Primeira
Quando vejo imagens desoladoras e
dramáticas que nos chegam da Venezuela, da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, de
Israel, do Corno de África ou de zonas do nosso país a sucumbirem aos terríveis
incêndios que nunca mais têm fim, mais certo fico da nossa fragilidade e de
como perdemos todo o poder, toda a atitude de seres supremos, toda a arrogância
que define o nosso estatuto de animal racional e que, no fim de contas, é só de
animal, porque de racional pouco temos. Milhares de mortos e de feridos, de
desalojados, centenas de casas em ruínas, milhares de famílias destruídas. Só
nestes momentos pensamos como somos pequenos e ineficazes.
Lisboa está plantada numa zona de
risco sísmico, alerta feito vezes sem conta por especialistas na matéria, com
previsão de tsunami e milhares de mortos como consequência da destruição
massiva da cidade. Tal como aconteceu há 250 anos. Ainda ninguém levou a sério
os avisos e andamos alegremente, respeitando sempre o perfil de idiotice e de irresponsabilidade
da espécie lusa, a dizer uns aos outros: “Há-de ser o que Deus quiser!”
Há-de, há-de. Depois falamos, se cá
estivermos para contar a história.
Segunda
Quando me apercebo da
enormíssima “pancada” de Donald Trump e, consequentemente, analiso, ao de leve,
o cérebro de todos os que o elegeram, falo para com os meus botões e pergunto: “Quando
irá terminar o desfile de alarvidades, de decisões totalitárias, de inversões
na lei e na ética de um país a celebrar 250 anos de independência? Quando,
Donald, haverá alguém que ponha fim a toda esta loucura para o que Mundo possa
finalmente ficar com menos um problema, um ‘contratempo’ que está em
permanência a complicar todo o nosso quotidiano?”
Assinada a Declaração da
Independência, em Filadélfia, um texto redigido na sua maior parte por Thomas Jefferson, em 1776, este que viria a ser o
terceiro presidente da nova nação, tudo levava a crer naquele espaço mítico, a
terra “das laranjas e do mel”, como a terra de todas as oportunidades, conceito imortalizado
por Ralph Waldo Emerson, quando escreveu: “America is another name for
opportunity” (America é sinónimo de oportunidade), resumindo o velhíssimo conceito
do Sonho Americano. Mas a História não nos tem mostrado isso.
Os
Estado Unidos celebraram o 4 de Julho, e com muita legitimidade, continuando teimosamente
a admitir que o Sonho Americano é possível, passando essa mensagem a todos os
que acreditam que, para mudarem a vida e o futuro, basta pisarem o solo dessas
terras abençoadas. (Trump não estará muito de acordo.)
Teresa
Brennan (1952-2003) escreveu que vivemos “na era da paranoia”. Não conheceu
esta filósofa e psicanalista o Trump que nós conhecemos, em plenas funções, a
mandar e a desmandar no mundo inteiro. Um lunático multimilionário que
transformou definitivamente o Sonho Americano no pior de todos os pesadelos. Um
César, um Chanceler, um Presidente que quer conquistar o mundo,
aproximando-nos, se não estivermos atentos, de um quarto Reich com todas as
consequências que isso nos pode trazer. E tal poderá mesmo acontecer, resultado dessa loucura, antes impensável, perante a panhonhice da NATO, da ONU e da
Comunidade Europeia. Espanta-me e assusta-me como pode isto acontecer no século
XXI, depois de todas as lições que a História recente nos deu.
Terceira
Quando leio as catadupas de alertas
e de queixas publicadas por professores, colegas meus, perante o enormíssimo
erro do Ministério da Educação, chefiado pelo ministro Fernando Alexandre, no
que se refere à correcção e classificação dos exames nacionais, pergunto-me
onde estava o ministro com a cabeça quando decidiu, ele e a sua equipa, ser esta
a forma mais adequada de classificação e avaliação dos exames que darão aos
alunos o acesso ao Ensino Superior, nos cursos da sua preferência. Mas não vale
a pena estar a chover no molhado e a repetir o que tem vindo a acontecer e a
ser denunciado e comentado na comunicação social e nas redes sociais, casos
muito bem explicados pelos professores, vítimas deste processo.
As desculpas dadas por Fernando
Alexandre, o atirar as culpas para as direcções das escolas e para os
professores revela, sem sombra de dúvida, um total desnorte e a sua tentativa
de fuga às responsabilidades. Já correm notícias espalhando que os pais e
encarregados de educação, sempre tão atentos à forma como os seus educandos são
tratados pelos professores e pelo sistema, já estão insistentemente a pedir
justificações e, mais do isso, soluções para tão grande e inenarrável
imbróglio. É o futuro dos seus filhos e
educandos que está em causa e há que assacar responsabilidades e elas não são,
tenho a certeza absolutíssima, nem das escolas nem dos professores correctores.
Quando este nosso jornal chegar às
bancas, mais ou menos a 20 de Julho, já as classificações, segundo o ministério
(agora nada digno de confiança) estarão afixadas e os alunos de posse de todos
os dados para poderem candidatar-se às universidades, institutos e
politécnicos. É o que diz o senhor ministro.
Não acredito que assim seja… mas
oxalá me engane.
Adenda
O Coral de São Domingos chegou ao
fim de mais uma temporada, a trigésima nona. Os ciclos de 15 concertos, em Montemor e noutras
zonas do país, continuaram a provar que o trabalho, o espírito de equipa, a
resiliência e a amizade continuam a ser os ingredientes para que continuemos,
39 anos após a sua fundação nas instalações do Convento de São Domingos (daí o
nome do grupo), a levar longe o nome de Montemor, sempre embrulhado nas vozes
talentosas dos trinta e dois cantores.
Vão
começar a ser preparadas as comemorações dos 40 anos da sua fundação, que terão
início em Janeiro de 2027. Um ano de muitos acontecimentos só porque uns amigos
decidiram, num belo Sábado de Janeiro de 1987, cantar em grupo, sem imaginarem
que viriam a ser, quatro décadas depois, e segundo os seus pares, a comunicação
social e a opinião pública, uma das entidades culturais de referência do
concelho e do Alentejo.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Julho de 2026




Sem comentários:
Enviar um comentário