domingo, 25 de abril de 2010

Abril sempre!

Comemoramos hoje a Revolução de Abril. Uns olham-na com nostalgia, com vontade de regressar aos tempos em que os ideais de Abril eram gritados vinte e quatro goras por dia; outros, com uma dúvida profunda sobre se terá valido a pena, sentindo que os tempos de hoje envergonham tudo por que tantos lutaram na clandestinidade. Pois, não deve ser olhada nem de uma maneira nem de outra. Os movimentos e as revoluções têm o seu tempo próprio e as motivações próprias que os fazem evoluir até à sua concretização. O fundamental, em 1974, era libertar o país do jugo de um ditador que tratava Portugal como uma enorme herdade, onde todos tinham de pensar pela cabeça do Capataz, sem liberdade de movimentos, de expressão e de vontade.

Todos os anos comemoro Abril, contando aos meus filhos o terror com que muitos portugueses viviam antes dessa data. E acabo sempre por falar de montemorenses presos em Caxias ou no Forte de Peniche, porque queriam um país onde todos tivessem trabalho, comida, uma casa decente e liberdade de opinião sobre a sua própria vida e a vida dos seus filhos, sobre o país e os seus governantes. É inevitável, pois, recordar o António Gervásio, o Manuel João Laibaças (tio do meu sogro) e o meu amigo João do Machado, com quem já tive o prazer de conversar várias vezes sobre os seus ideais e a sua luta política. Sabemos que, para os nossos filhos e para os que nasceram em liberdade, não é possível entender a profundidade da diferença entre o ontem e o hoje.

O ontem era a mordaça e o Tarrafal. Hoje podemos não gostar do Governo, criticar José Sócrates e os seus amigos, mas terror, esse substantivo que encerra o mais indescritível sentimento que podemos ter, terror não há. E quando reclamamos por melhores condições na Educação, na Saúde, quando exigimos mais emprego, mais justiça social e a condenação dos corruptos e dos criminosos, independentemente da cor do seu colarinho, nenhum de nós vai preso por causa disso. E essa continua a ser, ainda, a maior conquista de Abril.



18 comentários:

António Henrique disse...

Brilhante artigo. Aquele Abraço

Anónimo disse...

Caro Dr. João,
desta vez não concordo em grande parte consigo! Para mim a opressão (neste caso, de uma ditadura) não se mede somente ao nível das implicações directas, mas também das implicações indirectas!
Celebramos hoje uma Revolução que nos permitiu algo que muito prezo: a DEMOCRACIA. Estou grato às Forças Armadas e ao Povo Português pela herança que deixaram às gerações sucessoras... apesar dos oportunismos partidários que deste dia se aproveitam!

Ava disse...

Concordo consigo, a liberdade foi o maior bem que o 25 de Abril nos trouxe, é pena que muitas vezes é utilizada na pior forma...

Um abraço e uma excelente comemoração no dia de hoje, Ava.

Anónimo disse...

Caríssimo:
Foi relativamente fácil libertarmo-nos de uma ditadura, mas dos oportunistas, dos incompetentes, dos vaidosos e dos corruptos é tarefa bem mais difícil. Porque eles são tantos e tão bem colocados...
Enquanto houver alguma coisa para roubar vão-se amanhando à vontade porque se sentem protegidos por leis que eles próprios vão criando para se safar. Quando um dia já só restarem dívidas, é vê-los a sair à pressa e sem se preocuparem sequer em fechar a porta...

Digo eu...
RV

Presunção disse...

Presunção e água benta cada qual usa a que quer!

Democracia hoje?


Bem hajam os que crêem!


O que ficou : oportunas, presunçosos e teólogos sociais para gasto de casa!

Anónimo disse...

Que bonito, mais, que maravilhoso estar viva para recordar que em Abril de 74 eu tinha um menino pequenino, baptizado a 22 do mesmo mês e que da Guiné distante e em guerra, veio um soldadinho para apadrinhar o acto. Esse soldado
é meu irmão, e ainda hoje vejo as lágrimasl de alegria que brotaram dos seus olhos e sinto o bater docoração contra os nossos.
Nem que seja só por isto , 25 de Abril Sempre...

Rosa

Alfredo disse...

Cá em casa como em cada vez mais lares portugueses não se comemora este dia! A intenção à 36 anos até podia ser boa, mas confundiram liberdade com libertinagem! Hoje em dia Portugal é um paraíso para chico-espertos, corruptos, bandidos, vigaristas e incompetentes. Sustentamos milhares de individuos que por terem ligações directas ou indirectas a partidos politicos delapidam o erário público sem qualquer pudor. A justiça é uma anedota, sem graça nenhuma! A vergonha e a honra, essas virtudes desapareceram por completo. Rouba-se às claras inpunemente. É cada vez mais dificil ser trabalhador e honesto neste país! E se as gerações que fizeram o 25 Abril estão mais ou menos bem de vida, os nosso filhos têm um futuro negro pela frente, a não ser que os pais os ajudem ou que tenham o eterno factor C que vergonhosamente continua a valer mais que qualquer canudo!
De facto podemos falar, mas ninguém nos ouve o que vai dar ao mesmo!

Ana Casadinho disse...

Celebra-se hoje o 36º Aniversário do 25 de Abril. Naquele dia era uma menina com 10 Anos. Que desconhecia o verdadeiro sentido de ter Liberdade ou, de sofrer pela falta dela. Hoje, passados trinta e seis anos, depois de muitas caminhadas feitas, LIBERDADE tem o significado de termos a capacidade de fazer, daquilo que perdemos ou nunca alcançamos, algo que podemos oferecer ao OUTRO. Citando Paulo Geraldo, “ Exteriormente não se vê a diferença, mas interiormente tudo é transfigurado: o destino passa a ser uma opção livre, a obrigação passa a ser amor. “ Numa época em vivemos confundidos com os Valores e em que as noções de Respeito, Justiça, Solidariedade estão distorcidas, a Liberdade parece, também ela, legitimar o não contrair vínculos e até quebrar os contraídos. Parece-me oportuno recordar, hoje neste dia, que a Liberdade é, “…na sua forma maior, liberdade de nos amarrarmos…de criar laços.” (Paulo Geraldo)

Cloreto de Sódio disse...

Abraço, António! Obrigado pela visita!

Cloreto de Sódio disse...

Caro Quase-Anónimo:
Claro que as implicações indirectas são muito mais difíceis de resolver. Ainda hoje não nos sentimos completamente à vontade para abordar, criticar, aceitar determinadas posições, porque estivemos meio século sem possibilidade de treinar. E a herança que as Forças Armadas e o Povo nos deixaram ficará indelével na nossa História. Que todas as gerações façam render os "talentos" que esses homens e mulheres nos legaram. Se não o fizerem não serão dignos dessa liberdade e democracia. Forte abraço!!

Cloreto de Sódio disse...

Obrigado, Ava! Forte abraço!

Cloreto de Sódio disse...

Caro RV:
O célebre texto de Orwell, O TRIUNFO DOS PORCOS, é, a cada dia que passa, o mais fiel retrato do nosso país e dos seus governantes. Abraço!

Cloreto de Sódio disse...

Só discordo num ponto, Alfredo. Se baixarmos a guarda, tudo será muito pior. Em luta! E um abraço para si!

Cloreto de Sódio disse...

Rosa: o fim da guerra colonial foi outra grande vitória. Bj.

kalikera disse...

Continuamos à espera da transição do Governo militar de transição.

Cloreto de Sódio disse...

Ana: Noutros tempos quase que era proibido mostrar os afectos pelas pessoas que amávamos. Hoje os afectos - manifestados sem qualquer pudor - são a base do desenvolvimento emocional de todos nós.Bjs

Anónimo disse...

caro Cloreto

gostaria de trocar consigo algumas impressões sobre a Reforma Agrária e em particular em Montemor.

nao podemos recordar o 25 Abril sem nos esquecermos da mais bonita conquista no Portugal de Abril: a Reforma Agrária.

Abraço

LIBERDADE disse...

A minha liberdade acaba onde começa a tua?

Muitas vezes escutamos esta frase, tida quase como um princípio. Nunca vi alguém alguém questioná-la. Mas pensando nos pressupostos subjacentes e nas possíveis consequências, devemos questioná-la seriamente. É a típica liberdade propugnada pelo liberalismo como filosofia política.



Trata-se de uma compreensão individualista, do eu sozinho, separado da sociedade. É a liberdade do outro e não com o outro. Para que a tua liberdade comece, a minha tem que acabar. Ou para que tu comeces a ser livre, eu devo deixar de sê-lo. Consequentemente, se a liberdade do outro não começa, por qualquer razão que seja, significa então que a minha liberdade não conhece limites,se expande como quiser porque não encontra a liberdade do outro. Ocupa todos os espaços e inaugura o império do egoísmo. A liberdade do outro se transforma em liberdade contra o outro.

A consequência é que a solidariedade não tem mais lugar. Não se promove o diálogo, a negociação, buscando convergências e o bem comum.

Esta deve ser a frase correta: a minha liberdade somente começa quando começa também a tua. Jamais seremos livres sozinhos; só seremos livres juntos. A minha liberdade cresce na medida em que cresce também a tua e conjuntamente estamos numa sociedade de cidadãos livres e solidários.


Por detrás desta compreensão da liberdade solidária se encontra o princípio humanista: "faze aos demais o que queres que te façam a ti". Ninguém é uma ilha. Somos seres de convivência (não de conveniência). Todos somos pontes que nos ligam uns aos outros. Por isso ninguém é sem os outros e livre dos outros. Todos são chamados a serem livres com os outros e para os outros. Como bem deixou escrito Che Gevara em seu Diário: "somente serei verdadeiramente livre quando o último homem tiver conquistado também a sua liberdade".

Distraídos crónicos...

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