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Antes
do tempo da Páscoa, vivemos nas escolas do nosso Agrupamento uma última semana
de aulas… quase sem aulas. Dias atípicos para quem está habituado, nove meses
por ano, a viver várias horas por dia numa sala de aula, levando a efeito uma
rotina que, por ser rotina já sem necessitar de preparação ou ensaios, quase
não se sente. Pensarão os leigos que os professores não gostam de sair desta
sua zona de conforto, os alunos à nossa frente, os professores junto ao quadro,
a fazer passar, mês após mês, as matérias previstas nos programas e, sobretudo,
os conhecimentos a serem futuramente testados em exame nacional. Poderão até chamar
a estas práticas uma colecção de maus hábitos, sublinhando que a nossa Escola continua
ligada a correntes e a práticas de ensino do passado, sem vontade de ir mais
além.
Nada
disso. A prova do ecletismo do Agrupamento de Escolas de Montemor é cada vez
mais concreta e visível… e vai mais além do que se poderia pensar: os
intercâmbios de estudantes entre as nossas escolas e outros estabelecimentos de ensino do
país e do mundo, os projectos nas mais diversas disciplinas, que os levam a investigar
e a diversificar as suas capacidades, bem como o seu sentido crítico e de
análise, a utilização cada vez mais frequente de meios audiovisuais e digitais
para passar matéria e lançar ideias, com o objectivo também de consciencializar
os alunos de que os professores estão sempre do seu lado e que querem acompanhá-los
nas suas necessidades de permanente actualização para com o mundo que os espera
lá fora.
Pois
tudo isto foi comprovado na última semana de aulas antes da Páscoa. A Semana Cultural
promovida pelo Agrupamento, subordinada ao tema “As Nossas Raízes, o Nosso
Futuro: Identidade, Cultura e Comunidade”, trouxe à prática um vasto conjunto
de iniciativas que agregaram toda a comunidade escolar, que se abriu ainda mais
à comunidade montemorense, numa colaboração com a autarquia e com muitas
associações do concelho, transformando aqueles últimos dias numa verdadeira
montanha russa de actividades relacionadas com as mais diversas áreas do saber
e da vida.
Posso
dizer, sem risco de errar: vale mais uma Semana Cultural do que um mês de “sala
de aula”, de forma permanente e contínua.
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Depois de falar do meu Agrupamento e destas iniciativas que envolveram toda a gente, é impossível ignorar o empenho dos alunos nos mais diversos eventos, o seu comportamento exemplar, a forma como receberam os convidados que por cá passaram a inovar-lhes os dias e… a mente.
Muitos desses alunos são os que tenho à minha frente todos os dias, com algum sono de manhã cedinho, com algum cansaço depois de muitas horas sentados em sala de aula, e com quem partilho o que sei e o que eles precisam de aprender. No entanto, depois das aulas, alguns deles espalham a sua magia também noutros espaços, sobretudo em espaços desportivos onde jogam diversas modalidades em equipa, no Grupo União Sport e noutros clubes. É curioso, mas ao mesmo tempo, reconfortante, como todos eles entendem a importância do futebol, do basquetebol, do andebol, do ténis e de outras modalidades como um espelho da vida e das relações entre os cidadãos e cidadãs que se pretendem pró-activos e úteis. E como aplicam, não raras vezes, esses princípios basilares na escola e nas aulas.
Nestes
últimos dias que me restam como professor, quase a enveredar por outros
projectos e caminhos, é moralmente e eticamente obrigatório deixar registados
os nomes dos miúdos que admiro pela sua entrega ao desporto e às regras que os
tornam, sem dúvida, melhores seres humanos – mais inclusivos, mais tolerantes,
mais amigos, mais participativos, mais solidários. Por isso, deixo aqui um
abraço valente ao João Prates, ao Dinis Peniche, ao Levi Batista, ao Santiago
Baptista, ao Kauan Nunes, ao Breno Macena, ao Miqueias Gonçalves, ao Emanuel Silva,
ao Flávio de Paulo, ao Bernardo Peixoto, ao Rodrigo Calção, ao Samuel Simões. Independentemente
das derrotas ou das vitórias (ou, talvez, devido a isso), serão todos, tenho a certeza,
futuros cidadãos do mundo!
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Continuo na Escola, na minha escola
onde fui aluno e, depois de três anos como migrante, onde sou professor há
quarenta anos. Quando contabilizamos as nossas vivências tendo por base as
horas, os dias e os anos, estamos a ser demasiado pragmáticos, tecnocratas e
frios. Não conto todos estes anos somados em si mesmo. Gosto de recordar esta
passagem pelo ensino público pensado em números, mas com outro efeito: foram
centenas de colegas que conheci, muitos deles são hoje meus amigos, alguns
deles amigos para o resto da minha vida; dezenas de funcionários, que sempre me
apoiaram em todos os momentos; milhares de alunos – mais de quatro mil – que me
ouviram e a quem ouvi, sempre com a esperança e a certeza de que iriam ter o
seu lugar na sociedade.
A
partilha de conhecimentos foi para mim, sempre, desde muito novo, um dos
maiores prazeres da vida. Fazê-lo numa sala de aula, num anfiteatro, numa
visita de estudo, ou em muitas outras formas de libertar as ideias e
transformá-las em instrumentos progressistas e inovadores, tornou-se
compensador e um desafio sem fim.
Estes
tempos não são iguais aos outros tempos e o professor tem como dever afinar
capacidades para acompanhar de forma natural os novos interesses, as novas
formas de estudo, as atuais plataformas de pesquisa e trabalho. Procurei sempre, muitas vezes com o apoio de
colegas mais jovens, dominar minimamente o mundo das novas tecnologias para não
perder a oportunidade de continuar a ensinar, independentemente do modo, das
ferramentas e das atualizações que temos de enfrentar, quase em permanência.
Quando
penso no início da carreira, nos idos anos de 1983, nutro sempre o mesmo tipo
de sentimento: voltaria a fazer tudo de novo. Voltaria, sem qualquer hesitação,
a entrar numa sala de aula e dizer: “Olá! Sou o vosso novo professor de Inglês.
Vamos mudar o Mundo. Quem não for pontual… leva trabalhos de casa.”
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Abril de 2026








