quinta-feira, 16 de julho de 2020

Buas Fórias




Viroses

            Não queria desejar boas férias aos meus oito leitores num contexto terrífico, dentro de um clima pessimista e catastrófico. Catástrofes sempre as houve ao longo dos séculos e desde que o Homem tem memória de ser Homem.
Apesar da desolação com que encaramos as notícias que nos chegam a casa em catadupa, temos de acreditar, sobretudo, nas capacidades técnicas e científicas dos nossos médicos, enfermeiros, psicólogos, bombeiros, cientistas, investigadores, porque todos eles estão a remar para o mesmo lado. Mas isso… são eles, os que estão na linha da frente, à nossa frente, a proteger-nos. Porque nós, os outros, os que precisam deles, devido ao que é visível diariamente em termos de atitudes, não me parece que o comportamento do cidadão comum alguma vez possa vir a melhorar. Porque as "cenas" reportadas nas televisões e nas redes sociais provam que nem todos querem evitar a propagação do vírus e, pensando apenas nos seus instintos e nas necessidades básicas de convívio e diversão, acabam por estragar o que muitos tentam consertar desde há vários meses. Acredito, por isso, porque ninguém me oferece uma hipótese diferente, que a descoberta de uma vacina eficaz, e cujos efeitos sejam duradouros, possa ser a única solução para a gravíssima crise de saúde que estamos a enfrentar.
Os portugueses já provaram que não são capazes de ser mais do que aquilo que são: portugueses, sem respeito pelos outros e sem respeito por si próprios, agarrados àquela máxima estúpida e medievalista “Há-de ser o que Deus quiser!”
Sabemos que a economia está a viver uma situação sem precedentes, e que os cafés, os restaurantes, os clubes, as associações e outros pontos de encontro e de convívio têm de sobreviver a esta maldita crise. Contudo, tal desiderato não pode ser feito à custa da saúde e da vida de todos nós. Por isso, que se respeitem sempre as normas de segurança, que se autuem os prevaricadores, que se prenda quem põe em risco a vida dos outros. Tudo isto para que possamos viver um clima minimamente de confiança, de modo a que todos tenhamos possibilidade, aos poucos, de refazer a nossa vida.

O Coral de São Domingos e o Orfeão de Estremoz Tomás Alcaide suspenderam todas as actividades a partir de meados de Março e só as irão reatar no mês de Setembro. Como associações conscientes e com apurado sentido cívico, as suas direcções não quiseram manter os trabalhos enquanto não houvesse garantia de segurança para todos os seus cantores, seus familiares, amigos e consequentes ambientes sociais e profissionais. Era um dever nosso. Foi uma forma prática de consciência cívica. Ninguém sofreu mais a ausência de ensaios e de concertos do que nós todos. Contudo, para além de não nos colocarmos em risco, nunca poderemos ser acusados de interferir negativamente na luta contra a pandemia.

            Há pouco tempo, uma senhora conhecida da nossa praça berrou comigo para eu me desviar do seu caminho, de modo a dar-lhe mais espaço de movimentos ao sair da farmácia… Não me apercebi de que estava a incorrer nesta grave falha. Se o tivesse notado, ter-me-ia desviado e dado passagem à senhora, com o metro e meio a que ela tinha direito. Mas a senhora não quis perceber que ainda estamos todos a tentar aprender a viver em sociedade neste novo tempo que ainda não nos deu hipótese de voltarmos a ser nós próprios. E a senhora, desagradável e persecutória, gritou comigo, como se eu estivesse possuído por um espírito maligno ou fosse portador de lepra ou de outra qualquer doença digna da fogueira ou do exílio. A senhora, com idade de ser minha Mãe, e que tinha acabado de ser educadamente atendida pela farmacêutica daquele estabelecimento, nem sequer olhou para mim, para a minha máscara e para a minha preocupação em ser o mais civilizado possível.
Mas são os tempos que atravessamos. Tempos que começam a ser também de intolerância e de alguma perseguição. Não sabia a senhora, não o poderia saber, que o indivíduo a quem ela se dirigiu de forma rude e indelicada tinha idade para ser seu filho e que tem tido sempre o máximo cuidado para cumprir as regras de segurança: porque é um cidadão consciente, porque é marido, é pai, é sogro, é primo, é tio, é cunhado, é amigo, é colega. Espero que, para a próxima vez que a senhora vá aviar a sua receitazinha, a farmacêutica a aconselhe, educadamente, a levar também um calmantezinho, para que, com o espírito mais cheio de luz, tenha a capacidade de respeitar os outros, sem ataques estúpidos e desnecessários de histeria nem síndromes inquisitoriais de cega perseguição.  Não sei qual de nós partirá primeiro, mas que seja, quer para um, quer para outro, uma viagem tranquila.


Grande tanga

A escola à distância é o segundo tema que tem vindo a preocupar os alunos, os professores e os encarregados de educação. E há razão para tal. Porquê? Porque, apanhados todos de surpresa neste carrossel de completa loucura, onde sobraram dúvidas e dificuldades que se prendiam, acima de tudo, com as capacidades técnicas e informáticas de alunos, professores e encarregados de educação, todos acabaram, lá no fundo, mesmo no fundo, por achar que este último período escolar foi uma verdadeira e gloriosa treta. Primeiro, porque os professores pouco ensinaram (ou nada) e, depois, porque os alunos pouco aprenderam (ou nada). Fraudes, copianços, aulas assistidas no Parque Urbano, na praia, numa completa bagunça, o que não iria deixar o nosso ministro Rodrigues satisfeito. Por enquanto, estas realidades estão a ser-lhe sonegadas, para que ele, optimista, possa anunciar o início do próximo ano lectivo com o sorriso de quem não sabe o que é dar uma aula nas condições em que ele nos quer obrigar a trabalhar. 
Ensino à distância para alunos do ensino básico e secundário é igual a tanga. Mas uma tanga das grandes. E os professores que me dizem que foi uma coisa fantástica… não são professores a sério. Pelo menos, não são professores como eu.
Não queria despedir-me neste contexto de crise, mas não terei outra hipótese: bias fórias. Perdão, buas fúrias. Perdão, boas férias. Pronto, é isto.

Distraídos crónicos...

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