sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando o António me entrevistou...

 







Entrevista a João Luís Nabo

Entrevista no âmbito de um trabalho de Português, realizado por António Dionísio, aluno da Prof. Marta Artilheiro (8.º F)

João Luís Nabo nasceu em Montemor-o-Novo em 1960. É professor de Inglês e Alemão, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Clássica de Lisboa e mestre em Criações Literárias Contemporâneas, especialista em Literatura Norte-Americana Contemporânea. Tem ampla formação musical, é compositor e desenvolveu muitas outras atividades na área, como professor de piano. É fundador do grupo Coral de São Domingos de Montemor o-Novo onde também é maestro. Foi diretor do jornal Folha de Montemor, entre 1989 e 2003, e é escritor, publicou livros de crónicas, de contos e recentemente um romance. Diz que o segundo está a caminho, provavelmente para nos trazer mais histórias de Vila Nova.

Foi para falar de literatura e de ensino que me recebeu na sua casa, para esta entrevista.

“Qualquer situação, por mais banal que seja, é importante para escrever uma história.”

 

 

 


P - A primeira pergunta que gostaria de lhe fazer é qual foi a sua inspiração para começar a escrever livros?

R - Os livros são histórias. Não sei se tiveste a oportunidade de ler algum dos meus livros. Há um livro com contos muito pequeninos, que é o Segredos de Vila Nova, que tem contos que vocês podem ler porque são histórias minimamente interessantes e vos ajudam a conhecer também um bocadinho de Montemor, porque, nos meus livros, Vila Nova é o nome falso de Montemor-o-Novo. Para que eu possa escrever, por vezes, algumas coisas menos consensuais e, às vezes, mais polémicas, eu não posso falar em Montemor, então Vila Nova passou a ser o universo onde decorrem as minhas histórias.

Como é que a gente começa a escrever uma história? Qualquer situação, por mais banal que seja, é importante para escrever uma história. Eu posso ir a passear por uma rua e vejo uma folha a cair de uma árvore e, daqui a algum tempo, posso lembrar-me daquele pequeno acontecimento que é aparentemente natural, uma folha a cair, e ocorrer-me uma história para escrever, com um princípio, com uma mensagem, com uma narrativa clara e minimamente interessante. Por vezes, nós temos uma ideia para escrever uma história, com uma mensagem central. Eu quis escrever uma história, por exemplo, onde pudesse inserir a polícia política, a censura, o Estado Novo, todo um ambiente de claustrofobia e de medo que as pessoas sentiam nessa altura. Esta foi a ideia inicial. Depois houve uma segunda ideia, que foi, nesta história sobre o Estado Novo, sobre as mudanças sociais, aqui em Vila Nova, que eu tinha de pôr dois amigos, muitos amigos, desde a escola primária, que por um motivo muito forte, se vão separar para sempre. E depois, por um motivo ainda mais forte, vão voltar a unir-se em Vila Nova.

É uma história que nasce destas ideias. Falar de um contexto histórico, Vila Nova, portanto Montemor, nos anos 50, 60, com personagens reais, misturadas com personagens de ficção, e depois criar uma densidade narrativa, uma relação entre esses dois amigos, muito amigos, que se sentaram juntos nos bancos da escola primária, que depois se separaram por um motivo importante - não posso fazer spoiler - que os fez, de certa forma, esquecer o passado. Se leres essa história percebes esta estrutura que eu estou aqui a descrever. Portanto, pode ser um acontecimento banal, uma coisa simples, um miúdo a andar de bicicleta, uma senhora a cair na rua, um senhor de chapéu a cumprimentar uma senhora que vai com uma bengala e a pergunta é sempre porquê, porque é que eles se estão a cumprimentar? Qualquer coisa que tu possas ver aí, dá uma história.

P - O que acha que se podia fazer para as pessoas começarem a ler mais?

R - Pois as pessoas estão cada vez a ler menos devido às redes sociais, ao telemóvel, a isso tudo. Mas todas as pessoas escrevem, miúdos de 6 anos até a pessoas com  90 e tal. Todas. Todos os dias. Milhares de textos, milhares de palavras. Só que escreve-se mal. Porque o que interessa é fazer passar a comunicação, passar a mensagem. Desde que se perceba, não interessa a pontuação, não interessa o sujeito, nem o predicado, nem o verbo, nem o complemento direto, nem o público. Não interessa nada. O que interessa é passar a mensagem, o que não é necessariamente mau. A comunicação é fundamental para a nossa vida, sem comunicação nós não existíamos. Agora, o que é que se pode fazer para... sabes que isto é uma conversa que os professores já começaram a ter há muito tempo. E sobretudo os professores de português. Eu não sou professor de português, mas estou por dentro, mais ou menos, da matéria, e já escrevi um artigo sobre isso. Na minha perspetiva, tudo bem, vamos pôr o Eça de Queiróz porque é de leitura bastante acessível, embora seja grande o livro, Os Maias. Mas por que é que não podemos pôr um Harry Potter? Ou uma personagem de que vocês gostem, que tenha filmes sobre ela, que seja um texto mais juvenil, mais jovial, mais adequado à vossa idade? Porque é que têm de se debruçar profundamente num Frei Luís de Sousa? São das obras mais importantes da nossa literatura, Os Maias, os Lusíadas, Frei Luís de Sousa, Memorial do Convento, Amor de Perdição, não estou a dizer que se anulem esses livros, de maneira nenhuma, mas deviam equilibrar-se essas leituras com leituras mais leves. Porque se vocês lerem coisas mais leves, ficam mais motivados para as menos leves, como é o caso da literatura portuguesa que tem livros muito complexos.

Uma das coisas que me dá uma grande alegria é encontrar um aluno na escola, e ele dizer-me, estou a ler um livro seu. Isso é, de facto, uma coisa que não tem preço, saber que os nossos alunos, não são centenas de alunos, mas alguns, vão à biblioteca ou vão à papelaria, compram o livro e leem coisas minhas. Isso é já, modéstia à parte, um bom princípio. Terem um professor da escola deles a escrever e a publicar, isso pode levá-los a ter curiosidade em ler aquilo que ele escreve. Algo que tem colaborado para isso é o facto de professores de português, meus colegas, me convidarem de vez em quando para ir falar sobre os meus livros às suas turmas. Eu vou, leio uma história ou duas e eles têm sempre essa curiosidade, como é que as histórias aparecem. Essa curiosidade é satisfeita através da leitura de um ou do outro jeito, que eu faço para eles perceberem e depois ponho-os a escrever eles próprios uma pequena história. Dou-lhe umas indicações breves sobre como é a estrutura de uma história, porque há regras que eles têm de perceber e depois começam a escrever a sua própria história. E isso é muito interessante.

P - Tenciona continuar a escrever livros?

R - Claro! Claro que sim. Em princípio este ano será o meu último ano de trabalho. Eu comecei a publicar muito tarde, comecei a publicar aos 40 anos. Foi em 2004, portanto aos 43 anos. Já sou um autor que publicou muito tarde, porque não tinha editora, porque nunca me apeteceu, porque tinha medo de publicar. Até que eu escrevi um primeiro livro, que publiquei nesse ano, e a coisa correu bem, e depois continuei a escrever. E quando tiver mais tempo, obviamente que vou continuar. Estou neste momento a escrever um romance, o meu segundo romance, que está muito lento, está a sair de forma muito lenta, porque é preciso muita coisa, muita investigação e muito trabalho de escrita. Está a ser muito lento. Escrevo uma página, apago meia, escrevo mais três linhas a apago quatro. Não está a ser fácil de desenvolver, mas eu já tinha a ideia, já tinha a tal estrutura, e sei o que quero. Temos a estrutura, o esqueleto, agora é pôr a carne, a pele, os músculos para fazer a figura, e é isso que é o mais difícil. Mas vou terminar este romance que está agendado para ser publicado em 2027 e depois continuarei, pois, claro. Naturalmente que sim. Não sei ainda fazer o quê, os imprevistos literários, mas, enfim, vou continuar a escrever. Então, depois, ninguém me para, não é?

“Tudo isso nos ensina a perceber osmiúdos, a perceber a sociedade onde vivemos, e torna-nos muito mais perspicazes e muito mais disponíveis para os ajudar.”

 

  

 




P - O que é que o fez querer ser professor e o que é que mais gosta de fazer na sua profissão?

R - O que é que me fez ir para esta profissão? Eu, antes de ser professor, comecei por dar explicações. Comecei a ensinar em casa. Ainda estava na universidade. Depois, o curso que eu tirei não foi diretamente para o ensino, era um curso clássico, não havia estágio de ensino, nem mestrado de ensino, não havia nada disso. Nós saíamos com a formação e íamos concorrer para uma escola. E porque decidi concorrer e ser professor? Porque eu sempre gostei de ensinar. Porque acho que a transmissão de conhecimento é fundamental. Pensa, nós sabemos 10 coisas. Eu sei 10 coisas, o teu pai sabe 10 outras coisas, tu sabes outras 10. Se nós juntarmos estas coisas todas, tu ficas a saber 30 coisas, eu outras 30 e o teu pai outras 30. Ensinar é isso. É eu partilhar com os outros aquilo que sei e eles vão partilhando comigo aquilo que sabem. E têm-me ensinado muitíssimo! Na realidade, os alunos ensinam-me mais do que tu imaginas. É verdade, a todos os níveis. A nível comportamental, como é que vocês se sentem numa aula umas vezes mais aborrecidos, umas vezes mais satisfeitos, outras vezes faltam por algum motivo. Tudo isso nos ensina a perceber os miúdos, a perceber a sociedade onde vivemos, e torna-nos muito mais perspicazes e muito mais disponíveis para os ajudar. Com alguma idade e com alguma experiência, o professor nota logo se houve chatice em casa, se o aluno se deitou tarde a jogar. E o professor não pode exigir a esse aluno que se deitou às quatro da manhã a jogar o mesmo que pode exigir a um que, por acaso, até nem sequer tem um grande apoio familiar, nem muitos livros e às vezes até nem tem internet. Já não pode exigir a esse aluno o mesmo que exige a um aluno que tenha uma biblioteca impecável, com os pais que não o deixam pôr o pé em ramo verde, que se deita cedo, que faz os trabalhos de casa, que estuda. Agora, qual é o melhor aluno e qual é o pior aluno? Não sei. São dois alunos com questões diferentes para resolver. E nós temos de ter a capacidade, para além de lhes ensinarmos inglês, geografia, aquilo que for, temos de ter a capacidade de os entendermos e de os ajudarmos. O aluno que se deitou às quatro da manhã, que não fez os trabalhos de casa, que chegou atrasado, esse vai reprovar o ano e o outro vai passar? Não necessariamente. O importante é nós percebermos porque é que as coisas acontecem e o ensino, a relação diária com os miúdos, dá-nos isso. Perceber que, claro, queremos dar o programa e avançar mas há sempre espaço para uma piada, para uma conversa, porque às vezes eles estão ansiosos para que nós nos manifestemos de forma mais tolerante com eles e mais amiga. Quando era professor no tempo do teu pai, eu ainda não tinha filhos, ainda não tinha família constituída. Agora já tenho 65 anos, começo a ver alguns alunos como se fossem meus netos, miúdos de 12, 13 anos, podia ser avô deles. Já tenho uma forma diferente de ver as coisas, que não tinha no tempo do teu pai. Era assim, assim e assim e acabou, não há mais discussão! Agora não, o mundo é outro, a vida é outra, o acesso à informação é outro. Aliás, vocês nunca tiveram tanto acesso à informação como agora. Antes nós tínhamos que ir à biblioteca, requisitar os livros, trazer emprestados, depois tínhamos não sei quantos dias para devolver. Não havia computadores, não havia nada. Agora vocês têm tudo, nem precisam de sair do quarto, é só carregar num botão e têm a informação toda, e se vocês souberem usar, isso é de uma utilidade brutal. Isso leva-nos o quê? À inteligência artificial. Muitos colegas meus estão preocupados com isso e eu também. Acho que tem de haver uma preocupação, mas também calma. Porque a inteligência artificial é uma ferramenta extremamente útil. Tem de ser usada com sabedoria. É como uma autoestrada, é útil mas é perigosa. Portanto, ensinar é a base de tudo. Ensinar é fundamental, conhecimento é fundamental. Conhecimento é uma arma, porque é com o conhecimento que nós vencemos as grandes batalhas da nossa vida. Não é com uma pistola, nem com uma espingarda, nem com uma espada. É com o conhecimento, saber coisas. E é isso que vocês não podem recusar, que é aprender. Têm de querer sempre aprender!

domingo, 11 de outubro de 2026

Um apontamento sério e outro não

 



Margarida

Margarida.

Podia ser este o título desta autobiografia que acabou de nos chegar às mãos, nascida da profundidade da dor e libertada lentamente pela angústia dos silêncios, muitos deles sombrios, causados por um sofrimento que parecia sempre inesgotável ao fim de cada dia. Depois de cada tratamento. Após cada análise. Cada exame.

Margarida.

Margarida deixou hoje de ser um nome próprio ou a designação de uma flor. Até pode continuar a ser isso tudo, porque daí não vem mal ao Mundo. Mas, para mim,  passou a ser nome de Revolução, marca sem preço de Vitória, símbolo eterno da Esperança.

Margarida.

Poderia ser este o título deste livro, com outros nomes a ele associados, entrelaçados de uma forma única, como só o amor cego e incondicional sabe operar: os nomes dos membros da família, dos amigos e dos colegas. Pairam todos eles por sobre estas páginas, porque foram eles a força, a razão, o equilíbrio, a serenidade, a âncora, sempre firme e, por isso, de preço incalculável.

 Margarida.

Margarida não é, neste caso particular, um nome próprio. É um substantivo colectivo. Porque reúne nele um sem-número de sentimentos, de previsões, de dores, na altura legítimos mas hoje, felizmente, muitos deles mais ténues e menos tristes. Ficou a memória, porém.

A vida da Margarida, e a vida de todos os que se deixaram amorosamente arrastar por esta mulher gigantesca, é uma longa história que merece ser contada, lida, ouvida e guardada. Não no silêncio do coração de cada um de nós. Não. É nossa missão sermos também a voz da autora, uma voz destemida e forte. É nosso dever manter vivo o seu olhar perspicaz e inteligente, presente neste testemunho e na subtileza de quem ama incondicionalmente.

Todos nós nos sentimos projectados nestas páginas, claras, directas, por vezes cruas, mas sempre transparentes, porque alguém da nossa família ou do nosso grupo de amigos viveu experiências assustadoramente semelhantes. E muitos deles já não estão aqui para contar como foi.

O que aconteceu à Margarida, quando lhe foi revelado o diagnóstico que ela não queria ouvir, foi descrito por ela numa destas páginas como uma guerra que estava prestes a começar e que poderia ser fatal. Fatal para uma jovem lindíssima. Fatal para a Mãe da Carminho e da Júlia. Fatal para a mulher do João. Fatal para os pais, Maria Aurora e Custódio. Fatal para os outros membros da família.

Mas a Margarida nunca esteve sozinha neste terrível campo de combate. A seu lado estiveram outros combatentes, tal como ela, tendo alguns deles ficado estendidos, exaustos, vencidos entre os destroços das suas batalhas. A Margarida, porém, conseguiu sair desse cenário assustador envergando a sua armadura brilhante e com a sua espada erguida com o Sol ao fundo, gritando vitória. O medo, a insegurança, o cansaço, o sentimento de perda, o luto, o desespero, a dúvida, a dor indizível, tudo ficou mais longínquo, mais ténue.

Margarida.

Margarida poderia ser o título deste livro. Mas esta pequena grande obra também poderia muito bem ter o nome da paixão, da paixão superior a todas as paixões, poderia ter um nome… O nome acima de todos os nomes, que a manteve alerta, confiante e viva.

Este livro, querida Margarida, poderia muito bem chamar-se… CARMINHO. 

 

 Cristiano

Vila Nova parou durante meia-dúzia de dias, à espera do desenrolar dos acontecimentos, uma terrível consequência do abandono da equipa do seu bairro por parte do rapaz a quem tinha sido prometido jogar no já célebre desafio que opunha o Bairro dos Cinco Castelos a um bairro da parte norte da vila, o Bairro dos Viquingues, equipa constituída por miúdos mais altos, quase todos loiros e com chuteiras compradas no IKA.

O campeonato já ia a meio quando se deu o impensável.

Em pleno campo (pelado), Carlos Gabriel, o treinador (e guarda-redes) da equipa dos Cinco Castelos foi o primeiro a saltar em frente ao guarda-redes dos Viquingues. Os jogadores das duas equipas sustiveram a respiração. Seriam sete contra sete, mas os melhores teriam de ser escolhidos. Os guarda-redes começaram, um de cada vez, a alinhar o pé direito, depois o esquerdo, depois o direito outra vez, cada rapaz a seu tempo até que… o pé direito, enormíssimo, do guarda-redes dos Viquingues açambarcou por completo, numa extensão de quinze centímetros, o pezinho do Carlos Gabriel. Foi o louro, de acordo com uma lei ancestral, o primeiro a escolher.

E assim se procedeu com todo o respeito pelo regulamento dos bairros. Foram escolhidos os melhores, à vez, um de cada vez, dois defesas, dois médios e dois pontas de lança. Cristiano preparou-se psicologicamente para ser um dos eleitos. Olhou para o Carlos Gabriel, treinador e guarda-redes, este piscou-lhe o olho, como quem diz “Estás convocado!” Acariciando a orelha esquerda, Cristiano tocou no brinco para dar sorte, e aguardou, expectante, mas… nada. O mister escolheu o Zé Vítor e apontou a Cristiano o banco de suplentes. Cristiano olhou para ele com o cérebro em confusão, estendeu lentamente a mão direita, elevou o dedo médio na direcção do nariz do Carlos Gabriel, atirou a toalha ao chão, virou-lhe as costas, pegou na bicicleta, encostada ao muro do lavadouro desde cedo, e rumou para casa. “Eu é que mando na equipa, Cristiano! Eu e mais ninguém”, gritou-lhe Carlos Gabriel.

   Dias depois, Carlos Gabriel, arrependido, talvez, daquele repente que lhe vinha de família, encontrou o Cristiano no pátio da escola e disse-lhe: “Vá, volta para a equipa! O teu pai financia os nossos equipamentos. Sem ti… ficamos sem bago e isso é complicado, porque estamos a precisar de duas bolas novas.”

              João Luís Nabo

              In "O Montemorense", Outubro de 2026

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

De regresso...

 


Foto: Município de Montemor 


De regresso…

 

… e logo com três coisinhas para pôr à consideração dos meus 10 leitores (recebi recentemente uma mensagem a dizer que mais dois se tinham juntado a estes viciados em Cloreto de Sódio.) Serão mil, mais uma, menos uma, as palavras que irão preencher este espaço que me recebeu em 2003, depois de 14 anos de ausência. Não me arrependi deste regresso ao jornal "O Montemorense", a convite do Padre Manuel Vieira e da Dadá Mouzinho Almadanim, para inaugurar esta meia página de liberdade, só para contrariar os que pensavam que não se podia ter uma opinião que fugisse à linha editorial de um jornal cristão. 

            Mas o regresso, tema desta crónica, é o regresso à realidade de todos os dias, após as férias que passaram, como é hábito, a correr. Não foram tranquilas em termos de notícias. Não vou conduzi-los às guerras que continuam a massacrar inocentes, devido à incúria, à ganância e, atrevo-me a escrever, aos ataques de loucura megalómana de alguns. Não vou recordar aqui as catástrofes que atingiram vários países do Globo, provocando milhares de mortos, feridos e desaparecidos, desta feita por culpa nossa que não soubemos cuidar do planeta, julgando que os seus recursos e as suas estruturas eram inesgotáveis e indestrutíveis. Venho, sim, de forma breve, referir três acontecimentos que merecem alguma atenção, por motivos diferentes.

 

1

O Eclipse total de Luís Neves…

 

            … seria na verdade o melhor que poderia acontecer. Mais para o Governo de Montenegro do que para nós, cidadãos, sempre a levar com estes casos que, a serem provados, se revelam de uma falta de ética e de sentido de Estado sem precedentes. Não vale a pena continuar a chover no molhado, quando, na verdade, o que se esperava era uma atitude corajosa do primeiro-ministro para pôr fim a tantas polémicas e às infindáveis desconfianças que rodeiam o ministro da Administração Interna.

Num piquenique entre amigos, se o Homem da Grelha, a figura mais importante da festarola, não retirar a tempo das brasas o entrecosto ou a bela febra, pelos quais é responsável, corre o risco de os deixar esturricar, deixando estes petiscos de servir a quem quer que seja.

Manter um ministro do seu Governo na chapa, em lume cada vez mais espevitado pelo vento da discórdia, é matar deliberadamente alguém que ainda lhe poderia ser útil. Se o entrecosto ou a febra pudessem saltar eles próprios da grelha a tempo e horas, perante aquela triste morte anunciada, não tenho dúvidas de que o fariam. Luís Neves, porém, esturricado até ao tutano, diz que continua a ter confiança em si próprio: o cúmulo da soberba e da inconsciência absoluta.

 

2

A Noite Branca por um dia…

 

            … na nossa velhinha Rua de Aviz, estética e utilitariamente maltratada no último mandato de Hortênsia Menino, recebeu, conforme pôde, mais uma edição da Noite Branca. Não tive possibilidade de estar presente como estive nas edições anteriores, porque a minha vida social, em tempo de férias, é intensa e alguém teria de ser privado da minha humilde presença. Mas vi fotos, assisti a vídeos e falei com amigos que estiveram por lá a espalhar magia no meio de várias centenas de pessoas. Foi uma animação, com as lojas abertas até tarde, com música, dança, comida, bebida, muitas fotos para o Instagram, muitos conterrâneos em convívio e a deixar as preocupações noutras ruas que não naquela. Tive alguma pena de não ter estado por lá, mas outros valores, muito mais altos, se levantaram. (Creio que a malta alinha de boa vontade nesta iniciativa porque, na cidade, deixou de haver lugares de convívio para se beber um copo, para encontrar amigos, para sair com os filhos ou os netos. Montemor é um vazio de espaços nocturnos. Montemor está a ficar às moscas.)

            Mas tudo o que se passou nessa Noite foi mágico, divertido, único, com o pessoal vestido de branco, a falar bué e a beber gin, a comer farturas e má-na-sê-quê. E pronto. Foi um serão em que a Rua de Aviz se vestiu de branco e viu o seu comércio valorizado, a ser visitado mais do que o habitual, facto importante e pretexto principal para a organização do evento.

E agora? Agora, fazendo aqui um facílimo exercício de memória, sabemos todos que os 364 dias que se vão seguir serão, e disso não temos dúvidas, iguais, monótonos, com o comércio às moscas e os comerciantes a tentarem fazer milagres para pagarem as rendas e para não fecharem as portas. Então de que servem as Noites Brancas na nossa Rua de Aviz? Para os montemorenses passarem um serão juntos e animados. Para nada mais.

 

 

3

A Feira da Luz

 

            A Feira da Luz é, de facto, um certame com algum peso no panorama nacional com a preciosa ajuda da Apormor, parceira da autarquia e que faz da sua exposição de gado uma das maiores e mais importantes do país. Fui assistir, tal como faço todos os anos religiosamente, às cerimónias de abertura, com as individualidades políticas presentes a ouvirem atentamente o discurso do Presidente da Apormor e do Presidente da Câmara, que, na minha opinião, falaram muito, muito (isto é muito, muito subjectivo)… quando o pessoal queria era ir divertir-se. E todos os convidados na linha de honra ouviram atentos os balanços e as intenções dos ilustres oradores? Uhmmm, tal como nas aventuras de Astérix, houve meia-dúzia de irredutíveis gauleses que se estiveram a borrifar para os discursos de César.

            Dada uma volta ao recinto, concluímos que a Feira foi mais ou menos igual às feiras de anos anteriores. Destaque para a magnífica exposição “Cidadãos do futuro: depois da liberdade, o que fazemos com ela?” – a história do concelho do pós-25 de Abril, profundamente documentada, deixando-nos imersos na nossa própria essência como povo e como comunidade. A reflexão vem depois, longe do burburinho da festa, porque há quem queira, desde há algum tempo, mandar prender a Liberdade.  

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Setembro de 2026

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Três pequenas notas (e uma adenda)



Primeira

Quando vejo imagens desoladoras e dramáticas que nos chegam da Venezuela, da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, de Israel, do Corno de África ou de zonas do nosso país a sucumbirem aos terríveis incêndios que nunca mais têm fim, mais certo fico da nossa fragilidade e de como perdemos todo o poder, toda a atitude de seres supremos, toda a arrogância que define o nosso estatuto de animal racional e que, no fim de contas, é só de animal, porque de racional pouco temos. Milhares de mortos e de feridos, de desalojados, centenas de casas em ruínas, milhares de famílias destruídas. Só nestes momentos pensamos como somos pequenos e ineficazes.

Lisboa está plantada numa zona de risco sísmico, alerta feito vezes sem conta por especialistas na matéria, com previsão de tsunami e milhares de mortos como consequência da destruição massiva da cidade. Tal como aconteceu há 250 anos. Ainda ninguém levou a sério os avisos e andamos alegremente, respeitando sempre o perfil de idiotice e de irresponsabilidade da espécie lusa, a dizer uns aos outros: “Há-de ser o que Deus quiser!”

Há-de, há-de. Depois falamos, se cá estivermos para contar a história.

 

 

Segunda

Quando me apercebo da enormíssima “pancada” de Donald Trump e, consequentemente, analiso, ao de leve, o cérebro de todos os que o elegeram, falo para com os meus botões e pergunto: “Quando irá terminar o desfile de alarvidades, de decisões totalitárias, de inversões na lei e na ética de um país a celebrar 250 anos de independência? Quando, Donald, haverá alguém que ponha fim a toda esta loucura para o que Mundo possa finalmente ficar com menos um problema, um ‘contratempo’ que está em permanência a complicar todo o nosso quotidiano?” 

Assinada a Declaração da Independência, em Filadélfia, um texto redigido na sua maior parte por Thomas Jefferson, em 1776, este que viria a ser o terceiro presidente da nova nação, tudo levava a crer naquele espaço mítico, a terra “das laranjas e do mel”, como a terra de todas as oportunidades, conceito imortalizado por Ralph Waldo Emerson, quando escreveu: “America is another name for opportunity” (America é sinónimo de oportunidade), resumindo o velhíssimo conceito do Sonho Americano. Mas a História não nos tem mostrado isso.

Os Estado Unidos celebraram o 4 de Julho, e com muita legitimidade, continuando teimosamente a admitir que o Sonho Americano é possível, passando essa mensagem a todos os que acreditam que, para mudarem a vida e o futuro, basta pisarem o solo dessas terras abençoadas. (Trump não estará muito de acordo.)

Teresa Brennan (1952-2003) escreveu que vivemos “na era da paranoia”. Não conheceu esta filósofa e psicanalista o Trump que nós conhecemos, em plenas funções, a mandar e a desmandar no mundo inteiro. Um lunático multimilionário que transformou definitivamente o Sonho Americano no pior de todos os pesadelos. Um César, um Chanceler, um Presidente que quer conquistar o mundo, aproximando-nos, se não estivermos atentos, de um quarto Reich com todas as consequências que isso nos pode trazer. E tal poderá mesmo acontecer, resultado dessa loucura, antes impensável, perante a panhonhice da NATO, da ONU e da Comunidade Europeia. Espanta-me e assusta-me como pode isto acontecer no século XXI, depois de todas as lições que a História recente nos deu.

 

Terceira

Quando leio as catadupas de alertas e de queixas publicadas por professores, colegas meus, perante o enormíssimo erro do Ministério da Educação, chefiado pelo ministro Fernando Alexandre, no que se refere à correcção e classificação dos exames nacionais, pergunto-me onde estava o ministro com a cabeça quando decidiu, ele e a sua equipa, ser esta a forma mais adequada de classificação e avaliação dos exames que darão aos alunos o acesso ao Ensino Superior, nos cursos da sua preferência. Mas não vale a pena estar a chover no molhado e a repetir o que tem vindo a acontecer e a ser denunciado e comentado na comunicação social e nas redes sociais, casos muito bem explicados pelos professores, vítimas deste processo.

As desculpas dadas por Fernando Alexandre, o atirar as culpas para as direcções das escolas e para os professores revela, sem sombra de dúvida, um total desnorte e a sua tentativa de fuga às responsabilidades. Já correm notícias espalhando que os pais e encarregados de educação, sempre tão atentos à forma como os seus educandos são tratados pelos professores e pelo sistema, já estão insistentemente a pedir justificações e, mais do isso, soluções para tão grande e inenarrável imbróglio.  É o futuro dos seus filhos e educandos que está em causa e há que assacar responsabilidades e elas não são, tenho a certeza absolutíssima, nem das escolas nem dos professores correctores.

Quando este nosso jornal chegar às bancas, mais ou menos a 20 de Julho, já as classificações, segundo o ministério (agora nada digno de confiança) estarão afixadas e os alunos de posse de todos os dados para poderem candidatar-se às universidades, institutos e politécnicos. É o que diz o senhor ministro.

Não acredito que assim seja… mas oxalá me engane.

 

Adenda

O Coral de São Domingos chegou ao fim de mais uma temporada, a trigésima nona.  Os ciclos de 15 concertos, em Montemor e noutras zonas do país, continuaram a provar que o trabalho, o espírito de equipa, a resiliência e a amizade continuam a ser os ingredientes para que continuemos, 39 anos após a sua fundação nas instalações do Convento de São Domingos (daí o nome do grupo), a levar longe o nome de Montemor, sempre embrulhado nas vozes talentosas dos trinta e dois cantores.  

Vão começar a ser preparadas as comemorações dos 40 anos da sua fundação, que terão início em Janeiro de 2027. Um ano de muitos acontecimentos só porque uns amigos decidiram, num belo Sábado de Janeiro de 1987, cantar em grupo, sem imaginarem que viriam a ser, quatro décadas depois, e segundo os seus pares, a comunicação social e a opinião pública, uma das entidades culturais de referência do concelho e do Alentejo. 


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Julho de 2026

sábado, 13 de junho de 2026

Última carta a todos os meus alunos

 

 



Queridos alunos:

 Estou a escrever esta carta sentado numa das salas de aula da nossa Escola. Quis que o cenário fosse simbólico e que servisse para que todos, mas todos, desde 1983, quando comecei, se sintam abarcados por estas últimas palavras de quem viveu mais de quatro décadas numa espécie de Escola de Magia onde todos os truques eram possíveis para levar jovens a acreditar nas suas capacidades, por muito impossível que tal lhes parecesse, ou porque alguém lhes dissera, em tempos, que não valia a pena acreditarem.

Cometi erros, porque os humanos cometem erros. Por vezes, fui injusto, porque não compreendi bem os alunos, porque ignorei as suas angústias, porque não dei importância aos problemas que poderiam ter em casa. Para mim, o mais importante seria cumprir a planificação da aula, dar o programa, enfim, livrar-me da pressão que o sistema me colocava diariamente sobre os ombros. Com o passar dos anos, e sobretudo depois de ter dois filhos e uma filha, comecei a olhar para os alunos com outros olhos: uns olhos menos analíticos e mais de… pai.

Nem sempre os dias foram tranquilos, porque o desassossego que me fez levantar todos os dias para ir para a escola foi permanente e, quase, obsessivo. Pois, este professor que vos escreve veio do povo, de uma família de gente de trabalho que fez um esforço hercúleo para que o futuro professor fosse para a universidade, com o meu pai a trabalhar dia e noite e com a minha mãe a arranjar emprego como costureira para que nada faltasse ao filho querido que “ia ser doutor”. Foi esse preço que os meus pais pagaram, e cuja factura nunca me foi apresentada, que me deu uma carga imensa da responsabilidade que serviu de base ao que veio depois: à dedicação, à paixão, à busca incessante de conhecimento e, também, ao respeito que os meus alunos me inspiraram e, naturalmente, os pais e encarregados de educação, que quiseram sempre o melhor para os seus filhos e que tinham o direito de ter na sala com os seus filhos alguém que gostasse da profissão e que gostasse deles.

E quanto mais lia e estudava, quanto mais investigava nas minhas áreas de estudo, menos perdia de vista as minha origens e as lições que os meus pais e a vida me foram dando. E foi dessas lições que retirei o essencial que coloquei diante dos alunos, sempre com o objectivo de lhes mostrar a importância da honestidade, do respeito, da tolerância, da equidade, das oportunidades que todos devemos ter, depois de termos dado os primeiros tropeções. Tal como os meus pais e alguns bons professores me ensinaram, sobretudo a minha professora primária, a saudosa e querida D. Bia Mareco, que eu tentei imortalizar no meu romance “Sertório”.

Não fui nem melhor nem pior professor que muitos dos meus colegas que caminharam comigo neste universo nem sempre pacífico. Fomos equipa, respeitámos os saberes de cada um, partilhámos dores e alegrias e, felizmente, a maior parte estava comigo com o mesmo objectivo: o aluno em primeiro lugar. Depois, tratávamos da burocracia e das “tonterias” que os ministros se lembravam de lançar, sobretudo se eram novos no escritório.

Com a minha mulher, amiga, companheira e colega de profissão, aprofundei novas práticas pedagógicas e dei por mim a aplicar, ainda com mais certeza, um novo paradigma, ignorado durante décadas no nosso sistema de ensino: cada aluno é um universo e todos devem ter direito a uma aprendizagem e a uma avaliação justa e inclusiva, de acordo com as suas capacidades. Depois vieram colegas mais jovens, com novas ideias, sem preconceitos, libertos de ideias feitas e que me arrastaram neste últimos anos lectivos para um mundo mais livre, mais verdadeiro, onde confirmei que também eu, há 43 anos, me iniciei nesta missão “com todos os sonhos do Mundo” e que os mantive até à última aula, graças também a esses ventos do Norte e de outros quadrantes que, um dia, vieram para refrescar a minha escola e a minha vida.

 Queridos alunos: também vocês devem ter no coração “todos os sonhos do Mundo.” Nesta fase terminal da minha carreira, muitos alunos, sobretudo os alunos de gerações mais antigas, têm-me recordado algumas das minhas “máximas”, menos poéticas, é certo, mas que os faziam rir e também pensar. Uma delas era simples: “Para conseguirem chegar a Patalim têm de querer muito ir até Évora”. E penso que muitos entenderam o que lhes queria transmitir. Eu também quis ir muito, mas muito mais longe, mas fico feliz por ter ficado por aqui, onde me senti útil, a ver a Torre do Relógio sempre que me apetecia, a estar com os meus filhos diariamente e a colaborar na concretização dos sonhos dos alunos que nunca deixaram de acreditar em mim. Nem eu neles.  

Um abraço e votos de boas férias!

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             Aos ministros da educação que me azucrinaram a molécula durante 43 anos não deixo qualquer palavra. Não merecem o tempo e o espaço neste texto, porque o respeito que nutriram pela classe mais nobre de todas nunca foi devidamente acautelado e começaram a tratar-nos, desde há muitos anos, como escravos do regime. E eu, escravo nunca fui.

Muito menos do regime.

 João Luís Nabo

In "O Montemorense", Junho de 2026

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Da escrita e de livros memoráveis

 


Da escrita…

 

Há, cada vez mais, a prática do exercício de auto-censura prévia por parte de quem escreve e, imagine-se, até já está a acontecer no caso de alguns professores, que começaram a medir cuidadosamente cada palavra, cada conteúdo programático, que exibem perante uma turma.

No acto da escrita, uma acção sempre mais ponderada, com o desenvolvimento de ideias sobre as quais se reflectiu e que queremos partilhar com os leitores, o autor da mensagem tem mais tempo para decidir que palavra usar, que tema abordar, que comboio apanhar. É na tomada destas decisões que reside, muitas vezes, a angústia.

Por vezes, sentado em frente ao computador, com o objectivo de cumprir a minha missão mensal de alinhavar ideias para o Cloreto, ou de fazer uma qualquer publicação nas redes sociais, dou comigo a rejeitar algumas formas de abordagem, para que os salpicos possam ser mínimos para o meu lado. Depois, arrependo-me de tal gesto de cobardia e avanço para o teclado, sem reservas, sem palas e sem medo. Até um dia.

 

 

…e de livros memoráveis

 

Ler é um passatempo de excelência. Ler o mesmo livro, mais do que uma vez, seja um romance, uma novela ou uma mão cheia de contos, parece à partida incompreensível e desnecessário. “Está lido, lido está!”, dirão como justificação para o recolocar no seu lugar na estante para, certamente, de lá não sair.  

Há quem discorde deste divórcio depois de várias horas e, até, dias, de um casamento feliz. Porque, quando agarramos num livro, será para mantermos com ele uma relação de fidelidade que irá durar, pelo menos, o tempo da leitura. Em princípio. Contudo, a verdadeira magia de um livro, o profundo e sentido “plaisir du texte”, como lhe chamou Roland Barthes, estender-se-á para além da leitura, prolongando-se, algumas vezes, até ao fim da nossa vida. Ficamos presos. Aprisionados pelo tema, pelo enredo, pelo tom, pelas personagens, pelo estilo do autor ou, e este facto é inegável, pelo momento ou pelos momentos em que pusemos nele os olhos – um momento de felicidade ou de dor, de desespero ou de fadiga ou mesmo de indescritível pasmo. Circunstâncias únicas como as que nos levaram a conhecer a mulher da nossa vida, a assistir ao nascimento dos nossos filhos, a criar amizades tão para a vida como alguns livros que lemos e que nunca mais nos irão largar. As amizades e os livros.

Li O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights, no original), de Emily Brontë, pela primeira vez há perto de meio século. Desde então, já o reli quatro ou cinco vezes, com alguns anos de intervalo entre cada leitura. Estou, novamente, hoje, mergulhado nas ambiências góticas da história, situada no Yorkshire, na Inglaterra, no início do século XIX, agarrado às profundezas do amor e do ódio entre Catherine e Heathcliff, a beber o choque violento e destruidor, mas imprescindível, que as suas vidas imprimiram à sua volta. Estes dois seres, únicos na história da literatura vitoriana, cresceram juntos, em permanente desafio, confundindo-se com a dureza da paisagem das charnecas desoladas e varridas pelo vento, magistralmente descritas por Brontë, sendo neste cenário que floresce a paixão que os irá inexoravelmente consumir.  

Se é um exercício de violência, é porque são sentimentos nascidos do mais puro amor e da mais desassossegada e improvável paixão; se o entendo como imprescindível, o motivo reside no facto de, sem o caos criado à sua volta, sem o sofrimento em que sadicamente mergulham, página após página, capítulo após capítulo, não se justificaria o restaurar da Ordem. A ordem das coisas e da vida. O equilíbrio entre o ódio e o amor. A eterna, mas nunca ultrapassável, luta entre o Bem e o Mal.

De cada nova leitura, sempre à espera de novos sinais, de outras pistas, de pormenores escondidos, surge inevitavelmente mais profunda a relação entre as personagens, com os seus traços de personalidade, transgressores e cada vez mais expostos, ficando nós, os (re)leitores, de posse de uma maior consciência de nós próprios, das nossas glórias e misérias. E do possível limite da nossa sanidade mental.

O Monte dos Vendavais é dos tais livros que são como alguns amigos – para a vida, surpreendentes e sempre disponíveis para infindáveis releituras.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Maio de 2026

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Da Escola e dos seus sabores

 

 


1

Antes do tempo da Páscoa, vivemos nas escolas do nosso Agrupamento uma última semana de aulas… quase sem aulas. Dias atípicos para quem está habituado, nove meses por ano, a viver várias horas por dia numa sala de aula, levando a efeito uma rotina que, por ser rotina já sem necessitar de preparação ou ensaios, quase não se sente. Pensarão os leigos que os professores não gostam de sair desta sua zona de conforto, os alunos à nossa frente, os professores junto ao quadro, a fazer passar, mês após mês, as matérias previstas nos programas e, sobretudo, os conhecimentos a serem futuramente testados em exame nacional. Poderão até chamar a estas práticas uma colecção de maus hábitos, sublinhando que a nossa Escola continua ligada a correntes e a práticas de ensino do passado, sem vontade de ir mais além.

Nada disso. A prova do ecletismo do Agrupamento de Escolas de Montemor é cada vez mais concreta e visível… e vai mais além do que se poderia pensar: os intercâmbios de estudantes entre as nossas escolas e outros estabelecimentos de ensino do país e do mundo, os projectos nas mais diversas disciplinas, que os levam a investigar e a diversificar as suas capacidades, bem como o seu sentido crítico e de análise, a utilização cada vez mais frequente de meios audiovisuais e digitais para passar matéria e lançar ideias, com o objectivo também de consciencializar os alunos de que os professores estão sempre do seu lado e que querem acompanhá-los nas suas necessidades de permanente actualização para com o mundo que os espera lá fora.   

Pois tudo isto foi comprovado na última semana de aulas antes da Páscoa. A Semana Cultural promovida pelo Agrupamento, subordinada ao tema “As Nossas Raízes, o Nosso Futuro: Identidade, Cultura e Comunidade”, trouxe à prática um vasto conjunto de iniciativas que agregaram toda a comunidade escolar, que se abriu ainda mais à comunidade montemorense, numa colaboração com a autarquia e com muitas associações do concelho, transformando aqueles últimos dias numa verdadeira montanha russa de actividades relacionadas com as mais diversas áreas do saber e da vida.

Posso dizer, sem risco de errar: vale mais uma Semana Cultural do que um mês de “sala de aula”, de forma permanente e contínua.

           

 

2

            Depois de falar do meu Agrupamento e destas iniciativas que envolveram toda a gente, é impossível ignorar o empenho dos alunos nos mais diversos eventos, o seu comportamento exemplar, a forma como receberam os convidados que por cá passaram a inovar-lhes os dias e… a mente.

Muitos desses alunos são os que tenho à minha frente todos os dias, com algum sono de manhã cedinho, com algum cansaço depois de muitas horas sentados em sala de aula, e com quem partilho o que sei e o que eles precisam de aprender. No entanto, depois das aulas, alguns deles espalham a sua magia também noutros espaços, sobretudo em espaços desportivos onde jogam diversas modalidades em equipa, no Grupo União Sport e noutros clubes. É curioso, mas ao mesmo tempo, reconfortante, como todos eles entendem a importância do futebol, do basquetebol, do andebol, do ténis e de outras modalidades como um espelho da vida e das relações entre os cidadãos e cidadãs que se pretendem pró-activos e úteis. E como aplicam, não raras vezes, esses princípios basilares na escola e nas aulas.

Nestes últimos dias que me restam como professor, quase a enveredar por outros projectos e caminhos, é moralmente e eticamente obrigatório deixar registados os nomes dos miúdos que admiro pela sua entrega ao desporto e às regras que os tornam, sem dúvida, melhores seres humanos – mais inclusivos, mais tolerantes, mais amigos, mais participativos, mais solidários. Por isso, deixo aqui um abraço valente ao João Prates, ao Dinis Peniche, ao Levi Batista, à Madalena Varandas, ao Santiago Batista, ao Kauan Nunes, ao Breno Macena, ao Miqueias Gonçalves, ao Emanuel Silva, ao Flávio de Paulo, ao Bernardo Peixoto, ao Rodrigo Calção, ao Samuel Simões. Independentemente das derrotas ou das vitórias (ou, talvez, devido a isso), serão todos, tenho a certeza, futuros cidadãos do mundo!

 

 

3

            Continuo na Escola, na minha escola onde fui aluno e, depois de três anos como migrante, onde sou professor há quarenta anos. Quando contabilizamos as nossas vivências tendo por base as horas, os dias e os anos, estamos a ser demasiado pragmáticos, tecnocratas e frios. Não conto todos estes anos somados em si mesmo. Gosto de recordar esta passagem pelo ensino público pensado em números, mas com outro efeito: foram centenas de colegas que conheci, muitos deles são hoje meus amigos, alguns deles amigos para o resto da minha vida; dezenas de funcionários, que sempre me apoiaram em todos os momentos; milhares de alunos – mais de quatro mil – que me ouviram e a quem ouvi, sempre com a esperança e a certeza de que iriam ter o seu lugar na sociedade.

A partilha de conhecimentos foi para mim, sempre, desde muito novo, um dos maiores prazeres da vida. Fazê-lo numa sala de aula, num anfiteatro, numa visita de estudo, ou em muitas outras formas de libertar as ideias e transformá-las em instrumentos progressistas e inovadores, tornou-se compensador e um desafio sem fim.

Estes tempos não são iguais aos outros tempos e o professor tem como dever afinar capacidades para acompanhar de forma natural os novos interesses, as novas formas de estudo, as atuais plataformas de pesquisa e trabalho.  Procurei sempre, muitas vezes com o apoio de colegas mais jovens, dominar minimamente o mundo das novas tecnologias para não perder a oportunidade de continuar a ensinar, independentemente do modo, das ferramentas e das atualizações que temos de enfrentar, quase em permanência.

Quando penso no início da carreira, nos idos anos de 1983, nutro sempre o mesmo tipo de sentimento: voltaria a fazer tudo de novo. Voltaria, sem qualquer hesitação, a entrar numa sala de aula e dizer: “Olá! Sou o vosso novo professor de Inglês. Vamos mudar o Mundo. Quem não for pontual… leva trabalhos de casa.”

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Abril de 2026

quinta-feira, 12 de março de 2026

Das Trevas à Luz

 


                                                                                      


                                                                 (Foto: Pedro Ferreira - 2023)

                                                                                  1

 

            Não aprendemos com os erros do passado. O Mundo regressou aos poucos ao tempo da Segunda Guerra com alguém a invadir e alguém a ser invadido nos seus direitos e nos seus territórios. Há uma hipotética solução: os senhores da guerra deverão ser isolados, com a maior urgência, num espaço fechado, não muito amplo, sem mais ninguém, sem árbitro, com o mundo exterior a assistir na televisão mais próxima, à espera dos vencedores e dos vencidos. Sem bombas, sem invasões de território, sem soldados, sem armas, sem atitudes lunáticas de sobranceria e desprezo pelos direitos humanos e pelas constituições que regem cada país.

Por outro lado, a cobardia da ONU, o medo sentido pela Europa, qual velha senhora, aristocrática e falida, o silêncio dos justos e das pessoas ditas de bem, representam, tudo isto junto, um perigo maior do que os humores com que Trump acorda todos os dias.

Se, numa bela manhã, esse americano acordasse com vontade de invadir Portugal (com ou sem um ditador eleito na equação), este nosso belo e rectangular torrão à beira-mágoa[1] plantado nem teria tempo de despir o pijama e envergar o uniforme mesmo antes de pegar na arma. Quando dava por isso, estava espojado neste chão ibérico, a estrebuchar, com as tropas americanas a calcarem-lhe os poéticos e heróicos rins, ainda com algum sangue do saudoso Viriato. Meia-dúzia de anos depois, a rapaziada lusa já estaria a falar inglês (as séries da Netflix também dariam uma ajuda) e aptos a cantar “The Star-Spangled Banner”, de mão no peito, lágrimas nos olhos e de peruca cor-de-laranja como prova de lealdade e adoração para com o querido líder.

Mas, qual Gauleses, numa aldeia perdida na zona da Bretanha, haveria um bravo povo a “resistir, ainda e sempre”, aos invasores: nós, os Alentejanos. Se um dia esse senhor cismar que tem de vir tomar o Alentejo para dominar o monopólio do porco preto, será recebido com vagar, sim, mas sujeito a levar com umas cajadadas no alto da pinha. E como diria a minha saudosa Mãe: “Mal empregadas as que caíssem no chão.”

  2

 

            João Cidade tem uma história de vida que todos conhecem e que poderia dar uma longa-metragem de Hollywood, com actores de renome a interpretarem o Santo e todos os que com ele conviveram. Celebrado em Granada, cidade onde morreu em 1550, após salvar da morte pessoas em risco de afogamento no Rio Genil, João Cidade tem em Montemor o seu dia próprio, festejado habitualmente nas vertentes profana e religiosa.

Conterrâneos nossos acreditam que devia dar-se mais destaque à sua figura e à sua obra. E têm razão. É importante a nossa participação no hastear das bandeiras, na procissão, com o acompanhamento da Banda Carlista e da Fanfarra dos Bombeiros, na Missa Solene, na Igreja do Hospital, numa manifesta vontade de marcarmos este dia grande que nos une como comunidade. Falta, contudo, mais qualquer coisa. Qualquer coisa que lance o nome do Santo e a sua Obra, de forma assumida, para um universo maior e mais mediático. A primeira seria alargar o tempo das comemorações e não cingi-las apenas ao dia 8 de Março. Depois, essa divulgação poderia ter como primeira iniciativa uma sessão solene pública, levada a efeito em espaço adequado, com a participação dos representantes religiosos e políticos, locais, regionais e também nacionais, porque João Cidade foi, e é, muito maior, e a sua influência certamente mais ampla, do que os muros do nosso pequeno burgo. Outros eventos poderiam seguir-se: exibição de filmes, abertura de exposições, conferências sobre o homem, o Santo e o país onde nasceu, visitas guiadas à Igreja Matriz e à Cripta onde, segundo a tradição, João Cidade terá nascido (sendo este pequeno nicho histórico e arquitectónico o centro de todos os acontecimentos), a divulgação e apresentação de trabalhos de investigação (e outros de ficção) publicados ou por publicar. Inaugurar, finalmente, um Museu (ou um Centro Interpretativo) de São João de Deus, numa colaboração estreita entre a Ordem Hospitaleira, historiadores locais e a Autarquia montemorense.

Em suma, é importante unir esforços e sinergias para celebrar São João de Deus na sua verdadeira dimensão humanitária e universal, de modo a orgulharmo-nos ainda mais do nosso Património Histórico e Religioso.

Fica registada esta ideia.

  

3

 

O tempo da Páscoa é o ponto alto da vivência cristã, sendo uma das grandes bases da fé de todos os crêem na Vida depois da Morte, na Ressurreição de Cristo, como modelo da sua própria ressurreição como seres mortais e fisicamente finitos. É também a celebração do perdão, da dor e a tomada de consciência, uma e outra vez, de que há, para os que assim acreditam, uma vida para além desta, da terrena, que tantos conflitos nos faz viver e que, se assim quisermos, nos aponta um caminho em direcção à Luz.

A paixão de Cristo, narrada nos quatro evangelhos aceites, é um dos momentos mais fascinantes da liturgia e que sempre me deixou maravilhado e cismado ao mesmo tempo. E também com um sentimento de desordem mental por achar de uma beleza extrema o sofrimento extremo de um Homem bom. Este é talvez um dos mistérios mais extraordinários que envolve a Cruz e o Crucificado.

Este ano, estes momentos vão ser celebrados de uma forma especial, no dia 28 de Março, na Igreja de São João de Deus, na nossa cidade, com a leitura de excertos ilustrativos dos Evangelhos pelo Padre Bonifácio Lemos, acompanhado pelo Coral de São Domingos, com obras alusivas aos diversos momentos. Vai ser um concerto único, de índole cristã, mas ecuménico e de introspecção, em nome da Paz e da Justiça, numa vivência comunitária, agregados num ambiente de espiritualidade, onde todos se irão sentir mais próximos.

 

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2026

[1] Expressão criada por Fernando Pessoa num dos seus poemas incluído na “Mensagem”.

Distraídos crónicos...


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