sexta-feira, 10 de abril de 2026

Da Escola e dos seus sabores

 

 


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Antes do tempo da Páscoa, vivemos nas escolas do nosso Agrupamento uma última semana de aulas… quase sem aulas. Dias atípicos para quem está habituado, nove meses por ano, a viver várias horas por dia numa sala de aula, levando a efeito uma rotina que, por ser rotina já sem necessitar de preparação ou ensaios, quase não se sente. Pensarão os leigos que os professores não gostam de sair desta sua zona de conforto, os alunos à nossa frente, os professores junto ao quadro, a fazer passar, mês após mês, as matérias previstas nos programas e, sobretudo, os conhecimentos a serem futuramente testados em exame nacional. Poderão até chamar a estas práticas uma colecção de maus hábitos, sublinhando que a nossa Escola continua ligada a correntes e a práticas de ensino do passado, sem vontade de ir mais além.

Nada disso. A prova do ecletismo do Agrupamento de Escolas de Montemor é cada vez mais concreta e visível… e vai mais além do que se poderia pensar: os intercâmbios de estudantes entre as nossas escolas e outros estabelecimentos de ensino do país e do mundo, os projectos nas mais diversas disciplinas, que os levam a investigar e a diversificar as suas capacidades, bem como o seu sentido crítico e de análise, a utilização cada vez mais frequente de meios audiovisuais e digitais para passar matéria e lançar ideias, com o objectivo também de consciencializar os alunos de que os professores estão sempre do seu lado e que querem acompanhá-los nas suas necessidades de permanente actualização para com o mundo que os espera lá fora.   

Pois tudo isto foi comprovado na última semana de aulas antes da Páscoa. A Semana Cultural promovida pelo Agrupamento, subordinada ao tema “As Nossas Raízes, o Nosso Futuro: Identidade, Cultura e Comunidade”, trouxe à prática um vasto conjunto de iniciativas que agregaram toda a comunidade escolar, que se abriu ainda mais à comunidade montemorense, numa colaboração com a autarquia e com muitas associações do concelho, transformando aqueles últimos dias numa verdadeira montanha russa de actividades relacionadas com as mais diversas áreas do saber e da vida.

Posso dizer, sem risco de errar: vale mais uma Semana Cultural do que um mês de “sala de aula”, de forma permanente e contínua.

           

 

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            Depois de falar do meu Agrupamento e destas iniciativas que envolveram toda a gente, é impossível ignorar o empenho dos alunos nos mais diversos eventos, o seu comportamento exemplar, a forma como receberam os convidados que por cá passaram a inovar-lhes os dias e… a mente.

Muitos desses alunos são os que tenho à minha frente todos os dias, com algum sono de manhã cedinho, com algum cansaço depois de muitas horas sentados em sala de aula, e com quem partilho o que sei e o que eles precisam de aprender. No entanto, depois das aulas, alguns deles espalham a sua magia também noutros espaços, sobretudo em espaços desportivos onde jogam diversas modalidades em equipa, no Grupo União Sport e noutros clubes. É curioso, mas ao mesmo tempo, reconfortante, como todos eles entendem a importância do futebol, do basquetebol, do andebol, do ténis e de outras modalidades como um espelho da vida e das relações entre os cidadãos e cidadãs que se pretendem pró-activos e úteis. E como aplicam, não raras vezes, esses princípios basilares na escola e nas aulas.

Nestes últimos dias que me restam como professor, quase a enveredar por outros projectos e caminhos, é moralmente e eticamente obrigatório deixar registados os nomes dos miúdos que admiro pela sua entrega ao desporto e às regras que os tornam, sem dúvida, melhores seres humanos – mais inclusivos, mais tolerantes, mais amigos, mais participativos, mais solidários. Por isso, deixo aqui um abraço valente ao João Prates, ao Dinis Peniche, ao Levi Batista, ao Santiago Baptista, ao Kauan Nunes, ao Breno Macena, ao Miqueias Gonçalves, ao Emanuel Silva, ao Flávio de Paulo, ao Bernardo Peixoto, ao Rodrigo Calção, ao Samuel Simões. Independentemente das derrotas ou das vitórias (ou, talvez, devido a isso), serão todos, tenho a certeza, futuros cidadãos do mundo!

 

 

3

            Continuo na Escola, na minha escola onde fui aluno e, depois de três anos como migrante, onde sou professor há quarenta anos. Quando contabilizamos as nossas vivências tendo por base as horas, os dias e os anos, estamos a ser demasiado pragmáticos, tecnocratas e frios. Não conto todos estes anos somados em si mesmo. Gosto de recordar esta passagem pelo ensino público pensado em números, mas com outro efeito: foram centenas de colegas que conheci, muitos deles são hoje meus amigos, alguns deles amigos para o resto da minha vida; dezenas de funcionários, que sempre me apoiaram em todos os momentos; milhares de alunos – mais de quatro mil – que me ouviram e a quem ouvi, sempre com a esperança e a certeza de que iriam ter o seu lugar na sociedade.

A partilha de conhecimentos foi para mim, sempre, desde muito novo, um dos maiores prazeres da vida. Fazê-lo numa sala de aula, num anfiteatro, numa visita de estudo, ou em muitas outras formas de libertar as ideias e transformá-las em instrumentos progressistas e inovadores, tornou-se compensador e um desafio sem fim.

Estes tempos não são iguais aos outros tempos e o professor tem como dever afinar capacidades para acompanhar de forma natural os novos interesses, as novas formas de estudo, as atuais plataformas de pesquisa e trabalho.  Procurei sempre, muitas vezes com o apoio de colegas mais jovens, dominar minimamente o mundo das novas tecnologias para não perder a oportunidade de continuar a ensinar, independentemente do modo, das ferramentas e das atualizações que temos de enfrentar, quase em permanência.

Quando penso no início da carreira, nos idos anos de 1983, nutro sempre o mesmo tipo de sentimento: voltaria a fazer tudo de novo. Voltaria, sem qualquer hesitação, a entrar numa sala de aula e dizer: “Olá! Sou o vosso novo professor de Inglês. Vamos mudar o Mundo. Quem não for pontual… leva trabalhos de casa.”

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Abril de 2026

quinta-feira, 12 de março de 2026

Das Trevas à Luz

 


                                                                                      


                                                                 (Foto: Pedro Ferreira - 2023)

                                                                                  1

 

            Não aprendemos com os erros do passado. O Mundo regressou aos poucos ao tempo da Segunda Guerra com alguém a invadir e alguém a ser invadido nos seus direitos e nos seus territórios. Há uma hipotética solução: os senhores da guerra deverão ser isolados, com a maior urgência, num espaço fechado, não muito amplo, sem mais ninguém, sem árbitro, com o mundo exterior a assistir na televisão mais próxima, à espera dos vencedores e dos vencidos. Sem bombas, sem invasões de território, sem soldados, sem armas, sem atitudes lunáticas de sobranceria e desprezo pelos direitos humanos e pelas constituições que regem cada país.

Por outro lado, a cobardia da ONU, o medo sentido pela Europa, qual velha senhora, aristocrática e falida, o silêncio dos justos e das pessoas ditas de bem, representam, tudo isto junto, um perigo maior do que os humores com que Trump acorda todos os dias.

Se, numa bela manhã, esse americano acordasse com vontade de invadir Portugal (com ou sem um ditador eleito na equação), este nosso belo e rectangular torrão à beira-mágoa[1] plantado nem teria tempo de despir o pijama e envergar o uniforme mesmo antes de pegar na arma. Quando dava por isso, estava espojado neste chão ibérico, a estrebuchar, com as tropas americanas a calcarem-lhe os poéticos e heróicos rins, ainda com algum sangue do saudoso Viriato. Meia-dúzia de anos depois, a rapaziada lusa já estaria a falar inglês (as séries da Netflix também dariam uma ajuda) e aptos a cantar “The Star-Spangled Banner”, de mão no peito, lágrimas nos olhos e de peruca cor-de-laranja como prova de lealdade e adoração para com o querido líder.

Mas, qual Gauleses, numa aldeia perdida na zona da Bretanha, haveria um bravo povo a “resistir, ainda e sempre”, aos invasores: nós, os Alentejanos. Se um dia esse senhor cismar que tem de vir tomar o Alentejo para dominar o monopólio do porco preto, será recebido com vagar, sim, mas sujeito a levar com umas cajadadas no alto da pinha. E como diria a minha saudosa Mãe: “Mal empregadas as que caíssem no chão.”

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            João Cidade tem uma história de vida que todos conhecem e que poderia dar uma longa-metragem de Hollywood, com actores de renome a interpretarem o Santo e todos os que com ele conviveram. Celebrado em Granada, cidade onde morreu em 1550, após salvar da morte pessoas em risco de afogamento no Rio Genil, João Cidade tem em Montemor o seu dia próprio, festejado habitualmente nas vertentes profana e religiosa.

Conterrâneos nossos acreditam que devia dar-se mais destaque à sua figura e à sua obra. E têm razão. É importante a nossa participação no hastear das bandeiras, na procissão, com o acompanhamento da Banda Carlista e da Fanfarra dos Bombeiros, na Missa Solene, na Igreja do Hospital, numa manifesta vontade de marcarmos este dia grande que nos une como comunidade. Falta, contudo, mais qualquer coisa. Qualquer coisa que lance o nome do Santo e a sua Obra, de forma assumida, para um universo maior e mais mediático. A primeira seria alargar o tempo das comemorações e não cingi-las apenas ao dia 8 de Março. Depois, essa divulgação poderia ter como primeira iniciativa uma sessão solene pública, levada a efeito em espaço adequado, com a participação dos representantes religiosos e políticos, locais, regionais e também nacionais, porque João Cidade foi, e é, muito maior, e a sua influência certamente mais ampla, do que os muros do nosso pequeno burgo. Outros eventos poderiam seguir-se: exibição de filmes, abertura de exposições, conferências sobre o homem, o Santo e o país onde nasceu, visitas guiadas à Igreja Matriz e à Cripta onde, segundo a tradição, João Cidade terá nascido (sendo este pequeno nicho histórico e arquitectónico o centro de todos os acontecimentos), a divulgação e apresentação de trabalhos de investigação (e outros de ficção) publicados ou por publicar. Inaugurar, finalmente, um Museu (ou um Centro Interpretativo) de São João de Deus, numa colaboração estreita entre a Ordem Hospitaleira, historiadores locais e a Autarquia montemorense.

Em suma, é importante unir esforços e sinergias para celebrar São João de Deus na sua verdadeira dimensão humanitária e universal, de modo a orgulharmo-nos ainda mais do nosso Património Histórico e Religioso.

Fica registada esta ideia.

  

3

 

O tempo da Páscoa é o ponto alto da vivência cristã, sendo uma das grandes bases da fé de todos os crêem na Vida depois da Morte, na Ressurreição de Cristo, como modelo da sua própria ressurreição como seres mortais e fisicamente finitos. É também a celebração do perdão, da dor e a tomada de consciência, uma e outra vez, de que há, para os que assim acreditam, uma vida para além desta, da terrena, que tantos conflitos nos faz viver e que, se assim quisermos, nos aponta um caminho em direcção à Luz.

A paixão de Cristo, narrada nos quatro evangelhos aceites, é um dos momentos mais fascinantes da liturgia e que sempre me deixou maravilhado e cismado ao mesmo tempo. E também com um sentimento de desordem mental por achar de uma beleza extrema o sofrimento extremo de um Homem bom. Este é talvez um dos mistérios mais extraordinários que envolve a Cruz e o Crucificado.

Este ano, estes momentos vão ser celebrados de uma forma especial, no dia 28 de Março, na Igreja de São João de Deus, na nossa cidade, com a leitura de excertos ilustrativos dos Evangelhos pelo Padre Bonifácio Lemos, acompanhado pelo Coral de São Domingos, com obras alusivas aos diversos momentos. Vai ser um concerto único, de índole cristã, mas ecuménico e de introspecção, em nome da Paz e da Justiça, numa vivência comunitária, agregados num ambiente de espiritualidade, onde todos se irão sentir mais próximos.

 

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2026

[1] Expressão criada por Fernando Pessoa num dos seus poemas incluído na “Mensagem”.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Três notas a correr

 


1

Ventura mais… seguro?

 

António José Seguro venceu as eleições presidenciais com uma larga margem em relação ao seu adversário. Oceanos de tinta já se escreveram, entretanto, em comentários, análises e artigos de opinião, numa tentativa de se perceber se Seguro venceu por mérito próprio, porque garantiu e convenceu ser o Chefe de Estado ideal e adequado ao perfil da Nação Portuguesa, ou se essa vitória esmagadora teve como base o medo (nunca pensei usar, um dia, esta palavra em contexto eleitoral, a não ser em textos de ficção) de dar a cadeira presidencial a alguém que pareceu, em todas as suas intervenções e actos públicos, não querer ter Portugal como elemento aglutinador de todos os seus cidadãos. A intenção de Ventura foi, antes de mais, garantir e reforçar a continuidade do culto do líder absoluto e aclamado pelo voto, um exercício que o "candidato" tinha vindo a praticar e a aperfeiçoar desde sempre no seio do seu próprio partido.

Se me é permitida uma opinião, que nada tem a ver com interesses ou preferências partidárias ou de candidato, Ventura nunca quis ser Presidente da República. Jamais foi esse o seu objectivo primeiro. O que ele pretendeu com este jogo eleitoral, que ele alimentou com desinformação e, muitas vezes, com insultos, foi apalpar o pulso ao povo e saber se tem condições para, daqui a três anos, se candidatar às legislativas. E ganhar.

 

 

2

A Geração de Cristal

 

Estamos a educar uma nova geração que nada tem a ver com todas as outras anteriores com quem convivemos e trabalhámos antes. São crianças e jovens a quem nada falta, que conseguem convencer os pais de que têm sempre razão nas suas exigências, que abrem a boca a pedir um telemóvel 5G e que, no dia seguinte, são presenteados com dois ou três, para não ficarem traumatizados. São defendidos pelos pais perante as asneiras que vão fazendo, independentemente de terem ou não razão. Esquecem-se de honrar o seu estatuto de estudantes e chegam atrasados às aulas, não levando muitas vezes os materiais necessários para cada disciplina. Ignoram os momentos de avaliação, recusando-se a ser avaliados em determinados parâmetros, faltam propositadamente aos testes, ou porque não estudaram, ou porque querem conhecer melhor a estrutura do teste ou a matéria que saiu… Deixaram de saber pensar, de exercer o seu pensamento crítico, ignoram o que é ler um livro, um artigo de jornal, assistir a um bom filme ou a um programa de televisão de qualidade. Não sabem nem querem saber como se faz uma investigação sobre determinado tema, deixaram de saber criar, perderam a capacidade de serem inovadores e inteligentemente desafiadores. E tudo isto apesar de todas as maravilhosas ferramentas que se encontram hoje ao seu dispor.

São a Geração de Cristal, porque são frágeis, pouco intuitivos, exigentes sem nada dar em troca, viciados nas redes sociais, alguns em jogos a dinheiro online, lentos nos raciocínios e nos cálculos, descuidados nas opiniões que libertam (quando as têm), incapazes de criar defesas e, por isso, medrosos em relação à vida, não percebendo que há limites que não devem ser ultrapassados e que há outros limites que o devem ser.

São a Geração de Cristal que, como qualquer objecto feito deste material, deverá ser colocada em cima de um móvel, à laia de bibelot, à vista de todos, mas intocável para não se partir.

É esta a geração que vai começar a exercer o seu direito de voto nas eleições que estão para vir. E é esse o meu maior medo.

 

Há excepções, claro, e eu tenho o privilégio de lidar diariamente com uma boa colecção de excepções que, mais sermão, menos sermão, percebem que o mundo que os espera fora da escola é duro e injusto, e que me dão a entender que conseguem chegar ao que os professores lhes tentam ensinar nas entrelinhas dos programas escolares, por vezes, estes também a necessitarem de mudança.

 

 

 

3

D. Maria Manuel

 

A D. Maria Manuel que era, para mim, a nossa Chefe de Redacção, faleceu no passado dia 1 de Fevereiro, deixando-nos mergulhados numa profunda tristeza. A sua exigência e o seu rigor transformavam a nossa colaboração num trabalho quase profissional e sem margem para falhas. Recebia mensalmente o texto do Cloreto, mandando-me sempre mensagem a confirmar que tudo estava em ordem e pronto a paginar.

Sabemos que “a Messe é grande e os trabalhadores poucos”, e que esses, apesar de poucos, se vão revezando no cultivo das extensas searas da Palavra e da Boa Nova. Por isso, temos a absoluta certeza de que tudo irá continuar. Mas temos consciência, no entanto, de que, sem a nossa carismática Chefe de Redacção, nada será a mesma coisa. Perdemos um elemento estruturante d’ “O Montemorense” e o seu nome ficará para sempre ligado ao mensário que ajudava a construir.

Cá estaremos para colaborar no que, e sempre que, for necessário. Aos Familiares e Amigos, ao Director e ao Administrador do nosso jornal, bem como a todos os meus colegas colaboradores, que todos os meses, de perto ou à distância, interagiam com a D. Maria Manuel, um abraço de sentidas condolências. 

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2026

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ouro, Incenso e Mirra

 



Um Natal ecuménico

 

Em Dezembro surgiu uma notícia sobre uma escola no nosso país, cuja direcção decidiu não manifestar quaisquer sinais exteriores de… celebração. Explicando melhor e de forma clara: os planos para as habituais celebrações de Natal foram cancelados. O motivo apresentado foi a necessidade ética e pedagógica de não ferir as susceptibilidades de alunos e respectivos encarregados de educação, originários de outros países e que professam religiões, crenças, ideologias religiosas diferentes. 

Não entendi na altura e não entendo agora.

Teria sido mais pedagógico pedir-se a todas as tendências religiosas representadas nesse estabelecimento de ensino que comemorassem o Natal segundo a tradição do seu país. E que, quem tenha outro tipo de tradições religiosas no decorrer do ano, que as celebrasse sem qualquer constrangimento.

Todos nós, educadores, devemos estar preparados para dar andamento às mais variadas formas que cada grupo tem de celebrar as suas festas religiosas. O Papa Francisco foi, talvez, dos papas mais ecuménicos de toda a História da Igreja Católica. Chegou a altura de pormos em prática nas nossas escolas, nas nossas cidades, nas nossas famílias, este conceito de ecumenismo, porque todos, todos, todos deverão ser respeitados nas suas convicções. E os portugueses que celebram o Natal também.

 

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 T.R.U.M.P.

 

A nova ordem que começa a reger o mundo onde vivemos diz-nos que qualquer governante de qualquer estado pode invadir um país que lhe agrade, independentemente dos motivos, e raptar o governante, sem qualquer interferência das instituições e organismos responsáveis pelo equilíbrio e pela paz mundial, vergonhosamente encolhidos dentro do seu casulinho.

O planeta não pode transformar-se no recreio de um qualquer que, por ter brinquedos e dinheiro, pode brincar ao que bem entende. As ameaças permanentes e diárias que caem sobre outros estados soberanos é o reflexo de uma nova ditadura a surgir no horizonte, muito embora os seus defensores lhe chamem uma democracia renovada. Não acredito em democracias renovadas. Acredito na democracia, ainda que seja considerada por muitos o sistema menos mau de vida e de governação.

Os Estados Unidos da América, com a sua História, o seu desenvolvimento e expansão, a sua cultura, o seu cinema e a sua literatura, exerceram desde sempre um fascínio sobre mim, transformado de vez em quando em alguns trabalhos académicos, sobretudo relacionados com a literatura. Muitos dos autores, quer do passado, quer contemporâneos, profetizaram nas suas obras os tempos que hoje vivemos. A América já não é “a terra das laranjas e do mel”, como lhe chamou Nathaniel Hawthorne. É a terra do medo, onde a perversidade de um ser humano o atrai cada vez mais para o abismo, como terá projectado Edgar Allan Poe, no conto “The Imp of the Preserve”, comprovando que há no ser humano uma força misteriosa que o empurra para o mal de forma consciente e malévola, sem haver uma razão aparente. O mundo é hoje, mais do que nunca, um lugar assustador onde deixou de haver um refúgio, um lugar, um momento de alívio. Vivemos, de forma cada vez mais premente, a era da paranóia, como nos alertou a australiana Teresa Brennan.

O breve título deste desabafo não tem a ver com alguém desequilibrado, narcisista e criminoso. É coincidência, acreditem. Significa apenas: Tarde Recuperaremos a Unidade e os Meios para atingir a Paz.

Será mais uma profecia, dirão. Talvez.

 

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Presidenciais?

 

            Os candidatos à Presidência da República pareceram-me confusos no decorrer de toda esta actividade para convencer o povo a outorgar-lhes uma confiança para cinco anos. Ouvi-los descrever as suas posições, os seus desejos e as suas promessas foi a mesmíssima coisa que ouvir um candidato a primeiro-ministro, sem tirar nem pôr. A ajudar à festa, estendeu-se diante de nós, portugueses eleitores, um espectro de palhaçada da pior qualidade que, de ser tão amplo, levaria o autor deste texto a precisar do resto deste jornal para descrever e comentar os momentos, os discursos, as entrevistas, os debates, os trivia mais ridículos, nunca antes transmitidos pelas televisões e redes sociais acopladas. Um sentimento de vergonha alheia prolongado e sem solução alargou-se, de uma forma arrastada e penosa, no decorrer desta malfadada campanha, que só serviu para evidenciar os defeitos, a incapacidade, a rebaldaria, a falta de profundidade de ideias e de interesses, a leviandade, em suma, como os candidatos conduziram a sua campanha, sem o mínimo respeito pelo país, pelas famílias, pelos trabalhadores, pelos imigrantes, pelos eleitores. Os golpes baixos que alguns deles desferiram, nestes últimos dias, contra os seus adversários, comprovam a falta de ética e de sentido de Estado que poderiam muito bem começar a treinar antes de ocuparem o Palácio de Belém.

            Portugal acompanha a par e passo o mundo que o rodeia: cheio de teorias falsas, ideias bacocas, promessas vãs, tentativas iluminadas de galgar a escada do poder até chegar ao cimo, mentiras governamentais sobre o estado da Saúde, o Ensino e a Economia (os pequenos continuam a contar os centavos), despesas milionárias em armamento para a Europa Central, quando continuamos com gravíssimos problemas para manter em Portugal médicos, enfermeiros, professores, cientistas, artistas e outros que vão tentar noutras partes do mundo ganhar um vencimento justo e garantir a si próprios e às suas famílias um futuro sem dificuldades. Quando temos em Lisboa, no Porto ou em Coimbra centenas de cidadãos a dormir na rua, vítimas muitos deles das políticas deste e de outros Governos.

           

Não há volta a dar a este destino que Camões tão bem descreveu na sua epopeia. Somos assim: tristes, pobres, cobiçosos e… invejosos. O mais grave e vergonhoso é o facto de não conseguirmos sair desta preguiça para alcançar esse estatuto divino que nos poderia salvar. Queremos fama sem esforço? Morreremos sempre na praia por culpa nossa. De mais ninguém.

 

João Luís Nabo

 In "O Montemorense" - Janeiro de 2026 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Quatro prendas de Natal

 

                                                                               

                                                                           


1

 

Os discursos de ódio, com visíveis arroubos xenófobos, racistas e divisionistas, patentes em cartazes espalhados por este país, a fervilharem nas redes sociais de forma despudorada e imparável, a serem gritados nas televisões, a toda a hora e a todo o momento, sem que jornalistas e moderadores consigam pôr mão nos comportamentos inimagináveis de muitos ressabiados desta vida, servem apenas para confundir e dividir. Até os mais sensatos acabam, neste tsunami de acusações, por dar razão aos extremistas, aos que insultam, aos que pedem o aniquilar de seres humanos como eles, esquecendo, muitas vezes, as suas origens e o seu papel na sociedade, que devia primar pelo exemplo e não pela cobardia escondida nos berros que já ninguém consegue ouvir ou entender.

Quando ouço muitos dos imigrantes, eles próprios, estabelecidos entre nós há mais tempo, a dispararem em todas as direcções contra outros imigrantes que tentam, tal como eles, encontrar uma vida estável e segura no nosso país, sinto que há gente que não pensa, não discorre, não equaciona. Sinto que a mentalidade e o modus vivendi dos portugueses não estão a ser afectados pelos que cá chegam carregados de esperança. São muitos portugueses que, levados pelos discursos inflamados, e tantas vezes infundados, dos extremistas, acabam por querer levar o país numa direcção que não se coaduna com o bom senso, com o sentido democrático que deveria reger a sociedade e com a matriz cristã em que a maioria foi educada.

 

 

2

 

            O escorrer destas linhas está a acontecer ao ritmo da greve geral marcada, e efectivada, no dia 11 de Dezembro. Depois das palavras do primeiro-ministro de Portugal, condenando a greve e os seus motivos, num tom paternalista a fazer lembrar o deliciosamente conservador e fascista Diácono Remédios de Herman José, aquilo que se poderia esperar seria uma mobilização ainda maior e mais forte de todos os que, se for aprovado o novo código do trabalho, sentem os seus direitos e a suas garantias atiradas para os períodos mais obscuros do regime de um tristemente célebre António, que alguns querem, à viva força, fazer renascer das cinzas. O homem não é nenhuma fénix. Deixem-no estar como está.  

            E os membros do Governo que se lembrarem de vir dizer no fim do dia que a adesão à greve foi meramente residual estarão, decerto, a viver noutro país. Diz-se que há gente pouco aberta ao mundo e à realidade que a rodeia, que só consegue ver aquilo que quer. Ou aquilo que lhe convém. Montenegro e a sua bela equipa pertencem a este triste clube.

 

3

 

            Trump brinca com o estado anímico das nações, dos seus dirigentes e dos seus povos. Todos os dias, diz, desdiz, contradiz, num permanente desdém pelos direitos humanos, pela segurança, pela economia e pela estrutura interna de muitos países, sem se dignar a respeitar, nem os americanos, nem os jornalistas ou os imigrantes que pedem ajuda ao país autoproclamado mais poderoso do mundo. O presidente americano poderá ter algumas qualidades (ainda não lhe vislumbrei nenhuma de relevo) mas é a sua metade sombria que governa o país e os que dele dependem para alcançar a paz, agora em destaque, na Europa e no Médio Oriente. E é esta sua faceta, a mais doentia, a mais esquizofrénica, sociopata e quase psicótica que, apesar de fascinante para um escritor de literatura gótica, será facilmente analisável por especialistas, de modo a que esteja para breve a declaração de um impeachment que o leve à reforma definitiva, para ver se o mundo, cada vez mais global e globalizante, consegue encontrar o seu rumo.   

            (Se o jornal para o qual escrevo fosse americano, este seria por certo, o meu canto do cisne.)

 

 

4

 

Esta época do Natal tornou-se, há uns tempos a esta parte, um período de memórias e de desejo de voltar a um passado feliz.

Era na cozinha da minha mãe que tudo se passava, dias antes da consoada. O peru no forno, o lombo assado, as batatas com couve e bacalhau, a exposição dos brinquedos para os mais pequenos (para mim, também, na altura), a escolha da toalha para a mesa da Noite Santa e o pinheiro de Natal que o meu Pai trazia, já muito em cima da hora, de terra longínquas por onde andava a labutar. E o presépio, claro, montado com rigor no estrado da mesa da cozinha, com o verde do pinheiro mesmo ao lado para que, em conjunto, simbolizassem o nascer e o renascer de tudo o que era natural, e se transformassem no espírito que unia a família por causa de um miúdo nascido havia perto de 2000 anos. 

Na nossa casa, situada numa fileira de três no Bairro de São Pedro, o pequeno Menino Jesus, um refugiado inocente, tal como os seus santos pais, comprado, tal como as outras figuras, na loja do senhor Julinho e da Dona Carlota, só iria para a manjedoura no dia 24, às zero horas. Era uma regra de ouro, cumprida religiosamente sempre do mesmo modo e tendo por celebrante solene outro menino, que hoje preferia não ter crescido para ter sempre junto a si a cor da árvore verde com a sua neve em algodão, o aroma dos cozinhados espalhados pela casa e a pele morena e macia da sua Mãe.  


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Dezembro de 2025

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Quatro Curtas

 


1

 

No passado dia 2 de Novembro, tomaram posse os eleitos nestas autárquicas que vão gerir o concelho de Montemor-o-Novo: executivo camarário, presidentes de junta, membros das assembleias municipal e de juntas de freguesia. Um desfile de gente com a mesma intenção e vontade de concretizar projectos. Não me perguntem qual é o meu partido. Sou, naturalmente, por Montemor e por todos, velhos amigos, jovens amigos, colegas, ex-alunos e ex-alunas, que vão abraçar com garra a nossa terra e fazer cumprir os sonhos que (n)os movem. Estamos juntos.

É muito maior e mais importante o que nos aproxima do que aquilo que nos separa. Bom mandato a todos!

 

 

2

 

A proliferação de candidatos à Presidência da República divide cada mais profundamente a sociedade portuguesa, quer em termos de apoios partidários, quer em termos de tendências e tomadas de decisão de cada cidadão isoladamente. Extrema-esquerda, esquerda, centro, direita e extrema-direita estão a fazer deste país não um lugar de debate em nome do progresso civilizacional e, sobretudo, de soluções para o bem-estar dos menos privilegiados, mas um espaço onde apenas vencem as ideias imbuídas de radicalismo, de ódio, de perseguição física e ideológica a grupos minoritários, cavalgando de forma insistente infindáveis ondas de populismo e demagogia.

A confusão está instalada e ninguém consegue retirar grandes conclusões ou aproveitar minimamente as ideias contraditórias que nos entram diariamente pela casa adentro. Uma coisa é certa: os tempos mudaram. Perseguem-se imigrantes, atacam-se minorias étnicas, cativam-se cidadãos com o que eles gostam de ouvir e propagam-se ideias de um radicalismo assustador com o tranquilo beneplácito do Governo e da Assembleia da República, que deixou chegar a Casa da Democracia a um baixo nível de educação e comportamental, nunca alcançado, nem nos dias de maiores convulsões pós-25. Tudo parece normal, e este normal começa cada vez mais a fazer jurisprudência noutros sectores e nos mais diversos espaços da nossa sociedade.

Houve sistemas totalitários que começaram com muito menos. Alguns até foram homologados com o voto do povo.

 

 

3

 

Os telemóveis não são nossos inimigos. Digo isto constantemente a alunos meus, reforçando a ideia e a absoluta necessidade de sermos nós, humanos racionais, a controlar a máquina, maravilhosa e irracional, e não se lhe dar margem para ser ela a controlar os nossos movimentos, pensamentos e desejos. Para isso, é importante uma educação séria dirigida, sobretudo, aos jovens, para que possam, na verdade, e sempre que a situação o exija, usar esta ferramenta, cada vez mais útil nos dias que correm, sempre que dela precisem e sem necessidade de proibições ou de recorrerem à clandestinidade para consultar os googles desta vida e as tão apetecíveis, como famigeradas, redes sociais.

Essa proibição, já em vigor em muitos estabelecimentos de ensino do nosso país, advém de um único facto: ainda não surgiu a melhor forma de educar os jovens no que se refere à sua utilização, o que significa que, quando o Estado se torna incapaz de criar condições para o uso dos telemóveis em determinados contextos, faz aquilo que lhe resta fazer, por não ter capacidade para mais e melhor: proibir a sua utilização. Como se a proibição resolvesse o problema de fundo.

Cá para nós, que ninguém nos ouve, também os adultos deveriam ser educados nesse convívio doentio. Também eles, quando estão em grupo, num café, numa sala de espera ou noutro local qualquer, se escondem atrás de um ecrã, ignorando tudo e todos os que estão à sua volta. E os seus filhos e netos (ou os seus alunos) acabam por ver ali um exemplo a seguir.

 

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Quando assumimos o nosso final de carreira, há uma nostalgia que começa a pairar: quando preparamos as aulas, quando estamos com as turmas, em tudo o que nos liga a uma profissão que já vai (demasiado) longa. Começamos a sentir que não voltaremos a ensinar as matérias habituais e que a sala de aula vai deixar de existir para nós como espaço de troca de saberes e sempre tão útil para as conversas mais extraordinárias com os adolescentes que connosco coabitam a mesma sala, a mesma escola, durante meses, por vezes durante anos. E vai terminar para sempre o respirar o ambiente tão característico de uma escola, da nossa escola, cheia de gente em constante movimento.

Mas é assim que vai ser. O que vier a seguir, seja o que for, acabará por mitigar aos poucos esta saudade (já tão antecipada) e iremos sempre ver nos cidadãos com quem nos cruzaremos, na cidade e na vida, um pouco de nós, daquilo de que somos feitos, e do tempo útil em que vivemos juntos os melhores momentos das nossas vidas.

  João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2025

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Rescaldos

 

                         


                     

      O regresso a Gaza


            Finalmente, os palestinianos puderam regressar a casa. Resta saber quem deles tem ainda casa, depois de dois anos de destruição maciça e de verdadeiro genocídio por parte do Governo e das tropas de Israel. Não entendo, nunca entendi, de facto, o que leva um povo, ameaçado, há pouco mais de oito décadas, de extermínio nos terríficos campos de concentração do regime nazi de Adolfo Hitler, a atacar sem hesitação um povo governado pelo Hamas, mas que não pode ser considerado responsável pelos actos de guerra dos seus governantes contra os israelitas e, por isso, alvo do ódio de Netanyahu.  

            Trump meteu-se naquele diálogo de surdos e, com o seu estilo peculiar, que eu, particularmente, pouco aprecio, declarou o fim da guerra israelo-palestiniana. O Governo de Israel, até há dias a manter uma posição inamovível, aceitou, de um dia para o outro, este acordo de paz, que poderia ter sido apresentado e assinado há muito mais tempo.

Poderemos dizer que há, decerto, interesses por parte da administração americana nesta intermediação. No entanto, essa questão, comparada com a miséria, a fome, a doença e o horror dos últimos dois anos (se quisermos, por momentos, ignorar todos os anos anteriores) é de somenos importância.

            Quando vemos na televisão um país completamente em ruínas, ficamos cientes de que, só daqui a vários anos, poderá o estado palestiniano renascer das cinzas, deixando para trás este passado de duras realidades, mas que nunca lhe irá sair da memória: os bombardeamentos, as crianças mortas, a fome, o desespero. E estas feridas ficarão para sempre.

E a paz, agora garantida, poderá ser apenas uma breve brisa de Outono.

 

 

Autárquicas em Montemor: regresso ao passado?

 

Olímpio Galvão despediu-se da presidência da câmara municipal, depois de quatro anos de mandato. Será ainda prematuro fazer uma avaliação objectiva e distante das tomadas de posição do seu executivo, mas o que fez fê-lo em prol dos montemorenses e do concelho, tendo eu a certeza de que grande parte das suas decisões foram em nome da democracia, do progresso, da transparência e da proximidade com os seus munícipes.

Após três mandatos cumpridos como presidente da câmara de Évora, Carlos Pinto de Sá regressou a Montemor, onde tinha exercido o mesmo cargo entre 1994 e 2012. Os factores que podem, para já, explicar este volte-face na opção de voto dos munícipes do concelho de Montemor, podem ser de vária ordem, sem que ainda seja possível apurar a verdadeira essência que reside nesta diferença de 419 votos que separam o candidato vencedor do candidato vencido. Há duas ideias que circulam por aí, nada originais e que, por isso mesmo, em nada nos esclarecem, por serem baseadas no óbvio: que, por um lado, Olímpio Galvão poderia ter feito mais pelo concelho e que, por outro, muitos teriam saudades das políticas levadas a cabo por Pinto de Sá, em tempos idos. Duas questões discutíveis, tal como muitas outras que se poderão levantar.

Não nos esqueçamos, porém, de que os tempos são outros agora. As infraestruturas de que o concelho necessitava há trinta anos já não serão as mesmas, as pessoas alteraram as suas rotinas, as famílias passaram a ter necessidades diferentes, há gente nova no concelho, a cidade passou a precisar de um olhar diferente a todos os níveis e há uma novidade absoluta que nos esmaga a todos: há uma pressão nas redes sociais que obriga cada autarca a estar milimetricamente atento ao que é necessário e ao que é supérfluo.

Em termos de governação, e de acordo com os resultados apurados, e com o Chega fora da corrida, a maioria CDU, com três elementos, terá de saber trabalhar com quatro autarcas da Oposição mas que, em conjunto com a Maioria, poderão continuar a fazer valer as suas ideias para o concelho. É fundamental a diplomacia, a lisura, a honestidade intelectual para aceitar o que é positivo, venha de onde vier a ideia. Seria assim o executivo ideal.

  "O povo é sábio e soberano" foi a frase que me enviou, recentemente, uma amiga. Sabemos que o povo nem sempre é sábio e que nem sempre é soberano. Basta olhar para trás, para a História recente de alguns países não muito distantes do nosso. Mas queremos acreditar que, neste caso concreto, não haverá motivos para duvidar de tal aforismo.  Montemor em primeiro lugar. Depois, as minudências do costume.

Daqui, destas humildes colunas, um abraço ao Presidente Carlos Pinto de Sá, com votos de um excelente mandato.

  

Por falar em minudências…


… são incalculáveis, nas redes sociais, as intervenções pós-eleições, quer da parte dos que perderam, quer da parte dos que ganharam. Como montemorense, e ainda que crítico em relação a algumas tomadas de decisão dos políticos da terra, não entendo como pessoas da mesma cidade, do mesmo concelho e, até, vivendo na mesma rua ou no mesmo bairro, têm o à-vontade de ofender de forma absolutamente gratuita e indescritível os que perderam ou os que ganharam as eleições. Pergunto-me, com alguma preocupação, se havia, ou há, alguns interesses mais para além de prestar, abnegadamente, um serviço desinteressado ao povo do concelho. Sei que, enquanto exerceram o poder, tanto comunistas, como socialistas ou sociais democratas/centristas, todos procuraram entender melhor as necessidades das populações e dar-lhes aquilo que era possível dar. O resto são minudências mesquinhas que não abonam em favor de quem as produz.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Outubro de 2025

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Duas... para começar

 




Autárquicas, outra vez

 

            Já se apresentaram, com algum atraso na minha opinião, os cabeças de lista e respectivos acompanhantes, candidatos à Câmara Municipal e aos restantes órgãos autárquicos cá da santa terrinha. Todos os candidatos (PS, CDU, PSD/CDS, Chega) apresentaram novas caras e nomes frescos a acompanharem os bosses: Olímpio Galvão, Carlos Pinto de Sá e António Xavier apostaram em novas caras para a sua equipa, ou por indisponibilidade dos primeiros contactados, ou porque queriam mesmo mostrar um elenco diferente, ou quase, para gerir os destinos dos montemorenses. Frederico Tropa, candidato do Chega, é cara desconhecida e pouco ou nada há ainda a dizer sobre alguém que não se conhece e que não tem qualquer trabalho apresentado.

O povo é soberano e na sua decisão irá pesar o trabalho feito pelo executivo em funções, liderado pelo socialista Olímpio Galvão, o dinamismo e a presença permanente de António Xavier nas decisões políticas, como vereador da oposição pela coligação PSD/CDS e, não direi a forma como a CDU exerceu a oposição, mas sim a memória do excelente trabalho de Carlos Pinto de Sá, presidente do município entre 1994 e 2012.

O público-alvo de cada força partidária já não será exactamente o mesmo, e o esforço dos candidatos vai no sentido de entender a tendência de voto de cada grupo social/etário e contrariar quem quer votar em partidos situados nos extremos do espectro, sobretudo, por vingança, ao acaso ou só mesmo para contrariar as tendências do passado recente. A desilusão será porventura o maior pretexto apresentado por muitos para mudarem o sentido de voto para os antípodas da sua real fé ideológica. Se fizermos um pequeno exercício de memória, concluiremos que esse sentimento de desilusão tem estado presente na nossa vida democrática desde as nossas primeiras eleições, no dia 25 de Abril de 1975, para a Assembleia Constituinte.

  

As últimas vontades de um tipo

no seu juízo perfeito


Avaliei ponderadamente todas as possibilidades e conclui que vou morrer, tal como qualquer um dos meus leitores que se encontra neste momento desse lado do texto. Cá em casa são todos muito tanatofóbicos e, por isso, ficam mais do que contrariados quando se fala da morte. Mas há que desfazer este tabu milenar. Falemos, então, não da minha morte, que virá quando vier, mas do que deve ser feito imediatamente a seguir ao momento da sua chegada, momento natural e esperado. Assim, escrevi meia-dúzia de ideias que enviei para o email da minha filha e que ela fará cumprir quando for a altura certa. Aqui vão elas, em texto corrido, agora tornadas públicas à revelia da Família:

 Muitos já me perguntaram se quero um sacerdote católico no funeral. Claro que sim. Um agnóstico, ainda que agnóstico, é um ser religioso, tal como o eram os homens das cavernas, antes de Deus ter assumido o comando desta máquina chamada Universo, de acordo com o que se diz… Depois, se fui baptizado, se fiz a primeira comunhão, com o saudoso Padre Simões, se fui casado por ele, se os meus três filhos foram baptizados (um pelo Padre Simões, outros pelo igualmente saudoso Padre Alberto), se encontro na Igreja momentos, pessoas, amigos, compositores e poetas inspiradores e de boa memória, é absolutamente natural que um padre católico me acompanhe nos meus últimos momentos sobre esta Terra.

O velório vai ser numa igreja e vai ser simples: as pessoas aparecem, dão os sentimentos à família, estão ali um bocadinho a olhar para o falecido e, depois, vão até lá fora onde estará montada uma banca com doces e salgados, vinho, cerveja, gin, chá, café, águas, para que os amigos possam petiscar, conviver, recordar e reforçar laços... à borla e à minha pala. Entretanto, podem emocionar os doces tímpanos com a minha obra favorita de todos os tempos e que irá servir de fundo aos momentos derradeiros da minha passagem por esta Terra: o Requiem, escrito na sua maior parte por Mozart e terminado por dois ou três (não se tem a certeza) dos seus discípulos, devido à morte prematura do Mestre.

No altar-mor da igreja, mesmo por cima da urna, vão poder ver, num ecrã, imagens dos grandes momentos vividos pelo falecido, com a família, os amigos, os colegas e, claro, o seu Coral de São Domingos. Em relação a este grupo de cantores extraordinários, não vou pedir que cantem The Long Day Closes, do Arthur Sullivan, porque não lhes quero dar mais trabalho do que aquele que lhes dei durante 50 anos (sim, o meu passamento ocorrerá depois de 2037). Mas, ainda assim, se fizerem muita questão… Contudo, não vou poder aplaudir, como facilmente se pode concluir.

No dia do funeral, tudo decorrerá com a normalidade desejada. Estará o sacerdote, que presidirá à cerimónia, com direito ao uso da palavra por parte de quem quiser fazê-lo, com três minutos de tempo de antena para cada interveniente. Encomendado o corpo e entregue a alma, e sem certa comunicação social por perto, partirei acompanhado dos amigos e familiares que me amaram em vida e que ficam, de facto, cheios de pena que me tenha apagado.

Depois de cremado no Cemitério Novo da cidade (até lá, a obra do crematório estará, decerto, pronta), vamos até à Torre do Relógio, junto da qual os meus filhos e a minha viúva espalharão as minhas cinzas.  

É verdade! Uma última informação: já está escrita a lista de pessoas que não poderão assistir ao meu funeral. Claro que é um documento em permanente actualização,  porque até esse momento, muito (?) rio há-de correr debaixo da ponte.

 Não, caro leitor amigo, por questões óbvias, a lista não pode ser publicada aqui. Mas descanse: a minha filha Joana vai afixá-la na porta da igreja, no momento em que tiverem início os procedimentos fúnebres. Por isso, antes de entrar… consulte a lista. Se o seu nome não constar, então… é bem-vindo!

 

João Luís Brejo Nabo

In "O Montemorense", Setembro de 2025

Distraídos crónicos...


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