sábado, 14 de julho de 2012

Um aplauso para Vítor Guita

(Foto: Manuel Filipe Vieira)
          Excerto da minha intervenção na Homenagem a Vítor Guita:

            Hoje, nesta circunstância tão especial, vivo um verdadeiro momento de aflição quase existencialista, porque tenho tantas coisas para dizer, outras tantas para revelar, que vou receber discretamente um recado do presidente da sessão para me calar, porque vou claramente ultrapassar o tempo que me é destinado. Pois mesmo que haja essa dita repreensão, não me calarei enquanto não disser o que me trouxe até aqui.
            E o que eu venho aqui dizer é, antes de mais, manifestar o privilégio que é privar, desde há muitos anos, com o Vítor nas mais variadas vertentes em que ele se tem envolvido ao longo da sua vida que, a ser contabilizada como devia, já daria para umas três vidas, mais ano menos ano, de um qualquer cidadão normal.
           O Vítor nunca gostou de pantufas, nem de roupão, nem de sofá. O Vítor nunca gostou de mentir, nem de fingir, nem de fugir aos que dele precisam.
 Ora vamos lá por partes: se falarmos de música, o Vítor está lá. Começou por aprender violino (“Tive pena de não ter continuado”, confessou-me ele um dia). Mas não foi por isso que a música deixou alguma vez de fazer parte da sua vida. Esteve na fundação do célebre grupo de baile Quinteto Zeus+1, está no Coral de São Domingos há 25 anos, é professor aqui, neste Convento, nos Cursos da Universidade Sénior, orienta a Tuna dessa Universidade e anda agora a aprender cavaquinho.
 Se falarmos de teatro, temos de recuar aos finais dos anos 70, quando o jovem Vítor Raul esteve com um pé no Conservatório Nacional de Lisboa e o outro pé na Universidade Clássica de Lisboa. Uma bifurcação que o obrigou a optar, não sei se por razões de preferência. Depois de ter feito dois anos de Sociologia, em Évora, foi cursar Letras e pôs de lado a ideia de se matricular naquela grande escola da altura que era o Conservatório Nacional. Mas também não foi isso que o levou a esquecer o teatro. Pelo contrário. Fez parte, desde sempre, de diversos grupos cénicos em Montemor, como actor e encenador, vivendo a adrenalina do palco e dos bastidores vezes sem conta.
           E foi na Escola Secundária da nossa terra, onde trabalhámos juntos como professores (hoje só lá estou eu. Eu e outros), que o Vítor veio transformar o teatro, obrigatório nos programas escolares de Português, peças sem o som dos actores e sem o indispensável pó de palco, veio transformar esse teatro… meramente teórico e, arrisco-me a dizer, por vezes, enfadonho, em peças representadas na Secundária de Montemor, em diversas escolas do país, no Cineteatro Curvo Semedo, aqui com destaque para duas grandes produções de saudosa memória, saídas da pena do Professor Carlos Cebola e com encenação do próprio Vítor: João Cidade e Tamar.
Depois do Vítor, o teatro amador feito em Montemor começou a ser feito profissionalmente por amadores, o que passou a ser totalmente diferente. Dos inúmeros jovens que com ele trabalharam, alguns vieram a destacar-se, quer a nível local, quer nacional, como os casos paradigmáticos dos actores e encenadores montemorenses Hugo Sovelas e Carlos Marques. Impossível, também, esquecer a Associação Theatron da qual ele faz parte como actor e em cujas produções representa com o mesmo profissionalismo, quer as personagens mais secundárias, quer as de maior relevo nos dramas.
É curioso recordar que o teatro foi para ele uma forma moderna, ainda antes do 25 de Abril, de, pedagogicamente, reeducar os que, pelos mais variados motivos estavam sob a sua responsabilidade na prisão do Alfeite, onde o tenente Vítor cumpriu o serviço militar como fuzileiro, servindo o país, mas sempre desconfiado do país que servia.
Se falarmos na escrita, somos forçados, com prazer, a relembrar a forma quase queirosiana com que nos delicia, descrevendo nas suas crónicas nos jornais da terra, os quotidianos, os vícios e as virtudes de Montemor e dos montemorenses de outros tempos. O seu olhar crítico, a sua escrita cuidada, sem dar tréguas ao laxismo ou às palavras ao acaso, com o seu adjectivo exacto para o substantivo absolutamente oportuno, fazem da sua escrita um rendilhado de bilros, uma aguarela de Cézanne ou de Monet ou um quadro futurista de Paula Rego. E teremos de referir a sua enorme paixão por Montemor e por escritores de Montemor: por Curvo Semedo, cuja memória ele reabilitou nos 150 anos da sua morte, em 1998; por Almeida Faria e, sobretudo, pelo seu grande amigo de sempre, o saudoso João Alfacinha da Silva, o Alface, que ele recorda publicamente sempre que pode e sempre, sempre com um brilho feliz no olhar. Um brilho que é um misto de gozo secreto, de saudade e de cumplicidade para além da morte.
Falámos da música, do teatro e da escrita. Ainda não falámos das três dezenas de anos que o Vítor passou a ensinar Francês, Português e Literatura a centenas e centenas de jovens que hoje, e já nessa altura, o consideravam um dos grandes professores que passou pela Escola Secundária de Montemor. O Vítor não ensinava só o que vinha nos livros (aliás, o Vítor nunca teria precisado de livros. Bastar-lhe-ia uma sala, um quadro e uma turma para fazer daquele tempo de aprendizagem uma aventura de saber e de conquista sem igual). O Vítor nunca olhava só para o aluno. Olhava, qual Blimunda de Saramago, para dentro dele e tentava perceber onde estavam os seus pontos fortes para os realçar ainda mais, no decorrer das aulas, nos ensaios de teatro ou em conversas de amigo. O Vítor nunca obrigou ninguém a coisa nenhuma. As palavras do Vítor não se escutam. Bebem-se. O Vítor foi e é assim: aponta caminhos, mostra o que sente, e depois que cada um que faça como achar melhor.
 Ao falarmos dos quatro vértices deste quadrado perfeito - Música, Teatro, Escrita e Ensino - ficámos com o interior desse quadrado disponível para falamos também do Homem, do Pai e do Marido que tem arrastado consigo, no bom sentido claro, a Maria Emília e a Vera que, mais visivelmente ou mais nos bastidores, dão sequência ao seu trabalho, são o seu apoio, o seu consciente e o seu alter-ego. Não estão, nem atrás, nem à frente dele. Estão ao lado. Exactamente no meio do quadrado. Atentas ao Homem e aos seus quatro vértices. Estiveram lá sempre. E hão-de continuar a estar.

Durante muitos anos, em muitas ocasiões, tenho humildemente tentado corresponder às solicitações do Vítor. Porque a um Amigo que nunca diz que não a ninguém, também nunca lhe podemos dizer que não. Mas não é só por isso. É que, trabalhar ao seu lado, a dirigi-lo ou a ser dirigido por ele, são sempre momentos em que recebemos da sua parte uma enorme generosidade e uma sólida aprendizagem, porque ambos damos tudo o que temos, o melhor que sabemos, com o coração nas mãos e sem pedir nada em troca um ao outro. A nossa amizade é o suficiente.
Antes de terminar, não resisto em falar em mais um dos muitos prazeres que o Vítor retira da Vida. O prazer da Mesa. Da mesa farta. Repleta de iguarias, sobretudo alentejanas, magistralmente confeccionadas pela Maria Emília. Uma mesa farta também de Amigos de todas as nacionalidades, raças, religiões e estratos sociais que vão fazendo da sua casa, uma espécie de sucursal das Nações Unidas. Mas unidas. Mesmo.
Agora sim, à laia de final e para que conste, e porque há muita gente ainda que não o sabe, o nome do homenageado é Vítor Raul. Não é Vítor Abdul. O nome Abdul ganhou ele de quem era amigo do seu saudoso pai, Abdul Salgado Guita, de quem também tive o privilégio de, ainda adolescente, conhecer e ser amigo. Mas quando se referem ao Vítor como Vítor Abdul, ele também nunca disse que não era esse o seu nome. Porque, afinal, há filhos que dos pais até o nome herdam mesmo que o seu seja outro. É uma forma de ficarem eternamente juntos.
Parabéns, Vítor e Obrigado.

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