quinta-feira, 16 de abril de 2020

Covid 1, 2, 3 e 4



(Fonte: Washington Post)

Covid-1

Começa a ser um lugar comum, a cheirar a mofo, até, dizer-se ou escrever-se que nunca tínhamos experienciado uma situação como esta a que o Coronavírus nos obrigou a viver. E é quase sempre daqueles que ficam confortavelmente em suas casas à espera que a coisa passe, que nasce grande parte das reclamações efusivas e dramáticas, como se eles fossem enfermeiros ou bombeiros em risco de vida. Estes e outros profissionais que andam na linha da frente a combater a doença e os comportamentos idiotas, fúteis e de animais irracionais de alguns de nós nem têm tempo para se queixar.
Os dois milhões de mortos, ao tempo de hoje, em todo o planeta são um sério aviso à navegação mundial. O que nos deixa desconfortáveis, e quiçá irritados, é que este número de vítimas poderia ser muito menor se, durante os genéricos iniciais deste filme, não se tivesse desvalorizado a gravidade da situação e se tivesse perdido tempo com conselhos inúteis. E apesar do que está à vista do planeta inteiro, ainda hoje há trumps e bolsonaros que, de forma absolutamente terrorista, gritam aos mil ventos que tudo o que se está a passar não é mais do que “uma gripezinha”, outros ainda afirmando com assumida propriedade que isto não passa de um castigo de Deus para com os homossexuais. Declarações do género vão abrindo caminho na mente de idiotas como eles, que acabam por viver o dia-a-dia sob o risco de serem contaminados e com grandes probabilidades de contaminarem outros.


Covid-2

No nosso país passou-se algo parecido, embora com contornos diferentes. Contudo, o grau de inconsciência julgo que andou perto. Recordo quando ainda não havia casos declarados em Portugal e ouvi a Directora-geral da Saúde afirmar que seria suficiente resfriarmos os nossos contactos sociais, que “não era preciso andarmos sempre aos beijinhos e aos abraços”. Depois foi o tempo de uma eternidade até o Governo de António Costa decidir fechar as fronteiras com Espanha (mas só aos turistas). Ou seja, se o vírus viesse na bochecha de um condutor de um transporte de mercadorias, poderia passar porque vinha em trabalho. Se viesse na mucosa nasal de um turista, então, porque vinha em lazer, já não poderia atravessar a fronteira. A acrescentar a estes disparates, só muito mais tarde é que foram encerrados os aeroportos. Pois foi assim, caros leitores e caras leitoras, que, com calma e simpatia, escancarámos o nosso querido Portugalzito à pandemia, expusemos os idosos e os igualmente mais vulneráveis, de modo a que o vírus fizesse o que entendesse, com toda a liberdade e com todo o tempo do mundo.
E agora é aguentar, com o Serviço Nacional de Saúde a dar o berro, com 18.000 infectados e com 600 mortos. E agora é aguentar o milhão de portugueses em lay-off com sessenta e seis por cento de vencimento, é aguentar o desemprego e as aulas pela televisão e pelo célebre e amado Teams, uma plataforma digital assim tipo central de comunicações 24 sobre 24. E agora é aturar a mulher, o marido, a sogra, o sogro, o pai, a mãe, os filhos, o cão e o sacana do canário que não se cala, um dia inteiro, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, uma semana inteira, sete sobre sete dias, um mês todinho (para já) do princípio ao fim. Ouvi há pouco da parte das autoridades de saúde que vai ser declarado obrigatório o uso da máscara em espaços públicos. Espero que seja obrigatório também dentro de casa, porque eu cá já não consigo encarar diariamente a família com olhos de bom cristão. Nem ela a mim. Assim, com a máscara, colocada logo de manhã após o duche, a coisa ainda dava para suportar mais ou menos.


Covid-3

O que nos salva são as comunicações com o exterior. Criam-se novos grupos no WhatsApp e noutras cenas do género, liberais e à maneira, e o pessoal convive, almoça, toma café e até dorme sestas improváveis com quem nunca imaginaria que tal desse certo. Reforçam-se os laços de amizade, apesar da distância, e fica-se sem tempo para pensar em tragédias. Há até quem pratique piano mais do que o habitual, estude partituras para coro, escreva artigos para jornais e, até, imaginem a ousadia, tenha pensado numa história em forma de romance.


Covid-4

E o melhor do mundo continuam a ser as crianças, complementando o verso do tal que a gente sabe. Pois continuam. E agora estão na mó de cima, a rirem-se de nós como se não houvesse amanhã. Um jovem aluno, em conversa animada comigo através de um desses processos modernos e apelativos, disse, e com toda razão do seu lado: “Nunca imaginei que os meus pais me estivessem sempre a dizer agora para ir para o computador e para o telemóvel, quando, há umas semanas me diziam exactamente o contrário, chegando ao ponto de me proibirem tal prática, por causa das notas baixas na escola… Afinal, se não fosse a nossa prática, adquirida em anos, em lidar com estas novas tecnologias, como é que a gente se iria desenvencilhar com estes métodos de ensino à distância e orientar professores menos talentosos? Eram os cotas que nos iam ensinar?”
E tem toda razão, o puto. Toda mesmo. Dá-lhe, miúdo!


João Luís Nabo

In O Montemorense, Abril 2020

Distraídos crónicos...

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