segunda-feira, 15 de março de 2021

Duas cartas que já deviam ter sido escritas há (com agá) muito tempo


1.ª Carta 

Homens da minha família: 

Uni-vos. 
Fundo, nesta hora, com o apoio de todos os homens da minha família – filhos, primos, cunhados e sobrinhos – o Movimento Masculino pela Igualdade para os Homens da Nossa Família e para os Homens Nossos Amigos. Vocês não aspiram a sala? Aspiram. Não aspiram os quartos? Aspiram. Vocês não lavam as casas de banho? Lavam. Vocês não limpam o pó? Limpam. Vocês não cozinham? Cozinham. Não põem a roupa na máquina? Põem. Não tiram a roupa da máquina? Tiram. Não estendem a roupa? Estendem. Não chamam o técnico quando ela avaria? Chamam. Não põem a mesa? Põem. Não levantam a mesa? Levantam. Não lavam a louça? Lavam. Não limpam a louça? Limpam. Não arrumam a louça? Arrumam. Não arrumam a cozinha? Arrumam. Não abrem a cama? Abrem. Não fazem a cama (nunca entendi porquê, se a vou abrir mais logo a seguir à novela)? Fazem. Não levam o carro ao bate-chapas quando alguém da família roça com ele na parede da garagem? Levam. (Não vão pintar a parede, logo a seguir? Vão.) Não vão mudar os pneus quando eles estão carecas? Vão. Não colam o selo do seguro no pára-brisas, de seis em seis meses? Colam. Não vão com o carro à revisão? Vão. Não vão às compras ao Supermercado? Vão. 
Então, meus amigos, do que estão à espera para assinar uma petição, acabadinha de fazer, para entregar na Assembleia da República com o pedido para a criação do Dia do Homem? A celebração do Dia das nossas Mães, das nossas Filhas, das nossas Mulheres tem a sua razão de ser. Sabemos que sim e somos os primeiros a comprar uma flor e a pagar o jantar desse dia. Mas se houvesse um dia 9 de Março, assim, logo a seguir, para lembrar os dedicados homens da nossa família e seus Amigos que não deixam as suas rainhas mexer uma palha desnecessariamente, isso é que era de louvar. Reparem todos e todas: para além das nossas profissões, temos ainda a nosso cargo todas estas tarefas e, sempre que nos despachamos mais cedo do emprego, lá vamos, cantando e rindo, buscar a criançada à creche, à escola ou à Universidade. Merecemos, portanto, um dia em nossa honra, dedicado aos que fazem do lar a sua segunda profissão. 
E porquê? Porque as nossas mulheres têm trabalhos exigentes, são profissionais de sucesso, saem cedo e entram tarde em casa, têm mil reuniões, viagens de negócios, cursos de Relações Públicas, Webinars, Cabeleireira, Manicure, Missa, dão Catequese, trabalham pro bono em várias instituições de solidariedade, vão às compras duas vezes por semana a Lisboa. (Antes da pandemia até iam, num saltinho, beber um café a Londres com as amigas.) Muitas têm ginásio e cenas de Pilates ou lá o que é… Então, há que respeitar tudo isto, incentivá-las a nunca desistir dos seus sonhos e, assim, Elas (com e maiúsculo) talvez assinem também a já aludida petição que eu pus a circular na Internet. 
 No passado Domingo, a Fofa abriu o meu computador, enfiou lá a minha palavra-passe e leu calmamente este meu texto, antes de ele ser enviado à D. Maria Manuel. Ontem já consegui beber leite por uma palhinha. Hoje, acordei menos dorido dos maxilares e já consigo dizer, mas baixinho: “Viva o Dia 9 de Março!” 
Homens da minha família: uni-vos e, por favor, não me deixem só. 




 2.ª Carta 
Querido Balú: 
Há muito tempo que te devia esta carta. Faz agora um ano que as relações entre nós se tornaram muito mais próximas. Vinte e quatro horas, vezes trinta dias, vezes doze meses, é tempo suficiente para que a nossa amizade se tenha transformado em algo mais terno, mais consistente e duradouro. Contudo, e sem pôr essa nossa relação em causa, comecei a sentir, aos poucos, que tu, querido Balú, assim como quem não quer a coisa, iniciaste um curioso processo de manipulação, levando-me a fazer-te todas as tuas vontades, sem reclamar ou sem manifestar o meu, ainda que raro, mau feitio. 
Semana após semana, mês após mês, comecei a perceber que estava a perder, claramente, a minha autoridade sobre ti e sobre os teus comportamentos. Começaste a comer mais vezes por dia, atrevias-te a pedir-me um petisco, primeiro, de vez em quando, depois, quase todos os dias, os sofás caríssimos de pele de camelo passaram a ser a tua cama neste longo Inverno, começaste a fazer xixi onde bem te apetecia, saltaste para o quintal da vizinha e destruíste as flores raríssimas (que eu tive de pagar) que ela tinha trazido da Tailândia, os pés das cadeiras desataram a ter a marca dos teus dentinhos… Quiseste morder ao carteiro… e eu deixei. Perseguiste o padeiro até ao Campo de Ténis… e eu aplaudi-te. Conquistaste, enfim, um lugar de destaque na hierarquia da Família e, ainda que o pessoal cá de casa me dissesse para eu ser mais duro, mais autoritário, mais intolerante contigo, eu nunca consegui fazer-lhe a vontade. Porque te amo e nunca quero que te falte nada. 
Já agora, obrigado por estares sempre disponível para o teu passeio higiénico, de manhã, à tarde e à noite. Se não fosse assim, eu já teria enlouquecido. Queres continuar a dormir no sofá de pele de camelo? Sim? Muito bem. Mas, como sabes, só podemos avançar com isso depois da meia-noite, que é quando os rabugentos vão todos para a caminha. 

Beijinhos, Balú. E vai-te preparando: o confinamento acabará em breve, assim esperamos, e vais passar a dormir na marquise, como dantes. Entre outras coisinhas, que a gente depois acerta.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2021

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Ou há democracia... ou comem todos

 


Ou há democracia...

Tem sido de loucos este tempo estranho, diferente e improvável. Há um ano, a nossa vida decorria dentro da normalidade, com os nossos problemazinhos de fácil resolução, com as nossas birrinhas por isto ou por aquilo, com as nossas zangas no emprego, porque o chefe gosta mais de ti do que de mim.

Meses depois de lançado o alerta, os dias tornaram-se iguais, mas para pior, salpicados a toda a hora por notícias que nos dão números, números e mais números, que nos põem a cabeça num rodopio, num deprimente enjoo sem limites. São os falecidos, os internados em enfermaria, os internados em UCI, os casos activos, os novos casos... São gastas desta forma as horas dos noticiários em todos os canais. Oferece-se ao espectador o que ele quer ver. É a lei da oferta e da procura aplicada aos tempos de pandemia. Vivemos para perceber o panorama do país em forma de gráficos, e ansiamos loucamente pela descida dos números. Contudo, vamos passear à beira-rio, ou, quem sabe, organizamos um jantar num determinado restaurante que diz descaradamente lutar pelo direito à liberdade, com a Grândola do Zeca cantada sem pudor pelos alegres convivas e num desrespeito absoluto pelo valor da democracia e, mais do que isso, pelo valor da vida. É um gozo displicente com quem se mantém em casa e um insulto a quem é obrigado a manter as actividades profissionais suspensas, em cumprimento das regras impostas.

Nada disto acontece por acaso. A ocasião faz o ladrão e má-na-sê-quê, não é? Costa é um primeiro-ministro tolerante. Costa é um primeiro-ministro de boa fé. Costa é um político fofinho. Este pai bonacheirão e o também fixolas avô Marcelo põem as autoridades a fiscalizar, a mandar parar as viaturas, a perguntar aos condutores se vão dar banho ao cão ou se vão dar farelos às galinhas, num galinheiro que fica mesmo ali à curva, a seguir ao moinho velho. “Vá lá, passe lá, vá dar comida às suas galinhas, senão elas morrem, coitadinhas”, diz o capitão da guarda com voz forte, mandando avançar para, educadamente, leccionar depois uma aula sobre civismo e comportamento ao condutor seguinte e à respectiva mulher, entretida a fazer umas botinhas para o neto que vai nascer daí a três anos. A justiça branda faz o povo rebelde, dizia-me o meu saudoso Pai, e diziam os sábios como ele, e começo a acreditar que assim é. Aliás, o que há… à vista está.

...ou comem todos

Nunca, em tantos anos de democracia e liberdade, se queixou tanto o povo. As lamentações sucedem-se em cascata, muitas vezes sem se saber exactamente porquê. Muitas nem sequer têm razão de ser. Partem de cidadãos que, devido à especificidade do seu emprego, estão em casa em teletrabalho, recebendo, e merecidamente, o seu ordenado por inteiro, sem que essa preocupação lhe afecte o raciocínio. (Sim, porque a falta de dinheiro afecta o raciocínio de qualquer um.) Pois estes queixam-se porque têm os filhos todos em casa, em ensino à distância, mais o seu querido cônjuge em teletrabalho também, mostrando que é preciso ter uma capacidade gigantesca para gerir computadores, quebras de Internet, refeições, banhos, horas de sono, trabalho e lazer (pouco). Terão as suas razões, naturalmente que sim. Relativamente.

Outros portugueses há que, também devido à especificidade do seu trabalho, se encontram neste momento… sem trabalho. Contudo, cumprem corajosamente as medidas impostas pelo Governo, porque não querem ser eles os responsáveis pelas infecções e pelas mortes que ainda poderão ocorrer, depois da lista já infindável, onde constam queridos amigos nossos que estariam vivos se não fosse o vírus e que partiram sem que os pudéssemos ter acompanhado à sua morada derradeira.

Dos mais atingidos estão, sem dúvida, todos os ligados à indústria hoteleira e à restauração, aos ginásios e ao desporto, ao mundo da estética e da moda, à música, ao cinema, ao teatro, ao bailado e a outras artes de palco, que se encontram hoje a viver, juntamente com as suas famílias, os momentos mais difíceis das suas vidas. Contas para saldar, ordenados para cumprir, empréstimos a dilatarem-se, rendas e impostos para pagar e a necessidade de comer todos os dias. Torna-se difícil gerir tudo isto juntamente com a ansiedade que os assalta pela incerteza do futuro e, mais do que tudo, se acrescentarmos a sensação de injustiça de que são alvo quando vêem alguns dos seus pares a desafiarem o Governo, a gozarem com as autoridades, no fundo, a assumirem comportamentos como se vivessem num país imaginário.

Esta gritante falta de solidariedade e de respeito faz-nos desejar aos infractores que nunca tenham de lidar com infecções ou mortes no seio das suas famílias ou nas suas relações de amizade. Faz-nos desejar ainda que, embora furem as regras, consigam depois ser encarados pelos outros como pessoas de bem e não como criminosos sem perdão. E quando digo pelos outros, refiro-me aos que perderam os seus rendimentos, aos que ficaram sem emprego, aos que não fazem concertos, cinema, teatro ou bailado há um ano, aos que deixaram de ter comida para dar aos filhos e a têm de ir pedir a uma associação benemérita. 

Os outros são estes.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2021

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Da leitura e da escrita

 

        

          A leitura e a escrita são dois actos de sobrevivência que me acompanham desde a mais tenra idade, por abençoada culpa da minha Mãe, que decidiu, a certa altura, ensinar-me a arte de juntar as letras e as palavras, tanto no abstracto do meu pequeno cérebro, como no concreto de uma folha de caderno de duas linhas. Ler e escrever foram, desde os quatro anos de idade (estávamos em 1965), a minha forma mais directa de contacto com os outros, com os seus pensamentos e as suas formas de estar. Tornou-se, pois, um vício, um hábito, uma necessidade, um prazer, encontrar as palavras certas para os momentos adequados, lê-las e degustá-las em grandes autores, sugá-las de incomensuráveis pensadores, mastigá-las num torpor prolongado para definir com acuidade o seu sabor, o seu sentido, para, depois, cair voluntariamente nas armadilhas que me ofereciam; mais ainda, tentar escrevê-las por aqui e por ali, sofrer com cada adjectivo, saborear cada advérbio, multiplicar cada verbo por mil, porque o verbo é, e será sempre, o motor do texto e, juntamente com o amor, o motor da vida.

É por isso que, em cada apresentação pública dos meus livros, sinto uma profunda e carinhosa necessidade de agradecer à minha Mãe, que acabou por livrar-se de um puto insistente e incomodativo e passou a ter tempo mais livre para as suas próprias leituras;  à minha professora primária, porque me ajudou a desenvolver e a aprofundar esta apetência; aos meus professores de Português e de Literatura, que perceberam que eu podia ir mais além, e aos leitores de várias dezenas de anos e aos mais recentes, aos mais velhos e aos mais jovens, que seguem curiosos o que a escrita continua a revelar do pensamento de quem a produz.

Escrever, hoje em dia, em Portugal ou em qualquer outro país de uma Europa cada vez mais politicamente correcta, é um dos exercícios mais perigosos que alguma vez pudesse ter existido. Mais do que uma espada, uma pistola ou um canhão, muito mais do que uma bomba atómica ou um discurso de Trump ou de Bolsonaro (a quem, felizmente, pouca gente já passa cartão), a escrita tornou-se uma porta aberta, não para os que escrevem poderem fazer sair o seu estado de alma, as suas ideias cívicas e morais, o seu sentido de justiça e tolerância, mas para dar entrada aos intolerantes, aos perversos, aos que não gostam que as verdades sejam ditas através das suas reais designações, com as palavras certas nos textos ou nos momentos que eles, do alto da sua intocável importância, consideram mais inoportunos.

            Longe de um lamento caquético e miserabilista, este alinhavar de ideias a que me propus hoje é tão somente a constatação do aumento crescente de cidadãos que, indiferentes aos reais problemas  do mundo, do país ou da sua terra, têm como artimanha cortar cerce os pensamentos dos seus semelhantes, acusando-os com qualquer epíteto que esteja à mão, com o objectivo apenas de os fazer desacreditar perante a opinião pública, de os enfraquecer, de ridicularizar as suas sugestões, ideias ou os seus compromissos para consigo próprios e para com o público leitor.  O que estou a narrar não será novidade para nenhum de vocês. Muitos dos que me lêem também praticam o exercício da escrita. Poderá não ser com a mesma regularidade, mas também já foram alvo preferencial (não utilizei a palavra “vítimas”) de radicais com instinto de matadores, que desdizem, desmontam, desconstroem, com espírito de malvadez e, tantas vezes, falta de conhecimentos, as ideias que todos têm o direito de propagar em jornais, revistas ou nas redes sociais, independentemente das suas cores partidárias, futebolísticas ou religiosas.

            A publicação de uma ideia, de um pensamento, com maior ou menor ironia, com maior ou menor impacto, nas redes sociais, por exemplo, todas elas cheias de armadilhas e subterrâneos, nunca será aceite, sobretudo pelos visados e quando esses visados sabem que em termos de razão nada têm a ganhar. Comentar, hoje em dia, de forma livre e descomprometida, uma decisão do Governo, uma informação os sindicatos, um discurso de um líder partidário, pode ser útil para compreendermos o verdadeiro íntimo de quem nos lê, mas transforma-se numa carga de trabalhos para explicarmos às virgens ofendidas a nossa verdadeira intenção e, sobretudo, a liberdade que todos devemos ter para exercer a arte da escrita como reflexo da nossa forma de pensar e de viver.

Porque se confunde transparência e rigor com caça às bruxas, vontade genuína de partilhar ideias e de descobrir a verdade com vontades obscuras e terríficas de conspirar contra o que é novo e irreverente, os arautos defensores da raça ideal, da religião adequada, dos corpos modelo, dos partidos salvadores e de uma nova Ordem, atacam sem lei nem regra os que lhes apontam os erros, lhes mostram o anacronismo dos seus compromissos, e não toleram as verdadeiras intenções dos seus planos altamente maquiavélicos. Escrever sobre isso, contudo, revela-se cada vez mais complicado, não pela incapacidade de chegarmos, ou de tentarmos chegar, à verdade e, sem medo, expor o que pensamos e sentimos sobre determinada gente e seus apoiantes, mas porque, à imagem do que acontecia antes de Abril de 74, há delatores, conspiradores, informadores, telefonemas de aviso e mensagens ameaçadoras que começam a fazer esmorecer muitos dos que sempre se bateram pela verdade e pela transparência.

Em forma de agradecimento a todos os que, antes de Abril, lutaram e morreram em nome da liberdade e para que nunca mais se sentisse medo neste país, nem nesta terra, está terminado e em preparação editorial o meu primeiro romance (é um privilégio partilhar em primeira mão com os leitores esta notícia) que será publicado pelas Edições Colibri e tem prefácio da historiadora Teresa Fonseca. Chama-se Sertório - uma história de Vila Nova e, acredito, irá ficar no vosso coração e na vossa memória.

    João Luís Nabo

  In "O Montemorense", Janeiro 2021

domingo, 20 de dezembro de 2020

Do tempo e das vozes

         







(Foto: Digital)

Incluída no meu livro "Outros Contos de Vila Nova" (Editorial Tágide, Lisboa, 2011), em homenagem à minha Mãe, nesse tempo ainda entre nós, volto a oferecer esta pequena história aos meus leitores, comemorando o renascimento do nosso Mercado Municipal que, na sua modernidade, não perdeu a essência dos meus tempos de menino. Obrigado à Autarquia por esta "prenda de Natal".


Fervilhar.

É o verbo que se passeia pela memória dos dias quando me olho, através do tempo, a atravessar o jardim com a minha mão esquerda, pequenina, embrulhada na da minha e. Cinco anos de quotidianos felizes a ansiar pelos sábados de manhã para agarrar no cesto e partir à descoberta neste templo onde as estações do ano comandam as modas e os paladares de quem lá entra.

Fervilhar.

É som que o é som. É um sentimento que começa ainda o dia não passa de duas, talvez três, pinceladas de madrugada. Primeiro, vozes soltas, meio sozinhas ainda, neste espaço vazio, gemendo, impando, dando ordens… Depois, mais vibrantes, frescas, timbres em contraponto dos vendedores que, num aumento gradual, ali misturam os duros dias ao sol, à chuva, ao frio, no campo, na lota, no matadouro, com as dores e os caprichos das donas de casa, as exigências das avós que vão à hortaliça para a sopa dos netos, os pedidos das criadas que não querem ouvir ralhar as patroas…

É um labirinto de cores, um caleidoscópio de caras. De novidades iguais e diferentes. De sorrisos, de esgares, da vida de todos os dias. Onde me perdia vezes sem conta, porque um quadrado confunde toda a gente, mesmo que se visite amiúde e se conheça cada erva que nasce por entre as lajes de granito pisado mil vezes. Estranho este labirinto, que não tem nem corredores, nem passagens secretas, espaço aberto onde todos sabem de todos, porque todos ouvem todos. Mas onde me perdia constantemente… Acabando por sair sempre pela porta por onde não entrara…

Talvez o lago, ao centro uma taça de rmore, com uma coluna ao meio a equilibrar uma bola fantástica a apontar para o azul, quando o ―, fosse responsável por tal perda de referência. A perseguição aos


peixes vermelhos, que se bandeavam nas águas claras e frias, era sempre o primeiro e único exercício físico possível naquele lugar. Depois de umas quantas voltas, ora para um lado, ora para o outro, para não entontecer, eis que acabava perdido, sem saber onde tinha pousado o cesto, sem saber da minha e, sempre atenta no olhar e nas palavras, entretida a falar com a D. Carlota do Julinho dos presépios, dos comboios eléctricos e dos balões coloridos, mal pairavam os primeiros acordes do Natal.

E, quando, a troco de um tostão, os vendedores me enchiam o pequeno cesto com duas ou três cenouras, três ou quatro vagens de feijão-verde, um molho de salsa e outro de hortelã, que deixavam um rasto de sabores adivinhados, eu sentia-me o petiz mais importante do planeta, talvez o mais feliz do universo.

Agarro com força estas memórias, como se fossem a o da minha e, porque me sinto protegido, aconchegado, fascinado com o tal barulho das vozes que continuam a misturar-se em contracantos, salmodias e pregões. Sem nesse tempo perceber porquê, sentia que aquelas melodias iam fazer parte da minha vida e que se prolongariam muito mais do que durante aquela breve meia hora matinal. depois vim a entender o poder daquelas vozes, mais puras, mais belas, mais sinceras e convincentes do que muitas que mais tarde, por gosto ou missão, viria a escutar nas mais divulgadas oratórias, nas mais sublimes árias, em tantas óperas, densas e dramáticas, e no esplendor das cantatas de um tal senhor Bach.

A minha mãe continua fiel às orações da manhã:

Quanto é este molho de espinafres?

E o carapau do alto? pergunta ainda, de banca em banca, porque a tradição vive naqueles olhos e naquela vontade sábia de continuar simples, a gostar das coisas simples. Sei que ainda me a o, como se eu, homem feito, diminuísse de tamanho todos os dias, pegasse no cesto que ela me dera e, de moeda em punho, fosse eu o responsável pelas ervas de aroma que ainda hoje lhe enchem a casa de cheiros e de sonhos…


João Luís Nabo

In "Outros Contos de Vila Nova"

Editorial Tágide, Lisboa, 2011

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Diário de um confinadinho (coitadinho!)

          


    Deve haver milhares de diários deste género, escritos por totós que, não tendo nada mais para fazer, decidem publicar nas redes sociais (até com fotos de gosto duvidoso) todas as etapas de cada dia da sua triste e arrastada vidinha dentro de casa. E ficamos até a saber, pasmem os meus oito leitores (dez, desde há uns tempos), a marca do gel de banho usado no duche e a cor daquela cola de sabor discutível que muitos usam nas próteses dentárias, que agora só colocam na gengiva respectiva quando vão à porta atender o padeiro, o carteiro ou o homem do gás.

A vida tornou-se (mais) estúpida, e se muitos achavam que levavam uma existência comezinha, pequenininha e sem interesse, então agora, quanto mais se agravam as medidas, mais claro é para alguns que a sua vida muito desinteressante se pode tornar muitíssimo mais desinteressante.

Seria um desafio fácil adivinhar o que muitos dos confinados como eu fazem nas vinte e quatro horas do santíssimo dia, sem poderem sair à rua, como se estivessem em prisão domiciliária. Tenho um amigo (desculpa lá, R. S.) que colocou um relógio de pulso na canela direita a fingir que era uma pulseira electrónica. É que ele já tinha estado assim, em casa, por posse de drogas leves, e agora, dizia ele ao médico da Saúde 24, parecia que lhe faltava qualquer coisa. O tipo é mesmo totó. E porque não seria nenhuma tarefa hercúlea adivinhar esses passos tão intimistas, basta recordar o que fiz hoje, que foi o mesmo que fiz ontem e anteontem. Depois, cada um tira ou acrescenta o que lhe aprouver, conforme o caso ou a capacidade criativa.

 

            Das 3.00 às 8.00 – dormir (é mais para cumprir o soninho de beleza, porque eu já não tenho necessidade de dormir.)

            Das 8.00 às 8.30 – tomar duche, lavar os dentes, colocar a balança contra mim, escolher o fato de treino mais cool do conjunto de dois que me ofereceram há 20 anos, calçar uns ténis baris como se fosse correr a légua, descer em direcção à cozinha, galgando os degraus de dois em dois.

Das 8.30 às 12.00 – aulas pelo Teams, tentando manter aqueles pobres adolescentes confinados com o astral mais elevado possível.

            Das 12.00 às 13.00 – no balcão estão pousados três sacos com o takeaway que o Pedro e a Joana acabaram de trazer e que eu transferi para cima da mesa. Hoje o João não almoça. Cada um serve-se do que quiser, põe o prato, tira o prato, lava o prato, guarda o prato e vai à sua vida. São muitos cá em casa e eu não sou empregado de ninguém. Eu como uma maçã e pronto, vou para o meu grupo do Whatsapp pôr a conversa em dia, já que o grupo não poderá juntar-se tão depressa.

            Das 13.00 às 15.00 – corrigir trabalhos de alunos enviados via Teams e mandar umas mensagens com os habituais ralhetes por causa dos atropelos às belas línguas de Camões, Shakespeare e Goethe.

            Das 15.00 às 19.00 – acender a lareira e tomar nota mentalmente da necessidade urgente de telefonar ao senhor António Lavado para trazer mais três toneladas, agarrar solenemente no comando da televisão, de olhos fechados para absorver bem o momento, ligar o plasma gigantesco, tratar do som estéreo com as colunas estrategicamente colocadas, carregar duas vezes na tecla 8, desligar telefone e telemóvel, dizer aos amigos do grupo para não incomodarem porque tenho de trabalhar e… mergulhar na série de dez temporadas que está quase batida, à média de uma temporada de 10 episódios em cada duas tardes.

            Das 19.00 às 20.00 – fazer uma pesquisa aturada nos sacos de takeaway do almoço e ver o que sobrou: nada. Agarrar numa frigideira das pequenas, com fundo nã-sê-quê para não estragar a cerâmica do fogão, senão não há-de faltar, pôr lá dentro uma colherzinha de manteiga, partir um ovo biológico da dúzia oferecida pela Maria José, e atirar o conteúdo para dentro do circular contentor. Umas pedras de sal completam os ingredientes. Um Herdade das Servas, tinto, oferta ainda em tempos de pré-pandemia, uma fatia de pão do meu amigo Dinis e está o jantar feito.

            Das 20.00 às 21.00 – fazer zapping entre os jornais noticiosos televisivos, mais para perceber a estratégia de alinhamento de notícias do que para ouvir e ver as próprias. Tentar, sobretudo, perceber por que raio a CMTV foge a toda a lógica jornalística e editorial das outras estações… ou de qualquer estação.

Das 21.00 às 3.00  – escrever. À luz fraca de um candeeiro de secretária, com tudo escuro à volta, para não haver distracções. Estrategicamente, porque a casa está num silêncio absoluto. Filhos a dormir, mulher a dormir, Balú a ressonar suavemente junto à lareira. É capaz de sair história. Mais uma história, a quinta neste tempo de confinamento. E amanhã, tudo de novo. FIM.

 E pronto. Assim se escreveu este diário, com pouca graça, mas com a emotividade necessária para convencer os meus dez leitores de que tudo é verdade e conduzido mais ou menos a este ritmo. Não falei do Costa, que anda a passar a mão pelo pêlo do povo, com o abrandamento das medidas restritivas agora na época do Natal. Nem do Marcelo, que anunciou a recandidatura à Presidência como se fosse levar a vacina da gripe. Muito menos do ministro Cabrita que, por esta altura, se ainda está em funções, é porque está tudo parvo. Nem das autárquicas, que estão para chegar à minha santa terrinha (e às outras terrinhas, claro), mas que, até agora, ainda não atraíram ninguém verdadeiramente interessante em quem pudesse votar. Nem sequer falei da minha vontade de poder votar em mim próprio.

Se eu passo os meus dias assim, sem ligar aos desconcertos do mundo, sem me importar com os amores e os ódios dos que fazem mexer o país, acreditando que este confinamento me deixa todos os dias mais pacífico e menos desconfiado, a Fofa não dorme na forma. Ontem, quando fiz uma pausa depois do jantar, ela, sempre atenta às dinâmicas governamentais, desde Março muito mais activas e amigas do seu amigo, perguntou-me com ar maroto, o que me provocou um leve arrepio na espinha: “Mas que coisa mais estranha”, começou ela. “O que se passa?”, perguntei, adivinhando que vinha aí coisa. “O Costa…”, retomou ela, enquanto enviava uma foto do Balú para uma amiga que precisava de uma imagem de uma coisa fofinha para se animar na sua confinada solidão. “O Costa veio aliviar as medidas durante a quadra natalícia…”, insistiu. “O povo português vai recompensá-lo em breve”, respondi, sem me querer meter em discussões políticas. E conclui: “Mas não vejo aí nada de estranho. O povo está farto do confinamento, o povo está há muito tempo longe das famílias, o povo quer uma pausa nesta rigidez militar e abraçar e beijar os parentes e os amigos. Não acho nada de estranho nesta decisão.” “Deixar o pessoal viajar de concelho para concelho? Acabar com aquelas horas de recolhimento super-restritivas? Não acho normal!”, atirou ela, com o tonzinho de voz a sofrer uma ligeira alteração para o agudo. “E porquê?”, insisti, com o nono episódio da quarta temporada do “Prison Break” em pausa já há tempo demais. “Porque… não há nenhum congresso de nenhum partido amigo nesta altura do ano. Por isso, não valia a pena tanta abertura…”, concluiu a Fofa, beberricando com classe o seu cálice de Favaios, olhando a chuva que caía, imperturbável e generosa, sobre os arbustos em forma de unicórnio no jardim das traseiras.

João Luís Nabo

In "O Montemorense". Dezembro 2020




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