segunda-feira, 15 de março de 2021

Duas cartas que já deviam ter sido escritas há (com agá) muito tempo


1.ª Carta 

Homens da minha família: 

Uni-vos. 
Fundo, nesta hora, com o apoio de todos os homens da minha família – filhos, primos, cunhados e sobrinhos – o Movimento Masculino pela Igualdade para os Homens da Nossa Família e para os Homens Nossos Amigos. Vocês não aspiram a sala? Aspiram. Não aspiram os quartos? Aspiram. Vocês não lavam as casas de banho? Lavam. Vocês não limpam o pó? Limpam. Vocês não cozinham? Cozinham. Não põem a roupa na máquina? Põem. Não tiram a roupa da máquina? Tiram. Não estendem a roupa? Estendem. Não chamam o técnico quando ela avaria? Chamam. Não põem a mesa? Põem. Não levantam a mesa? Levantam. Não lavam a louça? Lavam. Não limpam a louça? Limpam. Não arrumam a louça? Arrumam. Não arrumam a cozinha? Arrumam. Não abrem a cama? Abrem. Não fazem a cama (nunca entendi porquê, se a vou abrir mais logo a seguir à novela)? Fazem. Não levam o carro ao bate-chapas quando alguém da família roça com ele na parede da garagem? Levam. (Não vão pintar a parede, logo a seguir? Vão.) Não vão mudar os pneus quando eles estão carecas? Vão. Não colam o selo do seguro no pára-brisas, de seis em seis meses? Colam. Não vão com o carro à revisão? Vão. Não vão às compras ao Supermercado? Vão. 
Então, meus amigos, do que estão à espera para assinar uma petição, acabadinha de fazer, para entregar na Assembleia da República com o pedido para a criação do Dia do Homem? A celebração do Dia das nossas Mães, das nossas Filhas, das nossas Mulheres tem a sua razão de ser. Sabemos que sim e somos os primeiros a comprar uma flor e a pagar o jantar desse dia. Mas se houvesse um dia 9 de Março, assim, logo a seguir, para lembrar os dedicados homens da nossa família e seus Amigos que não deixam as suas rainhas mexer uma palha desnecessariamente, isso é que era de louvar. Reparem todos e todas: para além das nossas profissões, temos ainda a nosso cargo todas estas tarefas e, sempre que nos despachamos mais cedo do emprego, lá vamos, cantando e rindo, buscar a criançada à creche, à escola ou à Universidade. Merecemos, portanto, um dia em nossa honra, dedicado aos que fazem do lar a sua segunda profissão. 
E porquê? Porque as nossas mulheres têm trabalhos exigentes, são profissionais de sucesso, saem cedo e entram tarde em casa, têm mil reuniões, viagens de negócios, cursos de Relações Públicas, Webinars, Cabeleireira, Manicure, Missa, dão Catequese, trabalham pro bono em várias instituições de solidariedade, vão às compras duas vezes por semana a Lisboa. (Antes da pandemia até iam, num saltinho, beber um café a Londres com as amigas.) Muitas têm ginásio e cenas de Pilates ou lá o que é… Então, há que respeitar tudo isto, incentivá-las a nunca desistir dos seus sonhos e, assim, Elas (com e maiúsculo) talvez assinem também a já aludida petição que eu pus a circular na Internet. 
 No passado Domingo, a Fofa abriu o meu computador, enfiou lá a minha palavra-passe e leu calmamente este meu texto, antes de ele ser enviado à D. Maria Manuel. Ontem já consegui beber leite por uma palhinha. Hoje, acordei menos dorido dos maxilares e já consigo dizer, mas baixinho: “Viva o Dia 9 de Março!” 
Homens da minha família: uni-vos e, por favor, não me deixem só. 




 2.ª Carta 
Querido Balú: 
Há muito tempo que te devia esta carta. Faz agora um ano que as relações entre nós se tornaram muito mais próximas. Vinte e quatro horas, vezes trinta dias, vezes doze meses, é tempo suficiente para que a nossa amizade se tenha transformado em algo mais terno, mais consistente e duradouro. Contudo, e sem pôr essa nossa relação em causa, comecei a sentir, aos poucos, que tu, querido Balú, assim como quem não quer a coisa, iniciaste um curioso processo de manipulação, levando-me a fazer-te todas as tuas vontades, sem reclamar ou sem manifestar o meu, ainda que raro, mau feitio. 
Semana após semana, mês após mês, comecei a perceber que estava a perder, claramente, a minha autoridade sobre ti e sobre os teus comportamentos. Começaste a comer mais vezes por dia, atrevias-te a pedir-me um petisco, primeiro, de vez em quando, depois, quase todos os dias, os sofás caríssimos de pele de camelo passaram a ser a tua cama neste longo Inverno, começaste a fazer xixi onde bem te apetecia, saltaste para o quintal da vizinha e destruíste as flores raríssimas (que eu tive de pagar) que ela tinha trazido da Tailândia, os pés das cadeiras desataram a ter a marca dos teus dentinhos… Quiseste morder ao carteiro… e eu deixei. Perseguiste o padeiro até ao Campo de Ténis… e eu aplaudi-te. Conquistaste, enfim, um lugar de destaque na hierarquia da Família e, ainda que o pessoal cá de casa me dissesse para eu ser mais duro, mais autoritário, mais intolerante contigo, eu nunca consegui fazer-lhe a vontade. Porque te amo e nunca quero que te falte nada. 
Já agora, obrigado por estares sempre disponível para o teu passeio higiénico, de manhã, à tarde e à noite. Se não fosse assim, eu já teria enlouquecido. Queres continuar a dormir no sofá de pele de camelo? Sim? Muito bem. Mas, como sabes, só podemos avançar com isso depois da meia-noite, que é quando os rabugentos vão todos para a caminha. 

Beijinhos, Balú. E vai-te preparando: o confinamento acabará em breve, assim esperamos, e vais passar a dormir na marquise, como dantes. Entre outras coisinhas, que a gente depois acerta.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2021

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