Entrevista a João Luís Nabo
Entrevista no âmbito de um trabalho de Português, realizado por António Dionísio, aluno da Prof. Marta Artilheiro (8.º F)
João Luís Nabo nasceu em
Montemor-o-Novo em 1960. É professor de Inglês e Alemão, licenciado em Línguas
e Literaturas Modernas pela Universidade Clássica de Lisboa e mestre em
Criações Literárias Contemporâneas, especialista em Literatura Norte-Americana
Contemporânea. Tem ampla formação musical, é compositor e desenvolveu muitas
outras atividades na área, como professor de piano. É fundador do grupo Coral
de São Domingos de Montemor o-Novo onde também é maestro. Foi diretor do jornal
Folha de Montemor, entre 1989 e 2003, e é escritor, publicou livros de
crónicas, de contos e recentemente um romance. Diz que o segundo está a
caminho, provavelmente para nos trazer mais histórias de Vila Nova.
Foi para falar de literatura e de
ensino que me recebeu na sua casa, para esta entrevista.
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“Qualquer
situação, por mais banal que seja, é importante para escrever uma história.” |
P
- A primeira pergunta que gostaria de lhe fazer é qual foi a sua inspiração
para começar a escrever livros?
R
- Os livros são histórias. Não sei se tiveste a oportunidade de ler algum dos
meus livros. Há um livro com contos muito pequeninos, que é o Segredos de
Vila Nova, que tem contos que vocês podem ler porque são histórias
minimamente interessantes e vos ajudam a conhecer também um bocadinho de
Montemor, porque, nos meus livros, Vila Nova é o nome falso de Montemor-o-Novo.
Para que eu possa escrever, por vezes, algumas coisas menos consensuais e, às
vezes, mais polémicas, eu não posso falar em Montemor, então Vila Nova passou a
ser o universo onde decorrem as minhas histórias.
Como é que a gente começa a escrever
uma história? Qualquer situação, por mais banal que seja, é importante para
escrever uma história. Eu posso ir a passear por uma rua e vejo uma folha a
cair de uma árvore e, daqui a algum tempo, posso lembrar-me daquele pequeno
acontecimento que é aparentemente natural, uma folha a cair, e ocorrer-me uma
história para escrever, com um princípio, com uma mensagem, com uma narrativa
clara e minimamente interessante. Por vezes, nós temos uma ideia para escrever
uma história, com uma mensagem central. Eu quis escrever uma história, por
exemplo, onde pudesse inserir a polícia política, a censura, o Estado Novo,
todo um ambiente de claustrofobia e de medo que as pessoas sentiam nessa
altura. Esta foi a ideia inicial. Depois houve uma segunda ideia, que foi,
nesta história sobre o Estado Novo, sobre as mudanças sociais, aqui em Vila
Nova, que eu tinha de pôr dois amigos, muitos amigos, desde a escola primária, que por um
motivo muito forte, se vão separar para sempre. E depois, por um motivo ainda
mais forte, vão voltar a unir-se em Vila Nova.
É
uma história que nasce destas ideias. Falar de um contexto histórico, Vila
Nova, portanto Montemor, nos anos 50, 60, com personagens reais, misturadas com
personagens de ficção, e depois criar uma densidade narrativa, uma relação
entre esses dois amigos, muito amigos, que se sentaram juntos nos bancos da
escola primária, que depois se separaram por um motivo importante - não posso
fazer spoiler - que os fez, de certa forma, esquecer o passado. Se leres
essa história percebes esta estrutura que eu estou aqui a descrever. Portanto,
pode ser um acontecimento banal, uma coisa simples, um miúdo a andar de
bicicleta, uma senhora a cair na rua, um senhor de chapéu a cumprimentar uma
senhora que vai com uma bengala e a pergunta é sempre porquê, porque é que eles
se estão a cumprimentar? Qualquer coisa que tu possas ver aí, dá uma história.
P
- O que acha que se podia fazer para as pessoas começarem a ler mais?
R
- Pois as pessoas estão cada vez a ler menos devido às redes sociais, ao
telemóvel, a isso tudo. Mas todas as pessoas escrevem, miúdos de 6 anos até a
pessoas com 90 e tal. Todas. Todos os
dias. Milhares de textos, milhares de palavras. Só que escreve-se mal. Porque o
que interessa é fazer passar a comunicação, passar a mensagem. Desde que se
perceba, não interessa a pontuação, não interessa o sujeito, nem o predicado,
nem o verbo, nem o complemento direto, nem o público. Não interessa nada. O que
interessa é passar a mensagem, o que não é necessariamente mau. A comunicação é
fundamental para a nossa vida, sem comunicação nós não existíamos. Agora, o que
é que se pode fazer para... sabes que isto é uma conversa que os professores já
começaram a ter há muito tempo. E sobretudo os professores de português. Eu não
sou professor de português, mas estou por dentro, mais ou menos, da matéria, e
já escrevi um artigo sobre isso. Na minha perspetiva, tudo bem, vamos pôr o Eça
de Queiróz porque é de leitura bastante acessível, embora seja grande o livro,
Os Maias. Mas por que é que não podemos pôr um Harry Potter? Ou uma
personagem de que vocês gostem, que tenha filmes sobre ela, que seja um texto
mais juvenil, mais jovial, mais adequado à vossa idade? Porque é que têm de se
debruçar profundamente num Frei Luís de Sousa? São das obras mais importantes
da nossa literatura, Os Maias, os Lusíadas, Frei Luís de Sousa, Memorial do
Convento, Amor de Perdição, não estou a dizer que se anulem esses livros, de
maneira nenhuma, mas deviam equilibrar-se essas leituras com leituras mais
leves. Porque se vocês lerem coisas mais leves, ficam mais motivados para as
menos leves, como é o caso da literatura portuguesa que tem livros muito
complexos.
Uma
das coisas que me dá uma grande alegria é encontrar um aluno na escola, e ele
dizer-me, estou a ler um livro seu. Isso é, de facto, uma coisa que não tem
preço, saber que os nossos alunos, não são centenas de alunos, mas alguns, vão
à biblioteca ou vão à papelaria, compram o livro e leem coisas minhas. Isso é
já, modéstia à parte, um bom princípio. Terem um professor da escola deles a
escrever e a publicar, isso pode levá-los a ter curiosidade em ler aquilo que
ele escreve. Algo que tem colaborado para isso é o facto de professores de
português, meus colegas, me convidarem de vez em quando para ir falar sobre os
meus livros às suas turmas. Eu vou, leio uma história ou duas e eles têm sempre
essa curiosidade, como é que as histórias aparecem. Essa curiosidade é
satisfeita através da leitura de um ou do outro jeito, que eu faço para eles
perceberem e depois ponho-os a escrever eles próprios uma pequena história.
Dou-lhe umas indicações breves sobre como é a estrutura de uma história, porque
há regras que eles têm de perceber e depois começam a escrever a sua própria
história. E isso é muito interessante.
P
- Tenciona continuar a escrever livros?
R
- Claro! Claro que sim. Em princípio este ano será o meu último ano de
trabalho. Eu comecei a publicar muito tarde, comecei a publicar aos 40 anos.
Foi em 2004, portanto aos 43 anos. Já sou um autor que publicou muito tarde,
porque não tinha editora, porque nunca me apeteceu, porque tinha medo de
publicar. Até que eu escrevi um primeiro livro, que publiquei nesse ano, e a
coisa correu bem, e depois continuei a escrever. E quando tiver mais tempo,
obviamente que vou continuar. Estou neste momento a escrever um romance, o meu
segundo romance, que está muito lento, está a sair de forma muito lenta, porque
é preciso muita coisa, muita investigação e muito trabalho de escrita. Está a
ser muito lento. Escrevo uma página, apago meia, escrevo mais três linhas a apago
quatro. Não está a ser fácil de desenvolver, mas eu já tinha a ideia, já tinha
a tal estrutura, e sei o que quero. Temos a estrutura, o esqueleto, agora é pôr
a carne, a pele, os músculos para fazer a figura, e é isso que é o mais
difícil. Mas vou terminar este romance que está agendado para ser publicado em
2027 e depois continuarei, pois, claro. Naturalmente que sim. Não sei ainda
fazer o quê, os imprevistos literários, mas, enfim, vou continuar a escrever.
Então, depois, ninguém me para, não é?
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“Tudo isso nos
ensina a perceber osmiúdos, a perceber a sociedade onde vivemos, e torna-nos
muito mais perspicazes e muito mais disponíveis para os ajudar.” |
P
- O que é que o fez querer ser professor e o que é que mais gosta de fazer na
sua profissão?
R
- O que é que me fez ir para esta profissão? Eu, antes de ser professor,
comecei por dar explicações. Comecei a ensinar em casa. Ainda estava na
universidade. Depois, o curso que eu tirei não foi diretamente para o ensino,
era um curso clássico, não havia estágio de ensino, nem mestrado de ensino, não
havia nada disso. Nós saíamos com a formação e íamos concorrer para uma escola.
E porque decidi concorrer e ser professor? Porque eu sempre gostei de ensinar.
Porque acho que a transmissão de conhecimento é fundamental. Pensa, nós sabemos
10 coisas. Eu sei 10 coisas, o teu pai sabe 10 outras coisas, tu sabes outras
10. Se nós juntarmos estas coisas todas, tu ficas a saber 30 coisas, eu outras
30 e o teu pai outras 30. Ensinar é isso. É eu partilhar com os outros aquilo
que sei e eles vão partilhando comigo aquilo que sabem. E têm-me ensinado
muitíssimo! Na realidade, os alunos ensinam-me mais do que tu imaginas. É
verdade, a todos os níveis. A nível comportamental, como é que vocês se sentem
numa aula umas vezes mais aborrecidos, umas vezes mais satisfeitos, outras
vezes faltam por algum motivo. Tudo isso nos ensina a perceber os miúdos, a perceber
a sociedade onde vivemos, e torna-nos muito mais perspicazes e muito mais
disponíveis para os ajudar. Com alguma idade e com alguma experiência, o
professor nota logo se houve chatice em casa, se o aluno se deitou tarde a
jogar. E o professor não pode exigir a esse aluno que se deitou às quatro da
manhã a jogar o mesmo que pode exigir a um que, por acaso, até nem sequer tem
um grande apoio familiar, nem muitos livros e às vezes até nem tem internet. Já
não pode exigir a esse aluno o mesmo que exige a um aluno que tenha uma
biblioteca impecável, com os pais que não o deixam pôr o pé em ramo verde, que
se deita cedo, que faz os trabalhos de casa, que estuda. Agora, qual é o melhor
aluno e qual é o pior aluno? Não sei. São dois alunos com questões diferentes
para resolver. E nós temos de ter a capacidade, para além de lhes ensinarmos
inglês, geografia, aquilo que for, temos de ter a capacidade de os entendermos
e de os ajudarmos. O aluno que se deitou às quatro da manhã, que não fez os
trabalhos de casa, que chegou atrasado, esse vai reprovar o ano e o outro vai
passar? Não necessariamente. O importante é nós percebermos porque é que as
coisas acontecem e o ensino, a relação diária com os miúdos, dá-nos isso.
Perceber que, claro, queremos dar o programa e avançar mas há sempre espaço
para uma piada, para uma conversa, porque às vezes eles estão ansiosos para que
nós nos manifestemos de forma mais tolerante com eles e mais amiga. Quando era
professor no tempo do teu pai, eu ainda não tinha filhos, ainda não tinha
família constituída. Agora já tenho 65 anos, começo a ver alguns alunos como se
fossem meus netos, miúdos de 12, 13 anos, podia ser avô deles. Já tenho uma
forma diferente de ver as coisas, que não tinha no tempo do teu pai. Era assim,
assim e assim e acabou, não há mais discussão! Agora não, o mundo é outro, a
vida é outra, o acesso à informação é outro. Aliás, vocês nunca tiveram tanto
acesso à informação como agora. Antes nós tínhamos que ir à biblioteca,
requisitar os livros, trazer emprestados, depois tínhamos não sei quantos dias
para devolver. Não havia computadores, não havia nada. Agora vocês têm tudo,
nem precisam de sair do quarto, é só carregar num botão e têm a informação toda,
e se vocês souberem usar, isso é de uma utilidade brutal. Isso leva-nos o quê?
À inteligência artificial. Muitos colegas meus estão preocupados com isso e eu
também. Acho que tem de haver uma preocupação, mas também calma. Porque a
inteligência artificial é uma ferramenta extremamente útil. Tem de ser usada
com sabedoria. É como uma autoestrada, é útil mas é perigosa. Portanto, ensinar
é a base de tudo. Ensinar é fundamental, conhecimento é fundamental.
Conhecimento é uma arma, porque é com o conhecimento que nós vencemos as
grandes batalhas da nossa vida. Não é com uma pistola, nem com uma espingarda,
nem com uma espada. É com o conhecimento, saber coisas. E é isso que vocês não
podem recusar, que é aprender. Têm de querer sempre aprender!










