennan (1952-2003) escreveu que vivemos “na era da paranoia”. Não conheceu esta filósofa e psicanalista o Trump que nós conhecemos, em plenas funções, a mandar e a desmandar no mundo inteiro. Um lunático multimilionário que transformou definitivamente o Sonho Americano no pior de todos os pesadelos. Um César, um Chanceler, um Presidente que quer conquistar o mundo, aproximando-nos, se não estivermos atentos, de um quarto Reich com todas as consequências que isso nos pode trazer. E tal poderá mesmo acontecer, resultado dessa loucura, antes impensável, perante a panhonhice da NATO, da ONU e da Comunidade Europeia. Espanta-me e assusta-me como pode isto acontecer no século XXI, depois de todas as lições que a História recente nos deu.

 

Terceira

Quando leio as catadupas de alertas e de queixas publicadas por professores, colegas meus, perante o enormíssimo erro do Ministério da Educação, chefiado pelo ministro Fernando Alexandre, no que se refere à correcção e classificação dos exames nacionais, pergunto-me onde estava o ministro com a cabeça quando decidiu, ele e a sua equipa, ser esta a forma mais adequada de classificação e avaliação dos exames que darão aos alunos o acesso ao Ensino Superior, nos cursos da sua preferência. Mas não vale a pena estar a chover no molhado e a repetir o que tem vindo a acontecer e a ser denunciado e comentado na comunicação social e nas redes sociais, casos muito bem explicados pelos professores, vítimas deste processo.

As desculpas dadas por Fernando Alexandre, o atirar as culpas para as direcções das escolas e para os professores revela, sem sombra de dúvida, um total desnorte e a sua tentativa de fuga às responsabilidades. Já correm notícias espalhando que os pais e encarregados de educação, sempre tão atentos à forma como os seus educandos são tratados pelos professores e pelo sistema, já estão insistentemente a pedir justificações e, mais do isso, soluções para tão grande e inenarrável imbróglio.  É o futuro dos seus filhos e educandos que está em causa e há que assacar responsabilidades e elas não são, tenho a certeza absolutíssima, nem das escolas nem dos professores correctores.

Quando este nosso jornal chegar às bancas, mais ou menos a 20 de Julho, já as classificações, segundo o ministério (agora nada digno de confiança) estarão afixadas e os alunos de posse de todos os dados para poderem candidatar-se às universidades, institutos e politécnicos. É o que diz o senhor ministro.

Não acredito que assim seja… mas oxalá me engane.

 

Adenda

O Coral de São Domingos chegou ao fim de mais uma temporada, a trigésima nona.  Os ciclos de 15 concertos, em Montemor e noutras zonas do país, continuaram a provar que o trabalho, o espírito de equipa, a resiliência e a amizade continuam a ser os ingredientes para que continuemos, 39 anos após a sua fundação nas instalações do Convento de São Domingos (daí o nome do grupo), a levar longe o nome de Montemor, sempre embrulhado nas vozes talentosas dos trinta e dois cantores.  

Vão começar a ser preparadas as comemorações dos 40 anos da sua fundação, que terão início em Janeiro de 2027. Um ano de muitos acontecimentos só porque uns amigos decidiram, num belo Sábado de Janeiro de 1987, cantar em grupo, sem imaginarem que viriam a ser, quatro décadas depois, e segundo os seus pares, a comunicação social e a opinião pública, uma das entidades culturais de referência do concelho e do Alentejo. 


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Julho de 2026

Distraídos crónicos...


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