domingo, 3 de junho de 2012

2 de Junho: Joana, Finalista

O perfil perfeito
Há sempre um palhacinho de serviço


As madrinhas mais bonitas da cerimónia

O momento solene



Os pais mais lindos da cerimónia
Um momento de descontracção

sexta-feira, 1 de junho de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Emigração


           Quando aquele senhor que representa o papel de primeiro-ministro disse, até com algum entusiasmo, que o melhor que poderíamos fazer, em caso de crise, seria emigrar, o senhor não se apercebeu bem das consequências das suas palavras. Ou então estava a pensar no que fizeram os seus antecessores.
Ora vamos lá a ver: Guterres, quando se viu aflito… emigrou. Mr. Barroso, quando viu que o país estava de pantanas, após a sua governação… emigrou. Sócrates (ainda não sei se ele é Sr. Eng.º ou não) quando viu o resultado das obscenidades do seu staff durante a sua completa desgovernação… emigrou.
Pois quero informar os meus 10 leitores (sim, já são dez, não contando com a minha mãe e o meu sogro), que Passos Coelho está a preparar-nos para o que aí vem. Quando ele chegar à conclusão que não consegue pôr mão na despesa do Estado e que ele e o seu Governo vão começar a andar em constantes contradições, pois só terá uma coisa a fazer: emigrar.
Boa viagem e beijos à prima (se a tiver).





segunda-feira, 14 de maio de 2012

Escândalo?


O país ficou escandalizado com a correria às lojas Pingo Doce, por causa das promoções que essa cadeia de supermercados levou a cabo no dia 1 de Maio. Eu não me escandalizo com essas coisas. Ficou muito irritado é com os nossos governantes que continuam a pedir sacrifícios ao pessoal e a deixar alguns barões à vontadex a fazer o que bem lhes apetece. Isso é que continua a ser um escândalo… Agora, aquilo do Pingo Doce… São minudências se comparadas com a cambada de gatunos que anda à solta por aí.
O pessoal não anda curto de massas? Então aproveita qualquer oferta que se lhe faça. Eu só não fui porque já imaginava a confusão de gente que aquilo ia dar. Claro que os exageros são de condenar. Mas a medida veio ajudar muitos que estavam a necessitar de ajuda, veio promover o nome da empresa e veio fazer concorrência a outras do género que, em breve, lhe vão seguir o exemplo. Oxalá. O povo, à rasca, agradecia. De qualquer forma, o que me deixou preocupado foi o comportamento de muitas pessoas que arrastaram tudo atrás de si e só não levaram a menina da caixa porque ela não quis ir.
Esta movimentação de massas no dia 1 de Maio, dia do Trabalhador, veio provar, pelo menos três coisas: estamos em crise e há que aproveitar as ofertas; o dia do Trabalhador ficou para segundo plano nas aberturas dos telejornais, o que significa que a malta se está marimbando para essas coisas; e a ideia do Pingo Doce (esta será, talvez, a prova mais importante) serviu de balão de ensaio para testar o comportamento do povo quando, um dia, em situação de guerra, catástrofe ou de crise aguda, for mesmo necessário ir aos supermercados açambarcar tudo o que vier à mão, roubando os produtos do carrinho do vizinho, invadindo selvaticamente as instalações numa atitude de salve-se quem puder, lutando por uma côdea de pão duro.
Como diria Astérix, o Gaulês, oxalá amanhã não seja a véspera desse dia.

sábado, 12 de maio de 2012

Paixões


Esta é a paixão da Joana.
Quando, ainda muito pequena, a mãe lhe perguntou se queria que lhe comprasse umas sapatilhas de ballet, para entrar na Escola de Ballet, aqui em Montemor, ela respondeu: "Compra-me antes uns pitons". E comprámos.

Bernardo Sassetti


          Faleceu um dos grandes pianistas e compositores da minha geração. Gostava que eles nunca partissem. Seríamos todos mais felizes. Condolências à família, aos amigos e à música portuguesa.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Coro Lopes-Graça em Montemor


“Roubo as canções ao povo e depois devolvo-as com juros."         
F. Lopes Graça
    
           Fundado em 1945, pelo compositor Fernando Lopes-Graça, o Coro da Academia de Amadores de Música, de Lisboa, continua a seguir os passos do Mestre através do talento e da generosidade de José Robert, assistente de Lopes-Graça desde 1977 e maestro titular do coro desde 1988, e de Ivo Castro, actual assistente de José Robert.
Para continuar a comemorar os seus 25 anos de existência, o Coral de São Domingos convidou este coro que é, no panorama da música coral portuguesa, uma indiscutível referência histórica e artística. É, provavelmente, o único coro do mundo que canta apenas obras de um único compositor!
            O Concerto deu-nos uma breve panorâmica do imenso trabalho de Lopes-Graça na área coral: peças tradicionais, peças originais sobre textos populares e, claro, algumas das suas Canções Heróicas. Para quem estuda música, para quem estuda Lopes-Graça e para quem canta num coro, foi um momento único. O Mestre Graça esteve ali, connosco, nas vozes daquele grupo que, quando canta, tem como objectivo primeiro cultivar o purismo que o compositor colocou em cada nota, em cada melodia popular, em cada harmonia que se estranha mas que se entranha no segundo seguinte. O Concerto foi, sem dúvida, a forma que tivemos de ficarmos mais próximos daquele que foi um dos compositores mais ousados, quer em termos técnicos, quer artísticos, quer políticos do século XX português.  
Uma vez por outra, a imagem do Maestro José Robert esbatia-se levemente e surgia a figura, pequena, franzina, de cabelos grisalhos de Lopes-Graça. Mas foi impressão minha, decerto.
             Obrigado Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música. Um abraço aos maestros José Robert e Ivo Castro.  Este não terá sido o nosso último encontro

domingo, 6 de maio de 2012

O dia das minhas mães


            Foi, em tempos, no dia 8 de Dezembro. Depois, por motivos que não vale a pena discutir, passou a ser celebrado no primeiro Domingo de Maio, o que não tem qualquer importância. O valor simbólico da data, esse é que conta. Mas não é fácil fazer uma homenagem à nossa Mãe. O que se pode dizer daquele ser humano quem foi a nossa fonte de vida, com a qual convivemos internamente, pequeninos, encolhidos, felizes, durante mais ou menos nove meses? Como poderemos agradecer o ter dito sim à nossa vida, quando poderia ter dito não? O que questionar sobre o seu amor incondicional, o seu sofrimento eterno pela felicidade do filho e da mulher do filho e dos netos, que são filhos duas vezes?
Mãe é, provavelmente, uma das palavras mais pronunciadas no mundo. É, sem dúvida, um dos graus de parentesco mais respeitados do universo. Mas, para mim, Mãe não é um grau de parentesco. É bastante superior a esse conceito terreno e limitado. É uma Fé e uma Esperança. Ser Mãe é ser tudo. É ser Mundo, Céu, Porto de Abrigo, Colo, Lágrima, Riso, Amor sem fim até ao último dia das nossas vidas.
É o que acho da minha Mãe e da Mãe que deu ao Mundo a Mulher que me escolheu, e que é a Mãe dos meus filhos. Obrigado às três.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A finura de um livro

Mão amiga fez-me chegar, em pleno cemitério de São Francisco, imaginem, um livro fino. Fino, porque não é espesso. E fino, porque é de um recorte literário pouco habitual para o qual o título, sugestivo porque estranho, nos remete de imediato: História de um assassino vulgar e outras peças.
            Os discursos fragmentados que formam a colectânea, vindos de narradores nos limites da loucura, são bem o reflexo da própria divisão, diria, esquizofrénica, a que o ser humano é submetido, não poucas vezes, no decorrer da sua existência, esta, muitas vezes, um percurso em permanente borderline.
Não são poemas, não são contos, não são ensaios aquilo que li. À excepção da peça de teatro propriamente dita, não sei o que são. Mas são literatura. Da boa.  A confrontar-nos com o que de pior nos desafia desde que nascemos: os nossos medos, a nossa consciência, a nossa impotência, ou incompetência, de não termos escolhido outros caminhos que não este que nos trouxe até ao hoje. “O corpo é que paga”, diz-nos a canção de Variações. A mente é que paga, diz-nos Rui Sousa, o autor do livro.
Destaco, apelando a uma leitura urgente, “História de um Assassino Vulgar”, “Fragmento-Salazar” e “As Máscaras”, pelo seu conteúdo forte, actual, nu, cru e desassombrado, de reprimidos que regressam em nossa constante perseguição pessoal e colectiva; e “Guerra de Tróia”, pela viagem crítica a um dos grandes mitos da nossa civilização.
 O livro é da Angelus Novus, editora de Coimbra, foi publicado em 2002 e não sei por que razão absurda não me foi possível lê-lo mais cedo. (Faltava a mão amiga.)
             O autor, que não conheço, nasceu em 1979, na cidade de Évora, tem raízes em Montemor-o-Novo, onde trabalha actualmente e, um dia, se ele concordar, lá teremos de trocar umas ideias sobre as palavras e sobre o que elas… escondem.

terça-feira, 24 de abril de 2012

25 de Abril? Sempre




Reviver Abril é fundamental, porque a memória dos nossos políticos de hoje (e a alguns cidadãos) está a ficar cada vez mais curta. Os tempos mudaram, mas a ESSÊNCIA pura dos seus princípios pode e deve manter-se. Viva o 25 de Abril. Sempre. Com tudo o que de bom e o que de menos bom que ele nos deu.

sábado, 21 de abril de 2012

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A data histórica para que nos remete o mês de Abril é incontornável, pelo menos para aqueles que, mesmo adolescentes, viveram o primeiro dia de liberdade, conquistada a pulso por muitos dos que, na clandestinidade, se bateram por ela. O dia 25 desse mês, do ano de 1974, amanheceu diferente. Foi, a esta distância de quase quatro décadas, o único dia de verdadeira liberdade, onde todos os portugueses se uniram contra um inimigo comum: a ditadura herdada de Oliveira Salazar, com todas as características de um poder exercido de forma totalitária – a censura na comunicação social e nas artes, a polícia política, os bufos, as perseguições, as prisões, as torturas, as mortes, os lambe-botas, os yes-minister, a proibição de eleições livres, a impossibilidade legal de formação de partidos políticos, enfim tudo aquilo que os jovens de hoje julgam fazer parte de um filme a preto e branco, guardado agora numa prateleira bafienta da Cinemateca de Lisboa. Mas não foi um filme, acreditem.
          Faleceu no passado dia 22 de Março, um homem chamado João do Machado, um dos últimos antifascistas montemorenses que, tal como muitos desta terra, lutou durante anos, na clandestinidade, contra esse regime ditatorial que se prolongou entre 1926, com o golpe militar de 28 de Maio, que pôs fim à Primeira República, levando à implantação da Ditadura Militar que terminaria faz agora 38 anos, numa explosão de cravos vermelhos. Em tempos, escrevi um conto em homenagem a esse comunista de gema, baseado num dos muitos episódios da sua vida de luta abnegada, solidária e humanista. Mas, para narrar a vida deste meu velho amigo, seriam necessários mil volumes para escrever sobre a sua luta, o seu sofrimento e a alegria que sentiu naquela manhã de Abril de 1974. Destaco uma frase que o Machadinho soltou numa das nossas conversas sobre as torturas a que foi submetido e que me revelou o Homem, diante do qual me senti um microscópico grão de pó. Disse-me então ele, com um sorriso plácido e franco: “Não guardo rancor de ninguém”.

Ele só queria que o seu empenho e os seus sacrifícios não tivessem sido em vão. Mas começo a ter sérias dúvidas. As questões económicas das famílias vão agravar-se, o deficit democrático também, e o Estado não vai voltar atrás. E ainda agora a procissão vai no adro.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

“Três à conversa já é comício”




            Alguns analistas já notaram que está a aumentar o número de portugueses que se aproximam da religião. Procuram numa plataforma mais espiritual o que não encontram no seu dia-a-dia de matéria e de preocupações.
E o fenómeno não se liga apenas à religião. Os admiradores do futebol encontram nos desafios, quase diários, momentos de alienação que os transportam a um mundo à parte onde se esquecem das contas, das rendas, dos créditos.
O fado, elevado recentemente a Património Imaterial da Humanidade, veio também ao encontro das nossas mágoas, fazendo-nos sentir recompensados por sermos tristes, amargurados, enfim como se todos tivéssemos um fado dentro de nós. E é esta coisa de aceitarmos o nosso fado como coisa imutável, como desígnio de Deus (que, segundo me ensinaram há muitos anos, nos deu todo o livre arbítrio para agirmos), que me leva a um estado de ligeira irritação. O nosso destino está nas nossas mãos, caramba! Não há deuses que o possam alterar e isso da religião, do fado e do futebol não é, de forma alguma, panaceia para os nossos males.
Contudo, com a malta entretida desta forma, os que nos governam, sempre em posição de vénia perante a tal troika, têm facilitada a maneira de continuarem a estrangular quem já mal pode respirar. Parece obsessão minha, mas não é. Quando começo a fazer comparações com outros tempos, pergunto: “O que é que nos falta?” Temos censura? Temos. Temos desrespeito por quem trabalha? Temos. Temos exploração e despedimentos por dá cá aquela palha? Temos. Temos assaltos mensais aos nossos ordenados? Temos. Temos mudanças de regras nos nossos contratos de trabalho, à vontade do patronato? Temos. Temos incumprimento do Estado para com os doentes, para com os desempregados, para com os que procuram o primeiro emprego? Temos. Temos escutas telefónicas? Temos. Temos uma justiça que só vai até onde acha que deve ir? Temos.
Então, o que é que nos falta? Falta-nos uma polícia política (de choque já temos – e parece que bate bem) e a aplicação prática daquele conceito bafiento que pode obrigar as forças da ordem a espantar meia-dúzia de amigos que estejam à conversa numa qualquer esquina de uma rua deste país, em termos mais ou menos como estes: “Toca a dispersar! Três à conversa já é comício.”
De resto… já temos tudo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Não ao triste fado dos tristes

Antes dos votos de Boa Páscoa para os meus 8 leitores, quero manifestar o meu orgulho como montemorense porque dois arqueólogos da minha terra tiveram visibilidade nacional graças ao seu trabalho, ao seu empenho e ao seu dizer não à maldita crise. O Carlos Carpetudo e a Sira Camacho, meus amigos, meus ex-alunos e cantores no CSD, criaram uma empresa a que chamaram Cromeleque para aproximar a cidade das pessoas ou… vice-versa. Este é, pelo menos, um dos objectivos dos Roteiros recentemente estreados. Aqui fica a justificação: Cruzamo-nos todos os dias nas Ruas da Cidade sem tempo para parar e escutar aquilo que as Ruas têm para nos contar. Os Roteiros na Cidade da Cromeleque são um convite para explorar Montemor-o-Novo e (re) descobrir os seus encantos.”
E um desses encantos está, precisamente, a meio da velhinha Rua de Avis, numa pastelaria chamada Capri e que, graças ao talento e trabalho do seu proprietário, também mereceu honras a nível nacional, e igualmente por bons motivos: a arte de trabalhar o chocolate e, sobretudo, a reinvenção dos bombons com sabores… inimagináveis. O António João Melgão e a sua equipa, tal como a Sira e o Carlos, disseram não ao triste fado que persegue os menos corajosos.
E pronto: uma Páscoa pacífica para todos e com saúde. Passeiem muito pela cidade, comam muitos bombons exóticos e aproveitem para passar cada momento com as pessoas que amam. O resto… logo se vê.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Luta Final



     Faleceu hoje de madrugada João do Machado, um dos últimos antifascistas montemorenses que lutou durante anos, na clandestinidade, contra o regime ditatorial de Oliveira Salazar.
     Em tempos, escrevi um conto em homenagem a esse comunista de gema, baseado num dos muitos episódios da sua vida de luta abnegada, solidária e humanista. Depois de premiada e lida em cerimónia pública com a presença de João do Machado, o que muito me honrou, a narrativa foi incluída, com sua autorização (e gosto, devo acrescentar), no meu último livro – Outros Contos de Vila Nova (Ed. Tágide, Lisboa, 2010), com o nome “O Sinal”.
Quanto a este meu velho amigo havia mil volumes para escrever sobre a sua luta, o seu sofrimento e a alegria que sentiu naquela manhã de Abril de 1974. Quem quiser conhecer um pouco desse resistente pode ler a história que vem a seguir, onde o encontrará com o nome de Tomé e perceberá como, quase sempre, se torna fascinante (e por vezes doloroso) misturar a ficção com a realidade.
 
(A publicação deste apontamento imediatamente após o que leram antes é de uma coincidência jamais prevista pelo autor.) 


O sinal


            O que Zulmira não adivinhava, não podia adivinhar, era que nesse mesmo dia, já perto do lusco-fusco, iria entregar à polícia política o seu Tomé, o homem com quem tinha casado havia mais de um ano, a quem, diante do padre e de Deus, havia jurado nunca trair, fossem quais fossem as circunstâncias da vida. O seu Tomé, pai da Margarida, aquele pedaço de céu prestes a ficar sem os seus carinhos. Se Zulmira soubesse o que estava para acontecer, teria preferido que aquele dia nunca tivesse amanhecido.
            Tomé, o do Monte da Luzia, levantou-se de um salto assim que o primeiro raio de sol, morno, tímido, lhe desenhou uma estrada de luz na face há dias por barbear. Não quis acordar a mulher que dormia ao seu lado, nem a filha, deitada num caixote a fazer de berço, aos pés da cama. Abriu a janela do quarto, pôs a cabeça de fora e respirou fundo. No Verão, a manhã é sempre uma festa de luz, à conquista de espaço, por cima daqueles montes nos arredores de Vila Nova. Recolheu-se, atravessou o quarto pé ante pé, abraçado à roupa e com as botas cardadas presas uma à outra pelos atacadores. Ia vestir-se lá fora. Não as queria acordar. Não dissera à mulher para onde ia. Nem tinha precisado. “Amanhã vou sair cedo. Há uma reunião.” Zulmira não lhe respondera. Para quê? Havia uns cinco ou seis domingos que era sempre aquilo. Não se contava um, em que ele não tivesse saído mais cedo do Monte em direcção à Vila, ou à casa do João Baptista, ou à do Zé Adelino, ou à de outro companheiro qualquer que não tivesse receio de disponibilizar uma mesa e três cadeiras. Uma vez, mostrara-se queixosa, uma lagrimita a assomar-se, envergonhada, que ela não gostava de chorar, fosse em frente de quem fosse. Foi logo a seguir ao nascimento da Margarida. Já nesse tempo Tomé andava metido na política.
      “Nunca passas os domingos em casa. Andas sempre em reuniões, e eu sempre preocupada sem saber se voltas. Pensa em mim. Na tua filha, tão pequenina, a precisar de ti.” “Por causa dela é que eu ando nisto.” Era sempre assim o remate dele. Mas depois continuava: “Zulmira. Isto tem de dar o berro! Isto tem de acabar um dia...” “E pensas que tudo muda, só porque meia-dúzia de loucos como vocês quer mais justiça?” “Não são meia-dúzia, Zulmira. Isto já é o país inteiro. Ninguém está contente com a situação... As prisões estão cada vez mais cheias... As perseguições aumentam todos os dias. Anteontem foram buscar a Ti Maria da Venda lá ao monte dela. Revistaram a casa e deram com dois ou três jornais dos que a gente sabe e… pronto... Os filhos a chorarem... O marido a dizer que ele é que os tinha trazido. Depois, há amigos meus a serem torturados todos os dias...” “É esse o meu maior medo, Tomé... Que tu, um dia, não regresses a casa... E que sofras por uma causa perdida… Eu casei contigo para ser feliz. Para estar contigo e com a nossa filha. Quero dar-lhe uma vida melhor do que a que os meus pais, que Deus tem, me deram... Coitados... Eu não me importo de trabalhar no campo... De tratar dos porcos... De ir fazer as ceifas noutras herdades onde paguem melhor... Não me fazem impressão os ‘ratinhos’ que vêm de tão longe ganhar o pão. Eu quero é ter paz. E queria que tu nunca fosses preso... A nossa vida ia ficar despedaçada…”
            Foi aí que a lágrima se soltara, leve, e se lançara lenta pela face, numa cascata de dor, em direcção ao lábio bem desenhado, fino, não de cruel mas de finura mesmo, que Zulmira até podia ter nascido do outro lado: a tez era clara, os cabelos negros. Negros e longos, caídos até ao meio das costas. Vinte e cinco anos. O corpo magro, esguio, como se cuidasse dele de propósito para agradar a Tomé. Mas não. Ela era assim mesmo: bonita, mulher feita aos quinze, cobiçada pelos rapazes que se juntavam depois do trabalho na venda do Ti Zé da Bica, à saída da Vila, mas que só conheceu homem depois de ter casado com o Tomé da Luzia, Monte afamado pelo morador e pelo pai, o Chico da Luzia, homem chamado a contas ainda Tomé era gaiato pequeno.
            “Não gosto de te ver chorar. Diz o que quiseres, mas a chorar é que não.” “Eu sei que as minhas lágrimas não te aquecem nem arrefecem, mas ando sempre com o credo na boca. Sabes que já andam dois deles a rondar o nosso Monte. Todos os domingos, chegam, estão, e partem antes do fim da tarde… São sempre os mesmos. No dia em que tu faltaste ao trabalho, a uma segunda-feira, para ires ao médico, eles ali estavam, desconfiados… É um suplício. Nesse dia, se não fosse o sinal, tinham-te levado… A minha angústia nasce todos os dias, porque eu sei o que vai na tua cabeça de herói que quer mudar o mundo sem pensar nas consequências para si e para os seus... E tu, sozinho, não consegues nada...” “Não posso sozinho, mas posso contigo. Com a tua ajuda… Queres uma vida melhor para a nossa filha? Então, confia em mim. Protege-a quando eu não estiver. Protege-a. Com a tua própria vida. Com a minha própria vida. Ela é o nosso tesouro mais precioso… Está atenta. À mínima desconfiança, já sabes: descontraidamente sais de casa e fazes o sinal.” Zulmira lançou-lhe um olhar nervoso que disfarçou com um sorriso triste mas que o deixou mais sossegado.
                                   …………………………………….
Saiu do Monte já o sol tinha aberto os olhos, dando ao olival um aspecto esguio, de sombras alongadas a baterem-lhe nas botas. Havia uma ligeira aragem mas já se sentia que o dia ia ser quente. Como todos os dias de Verão no Alentejo. Domingo é campo parado. As searas ali à volta estavam quase prontas para o corte. Mais um mês de espera... Para trás, a casa, o poço, a pocilga, feita por ele, o alpendre, o tanque onde Zulmira lavava à estorrina e um terreiro grande, largo, limpo de ervas e de pedras, onde a roupa era estendida, de frente para a Vila, virada ao vento, que lhe desalinhava os cabelos de azeviche, sempre que ali ficava à espera de Tomé. 
 “Quanto menos a família souber da nossa vida, melhor”, dissera-lhe uma tarde João Baptista, com ar grave, quase ameaçador. “Não podemos pôr em risco as nossas mulheres porque, se não regressarmos a casa, são elas que ficarão a tomar conta dos nossos filhos...” “Mas a minha mulher apoia a nossa causa. Não a posso deixar de fora… Ela sabe o que eu ando a fazer. Só desconhece é os sítios onde nos juntamos. Uma semana em casa de um... Outra em casa de outro. Eu sei que somos vigiados. Na vila, há gente que manda um telegrama para Lisboa todas as segundas-feiras a contar quem estava na reunião... Mas a mim nunca me apanham. Eu tenho um sinal com a minha Zulmira.” “Um sinal?”. “Temos um sinal. Um sinal, é só isso. Um dia conto-te, João. Um dia!”
Dali a Vila Nova era um saltinho. Pouco mais de meia légua. A reunião começava às oito em ponto. E hoje iam tomar-se decisões importantes.
Se Tomé da Luzia adivinhasse quem estava à espreita atrás da oliveira velha, a uns duzentos metros do monte, não teria mantido a sua postura decidida, nem se teria dirigido para a Vila, onde era esperado na casa do Zé Adelino. Se tivesse o poder de ver através das coisas, teria vislumbrado, de forma clara, não um homem mas dois. Daqueles que basta olhar para eles para se ficar a saber, lidos à primeira vista, quem são, o que querem e quem os mandou. Quando Zulmira os viu, já Tomé ia longe… Para não correr riscos, era melhor pôr o sinal de alerta a funcionar…
            Passou o tempo, mas não passou o medo. Zulmira andou quase sempre com a filha ao colo, nervosa, com vontade de ir ter com Tomé, ou de mandar um recado por alguém… mas por quem? Sabia, contudo, o que lhe dava um certo alívio, que o marido não se aproximava do Monte enquanto lá estivesse o sinal… Mal almoçou, tal era a agonia.
            Entraram em casa como uma sombra, os dois homens. Margarida dormia descansada e ausente, no caixote, no quarto, aos pés da cama. Pouco passava das seis da tarde e Zulmira, que estava na cozinha, não os viu. Subitamente, um choro assustado encheu-lhe a alma e quando se dirigiu, a correr, para o quarto, já um deles vinha a sair com Margarida ao colo. Zulmira soltou um grito e atirou-se ao desconhecido… Este, bastante mais alto que ela, ergueu o bebé acima da cabeça, enquanto a mãe era brutalmente agarrada pelo braço esquerdo do segundo homem enquanto que, com o direito, fechava as portadas da janela da cozinha.
            “Acalma-te, mulher”, disse o primeiro. “Fica sossegada que tudo se resolve… Não grites, não estrebuches que ainda assustas a criança…” “Quero a minha filha”, gritou ela, não acreditando no que lhe estava a acontecer… “E vais tê-la. Mas, para isso, tens de nos fazer um pequeno favor…” E o primeiro, o que segurava Margarida, fez um gesto ao segundo para que afrouxasse o abraço e a deixasse mais folgada. “O que querem, então?”, perguntou num misto de medo e de fúria. “Vais começar por nos dizer onde está o teu marido”, replicou o primeiro que, pelos ares, parecia o chefe do outro. “O meu marido foi ver a mãe ao monte. Anda adoentada e a idade já é muita e…” Não acabou a frase. A mão do segundo homem voou, furiosa, em direcção à face direita de Zulmira que não soltou um grito mas que sentiu a raiva a descer com as lágrimas. “Não sejas mentirosa. O teu marido está em Vila Baixa, numa reunião. Nós sabemos de tudo. Não tentes mentir. Não vale a pena. E podes piorar as coisas.” Sorriu para o chefe que batia suavemente com a mão direita nas costas de Margarida… “Podes piorar muito as coisas.” E prolongou o “muito”, com um esgar animalesco. “Se sabem tudo, por que perguntam? Vão buscá-lo! …”, gritou. Ela sabia que não iam. E se fossem não o encontrariam, porque era regra sagrada acabar as reuniões sempre antes das seis da tarde, mesmo que as discussões estivessem a meio… “Não é preciso ir buscá-lo. Vamos esperar aqui por ele”, respondeu o que segurava em Margarida que, apesar das vozes e dos gestos, tinha parado de chorar. “Dê-me a minha filha. Ela está assustada… Não tem o direito de fazer isso…” “Eu dou, eu dou… Mas a seu tempo. Ainda não nos fizeste o tal favor…” “Mas que favor?” “Quero que vás apanhar a roupa que está lá fora no estendal…”
            Zulmira sentiu um estremeção no baixo-ventre e ficou com a cabeça às voltas. Encostou-se ao guarda-louça para não cair.
            “Faz o que te mando e nada acontecerá à tua filha. Ficará contigo depois de tudo terminado”, insistiu.
            Muda de medo, em luta profunda consigo, numa agonia interminável, Zulmira olhou para aquele homem e os lábios finos quase desapareceram, tal a força e a raiva que se queriam soltar. Este, percebendo que as ordens corriam o risco de não serem executadas, acrescentou num tom de voz mais duro:
            “Não resistas, mulher! Vai apanhar a roupa e sem pressas…”
            Secretamente, Zulmira ainda julgava dominar toda a situação. Se eles queriam que ela apanhasse a roupa, muito bem, ela não tinha qualquer problema em fazê-lo.
            Pegou num alguidar vazio e encaminhou-se para a porta. Lá fora, meia-dúzia de peças tinha secado ao sol e ao vento. Zulmira esticou-se e, tirando as molas uma por uma, foi desnudando o arame, deixando lá à ponta, ainda a esvoaçar, uma camisa de cor vermelha. Entrou em casa e viu o segundo homem a espreitar o terreiro pela janela da cozinha. Olhou para o chefe e fez um gesto de desagrado. O primeiro, sem nunca largar Margarida, revolveu o alguidar e zuniu-lhe com uma voz lenta mas furiosa:
            “Voltas lá fora a apanhas também a camisa!”
            Tomé tinha chegado antes das seis. Como viu o sinal, ficou-se por ali, à distância, a espreitar, atento a qualquer ruído ou movimento. Já estava a ficar impaciente quando, ao longe, viu a mulher, em bico de pés, a apanhar aquela bendita camisa vermelha. “Já não há perigo. Posso ir…”, pensou. Na cabeça dela ecoava uma voz que lhe fazia correr a água cara abaixo: “Protege-a quando eu não estiver. Protege-a. Com a tua própria vida. Com a minha própria vida. Ela é o nosso tesouro mais precioso…”
            Num andar calmo, Tomé dirigiu-se para casa onde, julgava ele, o esperavam, como habitualmente, Margarida, Zulmira, a ceia e umas boas horas de sono.
                                                                                              João Luís Nabo
(in Outros Contos de Vila Nova, Ed. Tágide, Lisboa, 2010)

sábado, 17 de março de 2012



Por tudo o que se diz e escreve neste e noutros órgãos de imprensa, Portugal está a atravessar um período ideal para o surgimento de um salvador que, aproveitando-se do desespero do povo, ansioso por soluções rápidas e eficazes, levará ao poder o primeiro indivíduo, cujo perfil garanta uma saída rápida do sufoco em que a maioria começou a viver.
O desemprego crescente, a crise nas empresas, as confusões no ensino, o descontentamento dos profissionais de saúde, os cortes nos ordenados e nos subsídios, entre outras garantias inalienáveis dos direitos de quem trabalha, a impossibilidade de trabalhar a terra, a incapacidade cada vez maior de Portugal se auto-sustentar, o aumento da criminalidade, a diminuição do poder de compra dos portugueses que vai acabar por estagnar toda a nossa produtividade fazem parte de um cenário onde se notam algumas semelhanças com outros cenários da História recente da Europa, de povos em crise, de braços abertos ao primeiro salvador da pátria que possa ou queira aparecer.
E isto é uma situação muito perigosa. Repito: muito perigosa.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Paradoxos (ou o outro lado do espelho)

 
Sabemos como o país está em absoluta falência. Milhares de trabalhadores são postos na rua, sem direitos nem garantias de coisa nenhuma. Fecham as fábricas e acaba-se o salário que dava para pagar as contas (mal) e para pôr o pão em cima da mesa. A Segurança Social está em bancarrota. Os trabalhadores de hoje nem sequer sabem se poderão ter reforma quando for tempo dela.
Por outro lado, sei também que outras empresas começam a renascer das cinzas e que precisam de gente para trabalhar, mas não vão querer, decerto, pessoal licenciado, porque lhe terão de pagar um ordenado mais ou menos a condizer… Preferem trabalhadores com um mínimo de escolaridade para que isso seja um bom motivo para uma menor despesa e, claro, uma mais descarada exploração.
Se assim é, se os cidadãos com menos escolaridade arranjam emprego mais depressa, porque serão sempre pagos abaixo de um cidadão com curso médio ou superior, o que é que eu e os outros professores andamos a fazer nas nossas escolas? Sinto-me uma verdadeira fraude, quando insisto com os meus alunos sobre a importância do conhecimento, como arma fundamental para o futuro. Sinto-me um mentiroso, quando lhes digo que o estudo feito com afinco e seriedade poderá fazer deles uns cidadãos do mundo e que terão ferramentas para lutar pela vida. Eles acreditam (ou fingem acreditar). Mas eu sei que, mais do que cidadãos do mundo, serão ex-alunos sem emprego, sem possibilidade de seguir a carreira dos seus sonhos, sem hipótese de comprar uma casa, de arranjar uma família, de serem felizes.
E fico mal comigo próprio depois de cada dia de trabalho. Depois de muitas horas a fingir que está tudo bem e que vivemos num paraíso.


terça-feira, 13 de março de 2012

A minha escola


Fiz a estreia na "nova escola" hoje, com o 10.º AGD. Gostei. Gostei, não... Gostámos.
O "espírito" da Escola "Velha" paira em todos os cantos, o que é psicologicamente favorável, e o ambiente para ensinar e aprender sente-se como irrecusável. Vamos em frente. Aguardamos que as instalações fiquem, o mais depressa possível, completas, para continuarmos a ser uma GRANDE ESCOLA. (Obrigado, São, pela foto).

Distraídos crónicos...


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