sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Da leitura e da escrita

 

        

          A leitura e a escrita são dois actos de sobrevivência que me acompanham desde a mais tenra idade, por abençoada culpa da minha Mãe, que decidiu, a certa altura, ensinar-me a arte de juntar as letras e as palavras, tanto no abstracto do meu pequeno cérebro, como no concreto de uma folha de caderno de duas linhas. Ler e escrever foram, desde os quatro anos de idade (estávamos em 1965), a minha forma mais directa de contacto com os outros, com os seus pensamentos e as suas formas de estar. Tornou-se, pois, um vício, um hábito, uma necessidade, um prazer, encontrar as palavras certas para os momentos adequados, lê-las e degustá-las em grandes autores, sugá-las de incomensuráveis pensadores, mastigá-las num torpor prolongado para definir com acuidade o seu sabor, o seu sentido, para, depois, cair voluntariamente nas armadilhas que me ofereciam; mais ainda, tentar escrevê-las por aqui e por ali, sofrer com cada adjectivo, saborear cada advérbio, multiplicar cada verbo por mil, porque o verbo é, e será sempre, o motor do texto e, juntamente com o amor, o motor da vida.

É por isso que, em cada apresentação pública dos meus livros, sinto uma profunda e carinhosa necessidade de agradecer à minha Mãe, que acabou por livrar-se de um puto insistente e incomodativo e passou a ter tempo mais livre para as suas próprias leituras;  à minha professora primária, porque me ajudou a desenvolver e a aprofundar esta apetência; aos meus professores de Português e de Literatura, que perceberam que eu podia ir mais além, e aos leitores de várias dezenas de anos e aos mais recentes, aos mais velhos e aos mais jovens, que seguem curiosos o que a escrita continua a revelar do pensamento de quem a produz.

Escrever, hoje em dia, em Portugal ou em qualquer outro país de uma Europa cada vez mais politicamente correcta, é um dos exercícios mais perigosos que alguma vez pudesse ter existido. Mais do que uma espada, uma pistola ou um canhão, muito mais do que uma bomba atómica ou um discurso de Trump ou de Bolsonaro (a quem, felizmente, pouca gente já passa cartão), a escrita tornou-se uma porta aberta, não para os que escrevem poderem fazer sair o seu estado de alma, as suas ideias cívicas e morais, o seu sentido de justiça e tolerância, mas para dar entrada aos intolerantes, aos perversos, aos que não gostam que as verdades sejam ditas através das suas reais designações, com as palavras certas nos textos ou nos momentos que eles, do alto da sua intocável importância, consideram mais inoportunos.

            Longe de um lamento caquético e miserabilista, este alinhavar de ideias a que me propus hoje é tão somente a constatação do aumento crescente de cidadãos que, indiferentes aos reais problemas  do mundo, do país ou da sua terra, têm como artimanha cortar cerce os pensamentos dos seus semelhantes, acusando-os com qualquer epíteto que esteja à mão, com o objectivo apenas de os fazer desacreditar perante a opinião pública, de os enfraquecer, de ridicularizar as suas sugestões, ideias ou os seus compromissos para consigo próprios e para com o público leitor.  O que estou a narrar não será novidade para nenhum de vocês. Muitos dos que me lêem também praticam o exercício da escrita. Poderá não ser com a mesma regularidade, mas também já foram alvo preferencial (não utilizei a palavra “vítimas”) de radicais com instinto de matadores, que desdizem, desmontam, desconstroem, com espírito de malvadez e, tantas vezes, falta de conhecimentos, as ideias que todos têm o direito de propagar em jornais, revistas ou nas redes sociais, independentemente das suas cores partidárias, futebolísticas ou religiosas.

            A publicação de uma ideia, de um pensamento, com maior ou menor ironia, com maior ou menor impacto, nas redes sociais, por exemplo, todas elas cheias de armadilhas e subterrâneos, nunca será aceite, sobretudo pelos visados e quando esses visados sabem que em termos de razão nada têm a ganhar. Comentar, hoje em dia, de forma livre e descomprometida, uma decisão do Governo, uma informação os sindicatos, um discurso de um líder partidário, pode ser útil para compreendermos o verdadeiro íntimo de quem nos lê, mas transforma-se numa carga de trabalhos para explicarmos às virgens ofendidas a nossa verdadeira intenção e, sobretudo, a liberdade que todos devemos ter para exercer a arte da escrita como reflexo da nossa forma de pensar e de viver.

Porque se confunde transparência e rigor com caça às bruxas, vontade genuína de partilhar ideias e de descobrir a verdade com vontades obscuras e terríficas de conspirar contra o que é novo e irreverente, os arautos defensores da raça ideal, da religião adequada, dos corpos modelo, dos partidos salvadores e de uma nova Ordem, atacam sem lei nem regra os que lhes apontam os erros, lhes mostram o anacronismo dos seus compromissos, e não toleram as verdadeiras intenções dos seus planos altamente maquiavélicos. Escrever sobre isso, contudo, revela-se cada vez mais complicado, não pela incapacidade de chegarmos, ou de tentarmos chegar, à verdade e, sem medo, expor o que pensamos e sentimos sobre determinada gente e seus apoiantes, mas porque, à imagem do que acontecia antes de Abril de 74, há delatores, conspiradores, informadores, telefonemas de aviso e mensagens ameaçadoras que começam a fazer esmorecer muitos dos que sempre se bateram pela verdade e pela transparência.

Em forma de agradecimento a todos os que, antes de Abril, lutaram e morreram em nome da liberdade e para que nunca mais se sentisse medo neste país, nem nesta terra, está terminado e em preparação editorial o meu primeiro romance (é um privilégio partilhar em primeira mão com os leitores esta notícia) que será publicado pelas Edições Colibri e tem prefácio da historiadora Teresa Fonseca. Chama-se Sertório - uma história de Vila Nova e, acredito, irá ficar no vosso coração e na vossa memória.

    João Luís Nabo

  In "O Montemorense", Janeiro 2021

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