(Foto: Pedro Ferreira - 2023)
1
Não aprendemos com os erros do
passado. O Mundo regressou aos poucos ao tempo da Segunda Guerra com alguém a
invadir e alguém a ser invadido nos seus direitos e nos seus territórios. Há
uma hipotética solução: os senhores da guerra deverão ser isolados, com a maior
urgência, num espaço fechado, não muito amplo, sem mais ninguém, sem árbitro,
com o mundo exterior a assistir na televisão mais próxima, à espera dos
vencedores e dos vencidos. Sem bombas, sem invasões de território, sem
soldados, sem armas, sem atitudes lunáticas de sobranceria e desprezo pelos
direitos humanos e pelas constituições que regem cada país.
Por
outro lado, a cobardia da ONU, o medo sentido pela Europa, qual velha senhora,
aristocrática e falida, o silêncio dos justos e das pessoas ditas de bem, representam,
tudo isto junto, um perigo maior do que os humores com que Trump acorda todos
os dias.
Se,
numa bela manhã, esse americano acordasse com vontade de invadir Portugal (com
ou sem um ditador eleito na equação), este nosso belo e rectangular torrão à
beira-mágoa[1]
plantado nem teria tempo de despir o pijama e envergar o uniforme mesmo antes
de pegar na arma. Quando dava por isso, estava espojado neste chão ibérico, a
estrebuchar, com as tropas americanas a calcarem-lhe os poéticos e heróicos
rins, ainda com algum sangue do saudoso Viriato. Meia-dúzia de anos depois, a
rapaziada lusa já estaria a falar inglês (as séries da Netflix também dariam
uma ajuda) e aptos a cantar “The Star-Spangled Banner”, de mão no peito,
lágrimas nos olhos e de peruca cor-de-laranja como prova de lealdade e adoração
para com o querido líder.
Mas,
qual Gauleses, numa aldeia perdida na zona da Bretanha, haveria um bravo povo a
“resistir, ainda e sempre”, aos invasores: nós, os Alentejanos. Se um dia esse
senhor cismar que tem de vir tomar o Alentejo para dominar o monopólio do porco
preto, será recebido com vagar, sim, mas sujeito a levar com umas cajadadas no alto
da pinha. E como diria a minha saudosa Mãe: “Mal empregadas as que caíssem
no chão.”
João Cidade tem uma história de vida que todos
conhecem e que poderia dar uma longa-metragem de Hollywood, com actores de
renome a interpretarem o Santo e todos os que com ele conviveram. Celebrado em
Granada, cidade onde morreu em 1550, após salvar da morte pessoas em risco de
afogamento no Rio Genil, João Cidade tem em Montemor o seu dia próprio,
festejado habitualmente nas vertentes profana e religiosa.
Conterrâneos
nossos acreditam que devia dar-se mais destaque à sua figura e à sua obra. E
têm razão. É importante a nossa participação no hastear das bandeiras, na
procissão, com o acompanhamento da Banda Carlista e da Fanfarra dos Bombeiros,
na Missa Solene, na Igreja do Hospital, numa manifesta vontade de marcarmos
este dia grande que nos une como comunidade. Falta, contudo, mais qualquer
coisa. Qualquer coisa que lance o nome do Santo e a sua Obra, de forma
assumida, para um universo maior e mais mediático. A primeira seria alargar o
tempo das comemorações e não cingi-las apenas ao dia 8 de Março. Depois, essa
divulgação poderia ter como primeira iniciativa uma sessão solene pública,
levada a efeito em espaço adequado, com a participação dos representantes
religiosos e políticos, locais, regionais e também nacionais, porque João
Cidade foi, e é, muito maior, e a sua influência certamente mais ampla, do que
os muros do nosso pequeno burgo. Outros eventos poderiam seguir-se: exibição de
filmes, abertura de exposições, conferências sobre o homem, o Santo e o país
onde nasceu, visitas guiadas à Igreja Matriz e à Cripta onde, segundo a
tradição, João Cidade terá nascido (sendo este pequeno nicho histórico e
arquitectónico o centro de todos os acontecimentos), a divulgação e
apresentação de trabalhos de investigação (e outros de ficção) publicados ou
por publicar. Inaugurar, finalmente, um Museu (ou um Centro Interpretativo) de
São João de Deus, numa colaboração estreita entre a Ordem Hospitaleira,
historiadores locais e a Autarquia montemorense.
Em
suma, é importante unir esforços e sinergias para celebrar São João de Deus na
sua verdadeira dimensão humanitária e universal, de modo a orgulharmo-nos ainda
mais do nosso Património Histórico e Religioso.
Fica
registada esta ideia.
3
O
tempo da Páscoa é o ponto alto da vivência cristã, sendo uma das grandes bases
da fé de todos os crêem na Vida depois da Morte, na Ressurreição de Cristo,
como modelo da sua própria ressurreição como seres mortais e fisicamente
finitos. É também a celebração do perdão, da dor e a tomada de consciência, uma
e outra vez, de que há, para os que assim acreditam, uma vida para além desta,
da terrena, que tantos conflitos nos faz viver e que, se assim quisermos, nos
aponta um caminho em direcção à Luz.
A
paixão de Cristo, narrada nos quatro evangelhos aceites, é um dos momentos mais
fascinantes da liturgia e que sempre me deixou maravilhado e cismado ao mesmo
tempo. E também com um sentimento de desordem mental por achar de uma beleza
extrema o sofrimento extremo de um Homem bom. Este é talvez um dos mistérios mais
extraordinários que envolve a Cruz e o Crucificado.
Este
ano, estes momentos vão ser celebrados de uma forma especial, no dia 28 de
Março, na Igreja de São João de Deus, na nossa cidade, com a leitura de
excertos ilustrativos dos Evangelhos pelo Padre Bonifácio Lemos, acompanhado
pelo Coral de São Domingos, com obras alusivas aos diversos momentos. Vai ser
um concerto único, de índole cristã, mas ecuménico e de introspecção, em nome
da Paz e da Justiça, numa vivência comunitária, agregados num ambiente de
espiritualidade, onde todos se irão sentir mais próximos.
[1]
Expressão criada por Fernando Pessoa num dos seus poemas incluído na
“Mensagem”.


