domingo, 13 de setembro de 2020

Carta ao Vidinho

 


Querido Covid-19:

 

Sei que estás bem de saúde e que vais ter uma vida longa e próspera.  Como está a Dona Covida, tua Mãe, e o Sr. Covidão, teu Pai? Devem estar felicíssimos com o prestígio do seu menino.

Ouve lá, posso tratar-te por Vidinho? É que já estás há tantos meses no nosso convívio, que me sinto verdadeiramente próximo de ti, e de tal modo que te considero um amigo. Mas és um amigo com um perfil, cujos traços vou passar a explicar-te, caso tu ainda não tenhas reparado: sabes aqueles amigos que nos visitam sem avisar, como se devêssemos estar sempre à espera deles, e que se instalam na nossa casa sem data prevista de saída? Há amigos assim: chegam, sentam-se no nosso sofá, comem, dormem, usam a nossa pasta dentífrica, a nossa espuma da barba, enfim, tudo a que têm direito e, quando pensamos que estão prestes a regressar às suas origens, decidem ficar mais uns tempos. E nós, a antecipar alegremente a sua partida e a preparar mentalmente uma série de festarolas a comemorar esse evento épico, eis que voltamos à estaca zero, à espera que eles tenham mais um momento de epifania, ou que lhes faleça um familiar (próximo), que é forma de eles bazarem mais depressa.

Pois, caro Vidinho, tu és um amigo assim. Diz-me, tu já viste bem os transtornos que nos estás a causar? Não te sentes constrangido com as confusões que provocas na doutora Gracinha que, ora quer que usemos luvas, máscara e viseira, ora só viseira e luvas, ora só máscara e luvas, ora só luvas, ora coisa nenhuma, ora o raiozinho que a parta? O senhor tradutor da língua gestual também está um bocadinho passado e já fez um ou outro gesto mais feio, no meio de todas aquelas comunicações, gesto esse que ninguém percebeu, porque até batia certo com aquilo que a doutora Gracinha estava a tentar dizer…

Mas tu gostas deste pagode, não gostas, puto? Então repara lá nas maluquices completamente estapafúrdias que os políticos nos obrigaram a fazer, porque, como sabes, há lobbies com muito peso e há favores que eles têm de fazer uns aos outros. Vê lá tu que, por causa de ti, são proibidos ajuntamentos com mais de 10 pessoas, mas, a partir desta semana, podem estar 28 alunos numa sala de aula. Os artistas e assistentes de palco estão parados desde Março, porque os concertos provocam ajuntamentos (a sério?), mas a Festa do Avante foi avante, as missas em Fátima já têm milhares de pessoas, enquanto vão morrendo dezenas de utentes nos lares, para não falar nos nossos amigos e familiares que partem para sempre sem a nossa última homenagem. Acabaram-se as festas nas nossas casas, mas as praias estiveram cheias de pessoal, em alta descontração.

 

Ando aborrecido contigo, Vidinho, mas, ao mesmo, tempo, sinto-me agradecido. Acabei por ver a verdadeira natureza de algumas pessoas (para o bem e para o mal) e isso foi uma coisinha útil para eu saber com quem lido. Vê lá tu que houve denúncias nas redes sociais em relação a cidadãos alegadamente infectados para depois vir o diz que não disse. Houve gente que te apanhou que não comunicou o seu caso a ninguém e se fartou de passear como se não houvesse amanhã. Enfim, um chorrilho de contrastes que nos deixam bem desanimados: muitos cidadãos conseguiram estar no remanso do lar, alegadamente em tele-trabalho, a ganharem o ordenado por inteiro, sem fazer a ponta de um chavelho, enquanto outros foram para lay-off ou mesmo para o desemprego, sem possibilidade de qualquer recurso. Há empresas a fechar diariamente e há outras que florescem de hora a hora: por causa de ti há laboratórios e farmacêuticas que vão ganhar milhões em vacinas, há empresas que estão a lucrar uma imensidão de euros com o fabrico de zaragatoas e a venda de máscaras, viseiras, luvas, gel e sei lá que mais. O desemprego, a doença, a morte que andas a provocar todos os dias lembram-me um episódio da Bíblia, como as Sete Pragas do Egipto… ou uma cena marada provocada pelo Trump para culpar os Chineses, os Negros ou os Mexicanos.

A nossa relação com os outros também mudou. Passou a ser de desconfiança. Repara, Vidinho: um espirro, agora, à entrada do Outono, seria apenas e só um espirro normal e cheio de razão para nascer. Diríamos ao espirrador “Saúde”, “Santinho”, “Jesus, Maria, José” ou “Tapa-te ó, Saraiva”, consoante a nossa tradição familiar, o nosso grau de fé ou de acordo com a extensão da nossa boçalidade. Mas era apenas um espirro. Agora basta um espirro para que o seu autor fique, numa questão de segundos, sozinho num enorme círculo tristemente vazio, enquanto a malta (e os seus melhores amigos, os seus pais ou avós) fogem a sete pés. E ninguém o saúda com aquelas expressões tão fofas com que mimamos os amigos. Dizem-lhe antes, e em voz alta para toda a gente do supermercado ouvir: “Vai fazer o teste do Covid!”. Ora, isto não é bonito.

Depois, Vidinho, há estas incoerências brutais, mas que não conseguimos contrariar: quando vamos aos supermercados, levamos máscara e desinfectamos as mãos com gel. Mas depois pensamos que ficamos imunizados durante meia-hora e, mal entramos, vamos ao multibanco carregar nos botões para levantar dinheiro, enfiamos a moeda no carrinho, tocado por centenas de clientes, e lá vamos nós agarrados a ele, felizes e contentes, corredor sim, corredor sim, a mexer nos pacotes de açúcar ou de leite, nos iogurtes, nas maçãs, nos peros, nos tomates, enfim em tudo o que estiver à mão e onde outras mãos já tocaram. Não faz sentido.

Ah, espera! Agora inventaram aquela aplicação, o StayAway Covid, que nos indica se estivemos ou não em contacto com alguém infectado. Bom, muitos de nós descarregaram a aplicação e depois, estúpidos que nem uma carrada de lenha, começámos a andar de um lado para o outro, com aquilo ligado, como se estivéssemos à procura de Pokémons. Não há paciência!

Isto é tudo uma grande maluqueira e já começámos a ver que não há normas da DGS ou da OMS que nos salvem. Porque as normas não são coerentes e as orientações são-no ainda menos.

Para terminar esta carta, Vidinho, tenho de referir as máscaras como elemento positivo no meio desta confusão toda. Se em alguns casos ficámos impedidos de apreciar a compleição esteticamente aceitável de algumas pessoas, por outro lado, e aqui vem a compensação, deixámos de ser obrigados a ver algumas fronhas de estética duvidosa. Eu, quando comecei a usar máscara, fiz mais uma meia-dúzia de amigos e houve até uma rapariga divorciada que me pediu o contacto telefónico. Dei-lhe o da minha mulher, para ela ficar logo esclarecida. Salvaguardo ainda o caso de amigos meus que são tão feios com máscara como sem máscara. Mas isso já os pais lhes tinham dito há muitos anos. A nossa amizade, contudo, permanecerá para sempre.

Partilho, finalmente, uma última preocupação: noto, caro Vidinho, que as minhas orelhas estão a ficar mais inclinadas para a frente e há dois ou três sobrinhos meus que já parecem o Dumbo. O elástico é tramado para pregar estas partidas às pessoas. Qualquer dia, vão fazer uma corrida ao castelo, dá-lhes o vento e lá vêm eles a abanar o orelhame, sobrevoando a cidade e chegando a casa mais cedo para o almoço. …

Adeus, Vidinho… Sai depressa das nossas vidas e volta só quando eu disser.


                                                                                  

 João Luís Nabo


In "O Montemorense", Setembro de 2020

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