quinta-feira, 12 de março de 2026

Das Trevas à Luz

 


                                                                                      


                                                                 (Foto: Pedro Ferreira - 2023)

                                                                                  1

 

            Não aprendemos com os erros do passado. O Mundo regressou aos poucos ao tempo da Segunda Guerra com alguém a invadir e alguém a ser invadido nos seus direitos e nos seus territórios. Há uma hipotética solução: os senhores da guerra deverão ser isolados, com a maior urgência, num espaço fechado, não muito amplo, sem mais ninguém, sem árbitro, com o mundo exterior a assistir na televisão mais próxima, à espera dos vencedores e dos vencidos. Sem bombas, sem invasões de território, sem soldados, sem armas, sem atitudes lunáticas de sobranceria e desprezo pelos direitos humanos e pelas constituições que regem cada país.

Por outro lado, a cobardia da ONU, o medo sentido pela Europa, qual velha senhora, aristocrática e falida, o silêncio dos justos e das pessoas ditas de bem, representam, tudo isto junto, um perigo maior do que os humores com que Trump acorda todos os dias.

Se, numa bela manhã, esse americano acordasse com vontade de invadir Portugal (com ou sem um ditador eleito na equação), este nosso belo e rectangular torrão à beira-mágoa[1] plantado nem teria tempo de despir o pijama e envergar o uniforme mesmo antes de pegar na arma. Quando dava por isso, estava espojado neste chão ibérico, a estrebuchar, com as tropas americanas a calcarem-lhe os poéticos e heróicos rins, ainda com algum sangue do saudoso Viriato. Meia-dúzia de anos depois, a rapaziada lusa já estaria a falar inglês (as séries da Netflix também dariam uma ajuda) e aptos a cantar “The Star-Spangled Banner”, de mão no peito, lágrimas nos olhos e de peruca cor-de-laranja como prova de lealdade e adoração para com o querido líder.

Mas, qual Gauleses, numa aldeia perdida na zona da Bretanha, haveria um bravo povo a “resistir, ainda e sempre”, aos invasores: nós, os Alentejanos. Se um dia esse senhor cismar que tem de vir tomar o Alentejo para dominar o monopólio do porco preto, será recebido com vagar, sim, mas sujeito a levar com umas cajadadas no alto da pinha. E como diria a minha saudosa Mãe: “Mal empregadas as que caíssem no chão.”

  2

 

            João Cidade tem uma história de vida que todos conhecem e que poderia dar uma longa-metragem de Hollywood, com actores de renome a interpretarem o Santo e todos os que com ele conviveram. Celebrado em Granada, cidade onde morreu em 1550, após salvar da morte pessoas em risco de afogamento no Rio Genil, João Cidade tem em Montemor o seu dia próprio, festejado habitualmente nas vertentes profana e religiosa.

Conterrâneos nossos acreditam que devia dar-se mais destaque à sua figura e à sua obra. E têm razão. É importante a nossa participação no hastear das bandeiras, na procissão, com o acompanhamento da Banda Carlista e da Fanfarra dos Bombeiros, na Missa Solene, na Igreja do Hospital, numa manifesta vontade de marcarmos este dia grande que nos une como comunidade. Falta, contudo, mais qualquer coisa. Qualquer coisa que lance o nome do Santo e a sua Obra, de forma assumida, para um universo maior e mais mediático. A primeira seria alargar o tempo das comemorações e não cingi-las apenas ao dia 8 de Março. Depois, essa divulgação poderia ter como primeira iniciativa uma sessão solene pública, levada a efeito em espaço adequado, com a participação dos representantes religiosos e políticos, locais, regionais e também nacionais, porque João Cidade foi, e é, muito maior, e a sua influência certamente mais ampla, do que os muros do nosso pequeno burgo. Outros eventos poderiam seguir-se: exibição de filmes, abertura de exposições, conferências sobre o homem, o Santo e o país onde nasceu, visitas guiadas à Igreja Matriz e à Cripta onde, segundo a tradição, João Cidade terá nascido (sendo este pequeno nicho histórico e arquitectónico o centro de todos os acontecimentos), a divulgação e apresentação de trabalhos de investigação (e outros de ficção) publicados ou por publicar. Inaugurar, finalmente, um Museu (ou um Centro Interpretativo) de São João de Deus, numa colaboração estreita entre a Ordem Hospitaleira, historiadores locais e a Autarquia montemorense.

Em suma, é importante unir esforços e sinergias para celebrar São João de Deus na sua verdadeira dimensão humanitária e universal, de modo a orgulharmo-nos ainda mais do nosso Património Histórico e Religioso.

Fica registada esta ideia.

  

3

 

O tempo da Páscoa é o ponto alto da vivência cristã, sendo uma das grandes bases da fé de todos os crêem na Vida depois da Morte, na Ressurreição de Cristo, como modelo da sua própria ressurreição como seres mortais e fisicamente finitos. É também a celebração do perdão, da dor e a tomada de consciência, uma e outra vez, de que há, para os que assim acreditam, uma vida para além desta, da terrena, que tantos conflitos nos faz viver e que, se assim quisermos, nos aponta um caminho em direcção à Luz.

A paixão de Cristo, narrada nos quatro evangelhos aceites, é um dos momentos mais fascinantes da liturgia e que sempre me deixou maravilhado e cismado ao mesmo tempo. E também com um sentimento de desordem mental por achar de uma beleza extrema o sofrimento extremo de um Homem bom. Este é talvez um dos mistérios mais extraordinários que envolve a Cruz e o Crucificado.

Este ano, estes momentos vão ser celebrados de uma forma especial, no dia 28 de Março, na Igreja de São João de Deus, na nossa cidade, com a leitura de excertos ilustrativos dos Evangelhos pelo Padre Bonifácio Lemos, acompanhado pelo Coral de São Domingos, com obras alusivas aos diversos momentos. Vai ser um concerto único, de índole cristã, mas ecuménico e de introspecção, em nome da Paz e da Justiça, numa vivência comunitária, agregados num ambiente de espiritualidade, onde todos se irão sentir mais próximos.

 

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2026

[1] Expressão criada por Fernando Pessoa num dos seus poemas incluído na “Mensagem”.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Três notas a correr

 


1

Ventura mais… seguro?

 

António José Seguro venceu as eleições presidenciais com uma larga margem em relação ao seu adversário. Oceanos de tinta já se escreveram, entretanto, em comentários, análises e artigos de opinião, numa tentativa de se perceber se Seguro venceu por mérito próprio, porque garantiu e convenceu ser o Chefe de Estado ideal e adequado ao perfil da Nação Portuguesa, ou se essa vitória esmagadora teve como base o medo (nunca pensei usar, um dia, esta palavra em contexto eleitoral, a não ser em textos de ficção) de dar a cadeira presidencial a alguém que pareceu, em todas as suas intervenções e actos públicos, não querer ter Portugal como elemento aglutinador de todos os seus cidadãos. A intenção de Ventura foi, antes de mais, garantir e reforçar a continuidade do culto do líder absoluto e aclamado pelo voto, um exercício que o "candidato" tinha vindo a praticar e a aperfeiçoar desde sempre no seio do seu próprio partido.

Se me é permitida uma opinião, que nada tem a ver com interesses ou preferências partidárias ou de candidato, Ventura nunca quis ser Presidente da República. Jamais foi esse o seu objectivo primeiro. O que ele pretendeu com este jogo eleitoral, que ele alimentou com desinformação e, muitas vezes, com insultos, foi apalpar o pulso ao povo e saber se tem condições para, daqui a três anos, se candidatar às legislativas. E ganhar.

 

 

2

A Geração de Cristal

 

Estamos a educar uma nova geração que nada tem a ver com todas as outras anteriores com quem convivemos e trabalhámos antes. São crianças e jovens a quem nada falta, que conseguem convencer os pais de que têm sempre razão nas suas exigências, que abrem a boca a pedir um telemóvel 5G e que, no dia seguinte, são presenteados com dois ou três, para não ficarem traumatizados. São defendidos pelos pais perante as asneiras que vão fazendo, independentemente de terem ou não razão. Esquecem-se de honrar o seu estatuto de estudantes e chegam atrasados às aulas, não levando muitas vezes os materiais necessários para cada disciplina. Ignoram os momentos de avaliação, recusando-se a ser avaliados em determinados parâmetros, faltam propositadamente aos testes, ou porque não estudaram, ou porque querem conhecer melhor a estrutura do teste ou a matéria que saiu… Deixaram de saber pensar, de exercer o seu pensamento crítico, ignoram o que é ler um livro, um artigo de jornal, assistir a um bom filme ou a um programa de televisão de qualidade. Não sabem nem querem saber como se faz uma investigação sobre determinado tema, deixaram de saber criar, perderam a capacidade de serem inovadores e inteligentemente desafiadores. E tudo isto apesar de todas as maravilhosas ferramentas que se encontram hoje ao seu dispor.

São a Geração de Cristal, porque são frágeis, pouco intuitivos, exigentes sem nada dar em troca, viciados nas redes sociais, alguns em jogos a dinheiro online, lentos nos raciocínios e nos cálculos, descuidados nas opiniões que libertam (quando as têm), incapazes de criar defesas e, por isso, medrosos em relação à vida, não percebendo que há limites que não devem ser ultrapassados e que há outros limites que o devem ser.

São a Geração de Cristal que, como qualquer objecto feito deste material, deverá ser colocada em cima de um móvel, à laia de bibelot, à vista de todos, mas intocável para não se partir.

É esta a geração que vai começar a exercer o seu direito de voto nas eleições que estão para vir. E é esse o meu maior medo.

 

Há excepções, claro, e eu tenho o privilégio de lidar diariamente com uma boa colecção de excepções que, mais sermão, menos sermão, percebem que o mundo que os espera fora da escola é duro e injusto, e que me dão a entender que conseguem chegar ao que os professores lhes tentam ensinar nas entrelinhas dos programas escolares, por vezes, estes também a necessitarem de mudança.

 

 

 

3

D. Maria Manuel

 

A D. Maria Manuel que era, para mim, a nossa Chefe de Redacção, faleceu no passado dia 1 de Fevereiro, deixando-nos mergulhados numa profunda tristeza. A sua exigência e o seu rigor transformavam a nossa colaboração num trabalho quase profissional e sem margem para falhas. Recebia mensalmente o texto do Cloreto, mandando-me sempre mensagem a confirmar que tudo estava em ordem e pronto a paginar.

Sabemos que “a Messe é grande e os trabalhadores poucos”, e que esses, apesar de poucos, se vão revezando no cultivo das extensas searas da Palavra e da Boa Nova. Por isso, temos a absoluta certeza de que tudo irá continuar. Mas temos consciência, no entanto, de que, sem a nossa carismática Chefe de Redacção, nada será a mesma coisa. Perdemos um elemento estruturante d’ “O Montemorense” e o seu nome ficará para sempre ligado ao mensário que ajudava a construir.

Cá estaremos para colaborar no que, e sempre que, for necessário. Aos Familiares e Amigos, ao Director e ao Administrador do nosso jornal, bem como a todos os meus colegas colaboradores, que todos os meses, de perto ou à distância, interagiam com a D. Maria Manuel, um abraço de sentidas condolências. 

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2026

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ouro, Incenso e Mirra

 



Um Natal ecuménico

 

Em Dezembro surgiu uma notícia sobre uma escola no nosso país, cuja direcção decidiu não manifestar quaisquer sinais exteriores de… celebração. Explicando melhor e de forma clara: os planos para as habituais celebrações de Natal foram cancelados. O motivo apresentado foi a necessidade ética e pedagógica de não ferir as susceptibilidades de alunos e respectivos encarregados de educação, originários de outros países e que professam religiões, crenças, ideologias religiosas diferentes. 

Não entendi na altura e não entendo agora.

Teria sido mais pedagógico pedir-se a todas as tendências religiosas representadas nesse estabelecimento de ensino que comemorassem o Natal segundo a tradição do seu país. E que, quem tenha outro tipo de tradições religiosas no decorrer do ano, que as celebrasse sem qualquer constrangimento.

Todos nós, educadores, devemos estar preparados para dar andamento às mais variadas formas que cada grupo tem de celebrar as suas festas religiosas. O Papa Francisco foi, talvez, dos papas mais ecuménicos de toda a História da Igreja Católica. Chegou a altura de pormos em prática nas nossas escolas, nas nossas cidades, nas nossas famílias, este conceito de ecumenismo, porque todos, todos, todos deverão ser respeitados nas suas convicções. E os portugueses que celebram o Natal também.

 

 2

 T.R.U.M.P.

 

A nova ordem que começa a reger o mundo onde vivemos diz-nos que qualquer governante de qualquer estado pode invadir um país que lhe agrade, independentemente dos motivos, e raptar o governante, sem qualquer interferência das instituições e organismos responsáveis pelo equilíbrio e pela paz mundial, vergonhosamente encolhidos dentro do seu casulinho.

O planeta não pode transformar-se no recreio de um qualquer que, por ter brinquedos e dinheiro, pode brincar ao que bem entende. As ameaças permanentes e diárias que caem sobre outros estados soberanos é o reflexo de uma nova ditadura a surgir no horizonte, muito embora os seus defensores lhe chamem uma democracia renovada. Não acredito em democracias renovadas. Acredito na democracia, ainda que seja considerada por muitos o sistema menos mau de vida e de governação.

Os Estados Unidos da América, com a sua História, o seu desenvolvimento e expansão, a sua cultura, o seu cinema e a sua literatura, exerceram desde sempre um fascínio sobre mim, transformado de vez em quando em alguns trabalhos académicos, sobretudo relacionados com a literatura. Muitos dos autores, quer do passado, quer contemporâneos, profetizaram nas suas obras os tempos que hoje vivemos. A América já não é “a terra das laranjas e do mel”, como lhe chamou Nathaniel Hawthorne. É a terra do medo, onde a perversidade de um ser humano o atrai cada vez mais para o abismo, como terá projectado Edgar Allan Poe, no conto “The Imp of the Preserve”, comprovando que há no ser humano uma força misteriosa que o empurra para o mal de forma consciente e malévola, sem haver uma razão aparente. O mundo é hoje, mais do que nunca, um lugar assustador onde deixou de haver um refúgio, um lugar, um momento de alívio. Vivemos, de forma cada vez mais premente, a era da paranóia, como nos alertou a australiana Teresa Brennan.

O breve título deste desabafo não tem a ver com alguém desequilibrado, narcisista e criminoso. É coincidência, acreditem. Significa apenas: Tarde Recuperaremos a Unidade e os Meios para atingir a Paz.

Será mais uma profecia, dirão. Talvez.

 

 3

 
Presidenciais?

 

            Os candidatos à Presidência da República pareceram-me confusos no decorrer de toda esta actividade para convencer o povo a outorgar-lhes uma confiança para cinco anos. Ouvi-los descrever as suas posições, os seus desejos e as suas promessas foi a mesmíssima coisa que ouvir um candidato a primeiro-ministro, sem tirar nem pôr. A ajudar à festa, estendeu-se diante de nós, portugueses eleitores, um espectro de palhaçada da pior qualidade que, de ser tão amplo, levaria o autor deste texto a precisar do resto deste jornal para descrever e comentar os momentos, os discursos, as entrevistas, os debates, os trivia mais ridículos, nunca antes transmitidos pelas televisões e redes sociais acopladas. Um sentimento de vergonha alheia prolongado e sem solução alargou-se, de uma forma arrastada e penosa, no decorrer desta malfadada campanha, que só serviu para evidenciar os defeitos, a incapacidade, a rebaldaria, a falta de profundidade de ideias e de interesses, a leviandade, em suma, como os candidatos conduziram a sua campanha, sem o mínimo respeito pelo país, pelas famílias, pelos trabalhadores, pelos imigrantes, pelos eleitores. Os golpes baixos que alguns deles desferiram, nestes últimos dias, contra os seus adversários, comprovam a falta de ética e de sentido de Estado que poderiam muito bem começar a treinar antes de ocuparem o Palácio de Belém.

            Portugal acompanha a par e passo o mundo que o rodeia: cheio de teorias falsas, ideias bacocas, promessas vãs, tentativas iluminadas de galgar a escada do poder até chegar ao cimo, mentiras governamentais sobre o estado da Saúde, o Ensino e a Economia (os pequenos continuam a contar os centavos), despesas milionárias em armamento para a Europa Central, quando continuamos com gravíssimos problemas para manter em Portugal médicos, enfermeiros, professores, cientistas, artistas e outros que vão tentar noutras partes do mundo ganhar um vencimento justo e garantir a si próprios e às suas famílias um futuro sem dificuldades. Quando temos em Lisboa, no Porto ou em Coimbra centenas de cidadãos a dormir na rua, vítimas muitos deles das políticas deste e de outros Governos.

           

Não há volta a dar a este destino que Camões tão bem descreveu na sua epopeia. Somos assim: tristes, pobres, cobiçosos e… invejosos. O mais grave e vergonhoso é o facto de não conseguirmos sair desta preguiça para alcançar esse estatuto divino que nos poderia salvar. Queremos fama sem esforço? Morreremos sempre na praia por culpa nossa. De mais ninguém.

 

João Luís Nabo

 In "O Montemorense" - Janeiro de 2026 

Distraídos crónicos...


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