sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Reencontrado



Foto: TIVOLI

Acordei cedo num destes dias e fui, sem dizer a ninguém cá em casa (para quê acordá-los, não é?) passear pela cidade. Evitei o circo das obras, porque não me apetece ver os estaleiros em que a zona do Jardim Público se transformou (sim, eu sei que é necessário e tal… mas tenho o direito de não querer ver, pronto), e fui a pé até lá abaixo, ao meu antigo bairro, o Bairro de São Pedro, o mais carismático de sempre, desde que Montemor foi Vila, até hoje, que dizem que é cidade. Passei, inevitavelmente, pela casa onde os meus pais viveram mais de cinquenta anos e onde cresci e vivi até ser homem. Não me preocupei com o que mudou nem com o que ficou. Recordei-me, isso sim, que foi ali naquela casa, ao lado, primeiro, da minha vizinha Chica Borrazeiro e, depois, durante longos anos, com a minha prima Toneca Caldeira como vizinha, onde dormi, comi, brinquei e amei, onde aprendi, com os meus Pais e com todos os Vizinhos, o que, muitos dos que nos governam, jamais aprenderam. Por momentos, fiquei sem saber o que pensar da Vida que, observada daquele pequeno recanto, com quintal e tudo, enfeitado outrora com primor pelos vasos de flores da minha Mãe, se transformou numa outra bem mais dura e tantas vezes mais do que alucinante. Não que ela me tenha sido madrasta. Nada disso. Tive sorte na minha infância e também tive essa sorte na minha idade mais madura. Fui à Universidade, num tempo em que filho de comerciante ou de camionista deveria ser comerciante ou camionista como o pai, sentindo o peso da responsabilidade desses meus estudos por ver a minha Mãe a assumir o seu primeiro emprego, com 40 anos, para o filho poder andar a estudar em Lisboa.
E fui, e vi mas não venci. Não venci nesse tempo, nem venci hoje, porque sinto sempre este desassossego pessoano que não me deixa viver tranquilo. E menos tranquilo fico quando reparo em tantos com que me vou cruzando que, satisfeitos com a vida, tranquilos na sua rotina, se recusam a fazer mais por si e pelos outros, varrendo para debaixo do tapete o lixo que foram acumulando no decorrer dos dias.
Tenho saudades da minha infância. Foi por isso que fui ao meu velho bairro. Não porque hoje seja infeliz. Não posso sê-lo com tudo o que a vida me deu e, apesar de tudo o que vida me foi tirando. Não é isso. Só que, na infância, tudo o que dizia e fazia não tinha um propósito fixo, premeditado ou combinado. Era natural o meu pensamento como o era o dos meus amigos dessa altura. E é por isso que sinto saudades da minha infância, da inocência e dos amigos inocentes como eu. Porque hoje, as palavras que dizemos são medidas, pesadas, articuladas em frases bem pensadas, alinhadas e só depois lançadas com o cuidado necessário para que o seu peso não se abata sobre… nós próprios. Mas o que se torna curioso é que, por vezes, não são as palavras que têm peso. São as pessoas que as proferem. Ainda assim, não perdi totalmente essa inocência dos dias passados. Ainda assim, a frontalidade e a verticalidade que me deixaram os meus pais e os meus sogros por herança, herança mais valiosa que qualquer conta bancária recheada, são ainda, e irão continuar a ser, o pano de fundo onde me movo e onde quero que os meus se movam. São esses princípios o nosso báculo, o nosso encosto, a nossa defesa e o nosso ataque.
Por isso, nunca poderia ser um Ministro qualquer de um qualquer Costa, de um Passos perdido ou de um Portas estrela de cinema.
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Outubro 2018

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro Amigo João Luís,
que belo texto, você transportou-me à minha infância e que recordações e que carinho, apesar de hoje ser feliz.
Um abraço
José de Matos Júnior

Maria João Serrão disse...

Caro João Luís
A minha infância foi outra,foi a minha e como revivi a minha nostalgia desse tempo através das suas genuinas palavras! Será que gostaria de voltar a essa infância? Não,decerto que não e, contudo, ela acompanhou-me ao longo de toda a minha vida...que bom! MJS

Anónimo disse...

João Luís,consigo visualizar a moldura dessa foto e o lugar que ocupava na tua casa, outrora também minha, quantas memórias, que saudades desses tempos, fomos tão felizes, ainda hoje somos, mas as coisas ficaram mais sérias e com mais responsabilidades, perdemos pessoas que amávamos, mas deixaram-nos os valores e as pessoas que hoje somos... Um beijinho, adorei o teu texto, cada palavra, obrigada.
Custódia Maria

Distraídos crónicos...

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