domingo, 20 de dezembro de 2020

Do tempo e das vozes

         







(Foto: Digital)

Incluída no meu livro "Outros Contos de Vila Nova" (Editorial Tágide, Lisboa, 2011), em homenagem à minha Mãe, nesse tempo ainda entre nós, volto a oferecer esta pequena história aos meus leitores, comemorando o renascimento do nosso Mercado Municipal que, na sua modernidade, não perdeu a essência dos meus tempos de menino. Obrigado à Autarquia por esta "prenda de Natal".


Fervilhar.

É o verbo que se passeia pela memória dos dias quando me olho, através do tempo, a atravessar o jardim com a minha mão esquerda, pequenina, embrulhada na da minha e. Cinco anos de quotidianos felizes a ansiar pelos sábados de manhã para agarrar no cesto e partir à descoberta neste templo onde as estações do ano comandam as modas e os paladares de quem lá entra.

Fervilhar.

É som que o é som. É um sentimento que começa ainda o dia não passa de duas, talvez três, pinceladas de madrugada. Primeiro, vozes soltas, meio sozinhas ainda, neste espaço vazio, gemendo, impando, dando ordens… Depois, mais vibrantes, frescas, timbres em contraponto dos vendedores que, num aumento gradual, ali misturam os duros dias ao sol, à chuva, ao frio, no campo, na lota, no matadouro, com as dores e os caprichos das donas de casa, as exigências das avós que vão à hortaliça para a sopa dos netos, os pedidos das criadas que não querem ouvir ralhar as patroas…

É um labirinto de cores, um caleidoscópio de caras. De novidades iguais e diferentes. De sorrisos, de esgares, da vida de todos os dias. Onde me perdia vezes sem conta, porque um quadrado confunde toda a gente, mesmo que se visite amiúde e se conheça cada erva que nasce por entre as lajes de granito pisado mil vezes. Estranho este labirinto, que não tem nem corredores, nem passagens secretas, espaço aberto onde todos sabem de todos, porque todos ouvem todos. Mas onde me perdia constantemente… Acabando por sair sempre pela porta por onde não entrara…

Talvez o lago, ao centro uma taça de rmore, com uma coluna ao meio a equilibrar uma bola fantástica a apontar para o azul, quando o ―, fosse responsável por tal perda de referência. A perseguição aos


peixes vermelhos, que se bandeavam nas águas claras e frias, era sempre o primeiro e único exercício físico possível naquele lugar. Depois de umas quantas voltas, ora para um lado, ora para o outro, para não entontecer, eis que acabava perdido, sem saber onde tinha pousado o cesto, sem saber da minha e, sempre atenta no olhar e nas palavras, entretida a falar com a D. Carlota do Julinho dos presépios, dos comboios eléctricos e dos balões coloridos, mal pairavam os primeiros acordes do Natal.

E, quando, a troco de um tostão, os vendedores me enchiam o pequeno cesto com duas ou três cenouras, três ou quatro vagens de feijão-verde, um molho de salsa e outro de hortelã, que deixavam um rasto de sabores adivinhados, eu sentia-me o petiz mais importante do planeta, talvez o mais feliz do universo.

Agarro com força estas memórias, como se fossem a o da minha e, porque me sinto protegido, aconchegado, fascinado com o tal barulho das vozes que continuam a misturar-se em contracantos, salmodias e pregões. Sem nesse tempo perceber porquê, sentia que aquelas melodias iam fazer parte da minha vida e que se prolongariam muito mais do que durante aquela breve meia hora matinal. depois vim a entender o poder daquelas vozes, mais puras, mais belas, mais sinceras e convincentes do que muitas que mais tarde, por gosto ou missão, viria a escutar nas mais divulgadas oratórias, nas mais sublimes árias, em tantas óperas, densas e dramáticas, e no esplendor das cantatas de um tal senhor Bach.

A minha mãe continua fiel às orações da manhã:

Quanto é este molho de espinafres?

E o carapau do alto? pergunta ainda, de banca em banca, porque a tradição vive naqueles olhos e naquela vontade sábia de continuar simples, a gostar das coisas simples. Sei que ainda me a o, como se eu, homem feito, diminuísse de tamanho todos os dias, pegasse no cesto que ela me dera e, de moeda em punho, fosse eu o responsável pelas ervas de aroma que ainda hoje lhe enchem a casa de cheiros e de sonhos…


João Luís Nabo

In "Outros Contos de Vila Nova"

Editorial Tágide, Lisboa, 2011

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Diário de um confinadinho (coitadinho!)

          


    Deve haver milhares de diários deste género, escritos por totós que, não tendo nada mais para fazer, decidem publicar nas redes sociais (até com fotos de gosto duvidoso) todas as etapas de cada dia da sua triste e arrastada vidinha dentro de casa. E ficamos até a saber, pasmem os meus oito leitores (dez, desde há uns tempos), a marca do gel de banho usado no duche e a cor daquela cola de sabor discutível que muitos usam nas próteses dentárias, que agora só colocam na gengiva respectiva quando vão à porta atender o padeiro, o carteiro ou o homem do gás.

A vida tornou-se (mais) estúpida, e se muitos achavam que levavam uma existência comezinha, pequenininha e sem interesse, então agora, quanto mais se agravam as medidas, mais claro é para alguns que a sua vida muito desinteressante se pode tornar muitíssimo mais desinteressante.

Seria um desafio fácil adivinhar o que muitos dos confinados como eu fazem nas vinte e quatro horas do santíssimo dia, sem poderem sair à rua, como se estivessem em prisão domiciliária. Tenho um amigo (desculpa lá, R. S.) que colocou um relógio de pulso na canela direita a fingir que era uma pulseira electrónica. É que ele já tinha estado assim, em casa, por posse de drogas leves, e agora, dizia ele ao médico da Saúde 24, parecia que lhe faltava qualquer coisa. O tipo é mesmo totó. E porque não seria nenhuma tarefa hercúlea adivinhar esses passos tão intimistas, basta recordar o que fiz hoje, que foi o mesmo que fiz ontem e anteontem. Depois, cada um tira ou acrescenta o que lhe aprouver, conforme o caso ou a capacidade criativa.

 

            Das 3.00 às 8.00 – dormir (é mais para cumprir o soninho de beleza, porque eu já não tenho necessidade de dormir.)

            Das 8.00 às 8.30 – tomar duche, lavar os dentes, colocar a balança contra mim, escolher o fato de treino mais cool do conjunto de dois que me ofereceram há 20 anos, calçar uns ténis baris como se fosse correr a légua, descer em direcção à cozinha, galgando os degraus de dois em dois.

Das 8.30 às 12.00 – aulas pelo Teams, tentando manter aqueles pobres adolescentes confinados com o astral mais elevado possível.

            Das 12.00 às 13.00 – no balcão estão pousados três sacos com o takeaway que o Pedro e a Joana acabaram de trazer e que eu transferi para cima da mesa. Hoje o João não almoça. Cada um serve-se do que quiser, põe o prato, tira o prato, lava o prato, guarda o prato e vai à sua vida. São muitos cá em casa e eu não sou empregado de ninguém. Eu como uma maçã e pronto, vou para o meu grupo do Whatsapp pôr a conversa em dia, já que o grupo não poderá juntar-se tão depressa.

            Das 13.00 às 15.00 – corrigir trabalhos de alunos enviados via Teams e mandar umas mensagens com os habituais ralhetes por causa dos atropelos às belas línguas de Camões, Shakespeare e Goethe.

            Das 15.00 às 19.00 – acender a lareira e tomar nota mentalmente da necessidade urgente de telefonar ao senhor António Lavado para trazer mais três toneladas, agarrar solenemente no comando da televisão, de olhos fechados para absorver bem o momento, ligar o plasma gigantesco, tratar do som estéreo com as colunas estrategicamente colocadas, carregar duas vezes na tecla 8, desligar telefone e telemóvel, dizer aos amigos do grupo para não incomodarem porque tenho de trabalhar e… mergulhar na série de dez temporadas que está quase batida, à média de uma temporada de 10 episódios em cada duas tardes.

            Das 19.00 às 20.00 – fazer uma pesquisa aturada nos sacos de takeaway do almoço e ver o que sobrou: nada. Agarrar numa frigideira das pequenas, com fundo nã-sê-quê para não estragar a cerâmica do fogão, senão não há-de faltar, pôr lá dentro uma colherzinha de manteiga, partir um ovo biológico da dúzia oferecida pela Maria José, e atirar o conteúdo para dentro do circular contentor. Umas pedras de sal completam os ingredientes. Um Herdade das Servas, tinto, oferta ainda em tempos de pré-pandemia, uma fatia de pão do meu amigo Dinis e está o jantar feito.

            Das 20.00 às 21.00 – fazer zapping entre os jornais noticiosos televisivos, mais para perceber a estratégia de alinhamento de notícias do que para ouvir e ver as próprias. Tentar, sobretudo, perceber por que raio a CMTV foge a toda a lógica jornalística e editorial das outras estações… ou de qualquer estação.

Das 21.00 às 3.00  – escrever. À luz fraca de um candeeiro de secretária, com tudo escuro à volta, para não haver distracções. Estrategicamente, porque a casa está num silêncio absoluto. Filhos a dormir, mulher a dormir, Balú a ressonar suavemente junto à lareira. É capaz de sair história. Mais uma história, a quinta neste tempo de confinamento. E amanhã, tudo de novo. FIM.

 E pronto. Assim se escreveu este diário, com pouca graça, mas com a emotividade necessária para convencer os meus dez leitores de que tudo é verdade e conduzido mais ou menos a este ritmo. Não falei do Costa, que anda a passar a mão pelo pêlo do povo, com o abrandamento das medidas restritivas agora na época do Natal. Nem do Marcelo, que anunciou a recandidatura à Presidência como se fosse levar a vacina da gripe. Muito menos do ministro Cabrita que, por esta altura, se ainda está em funções, é porque está tudo parvo. Nem das autárquicas, que estão para chegar à minha santa terrinha (e às outras terrinhas, claro), mas que, até agora, ainda não atraíram ninguém verdadeiramente interessante em quem pudesse votar. Nem sequer falei da minha vontade de poder votar em mim próprio.

Se eu passo os meus dias assim, sem ligar aos desconcertos do mundo, sem me importar com os amores e os ódios dos que fazem mexer o país, acreditando que este confinamento me deixa todos os dias mais pacífico e menos desconfiado, a Fofa não dorme na forma. Ontem, quando fiz uma pausa depois do jantar, ela, sempre atenta às dinâmicas governamentais, desde Março muito mais activas e amigas do seu amigo, perguntou-me com ar maroto, o que me provocou um leve arrepio na espinha: “Mas que coisa mais estranha”, começou ela. “O que se passa?”, perguntei, adivinhando que vinha aí coisa. “O Costa…”, retomou ela, enquanto enviava uma foto do Balú para uma amiga que precisava de uma imagem de uma coisa fofinha para se animar na sua confinada solidão. “O Costa veio aliviar as medidas durante a quadra natalícia…”, insistiu. “O povo português vai recompensá-lo em breve”, respondi, sem me querer meter em discussões políticas. E conclui: “Mas não vejo aí nada de estranho. O povo está farto do confinamento, o povo está há muito tempo longe das famílias, o povo quer uma pausa nesta rigidez militar e abraçar e beijar os parentes e os amigos. Não acho nada de estranho nesta decisão.” “Deixar o pessoal viajar de concelho para concelho? Acabar com aquelas horas de recolhimento super-restritivas? Não acho normal!”, atirou ela, com o tonzinho de voz a sofrer uma ligeira alteração para o agudo. “E porquê?”, insisti, com o nono episódio da quarta temporada do “Prison Break” em pausa já há tempo demais. “Porque… não há nenhum congresso de nenhum partido amigo nesta altura do ano. Por isso, não valia a pena tanta abertura…”, concluiu a Fofa, beberricando com classe o seu cálice de Favaios, olhando a chuva que caía, imperturbável e generosa, sobre os arbustos em forma de unicórnio no jardim das traseiras.

João Luís Nabo

In "O Montemorense". Dezembro 2020




domingo, 15 de novembro de 2020

Em mar alto

 
    

        Gostaria de escrever uma crónica diferente, talvez sobre os lugares comuns da nossa vida, os nossos amores e os nossos odiozinhos de estimação, sobre política local, sobre a Rua de Aviz, que continua e vai permanecer uma múmia, ou sobre o Castelo e os novíssimos acessos que fazem dele um monumento mais atraente e mais… acessível a todos. Mas não. As teclas que se disponibilizam por baixo destes dedos nervosos são estas que, neste momento, vão começar a produzir, preto no branco (posso usar esta expressão sem correr riscos de maior?), o que vão passar a ler, se assim o entenderem:

           Continuamos na dúvida e, tal como Sócrates (o grego), só sabemos que nada sabemos, nem sobre o presente, nem sobre o futuro das nossas incertas vidas (acho que isto é do Pessoa). Pois é, Maria José, a nossa triste existência continua em suspenso, enquanto suspensa sobre as nossas cabeças continuar a espada de Dâmocles de Siracusa (isto hoje é só cultura clássica, meus queridos 8 leitores!).  
        Todos nós, disseminadores e vítimas da pandemia, gostamos de ter uma palavra a dizer sobre os chineses, sobre o Covid-19, as decisões do Governo ou as opiniões de Marcelo, sempre tão assertivas e cristãs. Nesta linha de ideias, acabamos por sentir uma certa alegria, meio clandestina, é certo, porque há alvos que estão mesmo a jeito e é contra eles mesmos que lançamos, constantes e sérios, invectivas de especialistas na matéria – o Primeiro Ministro, a Ministra da Saúde, a Directora Geral da Saúde e, claro, Sua Majestade D. Marcelo II. Naturalmente que é deles a responsabilidade política do caos em que se tornou a nossa vida mas, se pensarmos bem, não são eles os únicos e verdadeiros culpados do lindo estado a que chegámos.
           Somos um país de gente linda, simpática, um bocadinho racista, vá, que não vai muito à bola com os ciganos, pronto, católica, na maioria, mas que raramente põe os pés numa igreja, enfim, fomos sempre assim, está-nos no sangue, e assim havemos de morrer. (E alguns, se calhar, de Covid.) Uma grande parte não vai à igreja (só para baptizar os putos e casar a juventude), mas acreditam que Deus, a Nossa Senhora de Fátima e a Santa Teresa de Ávila é que comandam isto tudo e possuem uma espécie de spray tipo mata-moscas que aplicam lá do alto dos Céus (Pffff! Pffff! Pffff!) e pumba, vírus morto e despachado. Isto leva-me a crer que é por isso que há meia-dúzia de fanáticos que, cheios de fé, não cumprem as regras impostas (impostas???) pelo Governo e contribuem seriamente para o afundamento do Sistema Nacional de Saúde e para o inevitável falecimento do país. 
        Indústria, comércio, restauração, tudo a fechar ou a despedir gente. Músicos, cantores, bandas, coros, actores, figurantes, cineastas, encenadores, bailarinos, coreógrafos, cenógrafos, técnicos de palco e de estúdio, sem tocar ou cantar uma única nota, sem filmar um só fotograma, sem recitar uma simples frase. E os políticos a ficarem cada vez mais desorientados, de dia para dia, de minuto para minuto, a fazer-lhes falta o dinheiro que enfiaram pelo Novo Banco acima e que, agora, caía que nem ginjas para ajudar os mais variados e aflitos sectores da nossa economia.  Contudo, se não confiarmos neles, vamos confiar em quem? É esta a questão que me incomoda, que me amofina, que me aborrece, que me exalta. Agora que o navio navega em mar alto, sem um porto à vista, não podemos lançar os comandantes aos tubarões, sob o risco de navegarmos sem rumo até ao naufrágio final.
        Daí o meu querer ainda confiar em quem toma decisões para tentar, se não controlar, pelo menos minimizar os estragos do flagelo que 2020 planeou para todos nós, com grande alegria dos fabricantes de máscaras, viseiras, zaragatoas e álcool-gel. Nessa altura, nos idos de Março, tudo parecia ainda tão razoavelmente bem que os próprios governantes foram fofinhos e acabaram por nos inspirar alguma confiança, de tal forma que muitos de nós começaram por não levar muito a sério esta ameaça. E eu, levado por algum optimismo e uma descrença de igual calibre, talvez tenha sido um deles.
         Pouco tempo depois desses iniciais momentos de encantamento (Eh! Vamos confiar! Em casa é que se está bem! Bora lá para tele-trabalho! Bora lá dar umas aulas pelo Teams!), tomei decisões que poderiam fazer a diferença, pelo menos assim pensei: evitar visitar família e amigos, evitar receber visitas de família e de amigos, cancelar ensaios dos coros que dirijo, deixar de ir a restaurantes, mas requisitar-lhes, sempre que possível, serviço de takeway, evitar momentos de grande afluência nos locais de compras, fazê-las em maior quantidade e com menos frequência, encher o depósito dos carros para ir menos vezes à bomba de gasolina, deixar de cumprimentar as pessoas usando contacto físico (nalguns casos, agradeci ao Covid!), usar máscara em todas as circunstâncias, desinfectar frequentemente as mãos e os objectos, evitar sair à rua e, muito importante, levar o agregado familiar a fazer o mesmo, ainda que, não poucas vezes, tenham sido os mais novos cá de casa a dar o exemplo.
        Conclui depois que a minha segurança e a dos meus não dependia só de mim. Se assim fosse, estaríamos seguros. E o que é facto é que nenhum de nós se sente seguro. Porque a nossa segurança passou a depender de meia-dúzia de mentecaptos que desafiam as regras a toda a prova sem se preocuparem minimamente com as consequências destes seus comportamentos irracionais e criminosos que põem em risco a sua vida e a vida dos outros. Se há eventos, acções, iniciativas que cumprem escrupulosamente as regras de segurança emitidas pelas autoridades, há outros tantos que deveriam ser impedidos ou interrompidos com uma intervenção muito, mas muito menos paternal do que aquelas que nós temos visto nos ecrãs das nossas nervosas televisões. Não me parece que haja outro tipo de solução.
         Contudo, não valerá a pena tal esforço muscular no momento presente. Essas medidas já não iriam a tempo de resolver o que quer que fosse. Porque, mais meia-dúzia de semanas, nos hospitais deste nosso país os responsáveis vão ter de decidir quem vai viver e quem vai morrer. Em grande parte, por causa desses totós que se julgam a última coca-cola do deserto… e por causa de um Estado paternalista que se atrasou a tomar as medidas certas e que, agora, continua a não actuar como deve. Ainda assim, neste momento, não há mais ninguém em quem confiar. E queremos continuar a acreditar que estão de boa-fé a tomar as medidas que julgam mais adequadas para libertar o país.
          A ver vamos.

João Luís Nabo
in "O Montemorense", Novembro de 2020

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Ditadura Profiláctica





As coisas ficaram agora mais sérias. Muito mais sérias. Porque quando o Chefe do Governo,
alegando boas intenções, sai de uma reunião do Conselho de Ministros com propostas de interromper a democracia em Portugal, então isto não está mesmo nada para brincadeiras. Quando Costa afirmou, com um sorriso maroto, que “não gostaria de ser autoritário”, fez-me lembrar Manuela Ferreira Leite, então triste líder do PSD, quando, em Novembro de 2008, afirmou que, para se fazerem reformas em Portugal, o melhor seria suspender primeiro a democracia, fazer as reformas e, depois, reactivá-la. Os socialistas de então gritaram “Aqui d’el Rei!” e iam crucificando a pobre senhora que só estava a querer ajudar o país, já a entrar, nessa altura, numa das suas maiores crises económicas e sociais de sempre depois do 25/4 (ninguém sabia que ainda viria o Covid).

Quando ouvi o Primeiro Ministro, em directo e sem rede, debitar as oito “reformas” urgentes a tomar para travar a pandemia, comecei, confiadamente, a aplaudir. O aplauso ficou, porém, em suspenso a partir daquele fatídico momento em que o ouço falar da “obrigatoriedade” de descarregar no telemóvel a tal aplicação Stayaway Covid e, isto é que me aborreceu, da possibilidade de haver fiscalização por parte das forças da autoridade em relação a esse mesmo download. (Mas esta ideia peregrina ainda não foi a piorzinha de todas. Já lá vamos.) Se querem que lhes diga, eu não estou a imaginar que autoridade tem força suficiente para me obrigar a ter um telemóvel compatível com a aplicação, para me obrigar a fazer o download da coisa, para me obrigar a ter o bluetooth ligado, para me obrigar a introduzir o código do meu eventual teste positivo à Covid 19.

Como é que vou reagir? Vou recusar-me claro. E, depois, fazem-me o quê? Prendem-me? Levam-me ao juiz? Passam-me uma multa? E eu? Pago a multa? E a minha tia Justina que tem 96 anos e tem um velho Nokia de 1989? Compra um telefone modernaço com que dinheiro? Com o dinheiro da reforma que lhe paga o Costa? Não, senhor Primeiro Ministro. O senhor, quando falou nestas coisas todas, não estava bem a pensar nas palavras que lhe traíram o pensamento. Ora passe lá as imagens para trás e diga-me o que vê: um Primeiro Ministro em pânico, que aliviou as medidas de restrição quando não devia, e que, prestes a perder o controlo de toda a situação (viu a triste entrevista de Marta Temido no dia seguinte?) ameaça suspender a democracia para que todos sejam obrigados a cumprir o que o Governo bem entende. Sei que é para travar a pandemia. Sei que é para não pôr Portugal em confinamento e assim arruinarmos o pouco que já temos. Sei disso tudo, porque as suas preocupações também são as minhas.

Contudo, se a apreensão é assim tanta, por que não impediu atempadamente os encontros de carácter político e religioso? Pensou que o cancelamento de concertos (milhares) e de eventos desportivos e sociais (outros milhares) teria sido suficiente para travar a pandemia? Por que abriu as praias? Por que mantém as escolas abertas, independentemente do número de infectados? Por que decidiu agora ser ditador e ainda por cima um mau ditador? Se fosse apenas a questão da aplicação Stayaway Covid, eu ainda tinha uma margem para o poder desculpar: é o stress, a angústia, a preocupação que não lhe permitiram que as ideias corressem de forma fluente.


Mas houve um “pequeno” pormenor (e vamos retomar aquela ideia de há pouco) que me inquietou ainda mais: li uma frase em rodapé, enquanto o senhor discursava sobre estas tristezas, que dizia (e puxei para trás para verificar se tinha lido bem ou se eram as progressivas destes velhos óculos que me estavam a trair) que as forças de segurança tinham poder e autorização para entrarem nas nossas casas sem mandado judicial, de modo a poderem fiscalizar quem estava e quem não estava em casa, quem tinha Covid e quem não tinha, se estava tudo devidamente postado na aplicação, se as normas de higiene estavam a ser cumpridas… Na nossa casa? Sem a nossa permissão mas com a autorização do Estado? Oh, senhor Primeiro Ministro, mais valia ter ido desenterrar os Pides mais sanguinários, mais abstrusos, mais criminosos, mais requintados, mais masoquistas e sedentos de sangue, para fazerem essa tarefa. Aí, sim, o senhor e os seus ministros, de camarote, iriam assistir ao maior retrocesso da democracia e ao triste regresso aos repressivos tempos de Oliveira Salazar e do seu delfim Marcello Caetano, que tantas centenas de homens e mulheres puseram na prisão e assassinaram por não cumprirem as regras de um governo fascista e sem futuro.

Sem futuro? Isso julgava eu há poucos dias. Sem futuro? Pois, olhe, parece que não! E já agora, para a coisa ficar completa, o Ministério do Interior, perdão, da Administração Interna, deveria, em conjunto com o Ministério das Finanças, instituir um subsídio (dantes chama-se gratificação, porque era por baixo da mesa) para pagar a todos os denunciantes (dantes chamavam-se bufos) que apontem o dedo ao próximo, para os lambe botas, para os bajuladores, para os nojentos que queiram ganhar alguns trocos e uma ou outra regalia junto do Poder, a denunciar o vizinho ou o amigo que não tem aplicação ou que testou positivo mas não avisou a Dra. Gracinha.

Que a Oposição se una e não deixe que o Parlamento aprove estas medidas salazarentas, uma grave ofensa à nossa democracia, à nossa liberdade e à nossa vida. Resolva o problema da pandemia mas de outro modo. Com métodos e estratégias concertadas. Com gente suficiente nos hospitais. Com gente suficiente nas escolas. Com menos dinheiro para a ladroagem dos bancos e de outras entidades que têm levado o país à ruína. Que Marcelo Rebelo de Sousa se deixe de afectos e de abracinhos (agora virtuais para grande dor das suas fãs) e espete de vez um murro na mesa para que o senhor, senhor Primeiro Ministro, caia em si e comece a governar este país como de facto deve ser governado: com firmeza mas sem ditaduras profilácticas ou de outra espécie qualquer.

João Luís Nabo

In O Montemorense, Outubro de 2020

domingo, 13 de setembro de 2020

Carta ao Vidinho

 


Querido Covid-19:

 

Sei que estás bem de saúde e que vais ter uma vida longa e próspera.  Como está a Dona Covida, tua Mãe, e o Sr. Covidão, teu Pai? Devem estar felicíssimos com o prestígio do seu menino.

Ouve lá, posso tratar-te por Vidinho? É que já estás há tantos meses no nosso convívio, que me sinto verdadeiramente próximo de ti, e de tal modo que te considero um amigo. Mas és um amigo com um perfil, cujos traços vou passar a explicar-te, caso tu ainda não tenhas reparado: sabes aqueles amigos que nos visitam sem avisar, como se devêssemos estar sempre à espera deles, e que se instalam na nossa casa sem data prevista de saída? Há amigos assim: chegam, sentam-se no nosso sofá, comem, dormem, usam a nossa pasta dentífrica, a nossa espuma da barba, enfim, tudo a que têm direito e, quando pensamos que estão prestes a regressar às suas origens, decidem ficar mais uns tempos. E nós, a antecipar alegremente a sua partida e a preparar mentalmente uma série de festarolas a comemorar esse evento épico, eis que voltamos à estaca zero, à espera que eles tenham mais um momento de epifania, ou que lhes faleça um familiar (próximo), que é forma de eles bazarem mais depressa.

Pois, caro Vidinho, tu és um amigo assim. Diz-me, tu já viste bem os transtornos que nos estás a causar? Não te sentes constrangido com as confusões que provocas na doutora Gracinha que, ora quer que usemos luvas, máscara e viseira, ora só viseira e luvas, ora só máscara e luvas, ora só luvas, ora coisa nenhuma, ora o raiozinho que a parta? O senhor tradutor da língua gestual também está um bocadinho passado e já fez um ou outro gesto mais feio, no meio de todas aquelas comunicações, gesto esse que ninguém percebeu, porque até batia certo com aquilo que a doutora Gracinha estava a tentar dizer…

Mas tu gostas deste pagode, não gostas, puto? Então repara lá nas maluquices completamente estapafúrdias que os políticos nos obrigaram a fazer, porque, como sabes, há lobbies com muito peso e há favores que eles têm de fazer uns aos outros. Vê lá tu que, por causa de ti, são proibidos ajuntamentos com mais de 10 pessoas, mas, a partir desta semana, podem estar 28 alunos numa sala de aula. Os artistas e assistentes de palco estão parados desde Março, porque os concertos provocam ajuntamentos (a sério?), mas a Festa do Avante foi avante, as missas em Fátima já têm milhares de pessoas, enquanto vão morrendo dezenas de utentes nos lares, para não falar nos nossos amigos e familiares que partem para sempre sem a nossa última homenagem. Acabaram-se as festas nas nossas casas, mas as praias estiveram cheias de pessoal, em alta descontração.

 

Ando aborrecido contigo, Vidinho, mas, ao mesmo, tempo, sinto-me agradecido. Acabei por ver a verdadeira natureza de algumas pessoas (para o bem e para o mal) e isso foi uma coisinha útil para eu saber com quem lido. Vê lá tu que houve denúncias nas redes sociais em relação a cidadãos alegadamente infectados para depois vir o diz que não disse. Houve gente que te apanhou que não comunicou o seu caso a ninguém e se fartou de passear como se não houvesse amanhã. Enfim, um chorrilho de contrastes que nos deixam bem desanimados: muitos cidadãos conseguiram estar no remanso do lar, alegadamente em tele-trabalho, a ganharem o ordenado por inteiro, sem fazer a ponta de um chavelho, enquanto outros foram para lay-off ou mesmo para o desemprego, sem possibilidade de qualquer recurso. Há empresas a fechar diariamente e há outras que florescem de hora a hora: por causa de ti há laboratórios e farmacêuticas que vão ganhar milhões em vacinas, há empresas que estão a lucrar uma imensidão de euros com o fabrico de zaragatoas e a venda de máscaras, viseiras, luvas, gel e sei lá que mais. O desemprego, a doença, a morte que andas a provocar todos os dias lembram-me um episódio da Bíblia, como as Sete Pragas do Egipto… ou uma cena marada provocada pelo Trump para culpar os Chineses, os Negros ou os Mexicanos.

A nossa relação com os outros também mudou. Passou a ser de desconfiança. Repara, Vidinho: um espirro, agora, à entrada do Outono, seria apenas e só um espirro normal e cheio de razão para nascer. Diríamos ao espirrador “Saúde”, “Santinho”, “Jesus, Maria, José” ou “Tapa-te ó, Saraiva”, consoante a nossa tradição familiar, o nosso grau de fé ou de acordo com a extensão da nossa boçalidade. Mas era apenas um espirro. Agora basta um espirro para que o seu autor fique, numa questão de segundos, sozinho num enorme círculo tristemente vazio, enquanto a malta (e os seus melhores amigos, os seus pais ou avós) fogem a sete pés. E ninguém o saúda com aquelas expressões tão fofas com que mimamos os amigos. Dizem-lhe antes, e em voz alta para toda a gente do supermercado ouvir: “Vai fazer o teste do Covid!”. Ora, isto não é bonito.

Depois, Vidinho, há estas incoerências brutais, mas que não conseguimos contrariar: quando vamos aos supermercados, levamos máscara e desinfectamos as mãos com gel. Mas depois pensamos que ficamos imunizados durante meia-hora e, mal entramos, vamos ao multibanco carregar nos botões para levantar dinheiro, enfiamos a moeda no carrinho, tocado por centenas de clientes, e lá vamos nós agarrados a ele, felizes e contentes, corredor sim, corredor sim, a mexer nos pacotes de açúcar ou de leite, nos iogurtes, nas maçãs, nos peros, nos tomates, enfim em tudo o que estiver à mão e onde outras mãos já tocaram. Não faz sentido.

Ah, espera! Agora inventaram aquela aplicação, o StayAway Covid, que nos indica se estivemos ou não em contacto com alguém infectado. Bom, muitos de nós descarregaram a aplicação e depois, estúpidos que nem uma carrada de lenha, começámos a andar de um lado para o outro, com aquilo ligado, como se estivéssemos à procura de Pokémons. Não há paciência!

Isto é tudo uma grande maluqueira e já começámos a ver que não há normas da DGS ou da OMS que nos salvem. Porque as normas não são coerentes e as orientações são-no ainda menos.

Para terminar esta carta, Vidinho, tenho de referir as máscaras como elemento positivo no meio desta confusão toda. Se em alguns casos ficámos impedidos de apreciar a compleição esteticamente aceitável de algumas pessoas, por outro lado, e aqui vem a compensação, deixámos de ser obrigados a ver algumas fronhas de estética duvidosa. Eu, quando comecei a usar máscara, fiz mais uma meia-dúzia de amigos e houve até uma rapariga divorciada que me pediu o contacto telefónico. Dei-lhe o da minha mulher, para ela ficar logo esclarecida. Salvaguardo ainda o caso de amigos meus que são tão feios com máscara como sem máscara. Mas isso já os pais lhes tinham dito há muitos anos. A nossa amizade, contudo, permanecerá para sempre.

Partilho, finalmente, uma última preocupação: noto, caro Vidinho, que as minhas orelhas estão a ficar mais inclinadas para a frente e há dois ou três sobrinhos meus que já parecem o Dumbo. O elástico é tramado para pregar estas partidas às pessoas. Qualquer dia, vão fazer uma corrida ao castelo, dá-lhes o vento e lá vêm eles a abanar o orelhame, sobrevoando a cidade e chegando a casa mais cedo para o almoço. …

Adeus, Vidinho… Sai depressa das nossas vidas e volta só quando eu disser.


                                                                                  

 João Luís Nabo


In "O Montemorense", Setembro de 2020

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