terça-feira, 2 de março de 2010

A segunda idade dos porquês





Os meus alunos da Escola Secundária nunca leram um texto sobre eles, escrito por mim. Mas vão ler agora, caso possam ou queiram. Não vou falar de nenhum em particular. Nem podia. Falo de todos. Dos meus… dos nossos, porque há colegas de ofício que vão rever-se nestas linhas.

Ensinar, seja que matéria for, é cada vez mais complexo e requer da parte do professor a energia e a imaginação suficientes para provar aos alunos, ao vivo e a cores, que vale a pena aprender aquilo que ali se ensina. O que torna a questão do ensino mais complexa (e mais fascinante em termos pedagógicos e sociológicos) é que nem o professor nem o aluno estão ali sozinhos. Isto é, eles são apenas, tanto um como o outro, a ponta do icebergue que esconde anos de experiência, de vivências, de estudo (muito ou pouco) e de relacionamento com o mundo, com os outros, sendo, tanto alunos, como professores, portadores de universos ricos e facilmente partilháveis. E é aqui que entra o mundo lá fora e, sobretudo, a Família, responsável esta, tantas vezes, pelo nosso estado de espírito e pelo estado de espírito dos que ali estão à nossa frente. É que as famílias dos nossos alunos são como as nossas: podem ter momentos de felicidade ou momentos de profunda tristeza. E isso reflecte-se, obviamente, na formação da rapaziada e na forma como “recebem” as matérias daquele dia.

Não é fácil dar a volta à questão. Quando olhamos para uma turma de 25 alunos, vemos rostos, carteiras, livros, canetas, mochilas… Queremos todos atentos, pontuais, livros abertos, canetas prontas a tomar notas ou a apontar alguma ideia mais brilhante que o professor possa ter ou que o ministério nos manda ter. Olhamos mas não vemos, porque raramente vislumbramos o que está para além de tudo isso. Queremos que todos ouçam da mesma maneira, que todos escrevam ao mesmo tempo, que todos aprendam por igual o que vamos transmitindo e, durante 90 minutos, esquecemo-nos de todos os “bocadinhos” de que o aluno é feito. Aqui me penitencio, porque também eu me esqueço. Na segunda idade dos porquês, as suas preocupações são muito mais importantes do que a Conquista de Ceuta, a precipitação média anual na Floresta Amazónica, a Voz Passiva Idiomática em Inglês ou em Francês, os Sistemas de Duas Equações ou a função do narrador n’Os Maias do grande Eça.

E eis que surge o grande problema que nós, professores, não conseguimos resolver: os nossos alunos precisam cada vez mais de nós e os governantes cada vez nos dão menos tempo para estarmos com eles. Ainda assim, apesar do pouco tempo de partilha genuína, é de todo fundamental aprender com eles algumas lições de vida impressionantes. Umas, complicadas e difíceis de digerir. Outras, mais simples, mas não por isso menos profundas. Como esta: há uns anos, depois de ter tentado decifrar a custo a caligrafia de um aluno, muito parecida com uma emaranhada escrita árabe, comentei na última página do teste, a vermelho e de forma destacada: “Deves ter mais cuidado com a letra”. No final da aula, o aluno pediu para falar comigo. “O que se passa?”, perguntei. O aluno mostrou-me o teste, apontou para o meu irritado comentário e disse-me: “Desculpe, professor, mas não consigo perceber a sua letra.”



15 comentários:

vovó disse...

primeiro, um belíssimo texto.
depois... é isso tudo! :)...

beijocasssss
vovó Maria

mdelfas disse...

Estamos a falar daquele professor que emprestou um cachecol à sua aluna porque se preocupou com o frio que ela sentia na sua aula?? e que com o decorrer dos anos se tornou um grande Amigo ...AAhhh esse é um BOM Professor ... que sorte que eu tive. BJ

OdeteSerra disse...

É oficial: ainda há professores que se preocupam realmente com os alunos. Nem sempre o conseguem demonstrar, mas assumem a sua preocupação e "frustação" de não conseguirem fazer melhor...
Obrigada à Belinha, por permitir a convivência com este amigo (acho que posso trata-lo assim, ou prefere Profesor, lol)
Um beijinho,
Odete

Leonel Craveiro disse...

Posso garantir que fui bafejado pela mesma sorte.
Professor, maestro, director e amigo, a ordem até nem importa, o que importa é poder sentir, retribuir e manter este tipo de relações.

Tantos momentos de angústia, nos malditos testes que teimavam em nunca acabar, cada pergunta ultrapassada era mais um obstáculo concluído, ou não, com êxito.
Tantos momentos de boa disposição naquela turma, que poderá dizer-se, algo desequilibrada, onde muitos até queriam aprender e outros nem por isso, com a enfadonha existência dos indecisos.

Valeu mesmo a pena.

Obrigado João Luís.

Abraço.

Ana Casadinho disse...

Ser-se Professor não é para todos.
Afirmo-o com toda a certeza!!!Todos os dias tenho a felicidade de partilhar projectos, experiências e sonhos de construir uma escola mais justa, com mais qualidade e para Todos.Diversidade,Qualidade,Respeito,Partilha, Colaboração são exemplos de algumas palavras importantes que devem "acompanhar" os manuais que cada professor leva na sua mala. Ser Professor é acreditar na missão que se tem de ajudar o Outro a crescer em todas as suas dimensões.É ser orientador, mediador, modelo... É Saber Ser e Saber Fazer.Com estes "ingredientes" temos condições de olhar para os nossos alunos, em dimensões que vão, muito mais além, do menino ou da menina que temos à nossa frente. A todos os Professores que conseguem "entrar e fazer, diariamente esta viagem", dignificar a nossa classe e a nossa Escola, uma palavra de incentivo e de força. Aos outros, que "brincam" aos professores, procurem outros destinos...
Ana Casadinho

MAR disse...

Sempre que falo com amigos meus sobre os nossos tempos de escola, acabamos invariavelmente a falar sobre as suas aulas de Inglês, Alemão ou as minhas favoritas: TTI. Há qualidades de que sempre falamos que não conseguíamos encontrar em todos os professores: um grande sentido de justiça e de igualdade na maneira como trata os alunos, mesmo sabendo à partida que nem todos são iguais. Independentemente do estatuto social, ambiente familiar ou o local de onde vinham (era, inacreditavelmente, por vivermos em aldeias ou vilas que mais nos sentíamos discriminados pelos outros professores!) apenas uma coisa era exigida, que todos déssemos o melhor. E dávamos com todo o gosto.

Cloreto de Sódio disse...

Obrigado, Vovó! Acredito em melhores dias.
Bj.

Cloreto de Sódio disse...

Mdelfas: a malta gostava de aparecer às aulas das 8 da manhã de "corpinho bem feito" e depois tinha de haver sempre um apoio extra em termos de roupagens. Bons tempos, Maria!! Continuamos juntos. O importante é isso também.

Cloreto de Sódio disse...

Amigo, Odete, amigo, claro. Nem eu nem o Silvino fomos teus professores :) E mesmo que tivéssemos sido, agora já não o seríamos.
Bj.

Cloreto de Sódio disse...

Pois, é, Leonel. Aquele célebre 8.ºB, do ano de 1986, deixou boas recordações em todos nós. Sobretudo em mim, que era assim uma espécie de professor, pai, director de turma e psicólogo. ;) Abraço.

Cloreto de Sódio disse...

Ana Casadinho: contigo falo à hora do jantar, ou, então um pouco mais tarde. Lado a lado.
Bjs.

Cloreto de Sódio disse...

MAR: sigo um dos teus blogues que é bom e é de seguir. Já puxei pela cabeça para transformar as tuas iniciais num nome concreto mas, confesso,ainda não vi resultados. Mas não vou desistir. Obrigado pelas visitas e pelas memórias. Um abraço

Carlos Machado Acabado disse...

O acto docente foi-se progressivamente tornando um acto cada vez mais dolorosamente cumprido numa penosa solidão---e numa inimaginável incompreensão.
Foi a minha actividade durante mais de trinta anos e ainda hoje, quase uma década depois de me ter aposentado, recordo a frustração dos últimos.
Mina-nos a noção aguda da inutilidade de tudo "aquilo", enreda-nos a impensável teia de armadilhas burocráticas que são [custa-me a crer de modo inocente] estendidas pelo poder à profissão, sufoca-nos e enreda-nos esse mesmo poder que [nos últimos anos deixou definitivamente de escondê-lo!] elegeu incompreensivelmente a profissão e os profissionais como adversários electivos e alvos a abater.
Ensina-se, hoje, CONTRA um poder político, em geral, bronco, caracteristicamente fanfarrão e pedagogicamente analfabeto [basta recordar pessoas como M. do Carmo Seabra ou M. Lurdes Rodrigues, dois dos piores ministros que a "Democracia" gerou em trinta e tal anos, sem sombra de dúvida, para se ter uma noção de até onde baixou o nível em matéria de Educação em Portugal!]; CONTRA genericamente uma comunidade educativa abúlica mas perversamente encorajada por esse mesmo poder a ver nos professores "inimigos de classe" sempre prontos a exercer um poder supostamente absoluto, discricionário e acintoso que, na realidade, não existe: não passa de uma ficção politicamente construída e maliciosamente alimentada para dividir a comunidade escolar e mantê-la controlada; CONTRA, muitas vezes, alunos mal-aconselhados e confrontados com um mercado de trabalho anárquico, minado por taxas de desemprego galopantes e, por isso, cada vez mais restritivo que, por sê-lo, acaba, em larguíssima medida, por esvaziar e tornar completamente vão o objectivo de educar-se; CONTRA [é preciso ter a coragem de dizê-lo] sindicatos genericamente acomodados [alguns deles caricatas imitações de sindicato] e incapazes de mobilizar efectiva----e consistentemente!---a classe para a defesa de aspectos, de facto, relevantes e essenciais; CONTRA divisões internas ditadas por uma falta gritante de espírito de grupo---de um espírito corporativo usado, todavia, consistentemente pelo poder como pretexto para as investidas imbecis que faz ciclicamente contra a classe na cega correria "dinheirista" que se tornou recentemente a sua "obsessão de cabeceira", a única coisa que ele ouve quando se trata de escogitar tomadas de posição avulsas a que ele chama, porém, pomposamente "políticas".
Resta [e fica aqui bem documentada em diversos testemunhos] o lado humano da relação professor/aluno, a única coisa que, quando ocorre, permite atenuar consideravelmente a imensa frustração que está condenado a sentir quem se obstina, contra ventos e marés, em tentar remar contra uma verdadeira torrente de escolhos, dificuldades e obstáculos de toda a ordem e vindos, na prática, de todo o lado, dos quais, repito, a incompreensão geral e a noção amarga da imensa inutilidade do que se faz não são os que menos fazem doer e tornar inimagivelmente amarga e frustrante aquela que é, sem dúvida, uma das mais belas e nobres profissões que existem!

Cloreto de Sódio disse...

Pois é, Carlos, meu Amigo, sem professor não há progresso. Sócrates e todos o que o apaparicam ainda não deram por isso. Apesar dos sinais. Apesar dos sintomas.Apesar do copo estar à distância de uma gota para transbordar.
Abraço.

Carlos Machado Acabado disse...

Só tenho pena de uma coisa: de o homem não se chamar Pessoa em vez de Sócrates para a gente poder dizer como ao outro que tanto Pessoa... já enjoa!...
É! Vai lá tu arranjar uma rima para Sócrates!...
É mais difícil arranjar uma palavra para rimar com Sócrates do que [sei lá!] com Lacerda, por exemplo.
Até nisso, o tipo é chato, caramba!

Distraídos crónicos...

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