sábado, 11 de fevereiro de 2012

70 minutos de desconforto

Assisti à representação da peça Baqué, um texto de Carlos Marques e de Rui Pina Coelho, com base numa narrativa de Jayme Filinto sobre o incêndio que, nos finais do século XIX, destruiu um teatro do Porto, apinhado de gente. Ser espectador, num teatro, de uma peça sobre um teatro que ardeu e com lume sempre visível em cena no decorrer da representação, é provocador, é aflitivo, é perigoso para os mais sensíveis e é, sobretudo, uma noite de teatro sufocante e fora do comum. Não, caro leitor, não fui ver o Baqué à Comuna, ao Teatro Aberto ou ao Teatro da Cornucópia. Fui aqui a Montemor, à blackbox do Curvo Semedo, ver actores montemorenses e a encenação do, também montemorense, Carlos Marques.

A técnica de contar num palco de teatro uma história, cuja personagem principal é um teatro, destruído por um dramático incêndio, é uma técnica inteligente, a que os especialistas gostam muito de chamar metadrama, e que funciona em pleno. O espectador põe em prática a chamada suspensão da descrença do velho Coleridge (vão à enciclopédia mais próxima, porque eu não posso explicar tudo aqui neste pequeno espaço) e começa a pensar (tal como Alfred Hitchcok também nos fazia pensar) que, apesar de tudo ser apenas um filme, ou, neste caso, uma peça de teatro, aquilo pode acontecer mesmo e, mais assustador ainda, naquele preciso momento.

O desassossego interno é, como imaginam, intenso e permanente. Afinal, o que Carlos Marques e a sua trupe de actores mais músico residente (Catarina Caetano, apaixonei-me pela tua capacidade camaleónica de transmitir ao público tantos sentimentos contraditórios. Diz-me como consegues fazê-lo!) nos quiseram dizer é que aquilo é, afinal, e apenas, uma peça de teatro… ou não. Igualmente brilhante foi a ligação aos tempos de hoje e aos de amanhã, a crítica aos políticos que nada conseguem para levantar o país, uma ligação que eu agora faço ao livro de Orwell sobre os Porcos que começaram a governar a quinta do ditador senhor Jones, no lugar do ditador senhor Jones.

Mas a representação foi também, igualmente a alusão à história de um teatro com mais de 50 anos de idade chamado Curvo Semedo e que está, como se sabe, a precisar de tratamento sério. A Metáfora é perigosa mas a Narrativa é fidedigna.

Estivemos em Montemor, em 2012? No Porto, em 1888?
Ainda aqui estamos?

4 comentários:

Anónimo disse...

foi francamente BRILHANTE!
TUDO!

beijocassss
vovómaria

zé disse...

Então e o frio???

Vanda C. disse...

Absolutamente fabuloso! Que bom,que reconfortante sentir que apesar da toika, dos cortes, do medo instalado que faz com que os Teatros deste País não comprem...ainda haja coragem e amor para levar á boca de cena um beijo tão arrebatador como este Baquet. Estiveram todos Inteiros. Encheram-me a alma. Catarina: QUE ORGULHO!!!! Saí feliz por ter percorrido 400 km para te ver, para vos ver! BRAVO! Vanda C.

Cloreto de Sódio disse...

Parabéns também para ti, Vanda! Outra actriz no lugar da Catarina teria resultado mas... não teria sido a mesma coisa. Grande beijo!

Distraídos crónicos...

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