domingo, 11 de outubro de 2026

Um apontamento sério e outro não

 



Margarida

Margarida.

Podia ser este o título desta autobiografia que acabou de nos chegar às mãos, nascida da profundidade da dor e libertada lentamente pela angústia dos silêncios, muitos deles sombrios, causados por um sofrimento que parecia sempre inesgotável ao fim de cada dia. Depois de cada tratamento. Após cada análise. Cada exame.

Margarida.

Margarida deixou hoje de ser um nome próprio ou a designação de uma flor. Até pode continuar a ser isso tudo, porque daí não vem mal ao Mundo. Mas, para mim,  passou a ser nome de Revolução, marca sem preço de Vitória, símbolo eterno da Esperança.

Margarida.

Poderia ser este o título deste livro, com outros nomes a ele associados, entrelaçados de uma forma única, como só o amor cego e incondicional sabe operar: os nomes dos membros da família, dos amigos e dos colegas. Pairam todos eles por sobre estas páginas, porque foram eles a força, a razão, o equilíbrio, a serenidade, a âncora, sempre firme e, por isso, de preço incalculável.

 Margarida.

Margarida não é, neste caso particular, um nome próprio. É um substantivo colectivo. Porque reúne nele um sem-número de sentimentos, de previsões, de dores, na altura legítimos mas hoje, felizmente, muitos deles mais ténues e menos tristes. Ficou a memória, porém.

A vida da Margarida, e a vida de todos os que se deixaram amorosamente arrastar por esta mulher gigantesca, é uma longa história que merece ser contada, lida, ouvida e guardada. Não no silêncio do coração de cada um de nós. Não. É nossa missão sermos também a voz da autora, uma voz destemida e forte. É nosso dever manter vivo o seu olhar perspicaz e inteligente, presente neste testemunho e na subtileza de quem ama incondicionalmente.

Todos nós nos sentimos projectados nestas páginas, claras, directas, por vezes cruas, mas sempre transparentes, porque alguém da nossa família ou do nosso grupo de amigos viveu experiências assustadoramente semelhantes. E muitos deles já não estão aqui para contar como foi.

O que aconteceu à Margarida, quando lhe foi revelado o diagnóstico que ela não queria ouvir, foi descrito por ela numa destas páginas como uma guerra que estava prestes a começar e que poderia ser fatal. Fatal para uma jovem lindíssima. Fatal para a Mãe da Carminho e da Júlia. Fatal para a mulher do João. Fatal para os pais, Maria Aurora e Custódio. Fatal para os outros membros da família.

Mas a Margarida nunca esteve sozinha neste terrível campo de combate. A seu lado estiveram outros combatentes, tal como ela, tendo alguns deles ficado estendidos, exaustos, vencidos entre os destroços das suas batalhas. A Margarida, porém, conseguiu sair desse cenário assustador envergando a sua armadura brilhante e com a sua espada erguida com o Sol ao fundo, gritando vitória. O medo, a insegurança, o cansaço, o sentimento de perda, o luto, o desespero, a dúvida, a dor indizível, tudo ficou mais longínquo, mais ténue.

Margarida.

Margarida poderia ser o título deste livro. Mas esta pequena grande obra também poderia muito bem ter o nome da paixão, da paixão superior a todas as paixões, poderia ter um nome… O nome acima de todos os nomes, que a manteve alerta, confiante e viva.

Este livro, querida Margarida, poderia muito bem chamar-se… CARMINHO. 

 

 Cristiano

Vila Nova parou durante meia-dúzia de dias, à espera do desenrolar dos acontecimentos, uma terrível consequência do abandono da equipa do seu bairro por parte do rapaz a quem tinha sido prometido jogar no já célebre desafio que opunha o Bairro dos Cinco Castelos a um bairro da parte norte da vila, o Bairro dos Viquingues, equipa constituída por miúdos mais altos, quase todos loiros e com chuteiras compradas no IKA.

O campeonato já ia a meio quando se deu o impensável.

Em pleno campo (pelado), Carlos Gabriel, o treinador (e guarda-redes) da equipa dos Cinco Castelos foi o primeiro a saltar em frente ao guarda-redes dos Viquingues. Os jogadores das duas equipas sustiveram a respiração. Seriam sete contra sete, mas os melhores teriam de ser escolhidos. Os guarda-redes começaram, um de cada vez, a alinhar o pé direito, depois o esquerdo, depois o direito outra vez, cada rapaz a seu tempo até que… o pé direito, enormíssimo, do guarda-redes dos Viquingues açambarcou por completo, numa extensão de quinze centímetros, o pezinho do Carlos Gabriel. Foi o louro, de acordo com uma lei ancestral, o primeiro a escolher.

E assim se procedeu com todo o respeito pelo regulamento dos bairros. Foram escolhidos os melhores, à vez, um de cada vez, dois defesas, dois médios e dois pontas de lança. Cristiano preparou-se psicologicamente para ser um dos eleitos. Olhou para o Carlos Gabriel, treinador e guarda-redes, este piscou-lhe o olho, como quem diz “Estás convocado!” Acariciando a orelha esquerda, Cristiano tocou no brinco para dar sorte, e aguardou, expectante, mas… nada. O mister escolheu o Zé Vítor e apontou a Cristiano o banco de suplentes. Cristiano olhou para ele com o cérebro em confusão, estendeu lentamente a mão direita, elevou o dedo médio na direcção do nariz do Carlos Gabriel, atirou a toalha ao chão, virou-lhe as costas, pegou na bicicleta, encostada ao mudo do lavadouro desde cedo, e rumou para casa. “Eu é que mando na equipa, Cristiano! Eu e mais ninguém”, gritou-lhe Carlos Gabriel.

   Dias depois, Carlos Gabriel, arrependido, talvez, daquele repente que lhe vinha de família, encontrou o Cristiano no pátio da escola e disse-lhe: “Vá, volta para a equipa! O teu pai financia os nossos equipamentos. Sem ti… ficamos sem bago e isso é complicado, porque estamos a precisar de duas bolas novas.”

              João Luís Nabo

              In "O Montemorense", Outubro de 2026

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