Margarida
Margarida.
Podia
ser este o título desta autobiografia que acabou de nos chegar às mãos, nascida
da profundidade da dor e libertada lentamente pela angústia dos silêncios,
muitos deles sombrios, causados por um sofrimento que parecia sempre
inesgotável ao fim de cada dia. Depois de cada tratamento. Após cada análise.
Cada exame.
Margarida.
Margarida
deixou hoje de ser um nome próprio ou a designação de uma flor. Até pode
continuar a ser isso tudo, porque daí não vem mal ao Mundo. Mas, para mim, passou a ser nome de Revolução, marca sem preço
de Vitória, símbolo eterno da Esperança.
Margarida.
Poderia
ser este o título deste livro, com outros nomes a ele associados, entrelaçados
de uma forma única, como só o amor cego e incondicional sabe operar: os nomes
dos membros da família, dos amigos e dos colegas. Pairam todos eles por sobre
estas páginas, porque foram eles a força, a razão, o equilíbrio, a serenidade,
a âncora, sempre firme e, por isso, de preço incalculável.
Margarida.
Margarida
não é, neste caso particular, um nome próprio. É um substantivo colectivo.
Porque reúne nele um sem-número de sentimentos, de previsões, de dores, na
altura legítimos mas hoje, felizmente, muitos deles mais ténues e menos
tristes. Ficou a memória, porém.
A
vida da Margarida, e a vida de todos os que se deixaram amorosamente arrastar
por esta mulher gigantesca, é uma longa história que merece ser contada, lida,
ouvida e guardada. Não no silêncio do coração de cada um de nós. Não. É nossa
missão sermos também a voz da autora, uma voz destemida e forte. É nosso dever
manter vivo o seu olhar perspicaz e inteligente, presente neste testemunho e na
subtileza de quem ama incondicionalmente.
Todos
nós nos sentimos projectados nestas páginas, claras, directas, por vezes cruas,
mas sempre transparentes, porque alguém da nossa família ou do nosso grupo de
amigos viveu experiências assustadoramente semelhantes. E muitos deles já não
estão aqui para contar como foi.
O
que aconteceu à Margarida, quando lhe foi revelado o diagnóstico que ela não
queria ouvir, foi descrito por ela numa destas páginas como uma guerra que
estava prestes a começar e que poderia ser fatal. Fatal para uma jovem
lindíssima. Fatal para a Mãe da Carminho e da Júlia. Fatal para a mulher do
João. Fatal para os pais, Maria Aurora e Custódio. Fatal para os outros membros
da família.
Mas
a Margarida nunca esteve sozinha neste terrível campo de combate. A seu lado
estiveram outros combatentes, tal como ela, tendo alguns deles ficado
estendidos, exaustos, vencidos entre os destroços das suas batalhas. A
Margarida, porém, conseguiu sair desse cenário assustador envergando a sua
armadura brilhante e com a sua espada erguida com o Sol ao fundo, gritando
vitória. O medo, a insegurança, o cansaço, o sentimento de perda, o luto, o
desespero, a dúvida, a dor indizível, tudo ficou mais longínquo, mais ténue.
Margarida.
Margarida
poderia ser o título deste livro. Mas esta pequena grande obra também poderia
muito bem ter o nome da paixão, da paixão superior a todas as paixões, poderia
ter um nome… O nome acima de todos os nomes, que a manteve alerta, confiante e
viva.
Este
livro, querida Margarida, poderia muito bem chamar-se… CARMINHO.
Vila
Nova parou durante meia-dúzia de dias, à espera do desenrolar dos
acontecimentos, uma terrível consequência do abandono da equipa do seu bairro por
parte do rapaz a quem tinha sido prometido jogar no já célebre desafio que
opunha o Bairro dos Cinco Castelos a um bairro da parte norte da vila, o Bairro
dos Viquingues, equipa constituída por miúdos mais altos, quase todos loiros e
com chuteiras compradas no IKA.
O campeonato
já ia a meio quando se deu o impensável.
Em
pleno campo (pelado), Carlos Gabriel, o treinador (e guarda-redes) da equipa
dos Cinco Castelos foi o primeiro a saltar em frente ao guarda-redes dos Viquingues.
Os jogadores das duas equipas sustiveram a respiração. Seriam sete contra sete,
mas os melhores teriam de ser escolhidos. Os guarda-redes começaram, um de
cada vez, a alinhar o pé direito, depois o esquerdo, depois o direito outra
vez, cada rapaz a seu tempo até que… o pé direito, enormíssimo, do guarda-redes
dos Viquingues açambarcou por completo, numa extensão de quinze centímetros, o
pezinho do Carlos Gabriel. Foi o louro, de acordo com uma lei ancestral, o
primeiro a escolher.
E
assim se procedeu com todo o respeito pelo regulamento dos bairros. Foram
escolhidos os melhores, à vez, um de cada vez, dois defesas, dois médios e dois
pontas de lança. Cristiano preparou-se psicologicamente para ser um dos
eleitos. Olhou para o Carlos Gabriel, treinador e guarda-redes, este piscou-lhe
o olho, como quem diz “Estás convocado!” Acariciando a orelha esquerda, Cristiano
tocou no brinco para dar sorte, e aguardou, expectante, mas… nada. O mister escolheu
o Zé Vítor e apontou a Cristiano o banco de suplentes. Cristiano olhou para ele
com o cérebro em confusão, estendeu lentamente a mão direita, elevou o dedo
médio na direcção do nariz do Carlos Gabriel, atirou a toalha ao chão, virou-lhe
as costas, pegou na bicicleta, encostada ao mudo do lavadouro desde cedo, e
rumou para casa. “Eu é que mando na equipa, Cristiano! Eu e mais ninguém”,
gritou-lhe Carlos Gabriel.
Dias depois, Carlos Gabriel, arrependido, talvez, daquele repente que lhe vinha de família, encontrou o Cristiano no pátio da escola e disse-lhe: “Vá, volta para a equipa! O teu pai financia os nossos equipamentos. Sem ti… ficamos sem bago e isso é complicado, porque estamos a precisar de duas bolas novas.”
João Luís Nabo
In "O Montemorense", Outubro de 2026



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