Foto: Município de Montemor
De regresso…
… e logo com três coisinhas para pôr
à consideração dos meus 10 leitores (recebi recentemente uma mensagem a dizer
que mais dois se tinham juntado a estes viciados em Cloreto de Sódio.) Serão
mil, mais uma, menos uma, as palavras que irão preencher este espaço que me
recebeu em 2003, depois de 14 anos de ausência. Não me arrependi deste
regresso ao jornal "O Montemorense", a convite do Padre Manuel Vieira e da Dadá Mouzinho Almadanim, para
inaugurar esta meia página de liberdade, só para contrariar os que pensavam que
não se podia ter uma opinião que fugisse à linha editorial de um jornal
cristão.
Mas
o regresso, tema desta crónica, é o regresso à realidade de todos os dias, após
as férias que passaram, como é hábito, a correr. Não foram tranquilas em termos
de notícias. Não vou conduzi-los às guerras que continuam a massacrar inocentes,
devido à incúria, à ganância e, atrevo-me a escrever, aos ataques de loucura
megalómana de alguns. Não vou recordar aqui as catástrofes que atingiram vários
países do Globo, provocando milhares de mortos, feridos e desaparecidos, desta
feita por culpa nossa que não soubemos cuidar do planeta, julgando que os seus
recursos e as suas estruturas eram inesgotáveis e indestrutíveis. Venho, sim,
de forma breve, referir três acontecimentos que merecem alguma atenção, por
motivos diferentes.
1
O Eclipse total de Luís Neves…
…
seria na verdade o melhor que poderia acontecer. Mais para o Governo de
Montenegro do que para nós, cidadãos, sempre a levar com estes casos que, a
serem provados, se revelam de uma falta de ética e de sentido de Estado sem
precedentes. Não vale a pena continuar a chover no molhado, quando, na verdade,
o que se esperava era uma atitude corajosa do primeiro-ministro para pôr fim a
tantas polémicas e às infindáveis desconfianças que rodeiam o ministro da Administração
Interna.
Num piquenique entre amigos, se o Homem
da Grelha, a figura mais importante da festarola, não retirar a tempo das brasas o
entrecosto ou a bela febra, pelos quais é responsável, corre o risco
de os deixar esturricar, deixando estes petiscos de servir a quem quer
que seja.
Manter um ministro do seu Governo na
chapa, em lume cada vez mais espevitado pelo vento da discórdia, é matar
deliberadamente alguém que ainda lhe poderia ser útil. Se o entrecosto ou a
febra pudessem saltar eles próprios da grelha a tempo e horas, perante aquela triste
morte anunciada, não tenho dúvidas de que o fariam. Luís Neves, porém,
esturricado até ao tutano, diz que continua a ter confiança em si próprio: o
cúmulo da soberba e da inconsciência absoluta.
2
A Noite Branca por um dia…
… na nossa velhinha Rua de Aviz,
estética e utilitariamente maltratada no último mandato de Hortênsia Menino,
recebeu, conforme pôde, mais uma edição da Noite Branca. Não tive possibilidade
de estar presente como estive nas edições anteriores, porque a minha vida social,
em tempo de férias, é intensa e alguém teria de ser privado da minha humilde
presença. Mas vi fotos, assisti a vídeos e falei com amigos que estiveram por
lá a espalhar magia no meio de várias centenas de pessoas. Foi uma animação, com
as lojas abertas até tarde, com música, dança, comida, bebida, muitas fotos
para o Instagram, muitos conterrâneos em convívio e a deixar as preocupações
noutras ruas que não naquela. Tive alguma pena de não ter estado por lá, mas
outros valores, muito mais altos, se levantaram. (Creio que a malta alinha de
boa vontade nesta iniciativa porque, na cidade, deixou de haver lugares de
convívio para se beber um copo, para encontrar amigos, para sair com os filhos
ou os netos. Montemor é um vazio de espaços nocturnos. Montemor está a ficar às
moscas.)
Mas
tudo o que se passou nessa Noite foi mágico, divertido, único, com o pessoal
vestido de branco, a falar bué e a beber gin, a comer farturas e má-na-sê-quê.
E pronto. Foi um serão em que a Rua de Aviz se vestiu de branco e viu o seu
comércio valorizado, a ser visitado mais do que o habitual, facto importante e
pretexto principal para a organização do evento.
E agora? Agora, fazendo aqui um facílimo
exercício de memória, sabemos todos que os 364 dias que se vão seguir serão, e
disso não temos dúvidas, iguais, monótonos, com o comércio às moscas e os
comerciantes a tentarem fazer milagres para pagarem as rendas e para não
fecharem as portas. Então de que servem as Noites Brancas na nossa Rua de Aviz?
Para os montemorenses passarem um serão juntos e animados. Para nada mais.
3
A Feira da Luz
A
Feira da Luz é, de facto, um certame com algum peso no panorama nacional com a
preciosa ajuda da Apormor, parceira da autarquia e que faz da sua exposição de
gado uma das maiores e mais importantes do país. Fui assistir, tal como faço
todos os anos religiosamente, às cerimónias de abertura, com as
individualidades políticas presentes a ouvirem atentamente o discurso do
Presidente da Apormor e do Presidente da Câmara, que, na minha opinião, falaram
muito, muito (isto é muito, muito subjectivo)… quando o pessoal queria era ir
divertir-se. E todos os convidados na linha de honra ouviram atentos os
balanços e as intenções dos ilustres oradores? Uhmmm, tal como nas aventuras de
Astérix, houve meia-dúzia de irredutíveis gauleses que se estiveram a borrifar
para os discursos de César.
Dada
uma volta ao recinto, concluímos que a Feira foi mais ou menos igual às feiras
de anos anteriores. Destaque para a magnífica exposição “Cidadãos do futuro:
depois da liberdade, o que fazemos com ela?” – a história do concelho do pós-25
de Abril, profundamente documentada, deixando-nos imersos na nossa própria
essência como povo e como comunidade. A reflexão vem depois, longe do
burburinho da festa, porque há quem queira, desde há algum tempo, mandar
prender a Liberdade.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Setembro de 2026



