quarta-feira, 1 de julho de 2009

Manuel Justino Ferreira - actualíssimo!


O poeta montemorense Manuel Justino Ferreira, falecido em 28 de Outubro de 2002, tem a sua poesia cada vez mais actualizada. Hoje passei os olhos por este poema, incluído numa colectânea que um grupo de amigos, com o apoio da família, editou em 2004. Aqui o deixo, actual, acutilante, verdadeiro, para recordar o crítico, o cidadão e o poeta:


Proibição
I
A partir de hoje é proibido chover!
É proibido ler, escrever e sonhar...
É proibido morrer de morte natural e em dias de descanso!
Trazer as contas em dia, ser honesto, ser normal.

II
A partir de hoje é proibido falar verdade,
Usar a lealdade, ser correcto e cumpridor!
A partir de agora é expressamente proibido
Prender seja quem for...
Principalmente o corrupto, o ladrão e o caluniador!

III
Finalmente...
A partir de hoje tudo passa a ser diferente!
Apenas se manterá este lugar bem comum,
Bem real e verdadeiro:
O valor de qualquer um depende só do dinheiro,
Mesmo que seja roubado!

IV
Sendo assim, fica acordado:
Mesmo sendo um vigarista,
Poderá constar na lista
Para ser condecorado!


Manuel Justino Ferreira, Poeta que parte... Poemas que ficam, Ed. GAMMN, 2004


5 comentários:

Anónimo disse...

Actualíssimo, sem dúvida.
Bjinhos
CVO

Anónimo disse...

Bom dia M@estro!
Foi bom trazeres o "Manel Estino" à nossa lembrança; actualíssimo.

Vivemos na completa inversão de valores, e com os maus exemplos a virem sempre de quem tem mandado no país nos últimos trinta e qualquer coisa anos.
Por este andar, o dia virá em que todo aquele que não tiver ocasião para ser ladrão, morrerá de pena e de inveja.

E já que falamos em legislação, aqui ficam os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello.

@braços e DIAS TRANQUILOS!


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

ZERO À ESQUERDA disse...

@nónimo:
Um dia tudo isto será possível. Mello acreditava, Gedeão acreditava e nós temos de acreditar.
Abraço para ti.

Anónimo disse...

Adorei é lindo e bem verdade
bjs

Anónimo disse...

Este poema, e não só, é digno de ser enviado a todos os nossos coralistas
Obrigado
(Coral Luísa Todi - Setúbal)

Distraídos crónicos...

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